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O que estou lendo?

29 de dezembro de 2009 0

Jamais consigo me dedicar à leitura de um só livro. Leio vários ao mesmo tempo. Por quê? Bem, dedico uma parcela razoável do meu dia à leitura – que se amplia, nestes dias entre feriados. Além disso, tenho múltiplos interesses. E acho que cada momento do dia, cada cantinho da casa, tem o seu próprio clima, pedindo uma leitura adequada.


Ontem, por exemplo, li os jornais pela manhã – Zero Hora e Folha de São Paulo, tomando mate, na varanda da frente. No final da manhã, dei uma pegada no “Oriente Médio”, de Bernard Lewis, professor emérito da Universidade de Princeton, uma das maiores autoridades mundiais em cultura islâmica. O livro oferece um panorama muito bem costurado dessa conturbada região, desde o advento do cristianismo até os dias atuais.


Pela tarde, aproveitei o sol no jardim lendo o “América” de Voltaire Schilling. Para quem deseja ter uma percepção geral da história dos Estados Unidos, é uma das melhores opções que conheço. São textos curtos, bem humorados, às vezes irônicos, veiculando densa análise da história em narrativa simples, acessível e muito bem cuidada. É um desses livros que se lê sem se perceber a passagem das horas.


Cada vez mais sentindo necessidade de compreender melhor o complexo Oriente Médio, voltei ao tema com o raro e extraordinário “The gun and the olive branch – the roots of violence in the middle east”, do jornalista David Hirst. O livro é pequeno. Lê-se com facilidade. Faz uma arqueologia muito equilibrada dos conflitos da região, remontando a 1882 e alcançando a década de 1970. É talvez das melhores coisas que existam sobre o tema.


Não durmo à noite sem correr as páginas de um romance. Estou relendo o adorável “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis. É uma obra genial. Estilisticamente, não deve nada aos grandes precursores do modernismo na Europa. Sim, é uma obra revolucionária. Pela forma como a narrativa é conduzida, por um narrador em constante interação e diálogo com o leitor; pela inserção de um segundo narrador – o diplomata Aires; pela notável qualidade literária – não há uma única palavra em excesso e muitas são as frases e passagens lapidares; pela enorme competência com que o autor, num livro tão enxuto, traça um quadro de estupenda riqueza dos hábitos e costumes do Rio de Janeiro de fins do século XIX; pela eficácia com que o autor constrói uma metáfora para a tensão política da época. Um primor. Um livro, como poucos, com a capacidade de afirmar o Brasil como civilização portadora de uma cultura própria.


Mas nunca leio um só romance por vez. Hoje vou avançar com o excelente “Um retrato do artista quando jovem”, de James Joyce. Não é o seu livro mais famoso, mas é certamente o mais fácil de ler. Talvez seja o meu preferido. Não sei ainda. O personagem central é um menino católico na Irlanda do século XIX que funciona como uma espécie de alter ego de Joyce, debatendo-se entre as noções de pecado e o desejo de expressão individual, numa cultura que assiste à emergência surda da modernidade e da cultura de massas. A conquista da liberdade sexual e espiritual por horizonte, magnificamente vazadas pela individualidade de quem se volta para a arte, fundindo crítica social e drama psicológico. Neste livro, Joyce se apresenta como um esteta de envergadura. Tudo em sua escrita tem importância. Não apenas a estrutura das frases, ou as palavras escolhidas, mas também o som que as palavras produzem quando lidas em voz alta, o ritmo da pontuação. Pela estrutura das frases é possível acompanhar a evolução psicológica do personagem, sua passagem da infância para a juventude. A versão para o português da edição da Alfaguara está muito bem feita.


E também estou lendo o “Terra Sonâmbula”, do moçambicano Mia Couto. Esse romance é quase uma poesia. É uma ponte entre a velha narrativa oral das comunidades tradicionais e a modernidade na sua forma mais transcendente. Numa Moçambique mergulhada na guerra civil, vagueiam os personagens deste livro, por uma terra devastada, destroçada, ensangüentada, estéril, mas ainda pujante graças ao eco distante do poderoso universo mítico do sudoeste da África. Cada frase é cuidadosamente lapidada, produzindo arte na sua forma mais sofisticada. Cada imagem nos arrebata para uma lógica metafórica da sociedade contemporânea. Uma das mais belas odes à esperança que conheço.

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