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Arte e finanças

22 de julho de 2010 0

Reproduzo abaixo para vocês uma adaptação de um trecho de um artigo meu, publicado há cerca de 10 anos, que traz uma reflexão interessante sobre as empresas e empresários que decidem investir em arte.


Falando há alguns anos ao Business Commitee for the Arts sobre a convergência entre cultura e negócios, Eli Broad, Chairman da SunAmerica Inc., um dos maiores grupos financeiros da costa oeste dos EUA, disse admirar muito as pessoas que têm uma visão própria do mundo, que pensam além do seu umbigo e da sua esquina, e que são capazes de criar um dispositivo eficaz e de valor, correspondente a esta visão. Arrematou dizendo que os artistas, muito mais do que executivos talentosos, têm esta característica, atribuindo ao sucesso da SunAmerica uma receita que procurou trazer a arte para o cotidiano empresarial.

Conhecido colecionador privado de arte moderna e contemporânea, Broad iniciou uma coleção corporativa animado por um sentimento de responsabilidade cívica para com os milhares de jovens artistas californianos, que necessitavam de suporte no princípio de suas carreiras. Assim, ao invés de investir 10 milhões de dólares em meia dúzia de obras consagradas a serem expostas no lobby, preferiu destinar um milhão à aquisição de várias peças de artistas emergentes. A extensão da coleção constituída obrigou os curadores a instalar as obras em cada nicho de trabalho, de sorte que todas as áreas comuns do prédio corporativo passaram a ter arte nas paredes. Os curadores cuidaram, também, de conferir um sentido à exposição, contextualizando a produção individual, e, como se tratavam de artistas locais, a informação tornou-se logo alvo de interesse para empregados e visitantes.

Cumprida sua missão cívica, Broad percebeu haver descoberto um investimento lucrativo, o que é importante, pois se presume que todo o empreendimento capitalista invista em atividades das quais acredita auferir algum retorno. E este retorno começou sem medida pelos números. Por exemplo, cinco minutos de discussão entre dois executivos sobre os motivos que os levavam a gostar ou não de uma determinada obra revelaram-se fundamentais para quebrar o gelo e suscitar laços subjetivos que seriam mais tarde úteis e mesuráveis quando os dois se reencontrassem na execução de algum projeto. Este ponto de convergência é estratégico para o sucesso de uma companhia, ainda que não seja tão óbvio quanto a redução de custos operacionais ou o aumento da eficiência produtiva. Uma companhia não pode ter sucesso sem um time engajado e sem boas idéias. Neste caso, a arte foi um canal por meio do qual executivos, empregados e parceiros passaram a interagir experiências subjetivas, que normalmente estariam afastadas do ambiente de trabalho, o que propiciou uma perspectiva mais rica, humanista e plural sobre cada projeto da companhia.

Enfim, incorporando a arte no ambiente de trabalho, Broad proporcionou aos seus empregados a oportunidade de explorar uma nova arena, dando-lhes a chance de considerar idéias nem sempre familiares, o que trouxe resultados inesperados para o trabalho. O interesse pela arte expôs o grupo a novos conceitos e novas pessoas que estariam inacessíveis se os olhares não transcendessem os monitores e os documentos sobre as mesas. Por outro lado, o investimento na comunidade também impactou a performance da companhia. Uma corporação financeira como a SunAmerica certamente é julgada quanto a sua capacidade de manejar hábil e responsavelmente os investimentos de seus clientes. Broad constatou serem os clientes mais sensíveis à manutenção de relações comerciais duradouras quando capazes de identificar o lado humano e comunitário do seu agente.

Benefícios também foram percebidos em torno da imagem da companhia junto à comunidade empresarial. O produto da SunAmerica mesclava doses de agressividade e criatividade com credibilidade e prudência. A coleção corporativa ajudou a comunicar esta imagem, explicitando a qualquer um que atravessasse as portas da sede não se tratar aquela de uma típica companhia de serviços financeiros.

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