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Avatado

28 de março de 2010 4

Sim, eu sei: estou com a faísca atrasada. Mas, por favor, me dêem um descontinho. É coisa de intelectual, que fica com a cara afundada nos livros e mal sai de casa.


Bem, é o seguinte: fui finalmente assistir o tal Avatar! Claro, não foi no final de semana, pois eu não saberia lidar com o tumulto nos xópis e as filas. E quatro ou cinco coisas me chamaram a atenção.


Juro que eu ainda não tinha assistido um filme 3D. Nossa, foi um encanto! Uma experiência alucinante!


Confesso que, logo de início, me senti meio caipira. Eu já estava pensando em reclamar da falta de foco para o projetista – como a gente fazia em tempos pré-históricos nas velhas sessões do ABC, ou do Bristol – quando me atinei de colocar o tal óculos. Então, junto com o deslumbramento veio um certo alívio por não ter pagado o mico. Mas diante do primeiro treco que voou em minha direção, meu reflexo automático foi dar um pulo na cadeira. Ai, que coisa!… Olhei para os lados, de cantinho, para ver se alguém percebera. Ninguém. Pude continuar, já mais aclimatado, fruindo o êxtase daquela projeção.


Tentando me integrar ao ambiente, comprara pipocas e coca zero, não sem ficar chocado com o preço escorchante! Notei, contudo, que as platéias haviam mudado para muito além da pipoca. Ao meu lado, duas moças não calaram a boca um minuto sequer. Na boa, o que é que leva duas pessoas a tagarelarem sem parar numa sala de cinema (aliás, qual a necessidade de falar tanto?!)? Será uma disfunção cerebral? Trata-se de algum um novo comportamento padrão que desconheço porque sou um velho antiquado?


Aquilo me irritou, admito. Emiti o clássico “pshhhh…!”, mais de uma vez. Até que soltei um palavrão e já me preparava para um discurso, quando elas então se contiveram. Mas já passava bastante da metade do filme! Na saída, achei que aproveitariam a liberdade recém conquistada para explodir em matraquice, mas aí ficaram quietas. Uma delas era uma adolescente esquálida se equilibrando desajeitada sobre um desses pavorosos chinelos plataforma. A outra, mais velha, deveria ser mãe, tia, sei lá. Saíram quietas do xópis. Incrível!


Quanto ao filme, certo, adorei! Ficção científica e fantasia sempre estiveram entre meus gêneros prediletos. E o filme é bem feitinho mesmo.


Mas, tipo, parecia que eu estava vendo uma reedição pós-moderna do “Dança com Lobos” – uma reificação da mea-culpa dos americanos para com o massacre dos seus “selvagens”. Só que agora, ao invés de peles vermelhas, tratava-se de peles azuis. O gancho perfeito para um libelo “save the planet”. E, num mundo pós-crise global, o clima “we hate the financial district” tem lá o seu poder catártico. Mas juro que, entre flechas azuis e mães d’água aladas, eu tinha a nítida sensação de que o Al Gore iria despencar no meu colo a qualquer instante!


Achei o roteiro bem ok. O que, vamos combinar, é bastante difícil para um filme americano que tem no público adolescente parte importante do seu foco. Ora, sabemos que os produtores americanos partem do princípio que os adolescentes são incapazes das sinapses mais elementares. Se estão certos ou não, são outros quinhentos. É por isso, por exemplo, que nestes filmes a todo instante somos bombardeados por absurdos de alto potencial imbecilizante, como no “Hulk”, em que um grupo de super poderosos mariners consegue a façanha de invadir secretamente o Brasil e de subir o Morro da Rocinha, sem ser notado, e o David se transforma na Rocinha e aparece desacordado numa floresta da Guatemala, onde chegou saltitando… E por aí vai…


No Avatar a única incoerência (considerando a própria lógica da história) mais gritante fica por conta dos rinocerontes (azuis) cara-de-martelo. Afinal, se a cada dois passos esses bichos arrancam uma baita árvore, como é que eles ainda conseguem viver numa floresta? Isto é, já não teriam transformado a sua área de circulação numa savana, ou coisa que o valha?


Enfim, mas o que me chamou mesmo a atenção foi a infantilização dos Na’Vi (é assim que se escreve?!). As mulheres não têm peito e a bunda, minúscula, mais parece uma prancha de passar roupa. Os homens não têm bíceps, nem peito avantajado e nada de bunda também. E, apesar dos pernões e brações e de andarem pra lá e prá cá vestindo umas diminutas tanguinhas de Tarzan, nenhum deles tem pingolim. O momento tesão do filme é sublimado numa comunhão quase divina com as árvores sagradas da memória e tal… Uma fórmula, certamente, que seria aprovada com louvor por Tom Wolfe.


Conclusão possível: os selvagens tornam-se palatáveis para o público americano quando totalmente deserotizados. Assim, o tal Avatar seria menos um libelo pela preservação do ambiente ecológico do que uma metáfora implícita da doença puritana da sociedade norte-americana.

Comentários (4)

  • Fiona Bajardinian diz: 28 de março de 2010

    Coitadinho do intelectual!!! Fica com a cara enterrada nos livros, a faísca ( ? ) falha e o resultado é este texto de estudante secundarista esforçado, de escola de bom nível…Tentei fruir algum êxtase deste comentário pernóstico e chatinho, mas o q consegui foi um sopro de presunção caipira. Mais uma vez o velho bordão se repete : os intelectuais d´antanho eram mais intelectuais do q os de agora!

  • Christian diz: 29 de março de 2010

    Gunter, parece que você acordou novamente um Troll. A tal Fiona (o nome é tão bizarro que deve ser pseudônimo) deve estar entre os fãns de Tom Wolfe ou seguidores de alguma Igreja obscura que adoram ver selvagens infantilizados. Ou talvez ela tenha mesmo um neto que assistiu 5 vezes o Incrível Hulk e bateu o recalque ao ler teu post. Ou ainda, vai ver é eleitora da Mônica Leal! HUahuahuahua…!!!

  • Patrícia diz: 31 de março de 2010

    Gunter,
    adorei o teu texto. Li outras críticas e nenhuma com esses enfoques.
    Ah!, e gostei do nível da resposta. É por ai.
    Abraços.

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