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Cultura e bafão!

19 de março de 2010 6

Resposta à Secretária de Cultura do RS Mônica Leal.



Houve um País no qual governantes sem legitimidade popular mantinham-se no poder à força. E se valiam de censores para sufocar notas dissonantes ao seu discurso ufanista. Hoje, há um País no qual estas tristes figuras foram varridas; e que se orgulha de suas instituições democráticas. Mas, ainda jovens, vivem elas sob sobressalto e ameaças.


Diz o filósofo Stephen Holmes: democracia não é o governo da maioria – como muitos, desavisados, poderiam supor. É o governo onde a vontade da maioria é respeitada e as minorias têm sempre voz. É por isso, sobretudo, o governo do debate público, no e para o debate público. O governo da inteligência.


Ensinamento valioso – partilha responsabilidades essenciais. Ao governante e seus auxiliares, cabe governar com ética, humildade, humanismo, um projeto claro, transparência e diálogo. A isso, chamamos liderança. Aos cidadãos, compete o cumprimento das leis e o acompanhamento dos atos dos governantes. A isso chamamos participação. Intelectuais e jornalistas estão entre aqueles que ajudam a construir pontes entre os termos, sistematizando a informação, sugerindo sentidos, estudando, opinando. É melhor a democracia na qual o cidadão é participante, a imprensa livre e os intelectuais atuantes. E o debate, de idéias, conceitos e projetos, nos ajudará a escolher as melhores opções para o progresso humano e material.


Sonhamos com este País. Talvez ele possa ser construído. Depende de todos nós.


Não tenho nenhuma vocação para censor! Muito menos investidura tal. Como cidadão e intelectual, apenas tento cumprir o meu papel nesse sonho coletivo, discutindo idéias, projetos e resultados. E sou somente mais uma, dentre tantas vozes, a falar em crise na Cultura.


É verdade que um secretário de estado pode admitir e demitir ad nutum titulares de cargos de confiança. Não é verdade que o Professor Voltaire Schiling não tratou da História regional. Muitos dos nossos melhores intelectuais contribuíram para os Cadernos, ministraram palestras e participaram de cursos (lotados) no auditório do Memorial do RS, sobre temas relativos ao Estado. A História regional, além disso, ganha contraste inteligente quando devidamente contextualizada no fluxo universal. Tratá-la de forma insulada é contribuir para encapsular mentalidades. Todo professor sabe disso.


Realmente, é difícil debater os resultados da atual gestão da SEDAC. Como disse no meu artigo do dia 8 de março, “não há balanços de realizações e de responsabilidade social”. Basta consultar o site para constatar a indigência de dados. Fala a Secretária, por exemplo, de “uma dezena” de publicações do IEL. Quais são estes títulos? Por que ninguém os vê? Como estas obras foram recebidas pelo público? Qual é a média atual de publicações do IEL em cotejo com anos de gestões anteriores? Qual a nossa política de estímulo à leitura?


E o que se faz pelo teatro, pela dança, pelo cinema, pelas artes…?! O público nos espetáculos aumentou ou diminuiu?


É fato que o modelo de gestão da Cultura está superado. E isso não vem de agora. Mas por que os salários dos funcionários são tão baixos? Por que o corpo funcional é tão insuficiente? Por que alguns dirigentes precisam acumular vários postos de direção ao mesmo tempo? Por que existem postos vagos?


Como registrei várias vezes aqui no blog, muitos dirigentes apresentam desempenho heróico. Mantém abertas importantes instituições – como a Biblioteca Pública, a Casa de Cultura Mário Quintana, o Museu Júlio de Castilhos, a TVE, dentre outras – apesar dos orçamentos baixíssimos, da carência de pessoal e da ausência de diretriz e conceito por parte do comando da Pasta. Somos, todos, muito gratos a eles. Assim como às associações de amigos, que se desdobram em mil.


Como explicar um orçamento de apenas 30 mil reais por mês para investimentos em todo o estado? Como explicar que o valor para projetos culturais liberado pela LIC em 2006 tenha superado 34 milhões de reais, quando em 2009 despencou para cerca de 12 milhões? Se a Secretária diz que isso não é crise, respeito a sua opinião. Mas se evidencia, assim, finalmente, o seu conceito de Cultura.


Relacionar a Bienal e a inauguração da sede da Fundação Iberê Camargo como parte das realizações da gestão significa assinar embaixo do que eu disse: a crise “só não é ainda mais grave porque algumas iniciativas privadas e administrações municipais vêm ocupando em parte o vazio”. Ambas são ações meritórias que vêm sendo construídas há vários anos pela comunidade e por mecenas.


Desqualificar o debate pessoalizando-o, atribuindo motivações afetivas aos interlocutores, é primário. Acaso podemos dizer que a teoria de Marx é burguesa por conta de sua amizade com Engels, o filho de um industrial? Ora, faça-me o favor!


Sou amigo de muita gente, graças a Deus! E não saio pelos jornais criticando levianamente quem deles discorda, ou tecendo encômios àqueles a quem amo. Amigos, assim como cidadãos, concordam e divergem. Sobretudo, debatem.


Pessoalmente, nada tenho contra a Secretária. Pelo contrário! Acho-a simpática e agradável! E, desejo-lhe sucesso em seus projetos pessoais.


Mas estou é debatendo idéias, conceitos, valores, resultados. Cultura não é bafão. É transcendência humanística, é instrumento de desenvolvimento econômico e social. Também é gestão, que deve ser tratada com transparência e eficiência. E gestão pública, numa democracia, se discute.

Comentários (6)

  • maria madureira diz: 19 de março de 2010

    cadê o texto que origina a resposta? por curiosidade…

  • Jorge Barcellos diz: 19 de março de 2010

    Parabens Gunter. Eis a minha réplica, está no meu blog.
    Abraços
    Jorge Barcellos

    A Cultura da Secretaria da CUltura
    Jorge Barcellos, Doutorando em Educação

    “Todos aqueles cujos sentimentos são contrários aos nossos não são necessariamente bárbaros nem selvagens, mas podem ter tanto quanto ou mais razão do que nós.” René Descartes, Discurso do Método

    Os argumentos utilizados pela Secretária Estadual de Cultura Mônica Leal em seu artigo do Cultura do último dia 13/03 são um bom exemplo de como funciona a legitimação ideológica em nossos dias atuais. Em uma primeira leitura, seus argumentos correspondem ao que Anna Freud (1936) e Otto Fenichel (1945) definiram como os mecanismos de defesa do ego. Negação em aceitar os dados da realidade – a crença na falta de fundamento nas criticas a sua gestão; fantasia proporcionada por uma ilusão dos desejos que não podem se realizar – a sua crença na existência de um projeto politio cultural em andamento da qual é protagonista; repressão que afasta do consciente e mantém a distância algo pertubardor – a réplica acirrada a seus críticos de plantão; projeção que atribui aos outros sentimentos que nascem em si mesma – de que a comunidade cultural está satisfeita com sua realização, quando há uma oposição; racionalização que encontra razões naquilo que é irracional – “o ocupante de cargo de confiança deve seguir a linha de governo e não sua linha pessoal”. Se Voltaire Schilling foi demitido porque foi incapaz de concentrar a memória do Rio Grande do Sul no Memorial – o que não é verdade, pois realizou publicações e eventos nesta área – da mesma forma o diretor do Margs deveria ser imediatamente ser demitido pela exposição Arte na França que a Secretaria elogia, porque também seu museu deveria concentrar a arte somente gaúcha! Nada mais irracional! Nada mais revelador da ausência de projeto!

    As características de sua política cultural podem ser constatadas naquilo que a Secretária tem de mais inocente: seu blog (monicalealrs.blogspot.com). Nele vemos a Secretária no que mais considera como ação cultural propriamente dita: inaugurando obras, fazendo corpo a corpo com a comunidade cultural – e dá-lhe fotos, muitas fotos – e participando daquilo que considera a ação cultural por excelência, a Cavalgada do Mar. Sua primeira postagem é o registro do recebimento do CD da AJURIS que mostra como os magistrados do Rio Grande do Sul são bons cantores de música nativista (23/10/2009); depois, entre outras postagens, seguem-se as que falam da importância da Feira do Livro de Porto Alegre “nada substitui o cheirinho de papel” (31/10/2009); a tombamento do Castelo de Pedras Altas (29/11/2009); a da inauguração do auditório do Colégio Medianeira (Santiago, 11/3/2010) até o lançamento da Cavalgada do Mar (27/1/2010). Há muitas notícias suas, de viagens, de encontros com diversas personalidades do interior.

    De fato, entre pequenas e grandes ações, não é pouca coisa o trabalho da secretária. Entre visitas a museus, autoridades, eventos e pessoas, realmente que tipo de política a Secretária tem desenvolvido? É claro que a Secretária tem desenvolvido ações sim, tem trabalhado em muito em prol da cultura sim, mas o que estamos discutindo é se elas reunidas constituem um projeto. Numa palavra, tem um fio condutor que as unifique, se possuem unidade que a constituam enquanto sistema. Pois é isto que faz com que suas diversas ações sejam fecundas para a cultura do estado. Que dêem frutos no futuro. Ao contrário, o que constatamos acompanhando as postagens da Secretária, é que vemos uma Secretária desesperada por fazer algo. Qualquer coisa. Às vezes até sem comer, como ela mesmo revela. Até em prejuízo de sua vida pessoal, como as vezes assinala. Viajando de um lado para outro, estando em diferentes lugares, em vários lugares ao mesmo tempo, às vezes de passagem rápida em função do próximo evento. Se seguir esse ritmo, a ela aplica-se o que Slavoj Zizek diz de forma paradoxal “É melhor não fazer nada que comprometer-se em atos localizados, cuja função última é fazer que o sistema funcione melhor” (La Suspension Política de la Ética, FCE, 2005).

    Esse sistema de que trata Zizek pode ser aqui entendido como a prática de uma política cultural de aparências, na qual as discussões de fundo são substituídas por encontros e inaugurações. O problema da Secretária não é a sua passividade, que ela de fato não tem, mas a sua pseudoatividade, sua urgência de estar ativa, de participar de tudo e de todos os eventos, que mascara o vazio de projeto que a envolve. Ao participar de tantos eventos sem uma unidade de sentido, o que lhe é difícil verdadeiramente é retroceder, é retirar-se do dia-a-dia de contato com órgãos, instituições e pessoas, para construir o conceito de base das ações de políticas culturais de seu governo. Ao contrário, sua primeira ação critica deveria ser abandonar-se à passividade, recusar-se a participar de tais eventos para esclarecer de fato o terreno de sua verdadeira linha de governo.

    Sobre a frase principal ”Não há crise na cultura”: seu argumento choca pela sua simplicidade e é da mesma natureza da frase de Kung Fu Panda, o filme infantil de John Stevenson e Mark Osborne -“não há ingrediente especial. É apenas você. Para acreditar que algo é especial, você precisa apenas acreditar nisso”. Estamos defendo Voltaire Schilling? É claro que sim, porque mesmo sabendo ser seu direito demiti-lo, o julgamos vítima de uma injustiça. Estamos criticando a gestão da Secretária? Sim, mas não pelo trabalho, que de fato ela tem, mas pelo sentido político de sua ação.A forma fetichista da defesa da Secretária tem, como no filme de Stevenson & Osborne, a seguinte mensagem subliminar: “Sei muito bem que existe crise na cultura, mas ainda assim acredito que não“. Esta é a fórmula mais elementar do funcionamento da ideologia, a do ataque irracional às denúncias e criticas que lhe apresentadas. Ou ainda, como naquele filme dos Irmãos Marx, onde Grouxo Marx, ao ser descoberto numa arte, contesta raivosamente: “a quem crê, em teus olhos ou em minhas palavras?”

  • FM diz: 27 de março de 2010

    Gunter, se eu fosse republicano, juro que faria campanha para ti!

  • Christian diz: 29 de março de 2010

    Ótima resposta. Elegante e inteligente. Deveria ter saído publicada na ZH.

  • Abrão Slavutzky diz: 29 de março de 2010

    Gunter: Tu, o Voltair e mais alguns, mas não muitos infelizmente, salvam o pouco de dignidade que nos restou como intelectuais. Que incrível um estado ter como seretária de cultura, uma mulher que gosta de cavalos como aparece nas fotos e nada contra a cultura dos cavalos. Há uma anestesia geral ampla e irrestrita, mas não todos, não todos felizmente.
    Parabéns e vamos em frente, avanti populi, mesmo sem populi(eh,eh,eh)
    Abrão Slavutzky

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