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Peter Gay e o fascínio modernista pela heresia

27 de dezembro de 2009 1

Dentre os livros mais instigantes que li em 2009 está o último do historiador Peter Gay, lançado no Brasil: “Modernismo, o fascínio da heresia”. Nele, o autor de obras já clássicas, como a biografia de Freud e “O cultivo do ódio”, este último sobre a capitulação da belle époque burguesa diante da violência fascista na Europa, produz um delicioso ensaio sobre a emergência e o ocaso do modernismo no Ocidente. A obra está longe de ser um esforço enciclopédico. É um passeio pelo movimento modernista, do século XIX ao final do século XX, que trata das artes visuais, da literatura (sobretudo ficção), um pouco de teatro e cinema, dança, arquitetura, design e música erudita. É um passeio seletivo, pelo qual o autor sente-se confortável para destacar alguns artistas, esquecendo outros tantos. Já no Prefácio, ele se defende das possíveis críticas, afirmando a sua liberdade ensaística.


O livro tem muitos méritos. Para quem gosta de arte e de história trata-se de uma extraordinária investida na contextualização da enorme riqueza e complexidade do modernismo. Uma tentativa, ainda que seletiva, de síntese.


Ele buscou traços em comum entre os artistas contemplados, distanciando-se do matiz ideológico. É uma história contextualizada da estética. Um esforço de dar sentido sociológico às revoluções estéticas. Realça ao leitor ter o movimento modernista abrigado desde revolucionários de esquerda, a liberais e até conservadores e fascistas. Gay mostra, assim, que o modernismo não é o berço da democracia, mas que ele floresce melhor, justamente, em ambientes onde impera a livre expressão e o livre mercado, enquanto fenece nos regimes autoritários e nas economias planificadas.


O que uniria os modernistas seria o fascínio pela heresia e a ênfase na subjetividade. O ataque às sensibilidades convencionais. Gay rejeita a tese da existência de múltiplos modernismos, para abraçar a visão de um único processo, umbilicalmente ligado à consolidação da sociedade ocidental. Iluminista escancarado, Gay embala as totalidades universais, optando por privilegiar as continuidades em detrimento das especificidades. É por isso que consegue acolher expressões tão diversas dentro da tese basilar do fascínio pela heresia.


Em certos momentos, se arrisca a uma leitura psicanalítica do modernismo. Insiste que Freud, apesar do gosto estético profundamente conservador, foi fundamental para o modernismo ao destacar a subjetividade. E, ao tratar de Kafta, explica seu niilismo como desdobramento possível de uma personalidade edipiana mal resolvida: é o trauma com a figura paterna que estaria na base de sua visão fantasmagórica do poder.


Ao final do livro, ele afirma que a modernidade nascida com a crítica social do Manifesto Comunista de 1848 e com a crítica aos costumes de Baudelaire ainda está viva. Apesar de Duchamp, de Andy Warhol e de Damien Hirst, ela renasce feito fênix, das cinzas, em artistas como Gabriel Garcia Márquez e Frank Ghery. Sim, a promiscuidade entre o vale tudo na arte e o mercado teria enfim tentado matar o modernismo. Mas ele estaria resistindo, bravamente.


Fica evidente, aqui, seu desprezo e desencanto pela arte contemporânea. Mas, como a teorização sobre este terreno é frágil em sua obra, fica-se na dúvida onde termina o historiador das idéias que defende a retomada do espírito crítico e, também, um tanto elitista da arte, e onde começa o conservador que ficou aferrado ao século XX.


Refulgem também algumas generalizações simplificadoras. O autor, que desfila extraordinária erudição na cerzidura de seu enredo narrativo, escancara todas suas limitações ao tratar da América Latina. Enquanto dedica várias páginas ao Nobel Gabriel Garcia Márquez, ignora solenemente Jorge Luis Borges, cuja obra é incomparavelmente maior. Não há, também, nenhuma palavra sobre Cortazar, Machado de Assis, Graciliano Ramos. Nem uma vírgula sobre o poderoso Manifesto Antropofágico de 1928, que dialoga com o surrealismo e funciona como uma certidão de nascimento para um modernismo renovador, mestiço, intercultural, isto é, uma possibilidade concreta de contribuição conceitual da cultura latino-americana para o mundo. Traço que encontra ressonância em outros autores, como o mexicano José Vasconcellos, igualmente ignorado. Gay dedica várias páginas a Bauhaus e a Le Corbusier, e nenhuma linha a Oscar Niemeyer e a Lucio Costa. Os dois, afinal, construíram uma cidade inteira! Hélio Oiticica e Lygia Clark não existem. E por aí vai…


Melhor seria não ter escrito nada sobre Márquez. Assim, ele poderia assumir seu eurocentrismo no título da obra, algo como “o fascínio da heresia na Europa e nos Estados Unidos”. Preferiu tentar temperar o eurocentrismo e o ianquecentrismo apoiando-se na frágil evidência do prêmio Nobel. Destacou, com isto, um modernista latino-americano menor. Tudo bem se tivesse sublinhado bem seus critérios. Mas da forma como ficou, induz o leitor incauto ao erro, pois passa a imagem distorcida e preconceituosa de que a incompetente América Latina nunca foi moderna, a exceção do colombiano aracatacoano laureado com o Nobel, cuja obra, sabemos, por mais expressiva que seja, está longe de representar a pujança e a diversidade do nosso modernismo.


Mas os silêncios do livro não param por aí. Não há referências à música popular: o jazz, o blues, o rock, o pop, a bossa nova… Nem tampouco o leitor recebe uma explicação para esta ausência. O autor poderia ter, pelo menos, dito “não gosto e não entendo de música popular”. E também não se acha nem meia linha sobre Godard, Trufaut, Faulkner e Francis Bakon, por exemplo.


O enorme destaque conferido a Márquez explicita outras fragilidades teóricas. O contraste com as poucas linhas dedicadas a Alain Robbe-Grillet, o grande pai no Nouveau Roman francês, pode estar traindo o limite de suas categorias analíticas. Gay explicou o modernismo como um movimento calcado na subjetividade e na dimensão reflexiva. Ora, se assim é, como considerar Robbe-Grillet um modernista? Seus romances burilam ao máximo a forma, privilegiam a fragmentação do tempo, da narrativa, do personagem, e se distanciam concretamente dos fluxos de consciência que, para Gay, caracterizam o romance modernista.


Apesar das inegáveis fragilidades, o livro da Gay é bem vindo. Além de deliciosamente bem escrito, pauta-se por um necessário e legítimo esforço de síntese e de contextualização. Evidentemente, como toda iniciativa do gênero, escorrega em abstrações etéreas, patrola diversidades, desconsidera especificidades. Mas, se lido criticamente e com toda a cautela, pode ajudar a situar o leitor no imenso cipoal estético, teórico e factual traçado pela arte moderna. Neste sentido, o livro é um passo além dos manuais e enciclopédias.


Para o latino-americano que o lê, expande-se um alerta: divulgamos muito mal a reflexão sobre a nossa própria cultura, a ponto de um dos maiores historiadores das idéias do Ocidente nos tomar por incompetentes. Eis aí um tema, a propósito, que a nossa diplomacia poderia chamar a si de forma mais profissional.

Comentários (1)

  • Carlos de Santana/Bahia diz: 5 de março de 2010

    Bom o texto. Ainda não li Peter Gay. Achei teu resumo e crítica instigantes. Chamou-me atenção sobre a visibilidade do Brasil e America do Sul na Europa. Percebi a fisicalidade desta invisibilidade em dois espaços: numa das exceletes bibliotecas de bairro que existem em Londres, uma das maiores, que visitei encontrei apenas, um exemplar de Esaú e Jacó de Machado, um Jorge Amado e uma escritora que não lembro, do Rio Grande do Sul. Invisibilidade presente tambem nas livrarias, uma em Oxford Street, uma das principais ruas comercias de Londres, há mais livros sobre Cuba que sobre o nosso continental país. Cheguei a mesma conclusão que vc chegou sobre a inexistencia de um empenho governamental para prover isso. Mas isto foi em 2003, parece que as coisas continuam como dantes. Abraço ( Se voce ler este comentário, notifique-me que leu e o que achou, Obrigado)

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