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Avatar, Distrito, Terror – ensaios de alteridade e mutação antropofágica

27 de junho de 2010 1


Posto hoje aqui para vocês a versão na íntegra do meu artigo publicado na edição de ontem do Caderno de Cultura da Zero Hora: Três filmes sobre o Outro



Avatar, Distrito, Terror – ensaios de alteridade e mutação antropofágica


Há algo em comum entre três dos filmes que pontificaram na premiação do Oscar desse ano – Avatar, Guerra ao Terror e Distrito 9. Todos tratam do Outro. A repetição da temática da alteridade é sintomática para uma nação em guerra e a braços com uma terrível crise econômica – potência hegemônica que se defronta com um mundo progressivamente multilateral no qual se pergunta pela sua própria identidade.


Avatar, o belo filme de Cameron, elegia para a tecnologia 3D, investe na “westernização” da ficção científica. Remake pós-moderno de Dança com Lobos, reedita a mea-culpa dos norte-americanos para com o massacre dos seus “selvagens”. Ao invés de peles vermelhas, trata-se aqui de peles azuis. Gancho para um libelo save the planet. Num mundo pós-crise global, o clima de repulsa ao financial district tem lá o seu poder catártico.


A tradição avatárica antiga concebe uma divindade que se manifesta entre os homens. No filme de Cameron, a tecnologia fez do homem uma divindade, que então se manifesta pela ciência entre os selvagens. Sendo normalmente o alienígena representado como ameaça à raça humana, aqui o homem é o alien. O filme expande a utopia etnológica ao seu limite. Viver entre o Outro e, mais do que isto, como o Outro, para melhor entendê-lo. Nesse balanço, acaba se dando a fusão com este Outro: confusão com o objeto de estudo etnográfico, implosão das fronteiras simbólicas, que acabam revelando a face negativa do Eu e estabelecendo uma transmutação do Eu em Outro. Assim, o Homem faz-se Divindade, traveste-se de Outro, redescobre-se Homem (mas na sua pior face); fugindo, então, de si próprio, identifica-se e mimetiza-se com o Outro, para finalmente endeusá-lo novamente. Ciclo vicioso que produz a impressão de Eterno Retorno…


Nesse processo de identificação, os Na’vi são infantilizados. As mulheres não têm peito, nem bumbum. Os homens são desprovidos de músculos avantajados. E, apesar dos pernões e brações e de andarem pra lá e prá cá vestindo diminutas tanguinhas de Tarzan, nenhum deles tem órgão sexual. O momento tesão do filme é sublimado numa comunhão divina com as árvores sagradas da memória, numa fórmula que seria aprovada com louvor por Tom Wolfe. Deserotizados, tornam-se selvagens palatáveis, revelando não o Outro, mas como o puritanismo gostaria de aceitar o Outro, isto é, como sua própria face idealizada.


Os Na’vi reeditam o mito do bom selvagem e representam um sujeito pré-Ocidental, anterior à razão e ao monoteísmo que separou o Homem da natureza. Figuram uma religiosidade idealizada e afetiva, mas que é capaz de organizar-se belicamente quando o Homem-Deus-Redescoberto com ela se funde. É quase um sonho criacionista: fé sem o filtro da razão e com mobilização marcial. Não é, decididamente, uma mensagem pacifista, embora muitos tenham tomado como tal a crítica à tecnocracia turbo-capitalista e a ode ao bom-selvagem em estado de comunhão com a natureza.


Em Guerra ao Terror somos informados que o filme se passa em território estrangeiro e selvagem na primeira tomada, quando se revela uma carcaça de carneiro pendurada, à venda: carne crua à mostra na calçada, sem refrigeração, exposta à poeira, à fumaça de óleo diesel, às moscas. Choque para o Ocidente asséptico e urbanizado, onde muitos já nem sabem que batatas não dão em árvores e que a carne que nos chega ao prato, quentinha, processada e saborosa, foi um animal vivo que precisou ser abatido, coureado e destrinchado.


Segue-se um poderoso fluxo narrativo com suspensão de toda transcendência de valores e de consciência. Um jorro niilista que flerta no limite com uma espécie de hedonismo sado-masoquista. O personagem central não reflete sobre o que faz. E admite gostar apenas dessa sedução do perigo, o diálogo com as bombas. Nem a mulher e o filho realmente importam.


Os dois únicos vínculos afetivos que se costuram na estória são fugazes. O soldadinho perde o seu psicanalista e chora. O valentão balança quando encontra morto o menino iraquiano com quem interagia superficialmente. Um cenário de morte do afeto entre as pessoas e de ampliação das fronteiras da anormalidade, do qual emerge uma violência gratuita em rotina nonsense. A guerra como fim em si mesma, em economia própria.


O Outro, aqui, são os iraquianos. E eles estão praticamente mudos. Poucos dizem o seu nome, como o velho professor na casa invadida pelo valentão depois de o menino iraquiano ser morto por terroristas. Apesar da surdez, o diálogo é permanente. E é pelas bombas que o Outro fala… revelando o personagem central da trama: uma metáfora para a morte do sujeito, que, paradoxalmente, se afirma como desdobramento possível da libertação sem precedentes do indivíduo das âncoras sócio-culturais, incluídas aí o próprio Humanismo.


Ao não oferecer saída, o drama cumpre o seu papel de mostrar o fim do túnel. E a mensagem subliminar é que não há nada para além da falência dos valores éticos, os quais, ao fim e ao cabo, só poderiam ser garantidos por âncoras fornecidas, talvez, pela religiosidade e pelo Humanismo. Mais do que pacifismo pregado às avessas, é um ataque às conseqüências da comodização do cotidiano e da introjeção da lógica de mercado pelos indivíduos, que produziu este sujeito sem gravidade, um zumbi pós-moderno.


Distrito 9 não faz curvas para atacar o problema da alteridade. Mas se vale da mesma lógica de ambigüidades: uma ficção-científica favela-movie. Fusão dos opostos que enfatiza o realismo, já que o alien mais próximo de todos nós é o que está na favela, ou, na perspectiva de quem vive nela, aquele que habita o “asfalto”, fora dela, tamanha pode ser a distância social entre esses dois mundos.


E.T, de Steven Spielberg, impactou ao apresentar alienígenas frágeis e fofinhos, quando a Humanidade sempre esperou ataques hostis e invasões de tecnologias superiores, ao estilo H.G Wells. Os aliens de Distrito 9 são ainda mais inusitados. Ao invés de surgirem na superpotência norte-americana, como sempre acontece nas estórias fic-ci, aparecem na África do Sul. Chegam como refugiados e são acomodados em uma favela de Johannesburgo, enquanto os humanos decidem o que fazer com eles. A sua nave simplesmente estacionou. Sua tecnologia entrou em pane. São uns bichos esquisitos, artrópodes, meio gafanhotos, meio lagostas. Dispõem de tecnologia e força física visivelmente superiores aos humanos, mas comportam-se com uma passividade enervante. Alimentam-se de detritos, vivem em meio ao lixo e se viciaram em comida enlatada para gatos. Finalmente, não respeitam claramente as noções de propriedade dos humanos, embora tenham aprendido a se comunicar na sua língua e submetam-se às suas demonstrações de força. O quadro perfeito para despertarem a xenofobia. E é impossível, de fato, para o espectador, deixar de nutrir certa ojeriza por estes insetos nojentos.


À ambigüidade dos alienígenas corresponde a do roteiro. O filme se inscreve na linha Bruxa de Blair: finge documentar uma história real, proposta inaugurada pela radio-novela A Guerra dos Mundos, de Orson Welles, inspirada no livro de H.G. Wells, publicado em 1898. Esta dinâmica amplia o efeito de distanciamento e aproximação com a realidade que, efetivamente, nos cerca.


Muitas das entrevistas exibidas em tom de documentário remetem ao apartheid. Até os veículos militares que patrulham o Distrito 9, com seus cerca de 2 milhões de alienígenas, evocam a militarização das ruas sob o apartheid. Há também uma analogia com os imigrantes ilegais que invadiram a África do Sul nos últimos anos, fugidos, sobretudo, da ditadura de Robert Mugabe, no Zimbábue, de maneira a inchar as favelas e atiçar a violência interétnica. Os únicos a conviverem com os E.Ts. são os nigerianos, membros violentos de gangues que os exploram e, até, os canibalizam, estando, ainda, associados aos cultos africanos animistas e politeístas.


Não há, aqui, nenhuma concessão às religiões mais próximas da natureza, nenhuma idealização do misticismo. O Distrito 9 poderia ser Soweto, ou qualquer campo de refugiados no mundo, assim como seus moradores poderiam estar em qualquer favela e representar qualquer povo não-branco ou qualquer horda de imigrantes ilegais. O fic-ci politizado constrói aqui uma metáfora explícita para a xenofobia. E, assim, torna-se um libelo pró-diálogo e tolerância.


Também os personagens são construídos com ambigüidade. Wikus é um burocrata chato e inepto encarregado de comandar uma operação de desalojamento dos aliens, que seriam levados para uma área distante. É um legítimo anti-herói, medíocre e egoísta. Mas somos levados a torcer por ele depois que se torna um mutante, ao ser exposto a uma misteriosa substância alienígena, e passa a sofrer na pele a discriminação endereçada aos extraterrestres, apelidados de Camarões. É inevitável a comparação com A Mosca, de Cronenberg, ou com a barata de Franz Kafka. Só que a mutação aqui tem efeito positivo sobre a estória.


Wikus acaba se associando a um alien diferenciado, Christopher, inteligente, ético e pacifista, que muda nossa apreciação dos Camarões, pois é mais Humanista do que todos os personagens e depoentes que figuram na trama. Juntos, eles promovem uma rebelião contra a injustiça arbitrária, encarnada na confluência de interesses escusos de uma mega empresa privada e das forças armadas, e a cultura alien termina emergindo. As armas e máquinas, que passaram 20 anos inertes, voltam a funcionar. Descobre-se, então, não terem os aliens vontade individual, apenas de grupo, ativada por uma liderança. Christopher consegue fugir para o espaço e promete retornar para resgatar o seu povo, brutalizado e injustiçado na Terra que deveria servir-lhe de asilo.


A crítica ao materialismo de um capitalismo financeiro desbragado e que se associa ao Exército é mais uma vez evidenciada, assim como em Avatar e, menos explicitamente, em Guerra ao Terror. Distrito 9 aborda a xenofobia e a inexistência de diálogo entre as culturas como causas para uma guerra que provavelmente acontecerá – o mesmo confronto que em Guerra ao Terror já eclodiu. Como em Avatar, em Distrito 9 a solução para a as injustiças passa pela mutação, pela fusão, física e cultural. Os personagens principais nos dois filmes são mutantes, que carregam o gene das duas raças e culturas e, ao produzirem uma síntese, ajudam a resolver o conflito, oferecendo uma saída. Porém, enquanto Avatar aponta no sentido da reconciliação com a natureza por meio de uma fé (puritana, bem entendido) sem o filtro da razão, mas sob mobilização marcial, Distrito 9, menos místico, reclama o restabelecimento do diálogo, isto é, o espaço da política baseado na construção do comum entre os diferentes, por meio do logos, o diálogo racional. Como em Guerra ao Terror a mutação não se realiza, o conflito segue sem solução. Ali, não há esperança e um cotidiano non-sense é protagonizado por sujeitos pós-humanos, convertidos em zumbis, dado o excesso de individualismo e de falta de gravidade. O não-ser da mutação, aqui, conduz à extinção, pela total ausência de transcendência e de diálogo. A humanidade se desumaniza.


Há uma novidade na conotação dada à mutação. Os mutantes em outro filme, X-man, não são produto da associação entre humanos e humanóides, entre deuses e selvagens, entre aliens e terráquios, enfim, entre duas raças, duas culturas. Tornam-se uma raça à parte ao entrarem, meio sem explicação, em mutação. Ganhando superpoderes, dividem-se, então, entre submeter-se aos humanos ou dominá-los. Não há, portanto, solução do conflito, mas instauração do conflito. Ainda mais estéreis e depressivos são os zumbis de filmes como Eu sou a lenda, onde a mutação, provocada por uma experiência genética mal-sucedida, é fonte do horror. Em A Mosca, de Cronenberg, a mutação, mais elaborada, é a deixa para um retrato assustador da desfiguração do humano, revelador de aspectos obscuros do nosso comportamento.


No Ocidente, o mito mais próximo da idéia de mutação é o do vampiro. Um indivíduo metamorfoseia-se quando mordido e contaminado por parasita morto-vivo que se alimenta do sangue das pessoas. Mas aqui não há fusão do Um com o Outro. Apenas absorção, sucção, dominação, assimilação, contaminação. O mito do lobisomem segue a mesma lógica, com menos glamour e sedução, talvez.


Diferente é a idéia-força antropofágica, que está na origem do movimento modernista brasileiro. No célebre Manifesto de 1928, Oswald de Andrade recorreu à metáfora antropofágica, com base nos rituais praticados pelos índios Tubinambás, para sintetizar a metamorfose intercultural, isto é, o mecanismo pelo qual uma dada cultura pode absorver elementos de uma tradição externa, sem perder a sua essência e produzindo uma nova síntese. Isto porque os índios acreditavam que, devorando seus inimigos, assimilariam as suas virtudes. Em pleno fastígio do eurocentrismo, o Manifesto Antropofágico ofereceu uma terceira via para as alternativas da dominação e assimilação, de um lado, e submissão ou resistência, de outro. A antropofagia brasileira festejou o diálogo e a hibridação. Eis, agora, que a mutação de Avatar e Distrito 9 começam por recuperar, precisamente, este sentido positivo que é dado à metamorfose cultural no Brasil. A idéia de síntese entre diferentes ganha força como caminho para a resolução do conflito. Incensam-se as identidades híbridas.


Comentários (1)

  • Christian diz: 27 de junho de 2010

    Ótimo texto! Faz mais sentido ler o completo aqui no blog do que o artigo da ZH. Obrigado por responder minha pergunta sobre o Distrito 9.

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