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Posts de fevereiro 2010

O afastamento de Voltaire Schilling do Memorial do RS

26 de fevereiro de 2010 27

Estou passando uns dias fora do Rio Grande do Sul. Mas foi impossível ficar indiferente às notícias que chegam daí. Me amarrota, porque fiquei passado com esta história da exoneração do Voltaire Schilling.


O Voltaire vinha realizando um trabalho elogiável no Memorial do RS. Recebendo recursos mínimos do Governo do Estado, buscou apoios para implementar diversos projetos – realizados com simplicidade, mas com conteúdo. Foram exposições, ciclos de palestras, seminários… Voltaire publicou ainda 4 revistas e cerca de 70 títulos dos Cadernos de História, abordando os mais variados temas. Estas edições somaram mais de cem mil exemplares, distribuídos gratuitamente à população, prestando, portanto, inestimável serviço e resgatando um dos princípios fundadores do Memorial do RS, qual seja, o de divulgação do conhecimento histórico em uma linguagem fácil e em um formato acessível.


Se mais não foi feito, é porque lhe faltaram recursos do próprio Estado, que se não tem orçamento para a Cultura, deveria pelo menos desenvolver estratégias que facilitassem a gestão, estabelecendo redes de apoio, atraindo eventos e parceiros, etc…


Vi pelos jornais que a Secretária de Cultura justificou a demissão alegando haver divergências conceituais. Aí me caíram os butiás do bolso, porque até agora ninguém sabe qual é o conceito de gestão cultural e de cultura da senhora secretária. Sinceramente, não me recordo de alguma vez ela o ter expresso em público. Certamente não o demonstrou na prática, porque sua gestão parece não ter quase nada para mostrar – tirando a biografia da Jane Fonda como livro de cabeceira, as badalações azuis e marinhas e as cavalgadas da chama farroupilha.


O Rio Grande já passou por momentos difíceis, mas vive um de seus piores momentos em matéria de gestão cultural. Já disse aqui várias vezes que nenhum governo é 100% bom ou 100% ruim. O Governo Yeda, assim como qualquer outro, tem os seus méritos, e também suas áreas de notória fragilidade: a Cultura, certamente, é uma dessas. O pouco que se fez nesta Secretaria deveu-se a ação quase heróica de alguns diretores de instituições culturais, que mantiveram suas portas abertas a caro custo e sem o necessário suporte do Governo.


É absurda a forma como se deu esta exoneração: sem maiores explicações sobre as razões que a motivaram – um vazio completo, temperado por estas insinuações torpes de que o Voltaire teria realizado viagens em proveito próprio. Ora, o Voltaire é um homem probo, respeitado e que leva uma vida discreta, desprovida de luxos. Insinuação de tal jaez só pode ser disparatada.


Esta demissão sumária e repentina é tanto mais estranha, considerando-se que o Voltaire estava no posto desde o Governo Rigotto. A Secretária Mônica, portanto, ao assumir a pasta da Cultura, sabia bem qual era a proposta de trabalho do Voltaire. E tudo indica que a aprovou, pois ele ficou três anos do Governo Yeda na função. A demissão é ainda mais bizarra se considerarmos que a Secretária deverá se afastar da pasta em abril para concorrer a alguma vaga eletiva. Por que plantar tal polêmica neste momento?


Acho que o Voltaire, pela qualidade do trabalho que realizou e pela sua respeitável biografia, não merecia esse tratamento grosseiro.

Banco de Livros

21 de fevereiro de 2010 4

O publicitário Alfredo Fedrizzi, um dos membros do Conselho do Banco de Livros, informou-me que a campanha do ano passado foi um grande sucesso: em apenas 30 dias foram arrecadados 400 mil volumes. A título de comparação, na edição anterior da campanha, haviam sido arrecadados 80 mil volumes. Parabéns! Fedrizzi também me enviou belas peças da campanha, que reproduzo aqui para vocês, enquanto aguardamos as respostas do Presidente do Banco de Livros, Waldir da Silveira, às perguntas enviadas a ele.

Tempo de experimentar e renascer: os anos 1980 no RS

20 de fevereiro de 2010 2

Reproduzo hoje aqui para vocês o meu artigo na edição de fevereiro na revista Voto.

No Rio Grande do Sul, a Nova República iniciou desnudando contradições. Enquanto da Arena originaram-se o PDS e o PFL, do MDB surgiram o PMDB e o PDT. Mas, num primeiro momento, a abertura política espelhou a herança do sistema bipartidário ao afirmar a clivagem crescente entre o PDS e o PMDB. Os partidos menores foram prejudicados na eleição de 1982 pelos efeitos do “pacote eleitoral” de fins de 1981, que previa regras vinculando os votos a um só partido, proibindo as coligações partidárias e considerando nulo o voto em mais de um partido. O PDS, vitorioso na maior parte dos estados, sagrou-se também nas urnas gaúchas, elegendo Jair Soares, cujo governo se notabilizaria pelos largos investimentos na área da saúde.

Mas o PDS não governava com maioria no Legislativo, pois o PMDB formou a maior bancada. Essa clivagem fez da Assembleia caixa de ressonância dos movimentos sociais. A crise econômica, conjugada ao arrefecimento da censura e da repressão, contribuía para reacender os fluxos reivindicatórios.

Em 1979, uma greve promovida pelo poderoso sindicato dos professores revelava a situação de crise na educação. Em 1985, o magistério promoveu mais dois meses de paralisação. A Assembleia Legislativa chegou a instalar uma CPI para investigar a situação da classe professoral, cujas conclusões apontaram para a defasagem salarial e problemas de gestão.

O início dos anos 1980 também marcou o crescimento do movimento dos colonos sem-terra. Em 1981, após o estalar da crise do acampamento de Ronda Alta, um grupo de agricultores sem-terra dirigiu-se à Capital, sendo acolhido nas dependências da Assembleia por dias, enquanto que na Praça da Matriz um aparato da Brigada Militar montava guarda em defesa do Palácio. Em 1983, a situação do acampamento da Fazenda Annoni foi tornando-se mais tensa, com a ordem de reintegração de posse aos proprietários originais das terras e a ameaça de prisão dos invasores. Na Assembleia, muitos deputados, especialmente do PMDB, procuravam interceder junto ao Poder Executivo em benefício dos ocupantes. Em 1986, uma romaria reuniu cerca de 100.000 agricultores em Porto Alegre, numa demonstração de força.

Também crescia o inconformismo dos trabalhadores urbanos. Com a derrocada do Plano Cruzado, após as eleições de 1986, a CUT e a CGT organizaram uma ampla mobilização nacional, que repercutiu também em Porto Alegre e em algumas cidades do Interior.

Em 1987, o PMDB chegava ao governo. A tradição do MDB e o prestígio auferido pelo Plano Cruzado propiciaram não apenas uma sólida vitória a Pedro Simon, mas ainda garantiram ao partido 27 vagas na Assembleia. Na história recente do Rio Grande do Sul, tal hegemonia política somente se registrara em 1959, quando o PTB, do então governador Leonel Brizola, junto com o PRP, que também lhe dava sustentação, elegeram 27 deputados.

Mas a eleição não fora tranquila. Buscando fazer frente ao rolo compressor do PMDB, dois partidos tradicionalmente antagônicos, o PDS e o PDT, costuraram uma peculiar aliança. Nessa época, o PDT, que se articulara em torno do líder trabalhista Leonel Brizola, era a terceira maior força na Assembleia. Além disso, ocupava importantes prefeituras, entre elas a da Capital, com Alceu Collares. Já o PDS ocupara a administração estadual por 24 anos, compondo-se de quadros coesos e com forte tradição política. Após as eleições, esta aliança derivou numa frente de oposição sistemática ao governo Simon, que congregou também o PT e o PFL.

A ressaca do Plano Cruzado terminou pegando o início do governo no contrapé. Em abril de 1987, com apenas um mês de novo governo, eclodiu aquela que seria a maior greve do magistério. Na mesma época, estalaram movimentos do funcionalismo público e dos policiais civis. Os professores chegaram a acampar por semanas na Praça da Matriz, com tendas e faixas de protesto, promovendo uma ensurdecedora sinfonia de sinetas e um incansável coro de palavras de ordem. A greve, que durou 90 dias, produziu arestas nas relações entre o Palácio Piratini e a bancada do PMDB, que tanto mais se deterioraram no dia em que a Brigada Militar escorraçou os professores acampados na Praça, os quais se refugiaram na Assembleia. O PMDB, agora no governo, tinha de adequar o discurso às contingências das contas públicas. O desgaste foi expressivo. O PDS denunciava a incoerência entre o engajamento anterior e a timidez atual na atenção às demandas reivindicatórias. O PT e o PDT avançavam sobre os escombros da popularidade do PMDB.

Também nos primeiros meses de mandato, Simon enfrentou uma organizada invasão num grande conjunto habitacional na zona norte de Porto Alegre. A manifestação contou com o apoio de parlamentares do PT e do PDT e enterrou uma cunha no programa de moradias populares do governo, o qual previa a breve conclusão das obras, provocando desgaste. Em outubro de 1988, às vésperas da instalação da Constituinte, explodiu nova parede dos professores. A inflação de 1988 havia rompido a barreira dos 1.000%.

O PMDB já amargava cisões internas. A bancada na Assembleia contava com cinco parlamentares a menos: Sérgio Zambiasi e Solon Tavares constituíram o PTB; Jauri de Oliveira, o PSB; Ecléia Fernandes, o PSDB, e Carrion Júnior migrou para o PDT. Além da questão do magistério, o partido governista era agitado internamente por uma polêmica em torno da confecção do orçamento público. Muitos correligionários criticaram o governador por não ter marcado franco combate às manobras do presidente Sarney em prol da extensão de seu mandato por mais um ano. Sarney contrariava as promessas iniciais de não-intervenção no processo constituinte federal. Em virtude das discordâncias internas, o PMDB gaúcho acabou se pronunciando tardiamente pela manutenção dos quatro anos de governo, quando então a matéria já estava decidida em âmbito nacional pelos cinco anos. Na Assembleia, CPIs eram instaladas, e o deputado Jarbas Lima, do PDS, chegava a encaminhar um pedido de impeachment do governador.

No dia 26 de outubro de 1988, foi instalada a Constituinte estadual, abrindo a porta para novas esperanças. Terminava também a nova greve do magistério e anunciava-se a implantação da planta de fenol-acetona no Polo Petroquímico de Triunfo, o que foi, certamente, uma das maiores conquistas daquele governo. Nas eleições municipais de 1988, o PT conquistou a prefeitura de Porto Alegre, onde logo de início chamou a atenção com medidas polêmicas, como a intervenção no sistema de transportes urbanos, ameaçando por semanas as empresas privadas com a encampação.

Os debates constituintes se prolongariam por todo o ano seguinte, e o foco da política estadual deslocou-se maciçamente para o Legislativo, de uma forma jamais vista antes. Quanto ao governo, um dos seus méritos mais pronunciados foi ter respeitado integralmente a autonomia do Parlamento, e o PMDB, embora já combalido, mas ainda com maioria absoluta, soube respeitar as minorias. Desta boa vontade, emergiu a chance de um pacto democrático em prol da nova Constituição que nascia.

Tem gringo na passarela do samba

19 de fevereiro de 2010 1

Divertida a descrição do jornalista norte-americano Glenn Belverio de sua passagem pela passarela do samba, no Rio de Janeiro. O testemunho reitera o que sublinhei no meu post anterior, sobre o carnaval: trata-se de um raro caso de comemoração capaz de condensar a identidade nacional aberta a qualquer estrangeiro, apesar de sua extraordinária especificidade cultural. Alguns talvez reconheçam Belverio de outros carnavais. Ele é a célebre Drag Queen Glenda Orgasm que interage com a historiadora Camille Paglia num picante documentário feito em Nova Iorque no início dos anos 1990 e que está transcrito no livro “Vampes & Vadias”, da mesma autora. Divirta-se: Carnaval in Rio

Impasse no GDF

19 de fevereiro de 2010 1

E o que vocês me dizem dessa ópera bufa que está em cartaz em Brasília?


Para felicidade geral da nação, o Governador Arruda segue preso. Bom, sabemos que é só prisão preventiva e que, no futuro, provavelmente a nossa leniente legislação processual penal permitirá todo o tipo de chicanas da parte de seus advogados de defesa, selando, ao fim e ao cabo, mais uma vez, a impunidade. Então, vamos curtir esses diazinhos, porque eles estão redimindo um pouquinho o trabalhador honesto que paga impostos regularmente e luta para criar seus filhos com dignidade no país da lama na política.


Aí o vice, Paulo Octávio, célebre empresário brasiliense, igualmente acusado de envolvimento no escândalo do Mensalão do DEM, diz que renuncia, depois volta atrás, afirmando seguir recomendação do Presidente Lula, que, por sua vez, teria se indignado com a referência, constrangendo-o a retroceder: PO asseverou, então, ter entendido mal os dizeres do Presidente e se expressado pior ainda. Então ta! Fica o dito pelo não-dito.


Mas tudo indica que o Presidente da República não está nem um pouco confortável com a perspectiva de intervenção federal no GDF. E por que seria isso? Bom, ele carregaria o ônus de nomear, em pleno ano eleitoral, um interventor, num estado encharcado de falcatruas e de governabilidade totalmente comprometida. Sim, mas não é precisamente isso o que justificaria a medida extrema da intervenção? Sim, é. Mas parece que tamanha responsabilidade incomoda.


É absurda a tese de que uma intervenção ofenderia a “autonomia” do DF. Ora, a turma que lá se instalou já ofendeu esta autonomia há muito tempo. A autonomia só existe porque no povo reside a soberania e esta foi brutalmente violentada pelo esquema de corrupção para o qual se constituíram já fartas evidências. A intervenção, ao contrário, contribuiria para restaurar esta autonomia já tão escarnecida.


Além disso, a medida impacta o Congresso Nacional. Enquanto durar a intervenção, nada de aprovar emendas à Constituição Federal. Está na pauta, por exemplo, a PEC que substitui a jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas…


Ok, aqui a porca torce o rabo. É por isso que eu venho dizendo aqui neste blog que a impunidade e a corrupção vão acabar nos conduzindo a um impasse nacional, caso não haja vontade política de enfrentar o problema de fato. Enquanto empurrarmos com a barriga a necessidade de reforma legislativa e institucional – sobre a qual já se falou muito aqui – os impasses tenderão a se agigantar. Está na hora de encarar o problema de frente. A intervenção pode ser uma cunha na nossa tradição de amorcegar as coisas, um passo importante para discutirmos as reformas que se impõem, a começar pelo enxugamento do excesso de recursos da nossa legislação processual penal.


De qualquer forma, penso que o constrangimento gerado pelo vai-não-vai de ontem acabou representando um empurrãozinho a mais no sentido da intervenção. A ver.

O lixo do vizinho...

18 de fevereiro de 2010 5

Lixo é uma coisa bizarra. Todos os dias a gente tenta se livrar dele. E estamos sempre o produzindo novamente.


Eu penso muito no lixo. Impressiona-me como geramos todos os dias montanhas dele. Coisas da nossa sociedade moderna de consumo…


Noto que produzimos muito mais lixo seco do que orgânico. Isso sempre me incomoda, pois parece que estamos desperdiçando energia e matéria prima, que estamos contribuindo para entupir o planeta de porcarias: plásticos, garrafas, latas…


Assim, no meu dia-a-dia, tento minimizar o impacto do lixo que produzo. Há vários anos aderi à coleta seletiva. Instaurei o hábito nos dois prédios onde fui síndico. Até hoje funciona direitinho.


Tanto em Porto Alegre, quanto em Gramado, as cidades onde moro atualmente, a Prefeitura nos favorece com um bom serviço de coleta seletiva. Em Gramado, tem até coleta do chamado lixo verde, que é aquele resultante da poda das plantas do jardim.


É um conforto. O caminhãozinho vem e recolhe o lixo na porta de casa. O orgânico passa três vezes por semana. A coleta seletiva acontece uma vez por semana, assim como a coleta do lixo verde.


Na França é bem diferente. Precisamos estocar o lixo que produzimos em casa e levá-lo até os contêineres do quarteirão: há um para os plásticos, outro para os vidros, outro para papelão… Nós mesmos fazemos a triagem. É uma mão de obra daquelas! Em algumas cidades menores, é preciso encher o porta-malas do carro com o lixo e levar tudo até o centro de triagem. E todo o mundo faz isso.


Aqui no Brasil, nem tem desculpa, pois basta separar em saquinhos diferentes e o caminhão passa na porta de sua casa. E a triagem é feita num centro específico para este fim.


Ainda assim, muita gente não se liga na necessidade de separar o lixo. No Rio de Janeiro, morei num prédio que não fazia coleta seletiva. Em Gramado, percebo que muitos vizinhos não têm paciência de guardar o lixo seco por uma semana, esperando pelo caminhãozinho, e o dispensam junto com o orgânico.


Eu, já fico pensando em como reduzir o lixo que produzo. Com a maior parte do lixo verde, fizemos uma composteira, que hoje fertiliza a hortinha no quintal. Os galhos são picados para produzir lenha e gravetos para a lareira.


Para não depositar os sacos de lixo que o lixeiro recolherá na calçada, instalei uma lixeira. Controlo o horário do caminhão e deposito ali o lixo tarde da noite anterior à manhã em que ele passará. A idéia é não deixá-lo exposto junto à calçada desnecessariamente, pois me parece uma interferência desagradável na paisagem.


Tudo muito bem. Até que os vizinhos resolveram utilizar a minha lixeira e não a deles! Como foi que eu não pensei nisso antes? Que algumas pessoas poderiam achar uma idéia genial depositar o lixo no terreno do vizinho?!!


Como os vizinhos não se ligam nos horários do caminhão, a minha lixeira agora fica atrolhada todo o dia. Uma feiúra só! Às vezes azeda – eca! E quando vou colocar lá o meu lixo, já nem tem mais espaço.


Botei um cartaz na lixeira, pedindo compreensão. Não adiantou. Liguei para alguns vizinhos. Também não surtiu efeito. Resolvi passar o cadeado na lixeira!


Mesmo assim, eu me ralo. Porque o lixeiro passa às 7 horas da manhã. E eu acordo por volta das 8 horas. Acordo devagar, faço o mate, leio o jornal… Nesse meio tempo, um vizinho já colocou o lixo dele ali e todos precisaremos esperar dois dias para que seja recolhido…

Belo Carnaval!

17 de fevereiro de 2010 1

Mudando um pouco minha rotina, este ano não pulei o carnaval. Mas alguns lances acompanhados por flashes na televisão ou na Internet me chamaram a atenção.

Em Salvador, apesar de problemas técnicos no trio elétrico, no sábado, Daniela Mercury, que comemora 15 anos do Circuito Barra-Ondina, por ela iniciado, roubou a cena. Inovou mais uma vez, com um Trio sem cordas e acompanhado de parte da orquestra Neojibá, sinfônica jovem do Teatro Castro Alves. Eu tive a oportunidade de assistir a um ensaio dessa orquestra quando estive no Castro Alves com Philip Glass, em 2008. O teatro é uma jóia. Muito bem administrado. O coração cultural de Salvador. E a orquestra presta um relevante serviço social. Achei, portanto, muito meritório o destaque que Daniela deu a esta iniciativa.

Além disso, a combinação do erudito e do popular, do teatro e das ruas, tem tudo a ver com o conceito de seu último CD, o “Canibália”, que celebra a potência do diálogo intercultural brasileiro, tanto entre a cultura local e as influências externas, quanto entre a cultura popular e a alta cultura. Ótimo!

Eu também gostei dos duetos com Gilberto Gil, em frente ao Expresso 222, e com Cláudia Leite, já em Ondina. E o figurino que ela usou no sábado estava espetacular! Confira aí: Daniela Mercury Trio

No último dia do carnaval baiano, sempre com figurinos luxuosos, Daniela continuou fazendo a diferença. Chamou para o trio Margareth Menezes, Didá e Tatau, numa homenagem a Neguinho do Samba, inventor do samba-reggae, um dos fundadores do Olodum e criador da escola Didá. Fechou assim um belo arco: da inovação com o erudito para a emulação das raízes da música pop baiana contemporânea.

No Rio de Janeiro, sou apenas mais um a me declarar extasiado com o desfile da Unidos da Tijuca. Foi lindo! E literalmente mágico! A comissão de frente surpreendeu radicalmente! E o carro representando o incêndio da biblioteca de Alexandria estava magnífico.

Gostei também dos acrobatas da Salgueiro, da bateria da Portella e do samba de Martinho da Vila homenageando a poesia de Noel Rosa. Foi bom o tom crítico do enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, que retratou paraísos fiscais, religiosos, de consumo, etc…

Impossível não notar que o Rio de Janeiro voltou a ser destino das grandes estrelas internacionais. Bom para a cidade e bom para o carnaval.

Neste departamento, o centro das atenções, claro, foi Madonna. Gostei de ver as fotos com ela. Raramente se vê Madonna em público assim tão espontânea e relaxada. Há anos nos acostumamos a vê-la circulando pelo mundo numa bolha de luxo, cercada de seguranças antipáticos, e sem emitir sorrisos ou interagir com os fãs. Para quem estava parecendo um robozinho, deixar-se fotografar sentada no chão é extraordinário. Parece que o Brasil tem tido forte efeito sobre a diva pop. Confira aí alguns lilnks: Madonna na Sapucaí ; No Camarote da Brahma

Celebrando o Carnaval!

12 de fevereiro de 2010 1

Chegou o Carnaval! Reproduzo abaixo para vocês um trecho de uma aula que ministrei na Université Paris VII, Denis Diderot, em janeiro de 2009, quando, dentre outras coisas, falei sobre o Carnaval. Este texto foi publicado em francês em setembro último pela Editora Flammarion.



Se escaparmos da prisão estruturalista proposta por Roberto DaMatta em seu “Carnavais, malandros e heróis” e injetarmos historicidade no argumento do antropólogo, há muito de sua análise que é possível reter. Creio que DaMatta acerta em cheio ao caracterizar o carnaval como um evento extraordinário previsto, caracterizado pela extrema descentralização e pela inversão de hierarquias. Um momento onde “as classes sociais podem se relacionar de cabeça para baixo”, pois “o elemento mediador entre elas não é somente o poder e a riqueza, mas o canto, a dança, as fantasias, a alegria”. O recado do carnaval é que “as diferenças existem, mas todos são também e primordialmente humanos”.


O carnaval não é de ninguém e é de todos. É uma festa do povo, um evento da massa. A organização do carnaval se dá a partir da desorganização. É o caos da massa produzindo uma ordem própria. Algo, creio, para fazer tremer conservadores empedernidos como o filósofo espanhol Ortega y Gasset. O carnaval brasileiro é, neste caso, a prova de que Gasset errou feio, pois a massa não apenas pode ser criativa como pode produzir uma ordem a partir da descentralização total. Para além disso, DaMatta acerta novamente ao notar que o carnaval se inscreve dentro de uma cronologia cósmica, pois situa-se numa escala cíclica, independente de datas fixas. É o momento de exagero que se antecipa à continência da Quaresma, revelando valores não apenas brasileiros, mas cristãos. É uma “comemoração cósmica” que “celebra o estado de ser pobre e destituído”, com “fantasias que distinguem e revelam”. As muldidões, portanto, que engendram o carnaval com criatividade incomum, o fazem a partir de uma legitimidade na tradição – status que Ortega y Gasset nega terminantemente a elas.


DaMatta acredita, ao meu ver corretamente, que o nome escola de samba tem um significado compensatório. No Brasil, os pobres e os “menos instruídos” se reúnem numa escola de samba e surgem como professores, ensinando o prazer de viver atualizado no canto, na dança, na música, na fantasia. A escola de samba, penso, é uma dessas instituições que oportunizam um efetivo “diálogo intercultural” interno, para usar conceito do filósofo François Jullien. Graças à dinâmica do carnaval, os traços da cultura popular que ali se configuram foram elevados à condição de festa nacional, condensando a identidade brasileira. A elite não apenas admira a cultura popular, como aprende com ela. Esta circularidade permite a elisão das fronteiras rígidas entre uma alta cultura e a cultura popular, pois o samba e o carnaval não apenas foram incorporados pela indústria cultural de massas, como aconteceu com o rock’n roll e o jazz, como ainda adquirem o status de essência da identidade brasileira. Dizer que o Brasil é o País do carnaval é aceitar que a cultura popular ganhou ali uma espécie de trono.


E este diálogo não pára. No Rio de Janeiro, o carnaval surgiu originariamente no modelo entrudo, festa que teve início em princípios do século XVIII, trazida por imigrantes portugueses das ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde. O entrudo é um jogo que se caracteriza pela ocupação violenta das ruas. Era forte a participação do elemento escravo nestes momentos, liberto temporariamente de algumas amarras sociais. Não havia música. Apenas correrias e agressões. Trata-se de uma válvula de escape simbólica, que ainda hoje subsiste em cidades da fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina, onde se verificam combates com água, farinha, espuma, etc…


No século XIX, a elite urbana importou da França os bailes de carnaval, tendo o primeiro se realizado no Rio de Janeiro em 1840. Introduziram-se as fantasias e a música: valsas, mazurcas, tangos. Em 1847, apareceu o Zé Pereira, personagem de um português bigodudo portando um enorme bumbo tocado sem musicalidade: foi o precursor dos blocos. Na década de 1860, a polca invadiu os salões. Foi um passo para o maxixe. O samba nasceu em 1917 da fusão do maxixe com o batuque dos africanos e com o lundu, uma dança de natureza híbrida, malemolente e lasciva, criada pelos escravos bantos trazidos de Angola e fundida a ritmos portugueses, aproveitando características de danças ibéricas, além do acompanhamento instrumental do bandolim. Antes disso, entretanto, o carnaval do Rio já era embalado pelas marchinhas. Em 1899, Chiquinha Gonzaga compusera já a primeira música feita especialmente para o carnaval: “O abre-alas”. E Carmen Miranda tornou-se a rainha do carnaval carioca nos anos 1920.


O carnaval refinado europeu, que se concentrava na Rua do Ouvidor, foi perdendo forças, na esteira da decadência das sociedades de elite que o sustentavam, enquanto o carnaval mais popular desenvolvia-se espontaneamente, espalhando-se com certo descontrole pela cidade. Ao ser guindado ao poder pela Revolução de 1930 e, posteriormente, pelo golpe que instituiu o Estado Novo, Getúlio Vargas fez o estado intervir na festa, subvencionando-a e ordenando-a, de maneira a conter o seu potencial ofensivo. Surgiram as escolas de samba, nascidas nos morros e nos subúrbios, e os desfiles comportados, que cresciam a medida em que os irreverentes e tradicionais blocos eram esvaziados. Introduziu-se o espírito competitivo entre as escolas, o que passou a funcionar como estímulo no sentido da permanente qualificação do espetáculo, contribuindo ainda para a sobrevivência do novo modelo. A festa foi cada vez mais regulada pelo Poder Público, mas as escolas a organizam autonomamente.


Hoje, o carnaval converteu-se numa indústria cultural de massas e em principal atração de uma poderosa indústria turística. No Rio de Janeiro, as escolas protagonizam o maior show business do mundo, envolvendo milhares de pessoas, gerando renda e empregos e com orçamentos milionários. Registra-se um aumento de 40% no fluxo de turistas no período do carnaval. São mais de 50 mil desfilantes, assistidos por 60 mil pessoas. 40% dos ingressos de acesso ao sambódromo são distribuídos ao povo, ou comercializados a valores módicos. Cada escola de samba doa centenas de fantasias, para garantir a presença das comunidades nas quais elas se originaram. Uma parte das fantasias é comercializada a preços salgados para moradores do Rio, de fora das comunidades, ou para turistas, nacionais e estrangeiros, que já não se contentam em assistir ao carnaval: querem também fazer parte dele, desfilando na avenida!


Deriva daí mais uma fórmula peculiar. Pois se trata talvez do único caso de uma grande festa nacional, que pretende condensar a essência da identidade cultural de uma sociedade, completamente aberta a qualquer um, seja nacional ou estrangeiro. De fato, quem assiste ao carnaval carioca pela televisão nutre a impressão de que o espetáculo é resultado de meses e meses de ensaios, sendo acessível apenas às pessoas capazes de desenvolver muita intimidade com o meio, dominando a letra da música, os passos da dança, as evoluções, etc. Com efeito, os ensaios existem e, aliás, também estão abertos aos turistas. Mas as escolas de samba possuem uma estrutura ao mesmo tempo rígida e fluída. Dividem-se em alas, cada qual com a sua fantasia. E o desfile está circunscrito ao espaço da avenida. Um estrangeiro qualquer pode comprar uma fantasia e integrar-se a uma ala. A letra do samba enredo aprende-se na hora, para aqueles que falam o português. A falta de samba no pé não será percebida se o estrangeiro desajeitado desfilar no centro da ala, evitando as laterais, cuidado devidamente providenciado pelos chefes de alas. O estrangeiro dificilmente compartilhará o espírito de competição entre as escolas, mas poderá fruir o prazer de desfilar, de brilhar na avenida.


No carnaval de Salvador a integração é ainda mais fácil. Basta sair pela rua, pois bem diz a letra da música: atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu. Para aqueles que temem a multidão, há a possibilidade de adquirir um abadá, espécie de camisa com as cores do bloco, que dá direito ao usuário abrigar-se atrás de uma corda guarnecida por seguranças. Isto sem mencionar os camarotes, alguns dos quais, imensos. Não é á toa que em todo ano estima-se o crescimento da festa em pelo menos 5% nos grandes centros urbanos: ela tem o mundo inteiro para acolher!


Ora, vê-se daí que o carnaval não tem nada de perpétuo, ou de estático, como deu a entender DaMatta com sua análise estruturalista. Ele já mudou muito. E continua mudando. Porque é justamente o contrário: um espaço de dinamismo, de hibridismo simbólico, de disputas e de diálogo intercultural. Ao olharmos para a historicidade do carnaval, vemos uma instituição que funde permanentemente o moderno e o arcaico. Neste sentido, o carnaval pode ser interpretado a partir da metáfora antropofágica de Oswald e de Mario de Andrade.


Enfim, diferentemente do Dia da Pátria, um ritual totalmente voltado para dentro da sociedade brasileira, quando se destacam os símbolos nacionais, como a bandeira, o hino, o dia da Independência, o carnaval, como celebração cósmica, é voltado para fora, como nota DaMatta com perspicácia: “as fantasias atualizam combinações totalmente não-gramaticais do cotidiano da cultura brasileira”, criando um campo heterogêneo. Assim, é comum ver um bandido bailando com um xerife, uma caveira cortejando uma moça, homens vestidos de mulheres… As fantasias criam um campo social de encontro, de mediação, de polissemia, onde a união se dá pela suspensão de fronteiras que normalmente compartimentalizam grupos e pessoas. Há lugar para todos os seres, todos os tipos, todos os personagens. Todos os valores estão contemplados com igual grandeza. Trata-se de um “festival popular, marcado por uma orientação universalista, cósmica, que dá ênfase a categorias mais abrangentes, como a vida em oposição à morte, a alegria em oposição à tristeza”. E, além disso, um “campo social aberto, situado fora da hierarquia”. Como no carnaval nenhum folião busca um alvo inadiável ou objetivo focado – como fazemos no dia-a-dia do trabalho, do partido político, do clube social -, pois o que se busca lá é a alegria, o prazer, a música, a dança, surge uma comunidade abrangente e inclusiva.


DaMatta caracteriza, ainda, a escola de samba como uma organização coletiva, mas que permite e estimula o destaque. A palavra destaque designa já a pessoa que se projeta no momento do desfile, tornando-se uma celebridade temporária. Para DaMatta, tudo que é rigorosamente coletivo numa escola de samba, como a bateria, é uniforme, perde em brilho e em evolução. Para ele, se no mundo diário a escola suprime individualidades, ordenando-se em torno do poder patronal do seu presidente, no desfile, justamente ao contrário, ela permite o desencadear de individualidades. Esta constatação esvazia certo debate contemporâneo que acredita avançar no carnaval um exibicionismo crescente do indivíduo. Pois, afinal, altamente afinada com a contemporaneidade narcísica, é precisamente isto o que a escola de samba se propõe a fazer: projetar o indivíduo, positivando o exibicionismo. A única coisa que talvez mereça ser atualizada neste particular é que quando DaMatta escreveu seu livro, os destaques eram em sua maioria mulheres ou homossexuais. Hoje, diluiu-se muito o tabu em torno do nu masculino e muitos homens heterossexuais desfilam em posição de destaque.


Em outros aspectos, a análise de DaMatta aparece mais datada. Quando escreveu seu livro, o centro do Rio de Janeiro era o território do carnaval. Hoje, o carnaval acontece em um lugar construído especialmente para ele, o sambódromo, na zona norte. A cidade do Rio de Janeiro, também mudou. Há muito os bairros da zona sul deixaram de ser zonas quase que apenas residenciais, contribuindo para esvaziar a lógica binária de centro/bairro, trabalho/feriado, fluxo para casa/fluxo para o trabalho.


Fora do sambódromo, fervilham por toda a cidade os blocos, de maneira espontânea e muito pouco hierarquizada. Nos últimos anos, houve um renascimento do carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. Esta ebulição é caótica. Muitos blocos não têm horário certo para partir, nem percurso plenamente consolidado, o que é bem diferente de Salvador, onde o desfile acontece em circuitos comuns, pré-definidos.


A caracterização da hierarquia interna das escolas de samba como algo extensivo a todo o carnaval também deve ser relativizada. Em Salvador, por exemplo, a competição entre os blocos é irrelevante. O carnaval de Salvador pouco conhece das fantasias elaboradas e dos desfiles ordenados. É a elevação do hedonismo à potência máxima. Como registra Camille Paglia: “O carnaval de Salvador é tão impressionante e multifacetado que nunca poderá ser completamente documentado.  O grande carnaval do Rio de Janeiro, em contraste, tornou-se uma série de painéis para ser vista da arquibancada, como no futebol. Pode ser descrito por câmeras postas em locais predeterminados. Mas o carnaval de Salvador não pode ser realmente fotografado. A cada noite, entre os milhões de foliões seguindo os trios elétricos, há bilhões de interações humanas e um caleidoscópio onírico da arquitetura da cidade que vai se descortinando. Não há paralelo nos Estados Unidos para a liberdade de movimento do carnaval de Salvador.


A festa de massa em toda a sua plenitude. A tomada completa de várias ruas da cidade, num enorme perímetro pelo qual transitam os trios elétricos, desfilam os blocos, as tribos e os afoxés. Um carnaval que se reinventou completamente nos últimos 30 anos, criando até novos ritmos, como o axé, e em torno dele toda uma indústria cultural própria, com forte ênfase regional, mas que se internacionaliza progressivamente.


Na década de 1970, vivia-se já o eclipse dos bailes de carnaval de salão, em todo o País. No Rio de Janeiro, a transposição do carnaval para a Avenida Sapucaí e a construção do sambódromo tornaram o espaço protegido do salão redundante. A nova estrutura encarregou-se de propor o carnaval segundo moldes que contemplam as diferenciações sociais. Há as arquibancadas, as mesas, as frisas e os camarotes. Alguns camarotes são tão grandes que conformam verdadeiros bailes, reunindo centenas de convidados. A mesma dinâmica dos camarotes transportou-se para o popular carnaval de Salvador. De qualquer forma, os camarotes aproximaram a classe alta da rua, pois transportaram o clube para a rua. E é o povo que continua a fazer o espetáculo, que continua a criar o carnaval.


Quando DaMatta escreveu seu livro, São Paulo era ainda considerada o túmulo do samba. Com forte presença da imigração européia e inserida na dinâmica capitalista global, seus habitantes viam no feriado de carnaval uma oportunidade para deixar a metrópole. Esta realidade se transformou. O carnaval de São Paulo organizou-se a partir do modelo do Rio de Janeiro e hoje oferece um espetáculo de igual grandeza, embora sem a mesma tradição. O carnaval de São Paulo beneficiou-se da pujança do pólo economicamente mais dinâmico do País. É também transmitido pelos canais de televisão aberta. Em São Paulo, entretanto, o carnaval circunscreve-se ao sambódromo. É, por enquanto, irrelevante o papel de blocos na cidade.


A hierarquia religiosa, cristã, que conforma o carnaval está diluída. Quando DaMatta escreveu seu livro, o carnaval encerrava-se na Quarta-Feira de Cinzas com o “silêncio pesado de uma missa”, celebração, esta, da qual mal se ouve falar hoje em dia. Embora o Brasil permaneça ainda um país predominantemente de fé católica, há muito a Igreja perdeu o monopólio das relações com o espiritual. Os anos 1980 viram crescer exponencialmente as igrejas neopentecostais e, em cidades como Porto Alegre e São Paulo, os rituais espíritas e afro-brasileiros gozam de grande prestígio e dinamismo. O ciclo de penitência e arrependimento da Quaresma perdeu amplitude. Hoje, a Páscoa é celebrada apenas num final de semana. No século XIX, havia os anos de Quaresma, nos quais toda diversão era banida. Se o tempo da Quaresma vem encolhendo, o do carnaval, ao contrário, se alarga. Em Salvador, começa já na quinta-feira. Isto sem falar nas Lavagens, como a do Rio Vermelho, no dia 2 de fevereiro, ou a do Bom Fim, que antecipam a folia. As Micaretas, festejadas em junho, deslocam o carnaval para o interior e permitem uma continuidade extemporânea da festa.


A extensão do tempo do carnaval talvez possa ser lida como um sintoma da carnavalização, no sentido de ampliação da criatividade e dos espaços de liberdade, da sociedade brasileira pós-abertura política. DaMatta escreveu o seu livro em plena ditadura militar, quando os canais de exercício da cidadania estavam comprimidos. O estado impunha a censura, cassava mandatos, tutelava os partidos, manipulava a legislação eleitoral, perseguia, torturava. Em tal ambiente, não estranha a dificuldade para encontrarmos o que DaMatta chama de instituições totais, isto é, aqueles agrupamentos que definem bem suas fronteiras internas e externas, se concentrando em objetivos específicos. Grupos de interesse, cuja presença é fundamental para animar uma democracia.


O carnaval brasileiro encontrou uma fórmula peculiar de inclusão quase sem fronteiras. Como campo de inversão de hierarquias e aberto a todos os gostos, todos os valores, todas as formas, como um território, embora reproduzindo a diferenciação social e dialogando com o mercado, sem comando centralizado e com estruturas altamente fluídas, ele se abre à participação de todos os sujeitos, estabelecendo por objetivo central o essencialmente humano que está contido no riso, na diversão, na alegria, na dança, na música, no prazer. O carnaval, fusão de cristão e de pagão, hibridizando as culturas ibéricas, européia e africana, domesticado pelo estado interventor de Getúlio Vargas, terminou por engolir a identidade brasileira, confundindo-se em essência com ela, para se converter em indústria cultural e, recentemente, em produto de exportação. Finalmente, no sentido dado pelo filósofo François Jullien, projeta-se cada vez mais como um rito informal, que permite a emergência de um superampliado comum, no que este conceito tem de político, em toda a sua dimensão muilticultural e tolerante.

Ainda há juízes em Brasília!

12 de fevereiro de 2010 14

Só posso festejar a decisão do Ministro Fernando Gonçalves do STJ que levou às barras da prisão o tal Arruda. Bem como a decisão do Ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que não acolheu o habeas corpus da defesa. O fato tem um simbolismo impressionante. Contrariamente ao melancólico lamento do Presidente Lula, ele reforça a democracia. É um indício de que a sociedade não agüenta mais tanta safadeza dos políticos e a impunidade pode estar com os dias contados. Para Lula, ficou chato.


Além disso, está na hora de deixar a hipocrisia de lado: o atual Governo segue as pegadas do anterior e vomita diariamente leis, regulamentos e o escambáo como se fosse uma usina do “uniforme”, promovendo tijolo por tijolo a centralização política e administrativa em Brasília, em flagrante desrespeito às autonomias regionais. Exemplos claros disso são a nossa atual política fiscal, o projeto de reforma da Lei Rouanet e o Plano Nacional dos Direitos Humanos.


Porém, na hora de se posicionar em favor da cidadania, o Presidente abraça o tabu da não intervenção nos estados. Precisamos parar este moedor de carne centralizante. Mas precisamos também admitir que certos estados, em certas oportunidades, precisam estar sob intervenção federal. É o caso evidente do DF. Está certa, portanto, a Procuradoria-Geral da República! Está na hora de produzirmos esta jurisprudência no Brasil contemporâneo.


Finalmente, também é poderosamente simbólico que esta prisão ocorra às vésperas do Carnaval, período mais conhecido entre nós pela paralisação da Justiça e da política, em benefício da fantasia e da celebração multicultural e tolerante. O Brasil amadurece: mesmo no auge da festa, mostra-se responsabilidade.

Crash de Divas!

11 de fevereiro de 2010 10

Pelo inusitado da situação, não dá para deixar de comentar o crash de Divas do mundo pop no Hotel Fasano, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Em qualquer lugar do mundo seria improvável reunir Madonna, Beyoncé e Alicia Keys no mesmo hotel, por acaso. O que está por trás disso?


Bom, é o Brasil pós-G 20, o Brasil dos BRICs, o Brasil sede da Copa do Mundo e sede das Olimpíadas, o Brasil que entrou mais tarde e saiu mais cedo da crise global, o Brasil, enfim, que chama a atenção do mundo.


A veterana Madonna mostra saber disso perfeitamente. Veio captar alguns milhões de dólares para a sua ONG junto aos novos ricos tupiniquins e partilhar seus projetos sociais. Na bolsa da solidariedade, ela agrega valor à sua imagem. E, investindo no país sobre o qual há uma lente no momento, ganha centralidade nos noticiários internacionais.


Esperta, revela ter compreendido as críticas que lhe foram dirigidas quando o precipitado Prefeito do Rio de Janeiro convidou-a para fazer a abertura dos Jogos Olímpicos, qual seja, a de que ela não tem qualquer parceria ou identificação com a cultura brasileira, ao contrário de outros artistas norte-americanos, como Phillip Glass, David Byrne e, mesmo, como tinha Michael Jackson. Assim, Madonna volta ao Brasil para assistir ao desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro. Além disso, há quem a espere em Salvador, onde seu ex-boy toy Jesus Luz atacará de DJ num camarote.


Madonna, embora sempre emplacando sucessos, vive hoje mais de administrar competentemente a fama conquistada no passado, explorando nichos de notoriedade e costurando parcerias que ajudam a manter a sua música acordada ao novo, do que de genuína criatividade. Nos Estados Unidos, maior mercado para a cultura pop de massas do globo, já não se fala mais muito nela.


Beyoncé, ao contrário, está na crista, onde Madonna esteve até meados dos anos 1990. Beyoncé acaba de ganhar o Grammy. Aqui no Brasil, abriu o seu show com “Crazy in Love” uma das melhores canções pop da década passada. Seu recente “Singles Ladies” tornou-se um impressionante fenômeno de massas: dúzias de anônimos e celebridades parodiaram a coreografia desse clipe.


Beyoncé e Alicia Keys seguem os passos do imperador do pop Michael Jackson e gravam um clipe no Morro Dona Marta – onde, aliás, Madonna estivera também em novembro, visitando um centro social de dança: e mostram que “se importam com a gente”! Vejam as imagens:
Beyoncé e Alicia Keys no RJ Mas pára por aí!


Beyoncé tratou Ivete Sangalo, cuja empresa contratou sua turnê pelo Brasil, como uma moleca, destinando-lhe o papel dessas bandas de absolute begginers – como diria o duque branco Bowie – para fazer a abertura dos seus shows! O problema é que Ivete Sangalo é uma das grandes estrelas da música pop brasileira. E a música popular brasileira é, reconhecidamente, uma das mais elaboradas e qualificadas do mundo. Nada tenho contra Beyoncé: acho ela gostosa, dinâmica e competente, mas ela é um fenômeno show-bizz impermeável a qualquer forma de improviso afetivo e poderosamente criativo, o que há de sobra no nosso carnaval de rua e na nossa MPB.


Mais novinha e menos sambada que Madonna, Beyoncé não fez questão de esconder a sua arrogância. Não subiu no Trio Elétrico de Ivete Sangalo, como originalmente prometido pela produção; não cantou nenhuma música com Ivete, nem que fosse para manter as aparências de uma colaboração artística entre ambas; sequer tirou uma foto com Ivete! Segundo dizem os jornais por aí, nem a recebeu…


Não surpreende que, sob tal tensão, Ivete tenha escorregado e caído no palco em São Paulo, machucando o joelho. Tentando disfarçar o mal-estar – ampliado com rumores sobre uma altercação entre Beyoncé e sua produção nos corredores do Hotel Fasano, que acabaram ganhando a Internet – Ivete traz Xuxa ao palco, para saudar a platéia no show de Salvador, e brinca com o público, vestindo a carapuça de sub-star: “Eu sou a Beyon-A, a Beyon de Salvador, e a minha melhor amiga nessa noite é a Beyoncé”.


Acho que uma cantora do calibre de Ivete não merecia passar por isso, em sua própria terra. Creio que ela sai diminuída de todo este episódio, pois não só arranha a sua imagem de vigorosa diva nacional da música pop, ao engolir o papel de vassala desimportante, como empana com isto a possibilidade de alavancar uma carreira internacional, o que é, sabidamente, dificílimo para os artistas e intelectuais brasileiros.