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Saudável debate!

06 de março de 2010 2

Achei excelente o Caderno de Cultura de hoje na Zero Hora. Veja o link: Caderno de Cultura ZH

Confirma sobejamente o que esbocei no meu post de 1º de março: os episódios do “fechamento temporário” da sala Norberto Lubisco e da demissão do Professor Voltaire Schiling liberaram a torrente de insatisfação com a nossa gestão estadual da Cultura. O Caderno de hoje restaura o debate em torno da Cultura, reposicionando-o no centro da arena pública. Todos os colaboradores estão de parabéns! Creio que precisamos agora aproveitar este momento para sensibilizar possíveis futuros governantes para a importância do setor.


A título de registro mnemônico, reproduzo aqui um artigo do teatrólogo Luiz Paulo Vasconcellos, que foi publicado na Zero Hora a cerca de dois anos. Naquela oportunidade, entretanto, o debate não chegou a engrenar. O que nos leva à incômoda questão, formulada no artigo de sábado passado por Cláudia Laitano e recuperada no artigo de hoje de Paulo Amaral, sobre os motivos que conduziram à comunidade cultural e intelectual gaúcha a esta apatia.


Qual é a sua opinião a este respeito?

Veja o artigo de Luiz Paulo Vasconcellos:

“Desde quando faxina é cultura?



A secretária de Estado da Cultura – e, por tabela, a governadora também – precisam saber que “a intenção de usar a Cultura para promover a inclusão social” é picaretagem, demagogia ou, para ser um pouquinho mais erudito, uma falácia. Se elas pensam que comovem a sociedade – olha como elas são boazinhas, como estão preocupadas com os pobrezinhos!… – devem logo logo tomar consciência de que a sociedade, pelo menos a parcela da sociedade minimamente culta, abomina essa maquiagem com a qual o Governo do Estado conspira contra uma verdadeira política cultural. É claro, cultura é um termo genérico demais, sob o qual cabe desde o Porto Alegre em Cena ou o Museu Iberê Camargo, até “as ações sociais junto às áreas de educação, segurança e saúde”. E isto é cultura? – pergunto eu. Porque os governos têm sido incompetentes e a sociedade refratária à miséria que vai tomando conta das sinaleiras de Porto Alegre, agora a secretária da Cultura tem que brincar de fada madrinha e promover a troca de “armas de brinquedo” por livros? Que livros, minha senhora? E as armas verdadeiras, o que fazemos com elas? Continuarão sendo usadas em assaltos? Inclusive a livrarias? E o que dizer sobre o projeto Hip-hop e Funk? Uma mostra competitiva de grupos com Oficinas de rap e grafite. Gente, nem no pior dos governos populistas se promoveu esse tipo de coisa.

Tem ainda a limpeza dos monumentos históricos e prédios tombados. Um dia no semestre. Em agosto. E desde quando faxina é cultura? E os projetos para a dança, para as artes plásticas, para o teatro, para a música, para a memória cultural, para o cinema, para a literatura? – ah, não, a literatura está contemplada no projeto das tais bancas montáveis em praças de cidades para incentivar a leitura. E sob essa intenção caridosa esconde-se toda a promiscuidade de uma política que não passa de esmola, se é que chega a tanto.

Quando o governador Rigotto tomou posse, publiquei na revista Aplauso uma carta em que dizia: “Se a um governo responsável cumpre, por um lado, reconhecer, incentivar e cultivar as manifestações culturais do povo, por outro, deve necessariamente valorizar seus artistas e intelectuais, porque é através de suas obras que a cultura faz algum sentido para a sociedade. O desenrolar da história serve sempre de modelo. Assim, não será demais recordar o papel da democracia na consolidação da tragédia grega, o da igreja na renovação da cena medieval, o do mecenato na transformação da arquitetura teatral renascentista, para ficarmos com alguns exemplos tirados ao acaso da história do teatro. Eurípedes, Shakespeare, Molière, Ibsen, Beckett e O´Neill, para citar apenas alguns dos grandes, resultaram de políticas culturais definidas, não necessariamente ideais, mas de qualquer modo definidas, que reconheciam no artista um elo de ligação fundamental entre governo e povo, entre sociedade e cultura”.

Senhora, secretária: falácia, segundo o Aurélio, quer dizer “qualidade ou caráter de falaz”. Falaz, por sua vez, quer dizer, “1. enganador, ardiloso, fraudulento; 2. vão, quimérico, ilusório, enganoso. No texto do verbete, o exemplo usado é de Euclides da Cunha, e diz: “Será o eterno tatear entre miragens de um processo falaz e duvidoso”. Exatamente como é hoje o projeto de política cultural do Estado.”

Luiz Paulo Vasconcellos

Ator, diretor, professor, poeta e coordenador de Artes Cênicas da Secretaria Municipal de Cultura de POA.

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