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De pato a ganso?

17 de março de 2010 5

Eu não sei quanto a vocês, mas estou com dificuldades para captar o ponto no qual reside a eficácia dessa viagem do Presidente Lula a Israel. Oh, sim: há um tratado bilateral importante daquele País com o Mercosul, mas toda a ênfase presidencial parece ter sido depositada sobre esta inusitada oferta para a mediação do histórico conflito israeli-palestino.


A visita me parece, neste diapasão, algo pretensiosa… Pensem em todos os presidentes da super-potência norte-americana que para lá viajaram e que até agora pouco conseguiram de concreto. Aliás, o momento é de abalo nas relações entre Israel e os Estados Unidos em virtude da decisão polêmica de construção de 1,6 mil novas residências em Jerusalém Leste, área anexada a Israel em 1967 e reivindicada pelos palestinos.


É claro que se trata de um conflito nodal, de cuja solução depende em grande medida a paz no mundo. Mas, ainda assim, é um conflito tão distante do horizonte brasileiro… Ultimamente, acumulamos êxito duvidoso em nossa própria área de atuação natural: o Mercosul está num impasse paralisante e a América do Sul fragmentada pela cizânia ideológica. Se mal conseguimos destravar as coisas em nossa vizinhança, por que mesmo queremos atuar no Oriente Médio?


Para oferecer mediação? Ora, o Brasil não se meteu nem no conflito aqui ao lado, entre a Argentina e o Uruguai, envolvendo as tais papeleiras… Ademais, que me conste, nunca foi convidado para mediar nada no Oriente Médio. Aliás, não sei até onde é produtivo esse oferecimento de mediação. Penso que mediação consistente se conforma por convite e não por oferecimento. Além disso, só funciona quando o mediador tem algo novo para acrescentar ao conflito em tela, é neutro e é discreto. Ora, o Brasil no momento não tem nada disso. Não pode agregar nada de novo. Não é neutro, porque tem apoiado abertamente o Irã, e muito menos faz uma viagem discreta. Nunca vi mediação eficaz começar com estardalhaço – que repercute, bem entendido, apenas aqui no Brasil, já que os sites que consultei ontem e hoje no mundo inteiro mal a noticiaram.


A propósito, também não diviso o benefício real dessa aproximação com o Irã. Daqui a pouco, parte da comunidade internacional pode começar a desconfiar do nosso programa nuclear – que é tolerado por ser sabidamente pacífico e por termos adotado até aqui política externa discreta e harmoniosa.


Certo! Acho ótimo que insistamos na importância do diálogo antes de radicalizar-se com sanções ou atrições de maior escala. Com a Coréia do Norte, o diálogo funcionou. Mas foram os americanos que dialogaram por lá. Há razoável aceitação na comunidade internacional em torno de um programa nuclear pacífico no Irã. O problema é que as dúvidas aumentam e a insegurança também quando Ahmadinejad promete “varrer Israel do mapa”.


Confesso não saber até que ponto essas sanções econômicas multilaterais são eficazes. No caso de Cuba e do Iraque, foram um fracasso. Talvez me engane, mas creio que seu maior efeito foi aumentar a condição de vulnerabilidade da população em relação aos regimes locais, o que terminou prolongando ditaduras. Mas, ao mesmo tempo, enquanto se debate, parece que o Irã vai ganhando tempo para aprimorar o seu processo de enriquecimento de urânio. Difícil construir uma posição a respeito…


E há uma grande diferença entre insistir na manutenção dos canais de diálogo e legitimar declaradamente a fraude eleitoral e a perseguição à oposição, com fez o Brasil com relação ao Irã. Além disso, é notável a contradição em matéria de direitos humanos. Apoiamos o Irã e Cuba, enquanto condenamos o regime eleito em Honduras. Creio que, se o Brasil ainda aspira à vaga no Conselho de Segurança da ONU, não será cavalgando este tipo de contradição que angariará respeito e confiança.


Bom, não tenho ainda opinião formada sobre tudo isso. Vou apenas compartilhando com vocês algumas das minhas dúvidas.

Comentários (5)

  • Sílvio Lewgoy diz: 17 de março de 2010

    Excelente artigo! Lúcido, equilibrado e corajoso. Corajoso porque hoje em dia está ficando difícil ser independente no Brasil. É patrulha que não acaba mais…

  • Raquel diz: 17 de março de 2010

    Pois é, ainda estou tentando entender a tal viagem….
    Achei que talvez tivéssemos alguns assuntos domésticos ainda a resolver internamente pra depois pensarmos em um degrau acima, a mediação de assuntos internacionais, … mesmo que se queira a tal vaga no Conselho de Segurança da ONU.
    Vou digerir o assunto com mais suco gástrico pra tentar entender melhor a questão…

  • Juliano Daitx da Rosa diz: 18 de março de 2010

    1) É claro que se trata de um conflito nodal, de cuja solução depende em grande medida a paz no mundo. Mas, ainda assim, é um conflito tão distante do horizonte brasileiro… Ultimamente, acumulamos êxito duvidoso em nossa própria área de atuação natural: o Mercosul está num impasse paralisante e a América do Sul fragmentada pela cizânia ideológica. Se mal conseguimos destravar as coisas em nossa vizinhança, por que mesmo queremos atuar no Oriente Médio?

    R- Não creio que estas sejam boas razões para pôr em dúvida a eficácia da viagem. Aliás, este teu argumento não prova nada, pois sustenta qualquer resposta: Se as coisas não estão bem num nível continental podem o ser num nível intercontinental e o contrário também é plausível!!! Você não disse nada nesta coluna!!!Teus argumentos, neste caso, nada sustentam e como bem sabemos, em um mundo globalizado seria insensato restrigir a atuação apenas aos países de fronteira. Não acredito que devemos deixar os israelenses e os palestinos cuidar de seus problemas isoladamente, pois já mostraram que assim não conseguem. Temos que ajudar. Todos nós habitantes deste planeta.

    2) Certo! Acho ótimo que insistamos na importância do diálogo antes de radicalizar-se com sanções ou atrições de maior escala. Com a Coréia do Norte, o diálogo funcionou. Mas foram os americanos que dialogaram por lá. Há razoável aceitação na comunidade internacional em torno de um programa nuclear pacífico no Irã. O problema é que as dúvidas aumentam e a insegurança também quando Ahmadinejad promete “varrer Israel do mapa”.

    R- Outra vez não disse nada. Ou melhor, se contradisse. Ou é os Estados Unidos quem dialoga, buscando intermediar o coflito ou ninguém mais o poderá fazer. Se os EUA não conseguem, ninmguém consegue. Esta é a tua idéia? O Irã é um periogo ou não é? Desse jeito você me confunde!!! Quem poderia ser o mediador internacional? Deve ser apenas um? O Brasil, reconhecidamente pacífico pela comunidade internacional, não poderia ajudar a pacificar o mundo? Ou seria melhor ter declarado guerra ao Paraguai, no caso da hidrelétrica? Bom, estou tentando te ajudar, assim como você me ajuda, as vezes….Um abraço meu amigo. Até mais.

  • Carlos Santos diz: 19 de março de 2010

    Qualquer brasileiro que pensa um pouquinho, se envergonha.

  • Christian diz: 29 de março de 2010

    Isso mesmo, Gunter! E com tantas contradições o Presidente agora pleiteia vaga na ONU!!!!!
    Juliano, política externa não pode ser confundida com política estudantil.

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