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Guerra ao Terror

29 de março de 2010 2

Na linha cineminha, eu assisti também o “Guerra ao Terror”. Sim, é um bom filme de guerra. Mas, todavia, não é exatamente a guerra o tema central.


A história é um fluxo narrativo, com a suspensão de toda transcendência de valores e de consciência. É um jorro niilista que flerta no limite com uma espécie de hedonismo SM. O personagem central sequer pensa por que faz o que faz. E admite gostar apenas daquilo que faz – a sedução do perigo, o diálogo com as bombas. E mais nada. Nem a mulher e o filho realmente importam.


Tirando esta tensão dramática, os personagens são desconcertantemente vazios. Tem o valentão americano, tem o boy caipira com seu justo momento de fraqueza diante do horror, tem o coronel burocrata… Uma seqüência de estereótipos rasos que enfatiza ainda mais a tensão dramática niilista.


Os dois únicos vínculos afetivos que se costuram no filme são fugazes e viram pó. O soldadinho perde o seu psicanalista e chora. O valentão balança quando encontra morto o menino iraquiano com quem interagia superficialmente. E mais nada.

Um cenário típico dos romances de Michel Houellebecq: a morte do afeto entre pessoas que já não são mais capazes de aproveitar o encontro umas com as outras, num meio onde a cultura ocidental vai ampliando as fronteiras da anormalidade. Um isolacionismo materialista do qual emanaria uma violência difusa, desumanizada, manifesta, como sugere o crítico da cultura Mark Dery, na Internet ou no Iraque.


Sim, a violência tornou-se gratuita. Já não há mais explicação para a guerra. É apenas uma rotina nonsense. Como registrou o jornalista Jon Lee Anderson, é difícil conter a matança depois de ela ter sido iniciada. Anderson viu no Iraque um conflito no qual a identidade tribal alimenta um interminável mecanismo de vinganças étnicas e interpessoais. Uma guerra que se tornou um fim em si mesma, um propósito para a existência dos homens e uma economia própria. O transbordamento da barbárie no Iraque revela ainda a ignorância antropológica da política externa norte-americana, que foi incapaz de prever tais desdobramentos, tese, aliás, igualmente compartilhada pela jornalista norueguesa Asne Seierstad.


É interessante a linha de transmissão que existe entre o “Guerra ao Terror” e o “Estrangeiro”, de Albert Camus, publicado originalmente em 1942 e ambientado na Argélia francesa. O mesmo tom neutro, indiferente. O mesmo personagem desprovido de transcendência humanística, revestido de niilismo, hedonista. A mesma violência gratuita. O mesmo desinteresse atribuído ao elemento árabe, cujos nomes, profissões, histórias de vida, pouco importam realmente, muito embora sejam eles os habitantes originais daquela terra.


Em Camus, os árabes são coadjuvantes sem voz. No julgamento do assassino de um árabe, fala-se mais do comportamento aparentemente insensível do acusado no velório da própria mãe, nas vésperas da explosão de violência, do que da vítima. Já, em Guerra ao Terror, a situação se modificou. Os árabes falam pelas bombas… Em Camus a violência de um personagem em fruição hedonista está concentrada num único momento de explosão. Em Guerra ao Terror, a violência engoliu todo o cotidiano e a fruição do prazer ganha contornos de anormalidade, pois brota da própria violência e do perigo constante. Um pouco como se retornássemos à Idade Média e à Guerra dos Cem Anos, quando o conflito deixara de ser uma exceção para se converter em rotina, em meio de vida. Em Camus o hedonismo se afirma por meio de um fluxo de consciência do narrador e personagem central. Em Guerra ao Terror há apenas a narrativa. A consciência deixou de existir.


Assim, como o “Estrangeiro” de Camus não é um thriller sobre um assassinato, “Guerra ao Terror” é apenas superficialmente um filme de guerra. No fundo, o seu tema é o mal-estar da sociedade norte-americana contemporânea. O personagem central é uma metáfora para a morte do sujeito, que, paradoxalmente, se afirma como desdobramento possível da libertação sem precedentes do indivíduo das âncoras sócio-culturais, incluídas aí o próprio Humanismo.

Comentários (2)

  • Christian diz: 31 de março de 2010

    Oi Gunter; vi o filme e achei um drama super psicológico. Por que você diz que ele é narrativo e sem “fluxo de consciência”? Ahhh…tu assistiu o Distrito 9? O que achou? Abçs

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