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Arte e debate

21 de dezembro de 2009 1

Arte contemporânea é uma idéia, projetada no espaço. Pensá-la é debater a idéia, o conceito, que lhe é subjacente. Refletir sobre a execução dessa idéia no espaço. Entender a trajetória do artista.


Dito isso, de forma, assim, muito simplificada, é claro que há um monte de porcarias por aí. Já reparou que a toda mega exposição de arte contemporânea que se vai tem sempre um “inovador” videozinho das ondinhas de um rio, ou de um mar? E aquele vídeo, que todo mundo já está careca de ver, do vento agitando as folhas de uma árvore. Mudam as árvores, o ângulo, mas a idéia é sempre a mesma… E que tal os alto-falantes reproduzindo a gravação do barulho do vento? Quantas vezes você viu isso? E por aí vai.


Mas também há coisas muito boas.


De qualquer forma, se a arte contemporânea nasceu do pensamento deconstrutivista e cinicamente crítico de Marcel Duchamp, então, o essencial, para que ela floresça, deveria ser, justamente, o debate. E aqui se instala de fato um paradoxo, porque muitos críticos e artistas sentem-se alheios ao debate. Acham-se intangíveis por todos aqueles que não estudaram profundamente as mutações do signo.


Reconhecendo a validade de parte do argumento – aquela que preconiza a necessidade de conhecermos o processo de destruições de sentidos da arte moderna para entendermos a arte contemporânea -, estou entre aqueles que enxergam com certa perplexidade o fato de mantermos uma grande bienal quando sequer dispomos em nossa cidade de um bom museu de arte moderna e contemporânea que possa guardar e dar visibilidade a nossa razoavelmente rica experiência visual. Vicissitudes de uma cultura de gestão que privilegia o evento em detrimento do acervo. Quando é o acervo que ajuda a consolidar experiências didáticas. Quando é o acervo que engrandece a riqueza coletiva. Quando é ele que fortalece o turismo cultural.


Montamos uma bienal como se quiséssemos pular etapas.


Bem, acho que isto foi só uma das coisas que o ruidoso artigo do Voltaire Schilling, publicado na Zero Hora de 25 de outubro, pôs a nu. A enorme quantidade de pessoas que se identificou com aquela crítica escancara que há um preço a pagar quando as etapas são queimadas.


E, como uma das ressonâncias de seu artigo foi colocar um microfone em praça pública, restaurando e ampliando na cidade o debate, ainda que de uma forma enviesada, penso que ele acabou prestando um grande serviço à arte contemporânea. Há quem acredite, como o poeta Affonso Romano Sant’Anna, que se pararmos para discuti-lo, o grande fluxo da arte contemporânea acabaria, pois não resistiria ao debate do qual justamente deveria se alimentar. Ora, se, filosoficamente, o escopo da arte contemporâneo é o debate público, então ele precisa se realizar, pois, se permanecer eternamente como projeto, estaremos presos à armadilha também encerrada pelo descortino de Duchamp, um ciclo vicioso pouco produtivo. Se não sobreviver ao debate é porque realmente lhe falta consistência.


Desdobrando-se isso para as esculturas de Porto Alegre, creio que algumas são, com efeito, mal resolvidas. É o caso do “tarugo de ferro” ao lado do Gasômetro. Não é ruim a idéia de uma ponte para o nada, ou um mirante sobre o Rio, mas o material utilizado não funcionou, vez que ela está enferrujando. Dado o problema de manutenção, tornou-se um mico para a Prefeitura. Além disso, concordo que há algo de grotesco na forma proposta, o que é uma pena, considerando-se o fato de haver ao lado um importante prédio histórico.


É também mal executada a obra que homenageia os perseguidos políticos durante a ditadura. Além de estar vexatoriamente enferrujanda, a suposta proposta de tensão entre a parede de ferro e as janelas para o céu realiza-se mal num ambiente verde e cada vez mais engolido pela copa frondosa das árvores. É evidente que esta escultura está muito mal localizada. Ficaria muito melhor num espaço mais árido, sem verde, onde as pessoas circulassem a pé. E deveria ter sido executada com material apropriado. É o mínimo que se pode dizer.


Ao contrário, as obras de Carlos Tenius são bem resolvidas. Não enferrujam e estão convenientemente posicionadas, dialogando bem com o entorno. A escultura no Parque Moinhos de Vento é, em minha opinião, uma elegante manifestação modernista, cuja mensagem é profundamente irônica.


Já do “Cuião”, eu gosto. A obra está muito bem posicionada numa rótula. Não há vegetação obstruindo o campo de visão de quem passa e acho que ela faz um bom conjunto com as fachadas de vidro dos prédios na proximidade e o horizonte preenchido pelo lago. Além disso, ela se remete saborosamente a um dos nossos hábitos mais firmes – o chimarrão. E traduz uma associação sensual entre o gesto de segurar a cuia e seios femininos. Em meio a uma área com tantos prédios públicos e administrativos, a sugestão dessa voluptuosidade é relaxante.


Também gosto muito do “timão com uma lhama no meio”, apelido dado por muitos à escultura de Gustavo Nakle, junto à Avenida Padre Cacique. Não há uma única vez que eu por ali passe sem que meu olhar seja atraído e cativado pela volumetria e pelo movimento dessa escultura. As cores me remetem ao nascer do sol às margens do Guaíba, na zona Sul. A própria forma lembra também um sol. É como se fosse um portal de boas vindas para quem chega à zona Sul da Capital. E, finalmente, aquela forma estranha no meio, que se assemelha vagamente a uma “lhama”, tem o delicioso condão de sugerir permanentemente a questão: o que significa? Gosto também de idéias que trazem questões em aberto…


Há outras peças de qualidade em Porto Alegre. Recentemente, a Prefeitura restaurou a obra Iluminuras, de Mauro Fuke, que desde 1999 reveste o Viaduto Ildo Meneghetti, na Vasco da Gama. Acho-a excelente! É visível que a concepção do mural levou em consideração a vegetação existente no local, bem como o olhar em movimento dos motoristas que por ali transitam. Milhares de azulejos funcionam ali como pixels de uma imagem. Um produto antipichação impede a absorção de tintas e protege o mural da ação de vândalos.

Comentários (1)

  • Leonardo diz: 14 de janeiro de 2010

    Excelente post, realmente algumas obras primam pela má localização e outras nos fazem indagar, mesmo que sejam coisas talvez até um pouco irrelevantes.
    A obra da cuia concordo plenamente que é uma delas. E a Estrela Guia de Nakle o mesmo, ela colorida dá um certo alto astral para aquele trecho pavimentado.

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