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Posts de dezembro 2009

Feliz Ano Novo! Yuhuuuuu!

31 de dezembro de 2009 0

A todos os queridos amigos e leitores que tanto incentivam esse blog, desejo um Feliz 2010, cheio de saúde, paz e realizações!

O Brasil e os direitos humanos no Irã

30 de dezembro de 2009 5

Não dá para não comentar. Em votação na Assembléia Geral do ONU na última sexta-feira, dia 18, o Brasil se absteve de votar na resolução que condenou a crescente violência contra os direitos humanos no Irã. A resolução expressa preocupação com o aumento da tortura, das prisões arbitrárias, das execuções, da repressão violenta e da discriminação contra as mulheres. O documento apela para o Irã eliminar, por exemplo, execuções como o apedrejamento de mulheres e a pena de morte para menores de idade.


Sabe-se que nosso País justificou sua melancólica posição por desejar fomentar um “diálogo construtivo” com o Irã, argumentando que o assunto deve ser tratado no âmbito do Conselho de Direitos Humanos da ONU, apenas, e não numa Assembléia Geral. É um sofisma. Todas as resoluções veiculam elementos de cooperação. Não são simples condenações categóricas.


Enquanto isso, a repressão no Irã só faz crescer. Na última terça-feira, mais 10 oposicionistas foram presos. No domingo, oito pessoas morreram nos confrontos de rua com a polícia.


Talvez estas resoluções possam não significar muito para um país que radicaliza sua ditadura. Mas funcionam já como pelo menos um alento para os oprimidos que lá dentro comem o pão que o diabo amassou. No Brasil, durante o regime militar, as condenações da imprensa internacional às perseguições e torturas constrangeram o governo mais de uma vez. Para quem apanhava nos porões, acredite, é preferível ter uma ditadura constrangida internacionalmente do que uma ditadura amplamente legitimada nos fóruns internacionais.


A orientação atual da diplomacia brasileira contrasta vigorosamente com a adotada no passado. O Brasil votou decidido na resolução nº 3.379, de 10 de novembro de 1975, que considerou o sionismo uma forma de racismo, condenando-o veementemente. Na oportunidade, foi difícil para grande parte da comunidade judaica entender como o País que fora tão importante para a aprovação da resolução que criara o Estado de Israel de repente assim se posicionava. Os tempos eram de Guerra Fria e o Brasil, aliado histórico dos Estados Unidos, votou em sintonia com o bloco soviético, gerando perplexidade. Mas, aí, era uma questão de segurança nacional, perfeitamente explicável.


Em decorrência da crise do petróleo, o Brasil – então quase que completamente dependente das importações – aproximou-se do enjeitado e isolado Iraque. Por pelo menos 10 anos, Brasil e Iraque constituíram uma aliança estratégica. A Petrobrás, então empresinha pequena, dedicada a explorar uns pocinhos sem futuro na Bahia, foi capaz de romper o bloqueio das grandes irmãs petroleiras e ajudou o Iraque a perfurar poços importantes, como os situados no sul daquele País. Em troca do líquido vital, mandávamos para o Iraque frangos, carros, armamentos, engenheiros… Dizem até que ajudamos o Iraque a dar a largada para o seu programa nuclear, que, anos mais tarde, tanta polêmica traria. E armamento brasileiro foi amplamente utilizado na guerra contra o Irã e na invasão do Kuwait.


Discuti este mutualismo com três jornalistas especialistas em Iraque – Christopher Hitchens, Jon Lee Anderson e Asne Seierstad. Nenhum deles jamais havia ouvido falar que a importância do Brasil como potência estrangeira para a história do Iraque no século XX era quase equivalente a da Grã-Bretanha, da União Soviética e dos Estados Unidos. Eis aí um tema que está esperando uma grande tese, uma pesquisa sistemática.


No início dos anos 1990, o Brasil deu uma guinada. Já, aí, a sua presença no Iraque fora removida, como desdobramentos da Guerra daquele País contra o Irã e da Guerra contra o Kuwait e os Estados Unidos. Em 16 de dezembro de 1991, a Resolução de nº 4.686, também da Assembléia Geral, revogou a Resolução de 1975, deixando, portanto, de considerar o sionismo uma forma de racismo. O Brasil não apenas votou pela revogação, como ainda patrocinou a proposta, ao lado dos Estados Unidos.


Já a questão estratégica do presente, que justifique a virada metodológica na orientação diplomática brasileira, qual seja, de não discutir questões relativas aos direitos humanos na Assembléia Geral, não está clara. Busca de apoio dos países periféricos para a pretensão de vaga permanente ao Conselho de Segurança? A que preço? O casuísmo que parecemos estar adotando pode nos carimbar rapidinho como uma nação de dois pesos e duas medidas. Enquanto condenamos inexoravelmente o duvidoso golpe em Honduras, legitimamos a ditadura iraniana, negando espontaneamente que a reeleição do atual presidente daquele país tenha sido fraudulenta, acolhendo-o festivamente em nosso território e agora abstendo-nos de sufragar importante resolução da ONU contra a violação dos direitos humanos lá perpetrada.


Não somos o Joãozinho do passo certo. Nenhum paraíso na Terra em se tratando de respeito aos direitos humanos, como escancara sobejamente, por exemplo, o tratamento que vem sendo dispensado a nossos concidadãos que habitam as favelas do Rio de Janeiro, tomadas pela lei mafiosa dos traficantes, das milícias e de uma polícia atrabiliária.


Mas já evoluímos muito desde os anos 1970. Estamos decididamente empenhados na construção do um regime democrático, o que nos diferencia qualitativamente da grande maioria dos países emergentes. E, antes disso, ajudamos, com nosso próprio sangue, a libertar o mundo da besta-fera nazista – não é pouca coisa: podíamos ter feito como a Argentina, que abandonou vexaminosamente a sua “neutralidade” dois meses antes da Guerra acabar. São fatos que legitimam uma posição progressista em matéria de política internacional.


Todavia, é preciso que tenhamos coerência. Se vamos condenar uma ditadura, que condenemos todas. Se vamos condenar os abusos aos direitos humanos de um País, que o façamos com todos!

O que estou lendo?

29 de dezembro de 2009 0

Jamais consigo me dedicar à leitura de um só livro. Leio vários ao mesmo tempo. Por quê? Bem, dedico uma parcela razoável do meu dia à leitura – que se amplia, nestes dias entre feriados. Além disso, tenho múltiplos interesses. E acho que cada momento do dia, cada cantinho da casa, tem o seu próprio clima, pedindo uma leitura adequada.


Ontem, por exemplo, li os jornais pela manhã – Zero Hora e Folha de São Paulo, tomando mate, na varanda da frente. No final da manhã, dei uma pegada no “Oriente Médio”, de Bernard Lewis, professor emérito da Universidade de Princeton, uma das maiores autoridades mundiais em cultura islâmica. O livro oferece um panorama muito bem costurado dessa conturbada região, desde o advento do cristianismo até os dias atuais.


Pela tarde, aproveitei o sol no jardim lendo o “América” de Voltaire Schilling. Para quem deseja ter uma percepção geral da história dos Estados Unidos, é uma das melhores opções que conheço. São textos curtos, bem humorados, às vezes irônicos, veiculando densa análise da história em narrativa simples, acessível e muito bem cuidada. É um desses livros que se lê sem se perceber a passagem das horas.


Cada vez mais sentindo necessidade de compreender melhor o complexo Oriente Médio, voltei ao tema com o raro e extraordinário “The gun and the olive branch – the roots of violence in the middle east”, do jornalista David Hirst. O livro é pequeno. Lê-se com facilidade. Faz uma arqueologia muito equilibrada dos conflitos da região, remontando a 1882 e alcançando a década de 1970. É talvez das melhores coisas que existam sobre o tema.


Não durmo à noite sem correr as páginas de um romance. Estou relendo o adorável “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis. É uma obra genial. Estilisticamente, não deve nada aos grandes precursores do modernismo na Europa. Sim, é uma obra revolucionária. Pela forma como a narrativa é conduzida, por um narrador em constante interação e diálogo com o leitor; pela inserção de um segundo narrador – o diplomata Aires; pela notável qualidade literária – não há uma única palavra em excesso e muitas são as frases e passagens lapidares; pela enorme competência com que o autor, num livro tão enxuto, traça um quadro de estupenda riqueza dos hábitos e costumes do Rio de Janeiro de fins do século XIX; pela eficácia com que o autor constrói uma metáfora para a tensão política da época. Um primor. Um livro, como poucos, com a capacidade de afirmar o Brasil como civilização portadora de uma cultura própria.


Mas nunca leio um só romance por vez. Hoje vou avançar com o excelente “Um retrato do artista quando jovem”, de James Joyce. Não é o seu livro mais famoso, mas é certamente o mais fácil de ler. Talvez seja o meu preferido. Não sei ainda. O personagem central é um menino católico na Irlanda do século XIX que funciona como uma espécie de alter ego de Joyce, debatendo-se entre as noções de pecado e o desejo de expressão individual, numa cultura que assiste à emergência surda da modernidade e da cultura de massas. A conquista da liberdade sexual e espiritual por horizonte, magnificamente vazadas pela individualidade de quem se volta para a arte, fundindo crítica social e drama psicológico. Neste livro, Joyce se apresenta como um esteta de envergadura. Tudo em sua escrita tem importância. Não apenas a estrutura das frases, ou as palavras escolhidas, mas também o som que as palavras produzem quando lidas em voz alta, o ritmo da pontuação. Pela estrutura das frases é possível acompanhar a evolução psicológica do personagem, sua passagem da infância para a juventude. A versão para o português da edição da Alfaguara está muito bem feita.


E também estou lendo o “Terra Sonâmbula”, do moçambicano Mia Couto. Esse romance é quase uma poesia. É uma ponte entre a velha narrativa oral das comunidades tradicionais e a modernidade na sua forma mais transcendente. Numa Moçambique mergulhada na guerra civil, vagueiam os personagens deste livro, por uma terra devastada, destroçada, ensangüentada, estéril, mas ainda pujante graças ao eco distante do poderoso universo mítico do sudoeste da África. Cada frase é cuidadosamente lapidada, produzindo arte na sua forma mais sofisticada. Cada imagem nos arrebata para uma lógica metafórica da sociedade contemporânea. Uma das mais belas odes à esperança que conheço.

Um pouco sobre Alain Robbe-Grillet

27 de dezembro de 2009 2

Tendo mencionado Alain Robbe-Grillet no meu último post, lembrei desse pequeno artigo publicado na Revista Cult, em março de 2008, pouco depois de seu falecimento. Para quem quiser conferir, vai aí o link: Uma tarde de sábado com Alain Robbe-Grillet

Peter Gay e o fascínio modernista pela heresia

27 de dezembro de 2009 1

Dentre os livros mais instigantes que li em 2009 está o último do historiador Peter Gay, lançado no Brasil: “Modernismo, o fascínio da heresia”. Nele, o autor de obras já clássicas, como a biografia de Freud e “O cultivo do ódio”, este último sobre a capitulação da belle époque burguesa diante da violência fascista na Europa, produz um delicioso ensaio sobre a emergência e o ocaso do modernismo no Ocidente. A obra está longe de ser um esforço enciclopédico. É um passeio pelo movimento modernista, do século XIX ao final do século XX, que trata das artes visuais, da literatura (sobretudo ficção), um pouco de teatro e cinema, dança, arquitetura, design e música erudita. É um passeio seletivo, pelo qual o autor sente-se confortável para destacar alguns artistas, esquecendo outros tantos. Já no Prefácio, ele se defende das possíveis críticas, afirmando a sua liberdade ensaística.


O livro tem muitos méritos. Para quem gosta de arte e de história trata-se de uma extraordinária investida na contextualização da enorme riqueza e complexidade do modernismo. Uma tentativa, ainda que seletiva, de síntese.


Ele buscou traços em comum entre os artistas contemplados, distanciando-se do matiz ideológico. É uma história contextualizada da estética. Um esforço de dar sentido sociológico às revoluções estéticas. Realça ao leitor ter o movimento modernista abrigado desde revolucionários de esquerda, a liberais e até conservadores e fascistas. Gay mostra, assim, que o modernismo não é o berço da democracia, mas que ele floresce melhor, justamente, em ambientes onde impera a livre expressão e o livre mercado, enquanto fenece nos regimes autoritários e nas economias planificadas.


O que uniria os modernistas seria o fascínio pela heresia e a ênfase na subjetividade. O ataque às sensibilidades convencionais. Gay rejeita a tese da existência de múltiplos modernismos, para abraçar a visão de um único processo, umbilicalmente ligado à consolidação da sociedade ocidental. Iluminista escancarado, Gay embala as totalidades universais, optando por privilegiar as continuidades em detrimento das especificidades. É por isso que consegue acolher expressões tão diversas dentro da tese basilar do fascínio pela heresia.


Em certos momentos, se arrisca a uma leitura psicanalítica do modernismo. Insiste que Freud, apesar do gosto estético profundamente conservador, foi fundamental para o modernismo ao destacar a subjetividade. E, ao tratar de Kafta, explica seu niilismo como desdobramento possível de uma personalidade edipiana mal resolvida: é o trauma com a figura paterna que estaria na base de sua visão fantasmagórica do poder.


Ao final do livro, ele afirma que a modernidade nascida com a crítica social do Manifesto Comunista de 1848 e com a crítica aos costumes de Baudelaire ainda está viva. Apesar de Duchamp, de Andy Warhol e de Damien Hirst, ela renasce feito fênix, das cinzas, em artistas como Gabriel Garcia Márquez e Frank Ghery. Sim, a promiscuidade entre o vale tudo na arte e o mercado teria enfim tentado matar o modernismo. Mas ele estaria resistindo, bravamente.


Fica evidente, aqui, seu desprezo e desencanto pela arte contemporânea. Mas, como a teorização sobre este terreno é frágil em sua obra, fica-se na dúvida onde termina o historiador das idéias que defende a retomada do espírito crítico e, também, um tanto elitista da arte, e onde começa o conservador que ficou aferrado ao século XX.


Refulgem também algumas generalizações simplificadoras. O autor, que desfila extraordinária erudição na cerzidura de seu enredo narrativo, escancara todas suas limitações ao tratar da América Latina. Enquanto dedica várias páginas ao Nobel Gabriel Garcia Márquez, ignora solenemente Jorge Luis Borges, cuja obra é incomparavelmente maior. Não há, também, nenhuma palavra sobre Cortazar, Machado de Assis, Graciliano Ramos. Nem uma vírgula sobre o poderoso Manifesto Antropofágico de 1928, que dialoga com o surrealismo e funciona como uma certidão de nascimento para um modernismo renovador, mestiço, intercultural, isto é, uma possibilidade concreta de contribuição conceitual da cultura latino-americana para o mundo. Traço que encontra ressonância em outros autores, como o mexicano José Vasconcellos, igualmente ignorado. Gay dedica várias páginas a Bauhaus e a Le Corbusier, e nenhuma linha a Oscar Niemeyer e a Lucio Costa. Os dois, afinal, construíram uma cidade inteira! Hélio Oiticica e Lygia Clark não existem. E por aí vai…


Melhor seria não ter escrito nada sobre Márquez. Assim, ele poderia assumir seu eurocentrismo no título da obra, algo como “o fascínio da heresia na Europa e nos Estados Unidos”. Preferiu tentar temperar o eurocentrismo e o ianquecentrismo apoiando-se na frágil evidência do prêmio Nobel. Destacou, com isto, um modernista latino-americano menor. Tudo bem se tivesse sublinhado bem seus critérios. Mas da forma como ficou, induz o leitor incauto ao erro, pois passa a imagem distorcida e preconceituosa de que a incompetente América Latina nunca foi moderna, a exceção do colombiano aracatacoano laureado com o Nobel, cuja obra, sabemos, por mais expressiva que seja, está longe de representar a pujança e a diversidade do nosso modernismo.


Mas os silêncios do livro não param por aí. Não há referências à música popular: o jazz, o blues, o rock, o pop, a bossa nova… Nem tampouco o leitor recebe uma explicação para esta ausência. O autor poderia ter, pelo menos, dito “não gosto e não entendo de música popular”. E também não se acha nem meia linha sobre Godard, Trufaut, Faulkner e Francis Bakon, por exemplo.


O enorme destaque conferido a Márquez explicita outras fragilidades teóricas. O contraste com as poucas linhas dedicadas a Alain Robbe-Grillet, o grande pai no Nouveau Roman francês, pode estar traindo o limite de suas categorias analíticas. Gay explicou o modernismo como um movimento calcado na subjetividade e na dimensão reflexiva. Ora, se assim é, como considerar Robbe-Grillet um modernista? Seus romances burilam ao máximo a forma, privilegiam a fragmentação do tempo, da narrativa, do personagem, e se distanciam concretamente dos fluxos de consciência que, para Gay, caracterizam o romance modernista.


Apesar das inegáveis fragilidades, o livro da Gay é bem vindo. Além de deliciosamente bem escrito, pauta-se por um necessário e legítimo esforço de síntese e de contextualização. Evidentemente, como toda iniciativa do gênero, escorrega em abstrações etéreas, patrola diversidades, desconsidera especificidades. Mas, se lido criticamente e com toda a cautela, pode ajudar a situar o leitor no imenso cipoal estético, teórico e factual traçado pela arte moderna. Neste sentido, o livro é um passo além dos manuais e enciclopédias.


Para o latino-americano que o lê, expande-se um alerta: divulgamos muito mal a reflexão sobre a nossa própria cultura, a ponto de um dos maiores historiadores das idéias do Ocidente nos tomar por incompetentes. Eis aí um tema, a propósito, que a nossa diplomacia poderia chamar a si de forma mais profissional.

Passarinhos

25 de dezembro de 2009 2

Desde que o muito difundido costume, na zona de colonização italiana do Rio Grande do Sul, das suculentas passarinhadas entrou em decadência, possivelmente pelo avanço da consciência ecológica, a população de passarinhos aumentou exponencialmente. Aqui no meu pátio, vêem-se dezenas e dezenas de passarinhos. De todas as espécies. Mas as populações de Sabiás e de Anús parecem estar aumentando mais do que as outras. Nunca vi tantos Sabiás por aqui. Gordos, peitinho estufado. Também os tais Anús, pretinhos, caminhando em bando pela grama, saltitantes – fico imaginando quantos ninhos eles devastaram para exibir esta forma galante. Em compensação, já nem escuto mais o Bem Te Vis. Aqui, acordava-se pela manhã ao som dos Bem Te Vis. Que fim deu neles? Será disputa de território com os Sabiás? Os tics tics dos Tico Ticos também parecem estar rareando. Sei lá, são impressões, não sei se procedem.

Natal na Serra

24 de dezembro de 2009 0

Em Gramado para o Natal. A cidade está lotada e toda decorada. Muitas luzinhas, fogos, guirlandas, balangandãs e Papais Nóeis. Deve ser mais divertido para quem tem crianças. Elas ficam alucinadas com a decoração. Vale por elas. Já eu, fico meio zonzo: é excesso de informação, beirando a poluição visual. Tento, assim, me manter o mais afastado possível da área central. Entrementes, me divirto preparando a ceia. As frutas no Mercadinho De Barba estão um acontecimento: afora os papayas madurinhos, aproveitei as pêras, as maçãs e goiabas. E tinha lichia, maracujá doce e cerejas vermelhas. Aqui no pátio, destaque para a guabirobeira, carregadíssima, impregnando a ambiente com odor adocicado do verão na serra, e o mirtilo, que começou a produzir este ano. O peru virá bem acompanhado…

Desejo a todos um feliz Natal!

Graça Medeiros, astróloga: sustentabilidade e transparência são a chave da nova Era

22 de dezembro de 2009 16

Hoje posto para vocês entrevista com a astróloga Graça Medeiros. Ela é gaúcha. Estudou filosofia e jornalismo na UFRGS e foi produtora artística. Foi para a Europa em 1969, onde ficou até 1972. Entre 1974 e 1975 morou no Peru e em 1986 fixou residência nos Estados Unidos, residindo em Nova Iorque até hoje. Viajou ao Oriente em 1985 e em 1987, quando andou pelo interior da China e, por terra, levou três meses para chegar ao Tibet. Graça estuda astrologia desde 1972 e dedica-se com exclusividade ao assunto desde 1981. Ela tem diversos clientes em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Nova Iorque e México DF.


Nesta entrevista, ela fala dos princípios norteadores da astrologia e do ofício de astrólogo. Graça, que tem muitos clientes no mercado financeiro, comenta a percepção da crise internacional pelos astros e arrisca previsões para 2010.


Quais os princípios básicos da astrologia? Como se calcula um mapa-astral?


GM – O estudo da Astrologia é ancestral. Os primeiros documentos escritos conhecidos (escrita cuneiforme) em tabletes de barro estão no British Museum e são datados do século VII AC. É um tablete com anotações sobre o movimento de Vênus, que lá se chama de Ishtar e que nesse tempo tinha uma conotação andrógina, pois Vênus é o único planeta que se vê duas vezes no mesmo dia.


O conhecimento astrológico desenvolveu-se principalmente na Babilônia, mas vem de culturas anteriores como Sumérios e Acádios.


A observação dos corpos celestes e sua relação com a agricultura é a relação do ser humano, que deixa de ser nômade, e o cosmo. O homem parte da natureza. De um ponto fixo observa o céu e registra e estabelece relações.


Primeiro o movimento da Lua, do Sol e de corpos que se movem em relação às estrelas. A mudança de estações (equinócios e solstícios) que sempre foram celebradíssimos e ainda hoje o fazemos pela apropriação da religião que as transforma em festas de páscoa (equinócio) natal {solstício) etc… O aprimoramento do conhecimento foi acontecendo com o progresso dessas civilizações nas áreas da matemática e da geometria. Os conceitos tais como os conhecemos hoje datam do período em que a cultura Babilônica conectou-se com a cultura Grega, Persa e Egípcia, ao redor do século I (o clássico desse período é o Tetrablos, de Ptolomeu).


Os elementos que compõe o sistema astrológico são o espaço onde o Sol e seus planetas transitam no universo que denominamos Zodíaco ; no modelo matemático, o círculo de 360 graus divido em 12 partes, equivalente aos Signos, e o Sol e seus planetas com suas diferentes órbitas que nele se deslocam.


Os planetas têm o nome dos mitos e como observou Jung em The science of mithology, “a mitologia não foi inventada, foi percebida!” O estudo não é lógico. É simbólico e é muito melhor compreendido por quem conhece o conceito de fractal. Tudo se move e no universo não tem linha reta, só curva – o que sobe desce e depois sobe.


O mapa astral é como se fosse um retrato do céu na hora do nascimento de uma pessoa ou evento, visto desde o ponto de vista do horizonte do lugar (cidade) onde ocorre. Este “modelo” é a referencia que revela a estrutura e é a ele que nos referimos para poder relacionar os planetas hoje. A relação entre os planetas em movimento é o mapa natal.


O cálculo do mapa astral foi se aprimorando à medida que o conhecimento avançou, nas áreas da matemática e da geometria. Mas só no século 20 é que a Astrologia se democratizou, pois com a criação do meridiano de Greenwhich a referencia do tempo se padronizou. Só então puderam ser construídas as tabelas com a posição planetária. Isto gerou uma referencia matemática que nos possibilita calcular com muito maior precisão a carta celeste.

Graça Medeiros por Vania Toledo

Como a astrologia pode nos ajudar a nos compreender melhor?


GM – Faça o teste. Mas a coisa mais importante é que através desse conhecimento podemos medir o tempo. E se somos impotentes frente ao movimento cósmico e não podemos mudar nem o ritmo nem a órbita planetária, mas pelo menos sabemos quando tal circunstancia acaba. E se não podemos mudar a órbita dos planetas, quando faz um aspecto, podemos tentar descobrir o que temos que apreender em tal circunstância e qual o antídoto.

Você é uma das astrólogas mais famosas e bem sucedidas do Brasil. Qual é o seu segredo? O estudo da Filosofia, da História e da Psicologia, entre outras disciplinas, também ajuda na sua avaliação dos astros?


GM – O astrólogo é na verdade um tradutor de uma linguagem simbólica para o leigo. É possível que minha formação, que se iniciou na Filosofia e somou o conhecimento na área da comunicação e da psicologia, me ajudou a ter uma visão de mundo mais ampla, de forma a tratar o conhecimento astrológico como uma possibilidade no desenvolvimento da experiência humana, com a compreensão e não o julgamento.


Você acha que a astrologia hoje goza de ampla aceitação ou ainda é grande o preconceito e a resistência contra ela? Como esta resistência se processa?


GM – A resistência é do mundo acadêmico, que é extremamente preconceituoso e colonizado. A resistência começa na proibição da matéria pelo Concilio de Trento e depois pela ignorância, e de séculos em que a racionalidade foi restrita ao conhecimento lógico. Pela Lógica, não se explica Astrologia, uma linguagem analógica e simbólica.



Você tem clientes no Brasil, no México e nos Estados Unidos. Você percebe alguma diferença de perfil entre estes grupos de clientes, algum padrão específico de demandas que são postas com mais freqüência aos astros?

GM – Os interesses variam, mas não é com a nacionalidade, mas com o perfil das pessoas. O que uma pessoa do mercado financeiro busca é um tipo de informação, as informações mais pessoais dos ciclos de vida variam – mas em geral as pessoas que me procuram são as que refletem e buscam uma maneira de viver melhor, evoluindo. Eu posso dizer que a Astrologia é o melhor método que conheço para compreender e aproveitar melhor o processo do desenvolvimento.

Graça Medeiros por Vania Toledo


Como você interpreta, pela astrologia, o momento que o mundo atravessa? A crise mundial econômica pode ser interpretada e explicada pelos astros?


GM – A Astrologia “decodifica” os ciclos (órbitas planetárias são mensuráveis) através da compreensão da linguagem mitológica (planetas) e suas qualidades (signos) portanto tudo pode ser interpretado. Então, observamos o movimento planetário e quando um planeta que tem uma órbita muito grande, quando muda de signo – muda a qualidade e isso pode ser um indicador, filosófico, econômico, artístico. As milhares de possibilidades que existem formam padrões geométricos (distancias angulares entre 2 ou mais corpos celestes). O conhecimento desses aspectos e a freqüência em que ocorrem indicam possibilidades. Quando não temos a possibilidade de ter observado alguns desses aspectos, recorremos ao passado para ver quando ocorreu pela última vez e então podemos ter uma referencia para refletir. O importante é compreender que o conhecimento não é um carimbo que determina algo – mas um indicador para você se orientar, refletir e, além disso, saber que termina. No UNIVERSO TUDO SE MOVE.


A crise econômica que explodiu em 2008 foi uma mudança de valor – da expansão para a realidade. Hoje podemos claramente dizer que foi uma crise gerada pela ganância e falta de controle. Na época escrevi: GET REAL (com duplo sentido mesmo). Fui buscar quando pela última vez Plutão tinha entrado em Capricórnio e descobri que fora entre 1762 e 1777.  Passei então a formular o conceito de up grade do Iluminismo, que ainda postulo. Plutão entrou em Capricórnio em 2008 e ficará até Janeiro de 2024.



Você sugere então que este será um período (2008-2024) de novas formulações filosóficas e conceituais, que serão, como as do Século XVIII, utilizadas por muitos anos? Algo, enfim, que possibilitará um novo despertar do Espírito?



GM – SEM DÚVIDA!  O pensar e repensar e criar novos conceitos capazes de melhorarmos o nosso processo de desenvolvimento e organização social levando em consideração as mudanças tecnológicas e a administração dos problemas contemporâneos. É como reformatar o hard drive  – temos que semear uma nova fórmula  de contrato social sem medo de quebrarmos velhos paradigmas. Da família ao Estado.


Duas palavras são chave para adequar a nova ordem que se cria: SUSTENTABILIDADE e TRANSPARÊNCIA.


Este período da construção de novos paradigmas é mais importante que o século XVII e o XVI porque neste além da reflexão de valores somamos a reflexão de uma NOVA ERA. Cada Era é uma fração de 1/12 de um ciclo de 25.920 anos (ano platônico)


Já saímos da Era de Peixes e entramos na Era de Aquário? Quais são os conceitos-chave para a época que vivemos?


GM – Gosto de explicar que a mudança de Era não é marcada por um dia, mas é um processo longo ao redor de 100 anos, enquanto a transição se processa. A mudança de Peixes para Aquário é de água para ar. Do crer para o saber. As qualidades de Aquário são: saber, liberdade, autonomia, instantaneidade. Enquanto as religiões monoteístas negarem o evolucionismo estaremos atrasando o processo educacional para a evolução. O que tem que se compreender é que o que é pregado numa Era se materializa na era seguinte. Na Era de Peixes o que foi pregado é que somos todos iguais, enquanto isso não se tornar possível estaremos atrasando a evolução. Estamos todos no mesmo barco, o planeta Terra. E fazemos parte de um sistema. O nosso sistema planetário tem 13 bilhões de anos. Quando, em vez da arrogância humana, cultivarmos a simplicidade e a sabedoria, a Era terá desabrochado.


Lembro de você ter previsto que algo muito importante, que mudaria o mundo, aconteceria em setembro de 2001. Como os astros representaram o 11 de setembro como possibilidade?


GM – Eu previ um ano difícil para os USA. Falei em perdas no mercado e uma tendência de queda em Wall Street. Mas não imaginei que seria literal.



Você concorda com a visão hoje dominante que admite que o pior da crise já passou?


GM – A erupção da crise aconteceu em 2008, mas as conseqüências ainda não. Neste ano de 2010 viveremos uma das piores crises de desemprego, equivalente ao que aconteceu em 1932/1933, e a entrada de Urano e Júpiter em Áries pode trazer novas tecnologias, mas também um aumento bélico. Fique atento entre 27 de maio e 6 de junho.



Muitos de teus clientes são importantes investidores no mercado financeiro. Como a astrologia pode ajudar nos negócios?


GM – Esses clientes compreendem muito bem a linguagem cíclica e também usam o recurso como mais um dos fatores que lhes sinalizam altas e baixas. A Astrologia é um excelente instrumento para planejamento. Dependendo da vida de cada um, pode ser mais ou menos afetado, mas certos aspectos nos afetam a todos. Estamos no mesmo barco. E a tendência é de instabilidade e revoltas explosivas.




Há, em 2010, um período mais ou menos propício para investimentos financeiros?



GM – O ano de 2010 em termos financeiros será interessante e bastante positivo no que tange a produtos mais conservadores – principalmente de março a julho. A crise é de moeda e vai nos ocupar muito. Recomendo redobrada atenção aos movimentos do FED, principalmente no final de maio. Sob o ponto de vista econômico a tendência a altos índices de desemprego principalmente entre julho e agosto, o que fará o ultimo trimestre do ano, principalmente no hemisfério norte, o mais fraco.



Quais os conselhos que você daria para as pessoas em 2010?


GM – Astrólogo não é para dar conselho, ele mostra situações possibilidades, mas o “motorista” da vida de cada um é a própria pessoa. A vida é feita de escolhas. O que a Astrologia propicia com muita eficiência é a indicação da tendência. É mais como uma sinalização ao longo da rota (vida). Aquilo pelo que alguém vai passar muitas vezes não permite escolhas – a não ser COMO se vai passar por cada situação, e o que se pode aprender e evoluir como indivíduo em face desta ou daquela situação. Se fizermos sempre a mesma coisa, teremos sempre o mesmo resultado. A FELICIDADE É UMA JORNADA, NÃO UM DESTINO.

Arte e debate

21 de dezembro de 2009 1

Arte contemporânea é uma idéia, projetada no espaço. Pensá-la é debater a idéia, o conceito, que lhe é subjacente. Refletir sobre a execução dessa idéia no espaço. Entender a trajetória do artista.


Dito isso, de forma, assim, muito simplificada, é claro que há um monte de porcarias por aí. Já reparou que a toda mega exposição de arte contemporânea que se vai tem sempre um “inovador” videozinho das ondinhas de um rio, ou de um mar? E aquele vídeo, que todo mundo já está careca de ver, do vento agitando as folhas de uma árvore. Mudam as árvores, o ângulo, mas a idéia é sempre a mesma… E que tal os alto-falantes reproduzindo a gravação do barulho do vento? Quantas vezes você viu isso? E por aí vai.


Mas também há coisas muito boas.


De qualquer forma, se a arte contemporânea nasceu do pensamento deconstrutivista e cinicamente crítico de Marcel Duchamp, então, o essencial, para que ela floresça, deveria ser, justamente, o debate. E aqui se instala de fato um paradoxo, porque muitos críticos e artistas sentem-se alheios ao debate. Acham-se intangíveis por todos aqueles que não estudaram profundamente as mutações do signo.


Reconhecendo a validade de parte do argumento – aquela que preconiza a necessidade de conhecermos o processo de destruições de sentidos da arte moderna para entendermos a arte contemporânea -, estou entre aqueles que enxergam com certa perplexidade o fato de mantermos uma grande bienal quando sequer dispomos em nossa cidade de um bom museu de arte moderna e contemporânea que possa guardar e dar visibilidade a nossa razoavelmente rica experiência visual. Vicissitudes de uma cultura de gestão que privilegia o evento em detrimento do acervo. Quando é o acervo que ajuda a consolidar experiências didáticas. Quando é o acervo que engrandece a riqueza coletiva. Quando é ele que fortalece o turismo cultural.


Montamos uma bienal como se quiséssemos pular etapas.


Bem, acho que isto foi só uma das coisas que o ruidoso artigo do Voltaire Schilling, publicado na Zero Hora de 25 de outubro, pôs a nu. A enorme quantidade de pessoas que se identificou com aquela crítica escancara que há um preço a pagar quando as etapas são queimadas.


E, como uma das ressonâncias de seu artigo foi colocar um microfone em praça pública, restaurando e ampliando na cidade o debate, ainda que de uma forma enviesada, penso que ele acabou prestando um grande serviço à arte contemporânea. Há quem acredite, como o poeta Affonso Romano Sant’Anna, que se pararmos para discuti-lo, o grande fluxo da arte contemporânea acabaria, pois não resistiria ao debate do qual justamente deveria se alimentar. Ora, se, filosoficamente, o escopo da arte contemporâneo é o debate público, então ele precisa se realizar, pois, se permanecer eternamente como projeto, estaremos presos à armadilha também encerrada pelo descortino de Duchamp, um ciclo vicioso pouco produtivo. Se não sobreviver ao debate é porque realmente lhe falta consistência.


Desdobrando-se isso para as esculturas de Porto Alegre, creio que algumas são, com efeito, mal resolvidas. É o caso do “tarugo de ferro” ao lado do Gasômetro. Não é ruim a idéia de uma ponte para o nada, ou um mirante sobre o Rio, mas o material utilizado não funcionou, vez que ela está enferrujando. Dado o problema de manutenção, tornou-se um mico para a Prefeitura. Além disso, concordo que há algo de grotesco na forma proposta, o que é uma pena, considerando-se o fato de haver ao lado um importante prédio histórico.


É também mal executada a obra que homenageia os perseguidos políticos durante a ditadura. Além de estar vexatoriamente enferrujanda, a suposta proposta de tensão entre a parede de ferro e as janelas para o céu realiza-se mal num ambiente verde e cada vez mais engolido pela copa frondosa das árvores. É evidente que esta escultura está muito mal localizada. Ficaria muito melhor num espaço mais árido, sem verde, onde as pessoas circulassem a pé. E deveria ter sido executada com material apropriado. É o mínimo que se pode dizer.


Ao contrário, as obras de Carlos Tenius são bem resolvidas. Não enferrujam e estão convenientemente posicionadas, dialogando bem com o entorno. A escultura no Parque Moinhos de Vento é, em minha opinião, uma elegante manifestação modernista, cuja mensagem é profundamente irônica.


Já do “Cuião”, eu gosto. A obra está muito bem posicionada numa rótula. Não há vegetação obstruindo o campo de visão de quem passa e acho que ela faz um bom conjunto com as fachadas de vidro dos prédios na proximidade e o horizonte preenchido pelo lago. Além disso, ela se remete saborosamente a um dos nossos hábitos mais firmes – o chimarrão. E traduz uma associação sensual entre o gesto de segurar a cuia e seios femininos. Em meio a uma área com tantos prédios públicos e administrativos, a sugestão dessa voluptuosidade é relaxante.


Também gosto muito do “timão com uma lhama no meio”, apelido dado por muitos à escultura de Gustavo Nakle, junto à Avenida Padre Cacique. Não há uma única vez que eu por ali passe sem que meu olhar seja atraído e cativado pela volumetria e pelo movimento dessa escultura. As cores me remetem ao nascer do sol às margens do Guaíba, na zona Sul. A própria forma lembra também um sol. É como se fosse um portal de boas vindas para quem chega à zona Sul da Capital. E, finalmente, aquela forma estranha no meio, que se assemelha vagamente a uma “lhama”, tem o delicioso condão de sugerir permanentemente a questão: o que significa? Gosto também de idéias que trazem questões em aberto…


Há outras peças de qualidade em Porto Alegre. Recentemente, a Prefeitura restaurou a obra Iluminuras, de Mauro Fuke, que desde 1999 reveste o Viaduto Ildo Meneghetti, na Vasco da Gama. Acho-a excelente! É visível que a concepção do mural levou em consideração a vegetação existente no local, bem como o olhar em movimento dos motoristas que por ali transitam. Milhares de azulejos funcionam ali como pixels de uma imagem. Um produto antipichação impede a absorção de tintas e protege o mural da ação de vândalos.

Tracanaços no supermercado

20 de dezembro de 2009 2

Todo mundo tem suas lojas prediletas. Eu adoro os Supermercados Záffari! Ok, a arquitetura é, digamos, para ser simpático, uma coisa um tanto kitsch. Mas tudo o mais é quase perfeito. No estacionamento não é difícil achar vagas, os corredores são amplos, as frutas e verduras costumam estar fresquinhas, no açougue as carnes são ótimas. Dificilmente há filas nos caixas. E, uma coisa muito importante para consumidores do sexo masculino, em geral mal treinados na complexa arte de localizar novidades dispersas nas prateleiras, as coisas estão sempre no mesmo lugar! Ademais, os funcionários são todos umas gracinhas, sempre gentis e alegres, jamais ruidosos ou mal humorados.


Um padrão do qual sinto falta nas localidades onde a rede não funciona.


É por isso que eu não entendo por que umas coisinhas simples, das quais todo mundo reclama, nunca são solucionadas.


Há anos freqüento a loja da Otto Niemeyer, na Tristeza. Há anos eu, e um monte de gente, notamos o insuficiente número de carrinhos pequenos. Aqueles carrinhos gigantes, uns tracanaços tamanho família, têm aos montes. Mas ninguém os quer mais!


Os hábitos de consumo estão mudando. Cada vez menos as pessoas fazem ranchos familiares para a semana inteira. Cada vez mais as pessoas dão uma passadinha rápida no supermercado, na volta para casa, no caminho para o trabalho, quando se vem, ou se vai para algum lugar. As famílias, como se sabe, estão menores do que no passado, e Porto Alegre é a cidade no País com maior incidência de pessoas morando sozinhas. Sou um desses. Portanto, sei bem que o que se quer é poder comprar todos os dias produtos fresquinhos em pequena quantidade e com agilidade.


Mas o Záffari parece ter dificuldade de entender esta mudança nos costumes e impõe às pessoas desejosas de comprar uma dúzia de coisinhas – que não se acomodam bem numa cestinha – a descortesia de fazê-las empurrar seus tracanaços sobre rodas. Será que isto é alguma estratégia enviesada de vendas, imaginando ver as pessoas comprando mais se elas usarem mega-carrinhos?


É o tipo do equívoco, pois os clientes se amofinam esperando os carrinhos pequenos. E quando eles não chegam, o que era para ser uma passadinha vira uma complexa operação, com manobras de condução e estratégias para estacionar estas jamantas, entre a banca das batatas e a das cebolas, por exemplo.


Há anos nos garantem terem os pedidos para novos carrinhos sido feitos. Só que eles nunca chegam.