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Apagão Humano!

09 de março de 2010 1

Pesquisas e entrevistas celebram o otimismo ubíquo da classe empresarial brasileira para 2010. Pé no acelerador! Investimentos e planos de aquisições crescem na esteira do desempenho positivo do Brasil diante da crise financeira de 2008. Historicamente, restrições como inflação, precariedade infra-estrutural, instabilidade jurídica e falta de capital abundante e barato embaçaram possibilidades de crescimento firme e continuado. Com estes entraves sendo removidos, todos parecem concordar, há um potencial latente de incremento econômico que nem a mais severa crise constrangeria. Sintoma disso é que mal se fala por aqui da nova crise de déficit da Grécia, que também atinge Itália, Portugal, Espanha e Irlanda. O desemprego na Europa e nos Estados Unidos não assusta…


Neste suposto céu de brigadeiro, contudo, há aqueles que já começam a projetar o futuro, identificando novos gargalos. Não se voltou a mencionar o Apagão Elétrico e já se esqueceu o Apagão Aéreo. Mas um novo espectro se anuncia: o Apagão Humano!


Nossas políticas de distribuição de renda, quando implementadas, tenderam a privilegiar estratégias compensatórias, assistencialistas e imediatistas. Não que sejam elas desprovidas de inteira eficácia, sobretudo diante do quadro de premência estabelecido pela enorme injustiça social que caracteriza o Brasil. Mas o passo além nunca foi dado com firmeza.


A educação, como mola propulsora para a ascensão social e amplificação do exercício efetivo da cidadania, foi tratada como apanágio de uma elite. Constituindo-se o analfabetismo numa barreira para o exercício do voto no Brasil pré-1988, notemos que nas eleições de 1946, apenas 16% da população adulta participava do processo eleitoral e, em 1962, últimas eleições antes do golpe civil-militar de 1964, esta participação atingiu o ápice em 24%! Menos de ¼ da população adulta, portanto, efetivamente votava…


Apesar dos investimentos em educação que vêm sendo realizados nas últimas décadas, a média de escolaridade do brasileiro ainda é inferior à da população da Argentina, do Chile, do México e da Índia… Uma das conseqüências disso é o chamado analfabetismo funcional, isto é, quando a pessoa sabe ler e escrever, mas tem dificuldade de se expressar e de compreender o que leu. Uma pesquisa recente do Instituto Paulo Montenegro concluiu que apenas 25% dos brasileiros entre 15 e 54 anos podem ser considerados plenamente alfabetizados do ponto de vista funcional.


Paralelamente, dados do Ministério da Cultura indicam que mais de 80% da população brasileira jamais freqüentou o cinema. Por sua vez, estima o Instituto Pró-Livro, em pesquisa apoiada pela Câmara Brasileira do Livro, que a média de leitura do brasileiro é de 4,7 livros por ano. Se excetuados os didáticos e as leituras obrigatórias indicadas pelas escolas, esta porcentagem cai para 1,3 livros por ano – o que é bastante baixo -, sendo a Bíblia uma das leituras prediletas. Cerca de 75% dos brasileiros jamais vai a uma biblioteca. A pesquisa apurou ainda que o interesse pela leitura aumenta proporcionalmente ao poder aquisitivo e ao nível de instrução dos entrevistados…


É preciso dizer mais?


Segundo matéria publicada na Folha de São Paulo de 14 de fevereiro, a falta de qualificação da mão-de-obra empurrou o Brasil a bater recorde de sobra de vagas no trabalho formal. A taxa de preenchimento de empregos em 2009 ficou em apenas 39%. Trocando em miúdos: há vagas, mesmo em tempo de severo desemprego no resto do mundo, mas não há como preenchê-las, porque a população amarga uma formação educacional e cultural precária que é incapaz de acompanhar os avanços tecnológicos e a sofisticação da economia. Enquanto isso, o desemprego no Brasil segue perto de 9% da população economicamente ativa… Acredita-se que o excedente em 2010 será ainda maior.


Ahhh… sim, o fenômeno também pode ser sentido no Rio Grande do Sul. Ontem a Zero Hora noticiou que apenas 31% do total de vagas oferecidas no comércio da cidade de Bento Gonçalves foram preenchidos. A razão? Falta de qualificação dos candidatos.


Aí todos falam em cursos de formação e capacitação de mão-de-obra para solucionar o problema. Pode ajudar. Um pouco. Mas é paliativo. O verdadeiro problema reside na má qualidade do nosso ensino público e na falta de acesso da população à cultura. Pois, só aprende bem, quem também pode ir ao cinema, adquire o gosto e o hábito da leitura, etc…


Um projeto de desenvolvimento sólido e includente para o Brasil precisa partir do investimento maciço em todos os níveis educacionais. Mas precisa também se articular com a formulação de estratégias para a ampliação do acesso à cultura. O estímulo à leitura está na base disso. É questão de vida ou morte, tão crucial para o desenvolvimento econômico quanto o fornecimento de energia abundante e barata, o crédito farto e a estabilidade da moeda.

Comentários (1)

  • maria diz: 9 de março de 2010

    em toda as areas da cultura deveria ter campeonatos com premiacoes interessantes (to num teclado sem configuracao) como p.ex lindos computadores ou viagens para conhecer outros lugares como no futebol….ai sim a juventudeparticiparia…em vez de roubar tanto dinheiro e mandar para a china …so uma pq sugestao para o governo!

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