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O General, os gays, a indisciplina e a democracia

05 de fevereiro de 2010 6

A declaração do General do Exército Raymundo Nonato de Cerqueira Filho de que os gays deveriam procurar outros ramos de atividade, que não as Forças Armadas, onde, certamente os soldados não se submeteriam a um eventual comando de uma pessoa "assim", como ele diz, é de uma infelicidade atroz, e faz ainda a apologia da quebra de disciplina. Este senhor mostrou-se despreparado para carregar um fuzil como praça de pré, o que dirá ostentar estrelas nos ombros?!


Há algum tempo que, no Brasil, parte do oficialato tem renunciado à leitura. Em geral, pouco ou nada sabe da História militar. Faça o teste: pergunte a um oficial de suas relações quais os ensinamentos ele tira da Guerra do Chaco para o Exército brasileiro. Pergunte como ele caracterizaria as operações militares na Revolução Federalista. Quais os problemas de logística que ele identificaria na Guerra do Paraguai. Indague como ele avalia o desempenho do Exército em Canudos. Você pensa que isto é questão de somenos importância? Ora, não há no mundo potência militar que não valorize o estudo da história militar e da estratégia. Neste quesito, não passamos de uma piada! Que pode virar de mau gosto quando estes oficiais se põem a dar declarações ou são sabatinados. Imagine eles numa guerra!


Se este General fosse um pouquinho mais perseguido pelas luzes, saberia que o que determina um bom soldado é o bom adestramento, a dignidade ética, o respeito à disciplina, sem falar numa instituição onde a hierarquia é respeitada e a gestão é moderna, eficiente e ilustrada. Pretendeu-se, no passado, que as os negros, os protestantes, os judeus, as mulheres não dariam bons soldados. Assim como não há base técnica para fundamentar tais argumentos, não há absolutamente nada que permita justificar que os gays, sejam homens ou mulheres, seriam soldados ou oficiais incapazes. Pelo contrário, a História está repleta de exemplos que afirmam justamente o contrário.


Não foi Alexandre o Grande bissexual? Não foi grande parte dos temidos hoplitas da Grécia Antiga homossexuais ou bissexuais? Sófocles, por exemplo, era um tanto efeminado - o que nem era muito bem visto pelos gregos -, mas comandou exércitos com disposição e bravura. Aliás, os mais temidos guerreiros gregos daqueles tempos eram os tebanos, justamente porque lutavam em pares, formados por casais. Lutavam com bravura incomum, pois não queriam fazer feio para o companheiro. E, muitos deles, lutavam até a morte, quando o companheiro tombava em batalha.


O que é ainda mais grave na declaração desse General é a apologia que ele faz da indisciplina. Ora, desde quando a tropa tem o direito de escolher os seus comandantes e ditar-lhe regras? O dia em que a disciplina e a hierarquia forem subtraídas num Exército moderno, é o caos e somente o caos que se instala. Se por acaso há de fato este preconceito entre a tropa, não cabe aos oficiais superiores repisá-lo e legitimá-lo, dando azo à quebra de disciplina, mas, ao contrário, desfazê-lo pela necessária afirmação da autoridade. Erra, portanto, fragorosamente o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, quando minimiza a infeliz declaração, afirmando que o Supremo Tribunal Militar não tem competência para tratar do assunto! Ora, a razão de existir da jurisdição militar é, precisamente, a preservação da disciplina. É por isso que ela é uma garantia democrática!

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Comentários (6)

  • Floriano diz: 5 de fevereiro de 2010

    Pois, então. Este general aí é, com quase toda a certeza, filhote daqueles executores do golpe de 64, os quais já eram \"doutores\" em desconhecer não só a História, como até comesinhos princípios da existência humana. Lamentável é não apenas a declaração dele. Mais lamentável, ainda, é a inexistência de regra legal que pudesse punir atitudes como a dele.

  • Lucas/ Porto Alegre diz: 5 de fevereiro de 2010

    Rapaz!!!! Que catilinária !!!! Estou muito surpreso,pois tinha idéia de que, se abordasses esse tema, ficarias no mínimo em cima do muro. Me enganei e o reconheço. É um belo texto. Equilibrado, sensato, pondo alguns pingos nos iis. Alguém poderia vê-lo como apologético da causa do grupo achincalhado. Não faço essa leitura. Vejo mais na linha de que alguns militares de palavras irrefletidas ou preconceituosas, precisam saber que não são oráculos, nem donos da verdade e nem mais do poder. Nunca é demais lembrar o adágio dos romanos: \"Não suba o sapateiro além das sandálias\". Parabéns pelo post.

  • Marcelo diz: 5 de fevereiro de 2010

    Gostaria de saber se alguém que já vestiu a farda de uma das Forças Armadas vai opinar sobre o assunto. Os magistrados nãoi gostam que se intrometam em seus assuntos. Por que nós militares devemos aceitá-lo? Será que uma instituição que prima pelos pilares da hierarquia e disciplina não ficaria abalada com a entrada de homossexuais? Pois bem, com certeza tanto as FFAA quanto os homossexuais deveriam se reestruturar: as FFAA para receber essas pessoas com orientação sexual diversificada, construindo instalações específicas para evitar determinados tipos de assédio, como no banheiro ou vestiário; já os homossexuais, mais especificamente os do sexo masculino, deveriam começar a agir de forma mais compatível com a farda, isto é, dando bons exemplos, não se destacando por sua e conquistando a confiança de seus subordinados através da liderança. Vamos fazer o seguinte: vamos propor o ingresso de padres gays e, por que não, mulheres (padres) na Igreja Católica. Não sei o motivo de não considerarmos isso discriminação. Logo mais, haverá o ingresso de deficientes mentais nas FFAA, contra os quais nada tenho, mas sei de suas limitações. Finalmente, peço que você, Gunter, dentro de sua experiência única e exclusivamente teórica sobre a vida militar (e valorizo muito os historiadores), pense e reflita sobre qual é a missão das FFAA? Acolher a todos ou DEFENDER A TODOS. Reflita sobre isso.

  • Fábio Ruzicki Conceição diz: 7 de fevereiro de 2010

    Muito infeliz este debate, principalmente o comentário deste Blogueiro, respeitosamente, no mínimo nunca serviu ao exército ou a qualquer outra Corporação Militar. Não descrimino uma pessoa por sua opção sexual, muito embora não concorde com a posição, porém como militar da reserva, sei exatamente o que é comandar e ser comandado. Não é uma questão de ter capacidade técnica ou não, é uma questão moral. Por isso que no Brasil é tudo uma bagunça, tem certas coisas ou instituições de não devem ser alteradas fujindo da sua concepção original. Já imaginaram em um acampamento militar, com um homosexual no meio da tropa, vai virar uma suruba só. Ou um capitão homosexual, vestir o uniforme feminimo para comandar uma tropa em desfile de Sete de Setembro. Convenhamos meus amigos não tem cabimento. ´Senhor Blogueiro não me venha com histórias de Guerra do Chaco, ou Guerra do Paraguai, aprendeu contos de fadas no colégio acredita que é um especialista. Quem disse que Alexandre \"O Grande\" foi um bom soldado? Foi derrotado justamente por ter se rendido aos encantos do inimigo. A tropa realmente não tem direito de escolher o seu comamdante, mas o mau comandante não se cria, não é obedecido, não basta ser chefe tem que ser lider. Para terminar, desculpe até a minha arrogância, mas a minha opinião é que os homosexuais realmente não tem vez nas fileiras militares, os argumentos que usaste de neoliberalismo ou democracia não são válidos, nas Forças armadas funciona a Hierarquia e a disciplina, pronto e acabou, está na Constituição, se isso mudar, acabou as Forças Armadas. Não misturemos as coisas meu amigo, acredite, um homossexual na tropa será motivo de chacota e para mim um afronta a todos os preceitos morais que as instituições militares preservam até hoje. Muitos daqueles que criticam o General, não aceitariam que os seus filhos fossem homossexuais, por que o Exército tem que aceitar? Pense nisso. Abraços.

  • Christian diz: 12 de fevereiro de 2010

    Credo, Gunter, vc acordou os fascistas! Fez eles colocarem a cara para fora!

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