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Posts de março 2010

Boas notícias

31 de março de 2010 3

Boas notícias chegam nesta véspera de início de campanha política.


Aqui no Estado, uma delas certamente é o anúncio da destinação da antiga área da Ford, em Guaíba, para a instalação de um distrito industrial que reunirá investimentos de pelo menos 617 milhões de reais, podendo gerar até 2 mil novos empregos até 2015. Outras grandes empresas ainda podem confirmar a instalação no distrito.


A área era uma espécie de ferida aberta, desde a saída da Ford em 1999, em virtude da então quebra de contrato pelo Governo Olívio Dutra. A Ford acabou transferindo-se para a Bahia. Ocupá-la agora com investimentos de tal importância exerce um poderoso efeito simbólico sobre a auto-estima dos gaúchos. As iniciativas serão um agente dinamizador da economia de grande envergadura. Estão de parabéns o Governo do Estado e a Prefeitura de Guaíba pela qualidade da solução encontrada.


Outra iniciativa que merece aplausos é o Programa de Ajuste de Dívidas do ICMS, que pretende reaver para os cofres estaduais cerca de 500 milhões de reais com fórmulas de incentivo aos devedores.


Em nível federal, o PAC 2 anunciou diversos projetos que contemplam o Rio Grande do Sul. Mas, é claro, a execução dessas obras não deve começar imediatamente e envolverão ainda negociações com o governo estadual e as prefeituras.

Novo Prefeito

31 de março de 2010 2

Manifesto, aqui pelo blog, meu desejo de boa sorte ao novo Prefeito de Porto Alegre. José Fortunati é um homem sério, dinâmico e sempre aberto ao diálogo. É claro que o sucesso de sua gestão vai depender muito da capacidade de realização, efetivamente, das obras programadas para melhor receber a Copa de 2014. Mas ele já está enfronhado no assunto e tem tudo para alcançar bons resultados, o que poderia contribuir para catapultar Fortunati à linha de frente das lideranças políticas regionais. Esta é uma perspectiva bem vinda, pois acho que os gaúchos anseiam por uma renovação política. O sucesso dessa gestão também pode reposicionar o PDT entre os grandes partidos da cena política estadual. Mas, sobretudo, uma boa gestão do Fortunati será um enorme ganho para Porto Alegre! Boa sorte Prefeito!

Guerra ao Terror

29 de março de 2010 2

Na linha cineminha, eu assisti também o “Guerra ao Terror”. Sim, é um bom filme de guerra. Mas, todavia, não é exatamente a guerra o tema central.


A história é um fluxo narrativo, com a suspensão de toda transcendência de valores e de consciência. É um jorro niilista que flerta no limite com uma espécie de hedonismo SM. O personagem central sequer pensa por que faz o que faz. E admite gostar apenas daquilo que faz – a sedução do perigo, o diálogo com as bombas. E mais nada. Nem a mulher e o filho realmente importam.


Tirando esta tensão dramática, os personagens são desconcertantemente vazios. Tem o valentão americano, tem o boy caipira com seu justo momento de fraqueza diante do horror, tem o coronel burocrata… Uma seqüência de estereótipos rasos que enfatiza ainda mais a tensão dramática niilista.


Os dois únicos vínculos afetivos que se costuram no filme são fugazes e viram pó. O soldadinho perde o seu psicanalista e chora. O valentão balança quando encontra morto o menino iraquiano com quem interagia superficialmente. E mais nada.

Um cenário típico dos romances de Michel Houellebecq: a morte do afeto entre pessoas que já não são mais capazes de aproveitar o encontro umas com as outras, num meio onde a cultura ocidental vai ampliando as fronteiras da anormalidade. Um isolacionismo materialista do qual emanaria uma violência difusa, desumanizada, manifesta, como sugere o crítico da cultura Mark Dery, na Internet ou no Iraque.


Sim, a violência tornou-se gratuita. Já não há mais explicação para a guerra. É apenas uma rotina nonsense. Como registrou o jornalista Jon Lee Anderson, é difícil conter a matança depois de ela ter sido iniciada. Anderson viu no Iraque um conflito no qual a identidade tribal alimenta um interminável mecanismo de vinganças étnicas e interpessoais. Uma guerra que se tornou um fim em si mesma, um propósito para a existência dos homens e uma economia própria. O transbordamento da barbárie no Iraque revela ainda a ignorância antropológica da política externa norte-americana, que foi incapaz de prever tais desdobramentos, tese, aliás, igualmente compartilhada pela jornalista norueguesa Asne Seierstad.


É interessante a linha de transmissão que existe entre o “Guerra ao Terror” e o “Estrangeiro”, de Albert Camus, publicado originalmente em 1942 e ambientado na Argélia francesa. O mesmo tom neutro, indiferente. O mesmo personagem desprovido de transcendência humanística, revestido de niilismo, hedonista. A mesma violência gratuita. O mesmo desinteresse atribuído ao elemento árabe, cujos nomes, profissões, histórias de vida, pouco importam realmente, muito embora sejam eles os habitantes originais daquela terra.


Em Camus, os árabes são coadjuvantes sem voz. No julgamento do assassino de um árabe, fala-se mais do comportamento aparentemente insensível do acusado no velório da própria mãe, nas vésperas da explosão de violência, do que da vítima. Já, em Guerra ao Terror, a situação se modificou. Os árabes falam pelas bombas… Em Camus a violência de um personagem em fruição hedonista está concentrada num único momento de explosão. Em Guerra ao Terror, a violência engoliu todo o cotidiano e a fruição do prazer ganha contornos de anormalidade, pois brota da própria violência e do perigo constante. Um pouco como se retornássemos à Idade Média e à Guerra dos Cem Anos, quando o conflito deixara de ser uma exceção para se converter em rotina, em meio de vida. Em Camus o hedonismo se afirma por meio de um fluxo de consciência do narrador e personagem central. Em Guerra ao Terror há apenas a narrativa. A consciência deixou de existir.


Assim, como o “Estrangeiro” de Camus não é um thriller sobre um assassinato, “Guerra ao Terror” é apenas superficialmente um filme de guerra. No fundo, o seu tema é o mal-estar da sociedade norte-americana contemporânea. O personagem central é uma metáfora para a morte do sujeito, que, paradoxalmente, se afirma como desdobramento possível da libertação sem precedentes do indivíduo das âncoras sócio-culturais, incluídas aí o próprio Humanismo.

A propósito

28 de março de 2010 0

O Diretor de Avatar, James Cameron, já comparou os Na’Vi aos índios caiapós, ribeirinhos que serão desalojados com a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Em Manaus, o pessoal já anda pedindo para que a versão 2.0 de Avatar, filme inteiramente feito em estúdio, fosse filmada na Amazônia! E quem disse que fantasia e realidade não se misturam?

Avatado

28 de março de 2010 4

Sim, eu sei: estou com a faísca atrasada. Mas, por favor, me dêem um descontinho. É coisa de intelectual, que fica com a cara afundada nos livros e mal sai de casa.


Bem, é o seguinte: fui finalmente assistir o tal Avatar! Claro, não foi no final de semana, pois eu não saberia lidar com o tumulto nos xópis e as filas. E quatro ou cinco coisas me chamaram a atenção.


Juro que eu ainda não tinha assistido um filme 3D. Nossa, foi um encanto! Uma experiência alucinante!


Confesso que, logo de início, me senti meio caipira. Eu já estava pensando em reclamar da falta de foco para o projetista – como a gente fazia em tempos pré-históricos nas velhas sessões do ABC, ou do Bristol – quando me atinei de colocar o tal óculos. Então, junto com o deslumbramento veio um certo alívio por não ter pagado o mico. Mas diante do primeiro treco que voou em minha direção, meu reflexo automático foi dar um pulo na cadeira. Ai, que coisa!… Olhei para os lados, de cantinho, para ver se alguém percebera. Ninguém. Pude continuar, já mais aclimatado, fruindo o êxtase daquela projeção.


Tentando me integrar ao ambiente, comprara pipocas e coca zero, não sem ficar chocado com o preço escorchante! Notei, contudo, que as platéias haviam mudado para muito além da pipoca. Ao meu lado, duas moças não calaram a boca um minuto sequer. Na boa, o que é que leva duas pessoas a tagarelarem sem parar numa sala de cinema (aliás, qual a necessidade de falar tanto?!)? Será uma disfunção cerebral? Trata-se de algum um novo comportamento padrão que desconheço porque sou um velho antiquado?


Aquilo me irritou, admito. Emiti o clássico “pshhhh…!”, mais de uma vez. Até que soltei um palavrão e já me preparava para um discurso, quando elas então se contiveram. Mas já passava bastante da metade do filme! Na saída, achei que aproveitariam a liberdade recém conquistada para explodir em matraquice, mas aí ficaram quietas. Uma delas era uma adolescente esquálida se equilibrando desajeitada sobre um desses pavorosos chinelos plataforma. A outra, mais velha, deveria ser mãe, tia, sei lá. Saíram quietas do xópis. Incrível!


Quanto ao filme, certo, adorei! Ficção científica e fantasia sempre estiveram entre meus gêneros prediletos. E o filme é bem feitinho mesmo.


Mas, tipo, parecia que eu estava vendo uma reedição pós-moderna do “Dança com Lobos” – uma reificação da mea-culpa dos americanos para com o massacre dos seus “selvagens”. Só que agora, ao invés de peles vermelhas, tratava-se de peles azuis. O gancho perfeito para um libelo “save the planet”. E, num mundo pós-crise global, o clima “we hate the financial district” tem lá o seu poder catártico. Mas juro que, entre flechas azuis e mães d’água aladas, eu tinha a nítida sensação de que o Al Gore iria despencar no meu colo a qualquer instante!


Achei o roteiro bem ok. O que, vamos combinar, é bastante difícil para um filme americano que tem no público adolescente parte importante do seu foco. Ora, sabemos que os produtores americanos partem do princípio que os adolescentes são incapazes das sinapses mais elementares. Se estão certos ou não, são outros quinhentos. É por isso, por exemplo, que nestes filmes a todo instante somos bombardeados por absurdos de alto potencial imbecilizante, como no “Hulk”, em que um grupo de super poderosos mariners consegue a façanha de invadir secretamente o Brasil e de subir o Morro da Rocinha, sem ser notado, e o David se transforma na Rocinha e aparece desacordado numa floresta da Guatemala, onde chegou saltitando… E por aí vai…


No Avatar a única incoerência (considerando a própria lógica da história) mais gritante fica por conta dos rinocerontes (azuis) cara-de-martelo. Afinal, se a cada dois passos esses bichos arrancam uma baita árvore, como é que eles ainda conseguem viver numa floresta? Isto é, já não teriam transformado a sua área de circulação numa savana, ou coisa que o valha?


Enfim, mas o que me chamou mesmo a atenção foi a infantilização dos Na’Vi (é assim que se escreve?!). As mulheres não têm peito e a bunda, minúscula, mais parece uma prancha de passar roupa. Os homens não têm bíceps, nem peito avantajado e nada de bunda também. E, apesar dos pernões e brações e de andarem pra lá e prá cá vestindo umas diminutas tanguinhas de Tarzan, nenhum deles tem pingolim. O momento tesão do filme é sublimado numa comunhão quase divina com as árvores sagradas da memória e tal… Uma fórmula, certamente, que seria aprovada com louvor por Tom Wolfe.


Conclusão possível: os selvagens tornam-se palatáveis para o público americano quando totalmente deserotizados. Assim, o tal Avatar seria menos um libelo pela preservação do ambiente ecológico do que uma metáfora implícita da doença puritana da sociedade norte-americana.

Na correria...

27 de março de 2010 2

A semana foi agitada. Fiquei, assim, meio longe do blog. Na quinta-feira, participei do Coffee Break, da Band News, e na sexta pela manhã, foi a vez do programa do Lauro Quadros, na Rádio Gaúcha, o Polêmica. À noite, estive na “crônica falada”, do Camarote TV Com, com a Kátia Suman. Os temas? Aniversário de Porto Alegre e crise na cultura, entre outros.


Na terça-feira, a convite da Profa. Judith-Martins Costa, palestrei no Pantheon da Faculdade de Direito da UFRGS, no seminário sobre História do Direito, promovido pelo Programa de Pós-Graduação e pelo Centro Acadêmico. Também integraram a mesa A Profa. Viviana Kluger, da Universidade de Buenos Aires, a doutoranda Roberta Dreher de Miranda e o Mestrando Guilherme Carneiro Nitschke. Para mim foi uma honra falar no salão nobre dessa que é uma das mais importantes faculdades do País. Foi gratificante perceber o auditório lotado de estudantes interessados e muito bem articulados, capazes de formular excelentes perguntas. É notável o trabalho que a Profa. Judith tem feito na Faculdade de Direito, estimulando os alunos a compreenderem que o Direito não é disciplina meramente técnica, mas possui interfaces poderosas com a Filosofia, a História, a Literatura, o Cinema…


Na quarta-feira fui a Cachoeira do Sul. Conferenciei no auditório da Ulbra sobre os fundamentos da cultura contemporânea, no âmbito do projeto Ciranda Cultural. A iniciativa é das coordenações dos Cursos de Pedagogia e Letras da ULBRA, campus Cachoeira do Sul, através das professoras Sílvia Barreto dos Santos e Lisane Félix Veloso, em parceria com o Núcleo Municipal da Cultura, dirigido por Mirian Ritzel, e a Associação Cachoeirense de Amigos da Cultura – AMICUS, presidida por Eliane Schuch. Fui lá carinhosamente acolhido por estas ativistas da cultura local. Mais uma vez, tive a grata surpresa de encontrar um auditório cheio e capaz de formular ótimas perguntas. Fiquei encantado com o projeto, que se empenha em promover estes debates. Feliz do Município que pode contar com um time tão competente de ativistas da cultura!

Que aniversário, coisa nenhuma!

24 de março de 2010 2

Caros amigos, como vão? Hoje reproduzo aqui para vocês, a propósito do suposto aniversário de Porto Alegre, artigo que publiquei há um ano na minha coluna da Revista Voto.


Como nasce uma cidade?


Brasília nasceu por decreto. E está até hoje lá, por decreto.


Mas e Porto Alegre?


Há indícios de presença indígena a pelo menos 3 mil anos. Nômades, viviam da caça, pesca e coleta. Entre os séculos IX e X, uma marcha migratória titânica iniciada na Amazônia, da superpopulação, chegou à região. Devastação. Eram os Tupis-guaranis: horticultores, seminômades e canibais. Surgiram as primeiras aldeias, com vestígios por tudo. Mas nada de caingangues, para registro da turminha que ocupou o Morro do Osso.


Quando os tropeiros vindos de Laguna chegaram às margens do Guaíba, no século XVII, a área estava desabitada. Os Guaranis migraram para o interior, fugindo da pressão dos Charruas, ao sul, e, sobretudo, dos caçadores de escravos, que vinham pelo litoral norte. Os jesuítas bem que tentaram fixar reduções, mas fracassaram.


Com a fundação da Colônia de Sacramento, em 1680, às margens do Rio da Prata, os Campos de Viamão foram integrados à rota. Em 1732 começara a distribuição de sesmarias. Como apoio, em 1737 o Brigadeiro Silva Paes fundou a cidade de Rio Grande. Em 5 de novembro de 1740, Jerônimo de Ornellas recebia a sua sesmaria, às margens do Guaíba.


Em 1940, este documento foi usado pelo então Prefeito Loureiro da Silva para justificar a pretensão de comemorar os 200 anos de fundação de Porto Alegre. Era uma forçação de barra e Jerônimo não estava nem aí. Vivia em função de Laguna e a sede de sua chácara estava na divisa com o hoje município de Viamão. Por 30 anos, o aniversário da Capital foi comemorado com base nesta data.


Porto Alegre nasceu meio por acaso. Pretendendo pôr um fim na disputa pela Colônia de Sacramento, Portugal e Espanha assinaram em 1750 o Tratado de Madri. A Espanha cedeu a região das Missões Jesuíticas a Portugal, que desocupou Sacramento. O ajuste detonou a Guerra Guaranítica, quando os exércitos das duas coroas dizimaram os índios.


Portugal já programava a migração de excedentes das ilhas dos Açores e da Madeira. No dia 19 de novembro de 1752, 60 soldados chegaram ao porto de Viamão, onde hoje se localiza a Praça da Alfândega, com a incumbência de construir canoas para o transporte dos imigrantes açorianos, pelo Jacuí, com destino às Missões. Aportaram no local os 60 casais. No dia 8 de dezembro, Matheus foi o primeiro recém-nascido ali batizado. Extenuados, depois de 80 dias de travessia, os casais foram construindo choupanas provisórias, de taquara, barro e palha, a espera da continuação da viagem. Que nunca aconteceu. Abandonados ali, começaram os seus roçados, o que não agradou nadinha a Jerônimo de Ornellas.


Em 1753, um certo Frei Faustino estabeleceu um cemitério, onde hoje está a Cúria Metropolitana. Indicativo de que ali as pessoas nasciam, viviam e morriam. Em 1767, quatro anos após os espanhóis conquistarem Rio Grande e provocarem um êxodo em direção ao norte, um tal Ministro Mendonça Furtado sugeriu ao vice-rei que os “brutos que vivem como feras em choças” fossem transferidos para a Aldeia dos Anjos, atual Gravataí, fundada em 1759 pelo comandante Gomes Freire para acolher os guaranis missioneiros que lutaram ao lado dos portugueses. Os açorianos resistiram e permaneceram no local onde tinham chegado e que agora até já se chamava Porto dos Casais.


O povoado já era reconhecido pelos seus estaleiros. A Rua da Praia já existia. Em 1766, instalara-se por lá até um recebedor do fisco, mostrando o quanto a Coroa estava atenta à atividade econômica. O entorno era rodeado de viçosos trigais. A primeira capela entrou em funcionamento em 1770.


No dia 26 de março de 1772, o bispado do Rio de Janeiro transformou o Porto dos Casais em freguesia de São Francisco das Chagas, desmembrando-o de Viamão. Em 22 de maio, com a posse do Padre, a capela virou sede da freguesia, sem nunca ter sido curada, isto é, sem ter tido um padre fixo. O salto mostra o interesse das autoridades em reconhecer a existência da cidade de fato, apesar da resistência tenaz do padre e da Câmara de Vereadores de Viamão, elevada à condição de freguesia em 1747 e transformada em capital da Província em 1763, em decorrência da ocupação espanhola.


No dia 6 de setembro de 1773, o Governador José Marcelino de Figueiredo transferia a residência oficial e a sede do Governo para o porto, que então passou a se chamar Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre. Percebera Marcelino ser o local estratégico para o controle das embarcações que subiam e desciam o Jacuí. Localizava-se, além disso, em um promontório elevado, o que facilitaria a defesa em caso de ataque. Três anos depois, Rio Grande foi retomada pelos portugueses.


Historiadores muito formais e vereadores desejosos de dar à cidade o direito de comemorar novamente 200 anos de fundação, decidiram, em princípio dos anos 1970, que Porto Alegre nascera em 26 de março de 1772. Trata-se de uma opção que privilegia a história oficial, feita pelos decretos, desconsiderando a história social urdida pelas pessoas de carne e osso. A povoação surgiu sem nome, sem decreto, sem estampilha no dia 19 de novembro de 1752. A tenacidade e o trabalho duro dos que chegaram sem posse garantiram-lhes, 20 anos mais tarde, reconhecimento da Coroa: veio sob a forma de uma inusitada autonomia de Viamão e conversão em Capital. Tudo junto. Por que será? Por que ali já existia uma cidade!


Se o argumento não sensibiliza a turma da estampilha, só posso mesmo me consolar com a licença poética de uma analogia astrológica.


Porto Alegre estaria sob o signo de Marte, se tivesse nascido no dia 26 de março, cujas características curtiram a sua personalidade. Porto Alegre seria toda voltada para a monumentalidade, teria nascido e vivido em torno de fortes militares, que teriam grande visibilidade no coração do núcleo urbano; teria provavelmente sofrido dramáticos bombardeios, ocupações de exércitos inimigos, e teria sido ponto de partida para importantes investidas militares. A cidade se revelaria ao visitante num único sorriso, cheio de vigor e encantamento, transparente, luminoso e sem mistério. Seria uma cidade confiante e, talvez, sem grande atração pelas sutilezas das formulações intelectuais mais herméticas.


Mas Porto Alegre é diferente. A sua beleza não está no conjunto, não está na monumentalidade. Está no detalhe. Para admirar Porto Alegre é preciso tempo, parar para olhar. E olhar para alguma coisa específica. A cidade nunca se mostra de pronto. Não é magnífica, como o Rio, ou o coração do universo, como São Paulo. Revela-se em camadas, como se estivesse coberta por inúmeros véus, cheios de mistério. A cidade é uma explosão de sensualidade, de sexualidade, mas nada disso é evidente. É tudo camuflado, discreto, velado. Há um culto à beleza em Porto Alegre, mas a uma beleza despojada, simples, autêntica e que é indissociável da idéia de sedução, de charme. Ninguém notou que em Porto Alegre não cola o comércio de grife? E o humor: ferino, sardônico, cáustico, inteligente. Uma usina de gírias, cuja expressão “saia justa” cunhada por Caio Fernando Abreu parece ser a síntese perfeita! A criticidade excessiva. Influência: uma cidade média para os padrões brasileiros e não muito antiga, mas que desde o princípio foi sempre decisiva na política do País. Não estão ligados à cidade os ministros mais influentes do Governo Lula?  E, talvez, ainda, a cúspide – o ponto de passagem de um signo para o outro – com Sagitário dê à cidade o interesse pelo esporte, a religiosidade entranhada, o culto ao estudo e ao conhecimento, a entronização do livro em praça pública, o senso de Justiça e a capacidade de combinar a afirmação democrática com o respeito a autoridade. O entusiasmo pelas novas idéias e a hospitalidade generosa e sofisticada para todo aquele que for convidado.


Que me perdoem os políticos e os acadêmicos, tão formais, mas no que diz respeito ao nascimento de Porto Alegre, prefiro estar ao lado da espontaneidade do povo, do acaso da história e da poesia astrológica.

Cores e gostos da Quaresma

20 de março de 2010 1

Gente, aqui em Gramado saíram os Papais Noéis e entraram os coelhos. Muitos coelhos. Orelhudos e simpáticos. É um kitsch divertido. Eu gosto.


Mas o espetáculo está sendo dado pelas quaresmeiras. Estão lindas, já cobertas da floração lilás e branca que caracteriza a nossa Páscoa. Só de ver as quaresmeiras floridas me vem na boca o gostinho de marzipãs – é que fico lembrando das Páscoas do passado e da minha avó, que ficava tardes e tardes preparando marzipãs, nas forminhas trazidas da Alemanha.


Tinha forma que fazia coelhinhos, forma que fazia coração, quadradinhos, bolinhas glaceadas de chocolate… Mas o melhor mesmo eram os coelhinhos. Eu adorava começar a comê-los pelas orelhas…


Nos anos 1970, era muito difícil conseguir amêndoas no Rio Grande do Sul. Então minha avó improvisava: fazia os marzipãs com castanhas do Pará. Olha, ficava ótimo! As crianças ajudavam a descascar e a amassar. Claro, volta e meia ganhávamos uma ralhada, porque tentávamos beliscar uma ou outra castanha. O negócio é que só podíamos comer as castanhas – que eram muito caras – transformadas em marzipãs. E os marzipãs só podiam ser saboreados na manhã da Páscoa. E nós tínhamos de acordar bem cedo para procurar os ninhos que o coelhinho deixava. Eram cestinhas de vime trançado forradas de palha colorida e flores de macela, que colhíamos nos campos alguns dias antes – adorável o odor ao mesmo tempo acre e adocicado da macela! As florzinhas secas, o tom amarelado… Os deliciosos marzipãs ficavam ali, acomodados no meio daquela palha, entre as florzinhas de macela. O pátio era grande e os ninhos podiam estar em qualquer lugar. Levávamos várias horas até achar as cestinhas. Ao lado das quaresmeiras, tinha uma velha nespereira. Havia um buraco no seu tronco, onde minha avó, não sei por que, adorava esconder um dos ninhos. Anos mais tarde, minha avó finalmente conseguiu uma muda de amendoeira. Hoje ela é uma bela árvore. Eu sempre a desbasto, para valorizar o tronco, cujas linhas me remetem a alguma escultura modernista. Junto a ela, plantei uma madressilva, que se enlaça nos galhos. A amendoeira carrega de frutos. Mas eles ficam ocos, pois, dizem, nos falta aqui o agente polinizador.


Será que as pessoas ainda fazem Páscoas assim, com ninhos recheados de marzipãs e macela escondidos ao abrigo das quaresmeiras?

Cultura e bafão!

19 de março de 2010 6

Resposta à Secretária de Cultura do RS Mônica Leal.



Houve um País no qual governantes sem legitimidade popular mantinham-se no poder à força. E se valiam de censores para sufocar notas dissonantes ao seu discurso ufanista. Hoje, há um País no qual estas tristes figuras foram varridas; e que se orgulha de suas instituições democráticas. Mas, ainda jovens, vivem elas sob sobressalto e ameaças.


Diz o filósofo Stephen Holmes: democracia não é o governo da maioria – como muitos, desavisados, poderiam supor. É o governo onde a vontade da maioria é respeitada e as minorias têm sempre voz. É por isso, sobretudo, o governo do debate público, no e para o debate público. O governo da inteligência.


Ensinamento valioso – partilha responsabilidades essenciais. Ao governante e seus auxiliares, cabe governar com ética, humildade, humanismo, um projeto claro, transparência e diálogo. A isso, chamamos liderança. Aos cidadãos, compete o cumprimento das leis e o acompanhamento dos atos dos governantes. A isso chamamos participação. Intelectuais e jornalistas estão entre aqueles que ajudam a construir pontes entre os termos, sistematizando a informação, sugerindo sentidos, estudando, opinando. É melhor a democracia na qual o cidadão é participante, a imprensa livre e os intelectuais atuantes. E o debate, de idéias, conceitos e projetos, nos ajudará a escolher as melhores opções para o progresso humano e material.


Sonhamos com este País. Talvez ele possa ser construído. Depende de todos nós.


Não tenho nenhuma vocação para censor! Muito menos investidura tal. Como cidadão e intelectual, apenas tento cumprir o meu papel nesse sonho coletivo, discutindo idéias, projetos e resultados. E sou somente mais uma, dentre tantas vozes, a falar em crise na Cultura.


É verdade que um secretário de estado pode admitir e demitir ad nutum titulares de cargos de confiança. Não é verdade que o Professor Voltaire Schiling não tratou da História regional. Muitos dos nossos melhores intelectuais contribuíram para os Cadernos, ministraram palestras e participaram de cursos (lotados) no auditório do Memorial do RS, sobre temas relativos ao Estado. A História regional, além disso, ganha contraste inteligente quando devidamente contextualizada no fluxo universal. Tratá-la de forma insulada é contribuir para encapsular mentalidades. Todo professor sabe disso.


Realmente, é difícil debater os resultados da atual gestão da SEDAC. Como disse no meu artigo do dia 8 de março, “não há balanços de realizações e de responsabilidade social”. Basta consultar o site para constatar a indigência de dados. Fala a Secretária, por exemplo, de “uma dezena” de publicações do IEL. Quais são estes títulos? Por que ninguém os vê? Como estas obras foram recebidas pelo público? Qual é a média atual de publicações do IEL em cotejo com anos de gestões anteriores? Qual a nossa política de estímulo à leitura?


E o que se faz pelo teatro, pela dança, pelo cinema, pelas artes…?! O público nos espetáculos aumentou ou diminuiu?


É fato que o modelo de gestão da Cultura está superado. E isso não vem de agora. Mas por que os salários dos funcionários são tão baixos? Por que o corpo funcional é tão insuficiente? Por que alguns dirigentes precisam acumular vários postos de direção ao mesmo tempo? Por que existem postos vagos?


Como registrei várias vezes aqui no blog, muitos dirigentes apresentam desempenho heróico. Mantém abertas importantes instituições – como a Biblioteca Pública, a Casa de Cultura Mário Quintana, o Museu Júlio de Castilhos, a TVE, dentre outras – apesar dos orçamentos baixíssimos, da carência de pessoal e da ausência de diretriz e conceito por parte do comando da Pasta. Somos, todos, muito gratos a eles. Assim como às associações de amigos, que se desdobram em mil.


Como explicar um orçamento de apenas 30 mil reais por mês para investimentos em todo o estado? Como explicar que o valor para projetos culturais liberado pela LIC em 2006 tenha superado 34 milhões de reais, quando em 2009 despencou para cerca de 12 milhões? Se a Secretária diz que isso não é crise, respeito a sua opinião. Mas se evidencia, assim, finalmente, o seu conceito de Cultura.


Relacionar a Bienal e a inauguração da sede da Fundação Iberê Camargo como parte das realizações da gestão significa assinar embaixo do que eu disse: a crise “só não é ainda mais grave porque algumas iniciativas privadas e administrações municipais vêm ocupando em parte o vazio”. Ambas são ações meritórias que vêm sendo construídas há vários anos pela comunidade e por mecenas.


Desqualificar o debate pessoalizando-o, atribuindo motivações afetivas aos interlocutores, é primário. Acaso podemos dizer que a teoria de Marx é burguesa por conta de sua amizade com Engels, o filho de um industrial? Ora, faça-me o favor!


Sou amigo de muita gente, graças a Deus! E não saio pelos jornais criticando levianamente quem deles discorda, ou tecendo encômios àqueles a quem amo. Amigos, assim como cidadãos, concordam e divergem. Sobretudo, debatem.


Pessoalmente, nada tenho contra a Secretária. Pelo contrário! Acho-a simpática e agradável! E, desejo-lhe sucesso em seus projetos pessoais.


Mas estou é debatendo idéias, conceitos, valores, resultados. Cultura não é bafão. É transcendência humanística, é instrumento de desenvolvimento econômico e social. Também é gestão, que deve ser tratada com transparência e eficiência. E gestão pública, numa democracia, se discute.

De pato a ganso?

17 de março de 2010 5

Eu não sei quanto a vocês, mas estou com dificuldades para captar o ponto no qual reside a eficácia dessa viagem do Presidente Lula a Israel. Oh, sim: há um tratado bilateral importante daquele País com o Mercosul, mas toda a ênfase presidencial parece ter sido depositada sobre esta inusitada oferta para a mediação do histórico conflito israeli-palestino.


A visita me parece, neste diapasão, algo pretensiosa… Pensem em todos os presidentes da super-potência norte-americana que para lá viajaram e que até agora pouco conseguiram de concreto. Aliás, o momento é de abalo nas relações entre Israel e os Estados Unidos em virtude da decisão polêmica de construção de 1,6 mil novas residências em Jerusalém Leste, área anexada a Israel em 1967 e reivindicada pelos palestinos.


É claro que se trata de um conflito nodal, de cuja solução depende em grande medida a paz no mundo. Mas, ainda assim, é um conflito tão distante do horizonte brasileiro… Ultimamente, acumulamos êxito duvidoso em nossa própria área de atuação natural: o Mercosul está num impasse paralisante e a América do Sul fragmentada pela cizânia ideológica. Se mal conseguimos destravar as coisas em nossa vizinhança, por que mesmo queremos atuar no Oriente Médio?


Para oferecer mediação? Ora, o Brasil não se meteu nem no conflito aqui ao lado, entre a Argentina e o Uruguai, envolvendo as tais papeleiras… Ademais, que me conste, nunca foi convidado para mediar nada no Oriente Médio. Aliás, não sei até onde é produtivo esse oferecimento de mediação. Penso que mediação consistente se conforma por convite e não por oferecimento. Além disso, só funciona quando o mediador tem algo novo para acrescentar ao conflito em tela, é neutro e é discreto. Ora, o Brasil no momento não tem nada disso. Não pode agregar nada de novo. Não é neutro, porque tem apoiado abertamente o Irã, e muito menos faz uma viagem discreta. Nunca vi mediação eficaz começar com estardalhaço – que repercute, bem entendido, apenas aqui no Brasil, já que os sites que consultei ontem e hoje no mundo inteiro mal a noticiaram.


A propósito, também não diviso o benefício real dessa aproximação com o Irã. Daqui a pouco, parte da comunidade internacional pode começar a desconfiar do nosso programa nuclear – que é tolerado por ser sabidamente pacífico e por termos adotado até aqui política externa discreta e harmoniosa.


Certo! Acho ótimo que insistamos na importância do diálogo antes de radicalizar-se com sanções ou atrições de maior escala. Com a Coréia do Norte, o diálogo funcionou. Mas foram os americanos que dialogaram por lá. Há razoável aceitação na comunidade internacional em torno de um programa nuclear pacífico no Irã. O problema é que as dúvidas aumentam e a insegurança também quando Ahmadinejad promete “varrer Israel do mapa”.


Confesso não saber até que ponto essas sanções econômicas multilaterais são eficazes. No caso de Cuba e do Iraque, foram um fracasso. Talvez me engane, mas creio que seu maior efeito foi aumentar a condição de vulnerabilidade da população em relação aos regimes locais, o que terminou prolongando ditaduras. Mas, ao mesmo tempo, enquanto se debate, parece que o Irã vai ganhando tempo para aprimorar o seu processo de enriquecimento de urânio. Difícil construir uma posição a respeito…


E há uma grande diferença entre insistir na manutenção dos canais de diálogo e legitimar declaradamente a fraude eleitoral e a perseguição à oposição, com fez o Brasil com relação ao Irã. Além disso, é notável a contradição em matéria de direitos humanos. Apoiamos o Irã e Cuba, enquanto condenamos o regime eleito em Honduras. Creio que, se o Brasil ainda aspira à vaga no Conselho de Segurança da ONU, não será cavalgando este tipo de contradição que angariará respeito e confiança.


Bom, não tenho ainda opinião formada sobre tudo isso. Vou apenas compartilhando com vocês algumas das minhas dúvidas.