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Cores e gostos da Quaresma

20 de março de 2010 1

Gente, aqui em Gramado saíram os Papais Noéis e entraram os coelhos. Muitos coelhos. Orelhudos e simpáticos. É um kitsch divertido. Eu gosto.


Mas o espetáculo está sendo dado pelas quaresmeiras. Estão lindas, já cobertas da floração lilás e branca que caracteriza a nossa Páscoa. Só de ver as quaresmeiras floridas me vem na boca o gostinho de marzipãs – é que fico lembrando das Páscoas do passado e da minha avó, que ficava tardes e tardes preparando marzipãs, nas forminhas trazidas da Alemanha.


Tinha forma que fazia coelhinhos, forma que fazia coração, quadradinhos, bolinhas glaceadas de chocolate… Mas o melhor mesmo eram os coelhinhos. Eu adorava começar a comê-los pelas orelhas…


Nos anos 1970, era muito difícil conseguir amêndoas no Rio Grande do Sul. Então minha avó improvisava: fazia os marzipãs com castanhas do Pará. Olha, ficava ótimo! As crianças ajudavam a descascar e a amassar. Claro, volta e meia ganhávamos uma ralhada, porque tentávamos beliscar uma ou outra castanha. O negócio é que só podíamos comer as castanhas – que eram muito caras – transformadas em marzipãs. E os marzipãs só podiam ser saboreados na manhã da Páscoa. E nós tínhamos de acordar bem cedo para procurar os ninhos que o coelhinho deixava. Eram cestinhas de vime trançado forradas de palha colorida e flores de macela, que colhíamos nos campos alguns dias antes – adorável o odor ao mesmo tempo acre e adocicado da macela! As florzinhas secas, o tom amarelado… Os deliciosos marzipãs ficavam ali, acomodados no meio daquela palha, entre as florzinhas de macela. O pátio era grande e os ninhos podiam estar em qualquer lugar. Levávamos várias horas até achar as cestinhas. Ao lado das quaresmeiras, tinha uma velha nespereira. Havia um buraco no seu tronco, onde minha avó, não sei por que, adorava esconder um dos ninhos. Anos mais tarde, minha avó finalmente conseguiu uma muda de amendoeira. Hoje ela é uma bela árvore. Eu sempre a desbasto, para valorizar o tronco, cujas linhas me remetem a alguma escultura modernista. Junto a ela, plantei uma madressilva, que se enlaça nos galhos. A amendoeira carrega de frutos. Mas eles ficam ocos, pois, dizem, nos falta aqui o agente polinizador.


Será que as pessoas ainda fazem Páscoas assim, com ninhos recheados de marzipãs e macela escondidos ao abrigo das quaresmeiras?

Comentários (1)

  • Alice diz: 16 de março de 2011

    Gunter. Uma delícia tuas reminiscências acerca do marzipan, hoje produzido com “outros ingredientes” que não as amendoas (só amendoas).Ah! Aqueles marzipãs caseiros que quanto mais mastigávamos mais o gosto surgia!
    Muito procurei ninhos – não sei porquê o meu sempre era o mais difícil de encontrar – Após, fazíamos, eu e meus irmãos, a contabilidade do que havia neles e começavam as trocas,….alguns avanços nos ninhos alheios (hoje posso confessar, mas também muito fui larapiada!)
    Penso que atualmente raros devem ser os ninhos recheados com marzipã e macela. Hoje é outra cultura: a do prático a da falta de tempo….a da falta de poesia.
    Só para constar…….continuo fazendo os meus marzipãs.
    abraços.

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