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Posts de julho 2010

Justiça comunitária: entre o ideal e a realidade

31 de julho de 2010 1

Com os desdobramentos advindos da queda do Muro de Berlim, muita gente que sinceramente aspirava a um mundo mais justo basculou da idealização da centralização estatal para a idealização do empoderamento comunitário. Trabalhos como a tese do sociólogo Boaventura de Souza Santos, defendida nos anos 1970, que incensava as fórmulas de justiça comunitária surgidas na esteira do vácuo da presença do Estado nas favelas do Rio de Janeiro, funcionaram como senha para a necessidade de um novo horizonte.


Entretanto, nem tanto ao céu, nem tanto a terra. Em pleno regime militar brasileiro, Boaventura Santos não poderia imaginar que o populismo irresponsável dos anos 1980 retiraria ainda mais o estado das favelas, abandonando-as ao comando do crime organizado, imensamente potencializado nos anos seguintes pelo avanço do tráfico de drogas e de armas e pela corrupção da polícia. Assim, a idílica justiça comunitária de Boaventura Santos converteu-se no pesadelo dos tribunais do tráfico, que sentenciam milhares de pessoas à morte e à tortura.


A tal justiça comunitária também vem provocando horríveis distorções pelo mundo afora. No Paquistão, tribunais tribais condenam mulheres adúlteras à morte por apedrejamento, chocando até mesmo as autoridades judiciárias do próprio país. Mas os mais recentes escândalos da justiça comunitária eclodiram mais perto, na vizinha Bolívia.


Compromisso de campanha do Presidente Evo Morales, da etnia aimará, a reforma constitucional de 2009 passou a considerar a Bolívia um estado “plurinacional”, prevendo autonomia para as áreas indígenas. Num país marcado pelo histórico de brutal centralização político-administrativa, a medida pareceu a muitos um feliz avanço. No que diz respeito à justiça, as comunidades ganharam o direito de exercer funções jurídicas, desde que respeitando o limite do “direito à vida”. Os índios podem agora julgar os acusados de crimes cometidos em suas terras, prolatando sentenças completamente livres de apelação para a Justiça comum. Na prática, entretanto, institucionalizou-se o estado paralelo e escancarou-se a porta a notáveis abusos.


Em maio, quatro policiais bolivianos, acusados de roubo e de extorsão, foram sentenciados ao espancamento até à morte na localidade de Uncia. Foram enterrados de bruços, para que seus espíritos – como reza a tradição local – não tentassem se vingar. Os responsáveis alegam que apenas aplicaram a justiça comunitária. E o frágil estado boliviano não consegue nem mesmo fiscalizar a exigência de respeito à vida, não observada no caso em tela. Já penas como amputação de membros, tortura e açoitamentos não seriam de modo algum inconstitucionais.


Independentemente da culpa ou não dos acusados, que sequer tiveram direito justo à defesa, o bárbaro assassinato é um retorno à justiça medieval, como se todas as conquistas do liberalismo moderno simplesmente não existissem. No Brasil, por exemplo, até os códigos penal e de processo penal de inícios dos anos 1830, vigia o vetusto Capítulo V das Ordenações Filipinas, farto na cominação de penas atrozes, contra o corpo, a alma, a memória e a família dos réus.


Há alguns meses, todos acompanhamos pelos noticiários o drama de turistas, dentre os quais havia brasileiros, que foram feitos reféns por índios em uma estrada boliviana. Com todo o respeito e reconhecimento pelos séculos de espoliação e barbaridades a que foram submetidos os índios bolivianos, uma coisa não pode justificar a outra. As barricadas, com graves conseqüências às liberdades das pessoas, tornaram-se comuns na Bolívia plurinacional: faces corriqueiras da justiça feita pelas próprias mãos. Analistas temem, ainda, que esta autonomia oportunize a emergência de relações promíscuas com o crime organizado, dando azo a atividades ilegais de dimensões ainda maiores.


Antropólogos garantem que a justiça indígena tradicional é realizada por um conselho de anciãos e desconhece a pena de morte e o supliciamento dos réus. Considerando não estarem esses antropólogos iludidos, então talvez a justiça indígena já esteja sendo confundida com linchamentos e sendo usada como guarda-chuvas para garantir impunidade a tormentos perpetrados pelo crime organizado. Mais ou menos, quem sabe, como se deu com os tribunais populares de Boaventura Santos, agora convertidos em tribunais do tráfico.


E, aliás, está em aberto a questão: seriam os quatro policiais brutalmente assassinados efetivamente corruptos, ou estariam eles combatendo crimes executados pelos indígenas, sendo esta a razão para o destino que lhes coube?


Casos como estes não são isolados. Como mostra matéria no Estado de São Paulo, de 11 de julho, em 2004 uma turba queimou o prefeito de Ayo Ayo em praça pública e em 2008 outros três policiais foram linchados em Epizana.  Só em 2009, foram 30 linchamentos e 77 tentativas frustradas em território boliviano. Calcula-se que esses linchamentos sempre aconteceram, mas estariam se tornando bem mais freqüentes após a Constituição de 2009.


Na prática, o idílio da justiça comunitária na Bolívia parece estar se convertendo em fonte de novas brutais injustiças. E a autonomia indígena parece proclamar a face do desgoverno nacional, expondo o estado boliviano em toda a sua imensa fragilidade estrutural.

A luta dos dissidentes cubanos

31 de julho de 2010 0

Reproduzo aqui para vocês um comovente artigo da blogueira cubana Yoane Sanches publicado no Estadão. Vale a pena ler e ter a dimensão da injustiça que algumas lideranças políticas influentes fizeram e fazem contra os dissidentes cubanos: Os verdadeiros protagonistas da luta em Cuba

Sombras sobre Pequim

23 de julho de 2010 0

Muito pertinente o último artigo do economista francês Guy Sorman em defesa dos dissidentes chineses recentemente condenados á prisão de forma arbitrária. Acho lúcida a perspectiva que ele tem da China. Vale conferir: Darkness in Beijing

A Lei da Dação

23 de julho de 2010 0

Seguidamente, quando menciono a falta que faz um instrumento como a Lei da Dação para a formação de acervos museais no Brasil, as pessoas estranham: o que é dação?

Quando, nos anos 1950, o poeta André Malraux, o primeiro Ministro da Cultura da França, estruturou os serviços do novo Ministério, procedeu a um amplo mapeamento dos bens culturais do País, integrou a política cultural, fundou novas instituições e desenvolveu incentivos. O mais notável talvez seja a Lei da Dação, aprovada em 1968.

No início, o novo instrumento de incentivo à cultura enfrentou fortes oposições das áreas econômica e social do Governo, que questionaram gastos com a cultura, considerados não prioritários, e denunciaram os supostos prejuízos da chamada renúncia fiscal.

Hoje, entretanto, quem visita Paris fica estonteado face à multidão de turistas acotovelando-se nos museus. E, quem prestar a atenção nas plaquinhas indicativas junto às obras de arte, notará, por exemplo, que vários salões do Museu D’Orsay, ou, ainda, todo o Museu Picasso, por exemplo, são recheados de peças adquiridas em dação, instrumento pelo qual pode-se pagar o imposto de heranças e transmissão de propriedades por meio da dação de obras de arte com alto valor cultural agregado.

Este simples instituto, tão criticado nos anos 1960, trouxe inúmeros benefícios. Em primeiro lugar, ajudou a formar importantes acervos, preservando os bens culturais móveis no país. Antigos museus tiveram seu acervo reforçado e novos museus surgiram. Para eles, construíram-se novos prédios. Assim, vitaminou-se o turismo cultural, contribuindo sobremaneira na geração de renda e empregos. Em paralelo, o mercado de galerias e críticos de arte foi incentivado, pois consultores e avaliadores foram necessários para determinar o valor das peças oferecidas ao estado em dação. Finalmente, contrariamente ao que se imaginava, a arrecadação cresceu. Não apenas em função da mov imentação gerada pelo turismo cultural – e todos sabem que Paris é hoje o principal destino turístico no mundo –, mas também porque as pessoas passaram a listar em suas declarações de renda um amplo leque de bens móveis – tais como jóias, quadros, esculturas, livros, mobiliário e tapetes – que até então eram sub-declarados.

Arte e finanças

22 de julho de 2010 0

Reproduzo abaixo para vocês uma adaptação de um trecho de um artigo meu, publicado há cerca de 10 anos, que traz uma reflexão interessante sobre as empresas e empresários que decidem investir em arte.


Falando há alguns anos ao Business Commitee for the Arts sobre a convergência entre cultura e negócios, Eli Broad, Chairman da SunAmerica Inc., um dos maiores grupos financeiros da costa oeste dos EUA, disse admirar muito as pessoas que têm uma visão própria do mundo, que pensam além do seu umbigo e da sua esquina, e que são capazes de criar um dispositivo eficaz e de valor, correspondente a esta visão. Arrematou dizendo que os artistas, muito mais do que executivos talentosos, têm esta característica, atribuindo ao sucesso da SunAmerica uma receita que procurou trazer a arte para o cotidiano empresarial.

Conhecido colecionador privado de arte moderna e contemporânea, Broad iniciou uma coleção corporativa animado por um sentimento de responsabilidade cívica para com os milhares de jovens artistas californianos, que necessitavam de suporte no princípio de suas carreiras. Assim, ao invés de investir 10 milhões de dólares em meia dúzia de obras consagradas a serem expostas no lobby, preferiu destinar um milhão à aquisição de várias peças de artistas emergentes. A extensão da coleção constituída obrigou os curadores a instalar as obras em cada nicho de trabalho, de sorte que todas as áreas comuns do prédio corporativo passaram a ter arte nas paredes. Os curadores cuidaram, também, de conferir um sentido à exposição, contextualizando a produção individual, e, como se tratavam de artistas locais, a informação tornou-se logo alvo de interesse para empregados e visitantes.

Cumprida sua missão cívica, Broad percebeu haver descoberto um investimento lucrativo, o que é importante, pois se presume que todo o empreendimento capitalista invista em atividades das quais acredita auferir algum retorno. E este retorno começou sem medida pelos números. Por exemplo, cinco minutos de discussão entre dois executivos sobre os motivos que os levavam a gostar ou não de uma determinada obra revelaram-se fundamentais para quebrar o gelo e suscitar laços subjetivos que seriam mais tarde úteis e mesuráveis quando os dois se reencontrassem na execução de algum projeto. Este ponto de convergência é estratégico para o sucesso de uma companhia, ainda que não seja tão óbvio quanto a redução de custos operacionais ou o aumento da eficiência produtiva. Uma companhia não pode ter sucesso sem um time engajado e sem boas idéias. Neste caso, a arte foi um canal por meio do qual executivos, empregados e parceiros passaram a interagir experiências subjetivas, que normalmente estariam afastadas do ambiente de trabalho, o que propiciou uma perspectiva mais rica, humanista e plural sobre cada projeto da companhia.

Enfim, incorporando a arte no ambiente de trabalho, Broad proporcionou aos seus empregados a oportunidade de explorar uma nova arena, dando-lhes a chance de considerar idéias nem sempre familiares, o que trouxe resultados inesperados para o trabalho. O interesse pela arte expôs o grupo a novos conceitos e novas pessoas que estariam inacessíveis se os olhares não transcendessem os monitores e os documentos sobre as mesas. Por outro lado, o investimento na comunidade também impactou a performance da companhia. Uma corporação financeira como a SunAmerica certamente é julgada quanto a sua capacidade de manejar hábil e responsavelmente os investimentos de seus clientes. Broad constatou serem os clientes mais sensíveis à manutenção de relações comerciais duradouras quando capazes de identificar o lado humano e comunitário do seu agente.

Benefícios também foram percebidos em torno da imagem da companhia junto à comunidade empresarial. O produto da SunAmerica mesclava doses de agressividade e criatividade com credibilidade e prudência. A coleção corporativa ajudou a comunicar esta imagem, explicitando a qualquer um que atravessasse as portas da sede não se tratar aquela de uma típica companhia de serviços financeiros.

Breve recesso

22 de julho de 2010 2

Caros amigos. Tenho andado distante do blog nos últimos dias, bem o sei. É porque tenho viajado mais, engajei-me em novos projetos que agora se iniciam e estou com um volume expressivo de coisas para escrever: artigos, relatórios, etc… E o blog é sempre uma distração nesses casos. Assim, precisei conceder-me um breve recesso. Mas em breve estarei de volta, com novos posts.

Notas sobre o federalismo oligárquico

10 de julho de 2010 2

Já está on-line o meu artigo do mês na revista Voto. Reproduzo-o aqui para vocês.

A Constituinte de 1890 consagrou a federação. Na Carta de 24/02/1891, consignou-se aos Estados o direito de promulgar suas próprias constituições e de organizar seus códigos de processo. O direito substantivo permaneceu federal.

Estabeleceu-se a dualidade de jurisdições. Os tribunais imperiais foram estadualizados e criou-se, pelo Decreto nº 848, de 11/10/1890, a Justiça Federal. Os impostos de importação ficaram na alçada da União, enquanto os Estados puderam arrecadar sobre a produção exportada e sobre a propriedade rural, numa equação que fortaleceu os grandes Estados exportadores.

Houve quem se opusesse. Para o Visconde de Ouro Preto, as receitas da União foram depauperadas e as despesas da União foram agravadas. Críticas em sintonia com os revolucionários de 1893, que propunham legislativos estaduais e câmaras municipais fortalecidos e nomeação de magistrados pela União. Do lado oposto, ultrafederalistas, como o sul-rio-grandense Julio de Castilhos, defenderam mais limitação da capacidade fiscal da União, a autonomia dos Estados na decretação de seus códigos civis, criminais e comerciais, bem como a extinção do Senado.
Ainda assim, foi a mais radical experiência federativa brasileira.

Cada Estado desenhou suas instituições. Os Estados podiam contratar empréstimos externos, negociar bônus do tesouro fora do país, regulavam a exploração dos recursos minerais dentro de suas fronteiras e taxavam bens que se moviam entre os Estados.

O Supremo Tribunal Federal recebeu competência para o controle da constitucionalidade das leis. Não obstante, os instrumentos de intervenção eram limitados, pois se, por um lado, o Supremo procurou ampliar ao máximo a aplicação do habeas corpus em benefício dos indivíduos, por outro, não dispunha de poderes para determinar a suspensão de diplomas estaduais.

A experiência degenerou em regionalismo oligárquico. Eram efetivamente autônomos apenas os Estados mais desenvolvidos e militarizados, como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Juntas, estas três, das 20 unidades da Federação, respondiam por mais da metade do voto nacional para as eleições diretas à presidência da República e movimentavam mais da metade do PIB. União entre desiguais e indistinção entre espaço público e privado: a chamada política dos governadores delineada pelo presidente Campos Salles foi um artifício para garantir a estabilização econômica em um momento de crise, inibindo as pressões do poder local sobre o Congresso e a presidência da República, dando ao presidente a condição de mediador do conflito, antes exercida pelo Poder Moderador.

Como disse Maria de Lourdes Janotti, foi uma “rede de compromissos”, segundo a qual o governo estadual “garante para baixo o poder do coronel sobre seus dependentes e seus rivais, sobretudo cedendo-lhe o controle dos cargos públicos”, enquanto “o coronel hipoteca seu apoio ao governo, sobretudo na forma de votos”. No terceiro vértice, “os governadores dão seu apoio ao presidente da República em troca do reconhecimento por parte deste de seu domínio no Estado”. Para José Murilo de Carvalho, o coronel é um mandão local que, “em função do controle de algum recurso estratégico, em geral a posse da terra, exerce sobre a população um domínio pessoal e arbitrário, que a impede de ter livre acesso ao mercado e à sociedade política”. Havia convivência de artefatos extralegais com o Estado de Direito constitucional.

Os mandões perdiam parte de sua força pessoal e precisaram recorrer ao governo, que ainda não era infraestruturalmente forte o bastante para subjugar os poderes locais. Mas muitos coronéis influíam nos rumos da política estadual e federal e havia risco de insubordinação.

O sistema entrou em colapso com a urbanização, a industrialização, o crescimento populacional e o aumento do papel do Estado. Apesar da Revolução de 1930 ter liquidado o coronelismo, diversas práticas a ele intrínsecas – como o localismo, o mandonismo, o nepotismo, o tráfico de influências e a corrupção – continuaram.

O coronelismo repousava sobre uma economia rural baseada na grande propriedade. Não mais do que 6% da população adulta votava. Nos Estados mais fracos, o domínio de oligarquias tornou-se sobressalente. Os Acióli e os Machado dominaram o Ceará; os Pessoa mandaram na Paraíba; os Malta predominaram em Alagoas; os Medeiros, no Rio Grande do Norte; os Nery, no Amazonas; os Bulhões, em Goiás, e os Murtinho, em Mato Grosso.

Se neles prevalecia o poder privado, eram Estados dependentes dos recursos federais. Sua política “exterior” consistia em cortejar o governo federal, em cujo comando alternavam-se as máquinas partidárias de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Sem dispor de forças militares expressivas, estavam ameaçados de intervenção. Como em 1909, quando surgiu uma dualidade de Assembleias no Amazonas. Entre 1911 e 1914, a União interveio no Ceará, em Alagoas, Pernambuco, Sergipe e Bahia. Mesmo o Rio de Janeiro, baluarte da economia imperial, esteve sob ameaça de intervenção federal por mais de uma vez, consumada em 1923.
Em que pese a longevidade da Constituição de 1891, houve crises. No Rio Grande do Sul, jogou-se o futuro do modelo federativo durante a sangrenta Revolução Federalista, entre 1893 e 1895. Outra guerra civil irrompeu ali em 1923, contestando o predomínio político de Borges de Medeiros e do PRR.

Revoltas de base mais popular, como Canudos, em 1897, na Bahia, e o Contestado, em Santa Catarina, colocaram em xeque a hegemonia oligárquica. Inúmeras insurreições estalaram por todo o país, tanto no campo quanto nas cidades, onde as greves operárias de 1911, 1917 e 1919 deram visibilidade à classe trabalhadora. Durante a década de 1920, o movimento tenentista trouxe intranquilidade. Três eleições presidenciais foram disputadas, revelando cisão intraoligárquica: em 1910, em 1922 e em 1930. Em 1910, a elite dirigente do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e o Exército aliaram-se para isolar São Paulo, impondo a candidatura de Hermes da Fonseca. Em 1922, o líder gaúcho Borges de Medeiros uniu-se ao Exército e a três Estados “semissoberanos” – Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco -, numa tentativa frustrada de deslocar Minas Gerais e São Paulo do poder.

Em consequência da derrota da chamada Reação Republicana, o presidente eleito, Arthur Bernardes, interveio no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco e apoiou extraoficialmente a insurreição civil no Rio Grande do Sul, que, por meio do Pacto de Pedras Altas, de dezembro de 1923, reformou a Constituição Estadual.

A Emenda Constitucional de 3/9/1926 outorgou à União mais autoridade para intervir nos Estados em casos de má administração financeira, o que tinha relação com o colapso do Amazonas. Além disso, estendeu às Justiças estaduais garantias da Magistratura federal e ampliou a competência dos Juízes de Direito no processo eleitoral, medida, entretanto, incapaz de enfrentar o dramático problema da fraude.

O inferno das senhas e do auto-atendimento

09 de julho de 2010 2

Quando as caixas automáticas surgiram, em tempos pré-históricos, um único serviço – o Banco 24 Horas – condensava todos os bancos. Basicamente, o que se podia fazer, então, com um cartão magnético era sacar dinheiro de uma conta corrente. A novidade, claro, foi acolhida como um grande conforto: de repente, podíamos sacar dinheiro a qualquer hora do dia, ou da noite, sem depender mais do horário comercial dos bancos.

Mas os problemas não tardaram. Não precisou muito para descobrirmos que os bandidos também achavam ótima a idéia dos cidadãos trabalhadores irem sacar os seus troquinhos no meio da noite. Foi o que bastou para que uma onda de assaltos sepultasse os quiosques do 24 Horas que estavam espalhados pelas cidades.

Tudo bem, porque, afinal, não passava de um conforto, um luxo extra para o cliente. Podíamos perfeitamente voltar a fazer, como sempre, os nossos saques na boca do caixa.

Mas o conceito era tentador para instituições bancárias sempre ávidas pela redução de custos e maximização dos (próprios) lucros. Todos os bancos acabaram instalando as suas caixas automáticas, suas agências eletrônicas. Sempre, claro, com a nobre justificativa de que o auto-atendimento ganhava em agilidade…

Aos poucos, as tais caixas automáticas começaram a oferecer múltiplos serviços: saques, estratos, saldos, depósitos, transferências, pagamentos… E tarefas que antes eram executadas pelos funcionários dos bancos, agora são feitas por nós mesmos. Como a emissão de talões de cheques. Quando antes os talões podiam ser retirados no caixa ou eram enviados pelo correio, hoje investimos nosso próprio tempo para imprimi-los, destacar as folhinhas, grampear o maço. E lá se vão uns bons 10 minutos. Tudo somado, penso em quantos postos de trabalho não puderam ser reduzidos nos bancos. Sempre, claro, com a nobre justificativa de que somos nós, os clientes, quem ganhamos com o auto-atendimento.

Paralelamente a diversificação dos serviços/encargos, as operações foram ficando cada vez mais complexas. Instaurou-se uma verdadeira arrogância da tecnologia. Filas se formam. E as pessoas ficam ansiosas com o tempo que alguns consomem em suas operações. Conheço uma senhora que ficou traumatizada com estas caixas automáticas, desde o dia em que uma delas engoliu o seu cartão. E quando o código de barras daquela conta que precisamos pagar simplesmente não funciona? Precisamos então digitar aqueles números intermináveis. O pior é sempre a terrível seqüência de vários zeros. Eu nunca consigo contar quantos zeros são. E, como simplesmente não há a opção para corrigir, não raro precisamos anular a operação e começar a digitar tudo novamente, o que transforma o simples ato de pagar uma conta num verdadeiro suplício.

E então vem a praga das senhas. Antigamente, bastavam 4 dígitos. Hoje são 6. A eles associaram-se, ainda, três letrinhas. Eis que agora alguns bancos substituíram nossas 3 letrinhas por três conjuntos de duas letrinhas – 6 ao todo, portanto! E haja ginko-biloba para guardar na memória já saturada de tanta informação. Dane-se o sujeito que padecer do infortúnio de necessitar de mais de uma conta bancária: 6 dígitos e 6 letrinhas para cada uma delas! Isso, é claro, sem contar a senha do e-mail, do antivírus, das comunidades sociais na Internet, da Base Lattes, o código da assinatura do jornal, da TV a cabo…

Mas não pára por aí. Outro dia, fui à agência de um Banco na Tristeza, em Porto Alegre, e as máquinas simplesmente não informavam na tela as letrinhas que eu precisava digitar. Refiz a operação várias vezes. Tentei os cartões de outra conta bancária, de outra agência. Troquei de terminal. Nada! As letrinhas que o próprio sistema me havia imposto não apareciam na tela da máquina, de forma que eu não conseguia completar nenhuma operação. Chamei a estagiária – moça muito simpática, mas ocupada atendendo outros clientes. Esperei. Quando finalmente chegou minha vez, ela não acreditou. Precisei mostrar o que acontecia na tela… Ela foi falar com o gerente e voltou dizendo que eu deveria repetir a operação até conseguir, pois aquela anomalia era simplesmente impossível de estar acontecendo. Diante da mensagem absurda, pedi a ela que chamasse o gerente – afinal, os terminais de auto-atendimento ficam separados do resto da agência pela desagradável porta giratória, pela qual não conseguimos passar com celulares, chaves, isqueiros, cintos ou casacos metalizados, bolsas… O gerente não veio. Ataquei um outro gerente que apareceu para auxiliar uma senhora, que também enfrentava alguma dificuldade anômala. Descrevi a situação a ele repetidas vezes. Ele acreditou apenas quando testamos novamente os cartões nos terminais, não sem antes esperarmos a nossa vez nas filas. Disse-me então que eu deveria retirar uma senha – sempre ela! – e esperar a minha vez de ser atendido por um dos gerentes. Fiz isso, não sem protestar, pois, afinal, eu estava sendo punido com uma enorme perda de tempo por uma falha do sistema operacional do banco. Chegou minha vez de ser atendido. Expliquei o que se passava novamente, para a terceira pessoa, que também não acreditou em mim. Fomos, mais uma vez, fazer um teste. Precisei mostrar a este funcionário o recibo que a maldita máquina havia impresso há uns dias atrás com minha nova senha para que ele se convencesse de que eu não tinha esquecido as 6 letrinhas que me cabiam.

Ele se limitou a dizer que aquilo era impossível. Mas, finalmente, deu-me novas letrinhas. Depois de mais de 40 minutos na agência bancária, consegui sacar uns caraminguás. Ao meu lado, uma moça reclamava que a máquina não estava imprimindo recibos de operações que ela havia feito…

O episódio, contudo, permanece sem explicação. Foi uma falha do sistema do Banco que atingiu também outros correntistas? Foi o sistema do Banco vítima do ataque de rakers? A segurança do meu cadastro foi violada? Como se explica, afinal, esta anomalia, e como confiar no sistema de segurança se nem mesmo as senhas que nos informa são perenes? E, em meio a tudo isso, chocou-me a presunção de que a tecnologia não poderia estar errando – eu é que deveria estar fazendo algum procedimento equivocado.

Quem foi que disse, de resto, somos obrigados a engolir as senhas que vomitam sobre a gente? Quem foi que disse que precisamos ocupar nossa memória com informações que deveriam ser geridas pelos bancos? Quem foi que disse que temos de trabalhar para os bancos, quando são eles que nos prestam um serviço pelo qual já pagamos?

Pode ser que eu esteja ficando velho e ranzinza – mas não posso deixar de notar que, pelo menos nesse aspecto, a vida parecia bem mais feliz quando não tínhamos de memorizar tantas senhas, quando não precisávamos fazer o trabalho dos outros, quando éramos recebidos nos bancos por pessoas, e pessoas que admitiam ser o “sistema” falível.

A maldição de Mick Jagger na Copa do Mundo

07 de julho de 2010 0

Mobilizações dos brasileiros no Twitter continuam repercutindo internacionalmente. Posto aí link para artigo reproduzido no prestigioso Drugde Report’s, a propósito de Mick Jagger estar sendo considerado pelos torcedores na Copa do Mundo como o arauto do azar! Hilário! Mick Jagger world coup angel of death?

Camille Paglia no New York Times, sobre um viagra para mulheres

03 de julho de 2010 0

Posto aqui para vocês link para artigo da Camille Paglia que saiu esta semana no New York Times, sobre um “viagra feminino”. No Sex Please, We’re Middle Class