Uma interessante matéria da Folha de São Paulo do último 26 de dezembro merece breve comentário. Diz ela que "Hollywood se sai bem em ano de crise econômica", e desfila dados mostrando que seqüência de produções com grandes orçamentos e ingressos mais caros em decorrência do 3D ajudaram a atenuar a queda acentuada nas receitas de DVDs, que perdem espaço para os vídeos on-line. Houve um aumento de 3% na aquisição de ingressos para cinema nos Estados Unidos.
Não se trata de um fenômeno isolado. Um artigo de outubro da revista Crain's New York Business, mostra que, logo após um severo corte nos orçamentos das grandes instituições culturais de Nova Iorque, face ao temor de que não seriam capazes de vender ingressos às pessoas, percebeu-se que, se proporcionado espetáculos de qualidade, as bilheterias não minguam. De fato, a Filarmônica vendeu 91% dos assentos disponíveis na última temporada. O Metropolitan Opera arrecadou a soma recorde de 2,5 milhões de dólares em ingressos apenas no primeiro dia de bilheteria da temporada. Na NYC Opera, cuja capacidade de sobrevivência foi questionada nos últimos anos, arrecadou-se 12 milhões de dólares em 2008 - um milhão a mais do que o esperado.
Sim, parte dos bons resultados orçamentários dessas instituições veio também dos cortes realizados em decorrência da crise. A Filarmônica economizou 5% de seu orçamento cortando campanhas de publicidade, despesas de viagens e enxugando remunerações de artistas. Emplacou também um programa de descontos para subscrições e ingressos.
Desses números e experiências, uma lição: o mercado cultural vive tal expansão que mesmo em tempo de violenta crise, se o produto for bom e se a gestão for correta, ele cresce.
Há setores, mesmo, que ganharam uma injeção de ânimo extra por conta da própria crise. É o caso, nos Estados Unidos, dos cursos de pós-gradução em muitas universidades. Pessoas que perderam os seus empregos ou tiveram sua atividade profissional reduzida, resgataram projetos pessoais de especializações. Foram, enfim, estudar, a fim de preparar-se para a retomada do mercado!
E no Brasil, onde a crise, perto dos Estados Unidos, foi só uma "marolinha"? Embora não disponhamos de pesquisas e avaliações estatísticas capazes de nos dar uma visão detalhada do mercado cultural, percebe-se já que ele foi duramente atingido. Significativamente apoiado no instrumento da Lei Rouanet, sofreu com a retração das empresas, acontecida na esteira da queda dos lucros e dos temores em face da extensão da crise econômica. Além disso, os debates estimulados pelo governo federal em torno da reforma da lei realmente não ajudaram o setor e contribuíram mais para afugentar patrocinadores. Finalmente, note-se que dispomos de poucas instituições no Brasil capazes de desenvolver estratégias de gestão cultural apoiadas em instrumentos de financiamento de longo prazo.
Depreende-se disso que, possivelmente, dado a seus erros em matéria de macro-política cultural, o Brasil está sub-aproveitando as chances de geração de renda e de emprego no mercado cultural. Aqui no Estado, uma ação cultural dinâmica poderia estar, pelo menos em parte, compensando a política ruim desenvolvida em nível federal. Não é o que se vê. A Lei de Incentivo à Cultura tem seu desempenho comprometido pelos tetos impostos pela Fazenda, pela falta de estrutura da Secretaria da Cultura e pelos atritos que se evidenciaram entre a Secretaria e o Conselho Estadual de Cultura. Some-se a isso o fato de que os investimentos públicos diretos na área cultural serem pouco expressivos e de também não termos sido capazes de desenvolver instrumentos mais eficazes de financiamento da cultura em longo prazo. Pena.


