E falando em nossas guerras, acaba de sair um pequeno grande livro. Desses que aparecem assim, discretamente, editados por uma pequena editora, sem fazer alarde na imprensa, mas que vêm preencher importantes lacunas. Antonio Gonçalves Meira, tenente-coronel da reserva, residente no Rio de Janeiro, e Coralio Bragança Pardo Cabeda, economista aposentado, ambos dentre os mais competentes e atentos agentes da História Militar no Brasil, escreveram o livro "Nossas Guerras: considerações históricas dos seus recursos", editado pela Edigal, de Porto Alegre, e recentemente lançado no âmbito da Feira do Livro. Ambos são articulistas do livro, por mim organizado, "As Guerras dos Gaúchos", recentemente laureado com dois Açorianos - Prêmio Epecial e Projeto Gráfico.
O tema deste livro que vem de chegar às livrarias é a logística, assunto sobre o qual muito pouco se escreveu no Brasil. Ora, esta situação era quase um absurdo, pois, sem logística, não se fazem as guerras. E fim de papo! Logística é o abastecimento de um exército, o armamento, o transporte, a alimentação, o abrigo, o vestuário, o socorro aos feridos, o aquartelamento, o armazenamento e tudo o mais que venha a ser necessário para o sucesso material de uma campanha militar.
No passado, o abastecimento dos exércitos se dava por meio de contratos estabelecidos com fornecedores privados. Este sistema funcionou relativamente bem, como mostram os autores, enquanto as campanhas foram curtas e os efetivos engajados limitados. Sim, havia paralelamente o costume, pouco simpático, de arrancar contribuições forçadas às comunidades ocupadas.
A logística deu um salto, na Europa, com Napoleão Bonaparte e, depois, com as Guerras Mundiais. No Brasil, esta evolução se deu de forma mais lenta. As campanhas do Prata forçaram-nos a aprimorar o sistema. Na Guerra do Paraguai, uma campanha longa e complicada, o Exército enfrentou o seu grande desafio logístico. Neste sentido, os autores mostram como a Guerra do Paraguai respirava. É quase como se a estivéssemos lendo por dentro, numa abordagem até então inédita.
Cabeda e Meira mostram que, surpreendentemente, apesar de todos os esforços e dificuldades, pouco se reteve e se aprendeu com a Guerra do Paraguai. Tanto a Revolução Federalista (1893-1895), quanto Canudos (1897), revelaram a ineficiente organização dos serviços de logística. Os autores descrevem um exército lutando de estômago vazio, sem assistência adequada aos feridos, mal suprido de armamentos, enfim, um desastre completo.
Somente com a contratação da Missão Militar Francesa, após o término da Primeira Guerra Mundial, é que nosso Exército conseguiu ingressar numa dimensão mais profissionalizada. Em 1920, foi criado o Serviço de Intendência, coração do Exército. Mas foi a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, ao lado das nações aliadas, que efetivamente impulsionou o seu desenvolvimento.
O que os autores designam, modestamente, por coleção de pequenos ensaios, por eles elaborados, é na verdade o mais importante tratado histórico recente sobre a logística brasileira. Aliás, merece aqui encômios a dedicação dos dois: realizaram suas pesquisas e publicaram seu livro às próprias expensas, sem qualquer apoio de instituições de financiamento à pesquisa, o que expõe dolorosamente uma dessas tantas contradições que envergonham nosso Brasil. Ora, um país que se pretende potência militar na América do Sul, que lutou na Segunda Guerra Mundial, que aspira a uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, que se mete no Haiti, que.., que..., que... não foi capaz de constituir uma única linha de pesquisa consolidada, seja em nível de pós-graduação, seja em nível de academia militar, sobre a história militar brasileira e sul-americana. Trata-se de uma falta grave, pois, em matéria de doutrina de segurança, é evidente que tentamos nos erguer com gigantes com pés de barro, uma vez que não dominamos a nossa própria experiência histórica e identitária.
O Meira e o Cabeda estão de parabéns pelo excelente livro, magnificamente escrito, com português escorreito, claro e elegante, prestando inestimável serviço à nossa historiografia e ao entendimento do funcionamento do nosso Exército.



O livro Nossas Guerras é de fato um belo trabalho que traz à luz questões fundamentais para o entendimento do fracasso ou sucesso dos vários movimentos revolucionários que marcam nossa história e que, inexplicavelmente, não haviam despertado o interesse dos historiadores até então! Imperdível e muito agradável de ler. Parabéns aos autores.