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Posts de junho 2010

Entrevista na Zero Hora do Desembargador Paulo de Tarso Sanseverino

29 de junho de 2010 0

Reproduzo aqui para vocês entrevista, na Zero Hora de hoje, do Desembargador Paulo de Tarso Sanseverino, que integra lista tríplice para preenchimento de vaga aberta no STJ:“Minha indicação é uma vitória da Justiça gaúcha”

Uma crítica liberal sobre a crise européia, por Guy Sorman

28 de junho de 2010 1

Segue aí o link para o último artigo do economista francês Guy Sorman, publicado em Nova Iorque. Uma visão liberal sobre a crise européia: End of the European Siesta?

Avatar, Distrito, Terror – ensaios de alteridade e mutação antropofágica

27 de junho de 2010 1


Posto hoje aqui para vocês a versão na íntegra do meu artigo publicado na edição de ontem do Caderno de Cultura da Zero Hora: Três filmes sobre o Outro



Avatar, Distrito, Terror – ensaios de alteridade e mutação antropofágica


Há algo em comum entre três dos filmes que pontificaram na premiação do Oscar desse ano – Avatar, Guerra ao Terror e Distrito 9. Todos tratam do Outro. A repetição da temática da alteridade é sintomática para uma nação em guerra e a braços com uma terrível crise econômica – potência hegemônica que se defronta com um mundo progressivamente multilateral no qual se pergunta pela sua própria identidade.


Avatar, o belo filme de Cameron, elegia para a tecnologia 3D, investe na “westernização” da ficção científica. Remake pós-moderno de Dança com Lobos, reedita a mea-culpa dos norte-americanos para com o massacre dos seus “selvagens”. Ao invés de peles vermelhas, trata-se aqui de peles azuis. Gancho para um libelo save the planet. Num mundo pós-crise global, o clima de repulsa ao financial district tem lá o seu poder catártico.


A tradição avatárica antiga concebe uma divindade que se manifesta entre os homens. No filme de Cameron, a tecnologia fez do homem uma divindade, que então se manifesta pela ciência entre os selvagens. Sendo normalmente o alienígena representado como ameaça à raça humana, aqui o homem é o alien. O filme expande a utopia etnológica ao seu limite. Viver entre o Outro e, mais do que isto, como o Outro, para melhor entendê-lo. Nesse balanço, acaba se dando a fusão com este Outro: confusão com o objeto de estudo etnográfico, implosão das fronteiras simbólicas, que acabam revelando a face negativa do Eu e estabelecendo uma transmutação do Eu em Outro. Assim, o Homem faz-se Divindade, traveste-se de Outro, redescobre-se Homem (mas na sua pior face); fugindo, então, de si próprio, identifica-se e mimetiza-se com o Outro, para finalmente endeusá-lo novamente. Ciclo vicioso que produz a impressão de Eterno Retorno…


Nesse processo de identificação, os Na’vi são infantilizados. As mulheres não têm peito, nem bumbum. Os homens são desprovidos de músculos avantajados. E, apesar dos pernões e brações e de andarem pra lá e prá cá vestindo diminutas tanguinhas de Tarzan, nenhum deles tem órgão sexual. O momento tesão do filme é sublimado numa comunhão divina com as árvores sagradas da memória, numa fórmula que seria aprovada com louvor por Tom Wolfe. Deserotizados, tornam-se selvagens palatáveis, revelando não o Outro, mas como o puritanismo gostaria de aceitar o Outro, isto é, como sua própria face idealizada.


Os Na’vi reeditam o mito do bom selvagem e representam um sujeito pré-Ocidental, anterior à razão e ao monoteísmo que separou o Homem da natureza. Figuram uma religiosidade idealizada e afetiva, mas que é capaz de organizar-se belicamente quando o Homem-Deus-Redescoberto com ela se funde. É quase um sonho criacionista: fé sem o filtro da razão e com mobilização marcial. Não é, decididamente, uma mensagem pacifista, embora muitos tenham tomado como tal a crítica à tecnocracia turbo-capitalista e a ode ao bom-selvagem em estado de comunhão com a natureza.


Em Guerra ao Terror somos informados que o filme se passa em território estrangeiro e selvagem na primeira tomada, quando se revela uma carcaça de carneiro pendurada, à venda: carne crua à mostra na calçada, sem refrigeração, exposta à poeira, à fumaça de óleo diesel, às moscas. Choque para o Ocidente asséptico e urbanizado, onde muitos já nem sabem que batatas não dão em árvores e que a carne que nos chega ao prato, quentinha, processada e saborosa, foi um animal vivo que precisou ser abatido, coureado e destrinchado.


Segue-se um poderoso fluxo narrativo com suspensão de toda transcendência de valores e de consciência. Um jorro niilista que flerta no limite com uma espécie de hedonismo sado-masoquista. O personagem central não reflete sobre o que faz. E admite gostar apenas dessa sedução do perigo, o diálogo com as bombas. Nem a mulher e o filho realmente importam.


Os dois únicos vínculos afetivos que se costuram na estória são fugazes. O soldadinho perde o seu psicanalista e chora. O valentão balança quando encontra morto o menino iraquiano com quem interagia superficialmente. Um cenário de morte do afeto entre as pessoas e de ampliação das fronteiras da anormalidade, do qual emerge uma violência gratuita em rotina nonsense. A guerra como fim em si mesma, em economia própria.


O Outro, aqui, são os iraquianos. E eles estão praticamente mudos. Poucos dizem o seu nome, como o velho professor na casa invadida pelo valentão depois de o menino iraquiano ser morto por terroristas. Apesar da surdez, o diálogo é permanente. E é pelas bombas que o Outro fala… revelando o personagem central da trama: uma metáfora para a morte do sujeito, que, paradoxalmente, se afirma como desdobramento possível da libertação sem precedentes do indivíduo das âncoras sócio-culturais, incluídas aí o próprio Humanismo.


Ao não oferecer saída, o drama cumpre o seu papel de mostrar o fim do túnel. E a mensagem subliminar é que não há nada para além da falência dos valores éticos, os quais, ao fim e ao cabo, só poderiam ser garantidos por âncoras fornecidas, talvez, pela religiosidade e pelo Humanismo. Mais do que pacifismo pregado às avessas, é um ataque às conseqüências da comodização do cotidiano e da introjeção da lógica de mercado pelos indivíduos, que produziu este sujeito sem gravidade, um zumbi pós-moderno.


Distrito 9 não faz curvas para atacar o problema da alteridade. Mas se vale da mesma lógica de ambigüidades: uma ficção-científica favela-movie. Fusão dos opostos que enfatiza o realismo, já que o alien mais próximo de todos nós é o que está na favela, ou, na perspectiva de quem vive nela, aquele que habita o “asfalto”, fora dela, tamanha pode ser a distância social entre esses dois mundos.


E.T, de Steven Spielberg, impactou ao apresentar alienígenas frágeis e fofinhos, quando a Humanidade sempre esperou ataques hostis e invasões de tecnologias superiores, ao estilo H.G Wells. Os aliens de Distrito 9 são ainda mais inusitados. Ao invés de surgirem na superpotência norte-americana, como sempre acontece nas estórias fic-ci, aparecem na África do Sul. Chegam como refugiados e são acomodados em uma favela de Johannesburgo, enquanto os humanos decidem o que fazer com eles. A sua nave simplesmente estacionou. Sua tecnologia entrou em pane. São uns bichos esquisitos, artrópodes, meio gafanhotos, meio lagostas. Dispõem de tecnologia e força física visivelmente superiores aos humanos, mas comportam-se com uma passividade enervante. Alimentam-se de detritos, vivem em meio ao lixo e se viciaram em comida enlatada para gatos. Finalmente, não respeitam claramente as noções de propriedade dos humanos, embora tenham aprendido a se comunicar na sua língua e submetam-se às suas demonstrações de força. O quadro perfeito para despertarem a xenofobia. E é impossível, de fato, para o espectador, deixar de nutrir certa ojeriza por estes insetos nojentos.


À ambigüidade dos alienígenas corresponde a do roteiro. O filme se inscreve na linha Bruxa de Blair: finge documentar uma história real, proposta inaugurada pela radio-novela A Guerra dos Mundos, de Orson Welles, inspirada no livro de H.G. Wells, publicado em 1898. Esta dinâmica amplia o efeito de distanciamento e aproximação com a realidade que, efetivamente, nos cerca.


Muitas das entrevistas exibidas em tom de documentário remetem ao apartheid. Até os veículos militares que patrulham o Distrito 9, com seus cerca de 2 milhões de alienígenas, evocam a militarização das ruas sob o apartheid. Há também uma analogia com os imigrantes ilegais que invadiram a África do Sul nos últimos anos, fugidos, sobretudo, da ditadura de Robert Mugabe, no Zimbábue, de maneira a inchar as favelas e atiçar a violência interétnica. Os únicos a conviverem com os E.Ts. são os nigerianos, membros violentos de gangues que os exploram e, até, os canibalizam, estando, ainda, associados aos cultos africanos animistas e politeístas.


Não há, aqui, nenhuma concessão às religiões mais próximas da natureza, nenhuma idealização do misticismo. O Distrito 9 poderia ser Soweto, ou qualquer campo de refugiados no mundo, assim como seus moradores poderiam estar em qualquer favela e representar qualquer povo não-branco ou qualquer horda de imigrantes ilegais. O fic-ci politizado constrói aqui uma metáfora explícita para a xenofobia. E, assim, torna-se um libelo pró-diálogo e tolerância.


Também os personagens são construídos com ambigüidade. Wikus é um burocrata chato e inepto encarregado de comandar uma operação de desalojamento dos aliens, que seriam levados para uma área distante. É um legítimo anti-herói, medíocre e egoísta. Mas somos levados a torcer por ele depois que se torna um mutante, ao ser exposto a uma misteriosa substância alienígena, e passa a sofrer na pele a discriminação endereçada aos extraterrestres, apelidados de Camarões. É inevitável a comparação com A Mosca, de Cronenberg, ou com a barata de Franz Kafka. Só que a mutação aqui tem efeito positivo sobre a estória.


Wikus acaba se associando a um alien diferenciado, Christopher, inteligente, ético e pacifista, que muda nossa apreciação dos Camarões, pois é mais Humanista do que todos os personagens e depoentes que figuram na trama. Juntos, eles promovem uma rebelião contra a injustiça arbitrária, encarnada na confluência de interesses escusos de uma mega empresa privada e das forças armadas, e a cultura alien termina emergindo. As armas e máquinas, que passaram 20 anos inertes, voltam a funcionar. Descobre-se, então, não terem os aliens vontade individual, apenas de grupo, ativada por uma liderança. Christopher consegue fugir para o espaço e promete retornar para resgatar o seu povo, brutalizado e injustiçado na Terra que deveria servir-lhe de asilo.


A crítica ao materialismo de um capitalismo financeiro desbragado e que se associa ao Exército é mais uma vez evidenciada, assim como em Avatar e, menos explicitamente, em Guerra ao Terror. Distrito 9 aborda a xenofobia e a inexistência de diálogo entre as culturas como causas para uma guerra que provavelmente acontecerá – o mesmo confronto que em Guerra ao Terror já eclodiu. Como em Avatar, em Distrito 9 a solução para a as injustiças passa pela mutação, pela fusão, física e cultural. Os personagens principais nos dois filmes são mutantes, que carregam o gene das duas raças e culturas e, ao produzirem uma síntese, ajudam a resolver o conflito, oferecendo uma saída. Porém, enquanto Avatar aponta no sentido da reconciliação com a natureza por meio de uma fé (puritana, bem entendido) sem o filtro da razão, mas sob mobilização marcial, Distrito 9, menos místico, reclama o restabelecimento do diálogo, isto é, o espaço da política baseado na construção do comum entre os diferentes, por meio do logos, o diálogo racional. Como em Guerra ao Terror a mutação não se realiza, o conflito segue sem solução. Ali, não há esperança e um cotidiano non-sense é protagonizado por sujeitos pós-humanos, convertidos em zumbis, dado o excesso de individualismo e de falta de gravidade. O não-ser da mutação, aqui, conduz à extinção, pela total ausência de transcendência e de diálogo. A humanidade se desumaniza.


Há uma novidade na conotação dada à mutação. Os mutantes em outro filme, X-man, não são produto da associação entre humanos e humanóides, entre deuses e selvagens, entre aliens e terráquios, enfim, entre duas raças, duas culturas. Tornam-se uma raça à parte ao entrarem, meio sem explicação, em mutação. Ganhando superpoderes, dividem-se, então, entre submeter-se aos humanos ou dominá-los. Não há, portanto, solução do conflito, mas instauração do conflito. Ainda mais estéreis e depressivos são os zumbis de filmes como Eu sou a lenda, onde a mutação, provocada por uma experiência genética mal-sucedida, é fonte do horror. Em A Mosca, de Cronenberg, a mutação, mais elaborada, é a deixa para um retrato assustador da desfiguração do humano, revelador de aspectos obscuros do nosso comportamento.


No Ocidente, o mito mais próximo da idéia de mutação é o do vampiro. Um indivíduo metamorfoseia-se quando mordido e contaminado por parasita morto-vivo que se alimenta do sangue das pessoas. Mas aqui não há fusão do Um com o Outro. Apenas absorção, sucção, dominação, assimilação, contaminação. O mito do lobisomem segue a mesma lógica, com menos glamour e sedução, talvez.


Diferente é a idéia-força antropofágica, que está na origem do movimento modernista brasileiro. No célebre Manifesto de 1928, Oswald de Andrade recorreu à metáfora antropofágica, com base nos rituais praticados pelos índios Tubinambás, para sintetizar a metamorfose intercultural, isto é, o mecanismo pelo qual uma dada cultura pode absorver elementos de uma tradição externa, sem perder a sua essência e produzindo uma nova síntese. Isto porque os índios acreditavam que, devorando seus inimigos, assimilariam as suas virtudes. Em pleno fastígio do eurocentrismo, o Manifesto Antropofágico ofereceu uma terceira via para as alternativas da dominação e assimilação, de um lado, e submissão ou resistência, de outro. A antropofagia brasileira festejou o diálogo e a hibridação. Eis, agora, que a mutação de Avatar e Distrito 9 começam por recuperar, precisamente, este sentido positivo que é dado à metamorfose cultural no Brasil. A idéia de síntese entre diferentes ganha força como caminho para a resolução do conflito. Incensam-se as identidades híbridas.


Direito & Literatura sobre Coetzee

26 de junho de 2010 0

Eis aí dois momentos do programa Direito & Literatura, apresentado pelo Lenio Streck, no qual participei em companhia da Professora Kathrin Rosenfield, discutindo o “Diário de um ano ruim”, de J.M. Coetzee. O programa vai ao ar na TVE/RS, no dia 27 de junho, domingo, às 20h30min; e 30 de junho, quarta-feira, às 22h30min. Na TV JUSTIÇA, vai ao ar dia 4 de julho, domingo, às 12h, e 9 de julho, sexta-feira, às 9h.

Gunter Axt - foto andré KaramGunter Axt, Lenio Streck e Kathrisn Rosenfield - Direito & Literatura \"Diário de um Ano Ruim\" de J.M. Coetzee

Torcida pela indicação do Desembargador Paulo Sanseverino para o STJ

26 de junho de 2010 0

O Desembargador Paulo de Tarso Sanseverino é o candidato mais votado da lista tríplice para preenchimento da vaga no Superior Tribunal de Justiça aberta com a aposentadoria da Ministra Denise Arruda. Há tempos o Rio Grande do Sul vem sub-representado nas indicações para a composição dos Tribunais Superiores, o que é péssimo, pois contribuiu para o isolamento do Estado. A escolha recaiu sobre um excelente candidato. Eu tive a grande satisfação de conviver com o Desembargador Sanseverino quando ajudei a desenvolver o projeto memória da Escola Superior da Magistratura do Rio Grande do Sul. Conheci um magistrado culto, de grande saber jurídico, um administrador altamente capaz, um ser-humano sensível, alegre e equilibrado. Se confirmada esta indicação, em torno da qual, neste momento, devem convergir os meios jurídicos, intelectuais e políticos gaúchos, o STJ, certamente, será enriquecido em sua composição. Estou na torcida!

O Poder Moderador e a tensão entre federalismo e centralização no Segundo Reinado

21 de junho de 2010 0

Já está on-line o meu artigo na revista Voto desse mês. Reproduzo-o abaixo aí para vocês.


Há quem conte a história do Brasil como desdobramento natural de um projeto estatista e centralizador. Mas a construção dessa fórmula jamais foi pacífica.

No Império, após a investida descentralizante do Ato Adicional, de 1834, e do regresso conservador, de 1841, entrou-se numa espécie de acordo possível. A última revolta contra a centralização política eclodiu em Pernambuco, foco de forças autonomistas, em 1848, sendo rapidamente sufocada. Por volta de 1850, entrou-se em um acordo entre as elites em torno da forma de governo monárquica, política e administrativamente centralizada, mas com ênfase aos acordos com as elites provinciais. Calcula-se que, ao final do Império, 77% das rendas públicas eram arrecadadas pelo Governo Geral, sendo que apenas 18% seguiam para as Províncias. O Governo central empregava cerca de 70% dos funcionários públicos, enquanto que as Províncias empregavam 25%.

A partir de 1860, avivou o debate entre liberais e conservadores sobre os limites da centralização. A submissão das Províncias ao Governo central e as interferências do Poder Moderador na vida política tornaram-se polêmicas. Pontificaram neste debate os liberais Zacarias de Góis e Vasconcelos e Aureliano Tavares Bastos, de um lado, e, de outro, os conservadores Pimenta Bueno, Marques de São Vicente, e Paulino José Soares de Souza, Visconde do Uruguai, alguns dos grandes nomes da teoria política brasileira.

Para o Visconde do Uruguai, o empoderamento das Assembléias Provinciais durante a Regência (1831-1840) estimulara as facções locais, germens das revoltas que corroíam a unidade. O político conservador sonhava separar a administração do campo da política, pois entendia que a vitória de uma facção significaria o abafamento definitivo da outra, o que traria instabilidade institucional. Por isso, insistia na necessidade de instituições que operassem a mediação do conflito, acreditando ser o Poder Moderador a chave deste sistema. A fórmula seria recuperada no Estado Novo por Getúlio Vargas e em 1964 pelo regime militar. O Visconde do Uruguai registrava o quanto as eleições estavam ameaçadas pela fraude e pela manipulação do poder privado local, assinalando que o poder distante tornava-se menos despótico que o poder local. Paulino de Souza sinalizava que o princípio de self-government, defendido por Tocqueville e implantado nos Estados Unidos da América, dependia de uma estratégia de controle dos poderes locais e do interesse privado, o que, considerando as condições do País, tão-somente era possível, naquele momento, por meio da missão pedagógica e civilizante possibilitada pela centralização política e administrativa. O Visconde acreditava que uma descentralização precipitada poderia lançar o País numa oligarquia.

A Monarquia, de fato, por meio do Poder Moderador, encontrara uma fórmula de substituir os titulares do poder sem violência excessiva, sobrenadando as facções e limitando o grau de interferência dos poderes privados locais no processo político. Assim, as interferências do imperador nomeavam um membro do partido de oposição para que fizesse as eleições, garantindo um sistema de rodízio e evitando o conflito aberto entre as facções.

O liberal Zacarias de Góis e Vasconcelos, por sua vez, propunha o estabelecimento de limites à ação do Poder Moderador, especialmente por meio da responsabilização dos Ministros de Estado, mas em momento algum questionou a pertinência da manutenção deste mecanismo, distanciando-se, portanto, das propostas reformistas do início dos anos 1830. Zacarias sustentava que o Poder Moderador não deveria, contudo, ser exercido diretamente pelo Monarca, mas, sim, pelos Ministros, responsabilizados perante a Câmara. O Visconde do Uruguai rebatia estas teses argumentando que se transferido o Poder Moderador para os Ministros, o Ministério seria perigosamente partidarizado e disposto acima da Coroa.

Aureliano Tavares Bastos foi ainda mais além na crítica à centralização, assoalhando que o poder central ameaçava a liberdade, cuja plena realização dependeria do reforço à autonomia local.

A crítica em relação aos malefícios advindos do excesso de centralização avolumou-se com o passar dos anos e foi absorvida pela pregação republicana, sendo expressa já no manifesto de 1870. Ao longo da década de 1880, a propaganda republicana insistiu na fórmula da descentralização para garantir a manutenção da unidade política e territorial do Brasil. Ideologias novas, como o positivismo de Augusto Comte, emprestavam coerência conceitual e fluidez discursiva ao projeto descentralizante. Por detrás desta fermentação, estava uma nova fração da classe dominante que pretendia conferir mais visibilidade política ao seu poder econômico – os cafeicultores paulistas. Simbólico neste sentido é o Monumento do Ipiranga. Ao demandar a construção de um faustoso prédio em registro da Independência do Brasil, a nova burguesia agrária paulista mostrava que pretendia apropriar-se de uma parcela da soberania nacional.

Acusando o golpe e sentindo a perigosa mudança dos ventos políticos, alguns políticos, como Joaquim Nabuco, em 1885, e Rui Barbosa, propuseram reformas federalistas sem abdicar do princípio monárquico. A urgência do assunto se afirmou especialmente depois da Abolição da Escravatura, em 13 de maio de 1888, que diluía a necessidade de vinculação umbilical entre unidade jurídica e centralização política. Em 1889 Rui Barbosa insistia: “ou a monarquia faz a federação ou o federalismo faz a república”. O Imperador Dom Pedro II formou, em 7 de junho de 1889, um novo Gabinete, cuja chefia entregou ao Visconde de Ouro Preto, o qual se propôs a encaminhar uma reforma administrativa, a fim de esvaziar a pregação republicana que crescia em todo o País. Acenou para o arrefecimento do centralismo monárquico, por meio do fortalecimento das Assembléias Legislativas e dos Conselhos Municipais. Na economia, o Visconde desencadeou um ousado programa emissionista que pretendia aumentar o meio circulante, reunindo recursos para financiar a lavoura, atingida em cheio pela Abolição e pela quebra de safra. E Dom Pedro II chegou a aventar a possibilidade de transferir o Poder Moderador para nossa Suprema Corte. Porém, as promessas não foram suficientes para estancar o inconformismo, e, em 15 de novembro de 1889, uma quartelada estalada no Rio de Janeiro começou derrubando o Gabinete e terminou depondo o Imperador e proclamando a República.

Raio atinge Igreja Matriz em Gramado

20 de junho de 2010 0

Em Gramado, o comentário desses dias é o raio que atingiu a cruz no alto da torre de 46 metros da Igreja São Pedro, no centro da cidade, danificando-a. O fato se deu na tarde dessa última quarta-feira, dia 17. O estrondo foi tão forte, conta-se, que os alarmes dos carros estacionados no entorno dispararam, ampliando a sensação de pandemônio. Algumas pedras se desprenderam como conseqüência do impacto, caindo junto ao templo, na calçada. O Padre Luiz Pedro Wagner teria concluído ser um verdadeiro milagre que ninguém tenha se ferido, diante da gravidade do acidente. Há, com efeito, um pára-raio instalado na cruz, que serve como defesa para a área central da cidade. Porém, não falta quem esteja repetindo por aí o velho bordão popular, “Deus não mata, mas castiga”, numa alusão, no caso, a um possível excesso de mercantilismo que estaria chegando até às dependências do templo. Bom, não sei, é o que dizem.

Hold your Horses - passeio pela arte

19 de junho de 2010 0

Adorei este clip, cujo link a Maria Tomazeli me enviou. É um bem-humorado passeio pela arte pictórica ocidental feito pela banda franco-americana Hold Your Horses. Olha que legal: 70 Million by Hold Your Horses

"Cala boca Galvão!" vira fenômeno da Internet

17 de junho de 2010 72

O novo universo virtual produz fenômenos globais de massa, instantâneos e inusitados.

Desde a semana passada, o mundo se pergunta: o que é “CALA BOCA GALVÃO”?

Alguns brasileiros gaiatos postaram no micro-blog Twitter o bordão dos campos de futebol conhecido de todos nós “Cala boca Galvão”, o qual, como todos sabem, exprime a impaciência de muitos torcedores com o estilo de narração do nosso mais famoso comentarista esportivo, Galvão Bueno. Dizem que isso começou porque o Galvão não gosta dos times do Sul, mas a verdade é que é um fenômeno nacional. E, por algum insondável motivo, muita gente agora acha que ele diz um monte de bobagens: “Cala boca Galvão”, efetivamente, remete-se ao bom e velho “Cala boca Magda”, do seriado cômico “Sai de Baixo”, que caiu no gosto do povo. O texto da Magda era realmente muito bom.

Mas aí a turma logo se identificou e retwittou freneticamente o “Cala boca Galvão”. A brincadeira começou a ficar interessante quando o tema figurou entre os mais twittados no mundo todo. De fato, não tem preço os gringos se perguntando: o que é “Cala boca Galvão”?

Nossos gaiatos, então, contaram aos gringos que se tratava de uma campanha para salvar um pássaro da extinção – o Galvao Bird – cujas penas seriam utilizadas indiscriminadamente nos desfiles de carnaval. Inventaram até um bispo que estaria à frente da campanha. E aplicaram que, a cada novo twitt, dez centavos de dólar iriam para uma suposta conta bancária, criada por uma fictícia ONG, para salvar os coitadinhos dos pássaros: Help us Save Galvao Bird, dizia até um videozinho postado no YouTube: Save Galvao Birds Campaign

Os gringos caíram! E o “Cala boca Galvão” foi retwittado aos milhares. Tornou-se o tema mais falado no Twitter, despertando interesse geral, feito noticiado até nos blogs do New York Times. Veja aí o link: Tweets of Fictional Galvão Birds Echo Online

Na twittosfera, conta-se que o responsável por revelar aos gringos o verdadeiro significado do “Cala boca Galvão” foi o Paulo Coelho. Não faltou quem começasse a twittar, então, “Cala boca Paulo Coelho”.

O fenômeno evoca algumas breves considerações.

Vejam, em primeiro lugar, como uma simples frasezinha pode ganhar o mundo em curto espaço de tempo! Evidencia-se o quanto a sociedade civil pode forjar notícias, o que antes parecia ser apanágio, sobretudo, da mídia estabelecida, de grandes corporações, pessoas notáveis ou de governos.

É claro, impressiona, também, que uma causa desimportante e piadista seja capaz de tamanha mobilização. Reflexos desses tempos pós-modernos, em que a idiotia foi entronizada: se o BBB é fenômeno de audiência, o “Cala boca Galvão” pode virar notícia internacional.

Nota-se, além disso, o quanto na Internet coexistem essas duas potências: o global instantaneizado e a localização do glamour. Sim, porque salvo algumas estrelas globais, o glamour popular é local. A Internet, é, assim, também fronteirizada. Percebamos o destaque que ganham, neste contexto, o Brasil, os brasileiros e a língua portuguesa.

Por outro lado, é impagável o registro a propósito da idiotia das pessoas quando se trata de alguma suposta causa em defesa do meio ambiente: qualquer patuscada passa batido, tamanha a credulidade da massa internáutica. Ingenuidade que passa também pela disposição em acreditar que um twitt pode ser convertido em dinheiro destinado a uma conta bancária! Muitos caíram feito patos na história e sequer se deram ao trabalho de verificar a sua veracidade, se existiam ou não os Galvao Birds, se a tal ONG era real ou não.

Sim, a sociedade civil tem uma poderosa arma de mobilização nas mãos, no mundo atual. Mas, como mostra o cômico da situação, essa é também uma arma perigosa, vez que as pessoas parecem dispostas a acreditar em qualquer besteira. O episódio é mel na sopa dos que sustentam não passar a tese do aquecimento global de uma conspiração de cientistas militantes que acreditam os meios justificarem os fins.

Finalmente, resta observar como a Rede Glóbulo, sempre tão rapidinha para levar às telas esses fenômenos jocosos da Internê, abordará o “Cala boca Galvão”. Pois, afinal, se trata de um golpe, maroto, é verdade, sobre as grandes redes de jornalismo e transmissão.

Vuvuzela combo

15 de junho de 2010 2

Há certos fenômenos de massa que oscilam do engraçadinho para a saturação. Essa apurrinhação com as vuvuzelas na Copa do Mundo é, muito provavelmente, um deles.

Olha, nem mesmo numa festa como a Copa, ninguém merece um bando de gente assoprando numas cornetinhas irritantes o tempo todo. O ruído é tão ensurdecedor que já não se ouvem mais os divertidos refrões das torcidas, pois tudo é abafado por um zunido aplastante. Até a narração dos jogos fica em parte comprometida. Fico imaginando o que não passam os repórteres e narradores para tentar se comunicar com o público, a sua dificuldade de concentração, etc… Aí fica todo mundo dizendo que é engraçadinho. Mas, na verdade, é retardado. Podia ser música, batucada, piadinhas de massa. Mas é só um zunido interminável e tonitroante, que a tudo o mais abafa.

Não estou lá na África, mas, para mim, a única mensagem que isso passa é a de uma massa cuja voz foi sufocada por tanto tempo que agora não sabe mais como se comunicar coletivamente, a não ser pela imposição a todos os outros desse zumbido sem noção. É uma pena que isto esteja sendo identificado como a marca da Copa. Tomara que esse espasmo possa servir como um grito coletivo de libertação da voz e, depois disso, algo mais elaborado emirja.

Igualmente chatas são as piadinhas infelizes sobre vuvuzelas, que não param. Todo mundo só fala nisso (até eu!). Ontem até o divertido Marcelo Tas, no CQC, para anunciar uma entrevistinha rápida com a Shakira, disse algo assim: “Vamos ver a vuvuzela da Shakira!” E, depois, perguntou a um de seus auxiliares que estão na África, algo assim: “Você já assoprou/ beijou a vuvuzela de um negão?” Ai, ninguém merece! Foi tão idiota que até ele disse que ninguém mais agüenta piadinha de vuvuzela.

Outra palavra que eu não agüento mais ouvir é COMBO. De tempos em tempos, o povo adota algum estrangeirismo novidadeiro e fica por aí repetindo o troço à exaustão. O tal COMBO foi encampado maciçamente pela publicidade e pelo comércio. É enervante. Tudo é COMBO: a internet, o celular, a pizza… Outro dia, perdi a conta de quantas vezes ouvi a palavra COMBO num vôo da Gol na hora em que os comissários de bordo se puseram, desajeitadamente, a vender sanduichinhos. Parecia um disco trancado. Uma simplificação gutural da língua, como se todas as palavras fossem reduzidas a uma única porcaria. O cúmulo foi quando entrei num sushi e os tradicionais “combinados” foram substituídos por COMBOS – será que os proprietários achavam que estavam sendo moderninhos? Aquilo me convenceu de que o sushi não deveria ser bem feito. Me levantei e fui embora.

Pois, então (mais uma tirada infeliz, mas nunca fui bom de humor mesmo…), nessa Copa estamos passando por um vuvuzela combo. É, mas vai passar.