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Simone de Beauvoir e a velhice

03 de agosto de 2010 3

Dentre essas pequenas angústias cotidianas que mais apoquentam está aquela dimanada da pilha de livros a serem lidos, que só faz crescer. De tempos em tempos, consigo tirar um exemplar de lá. Mas em seguida chegam outros. E ela cresce implacavelmente. Depois, vem aquele compromisso auto-imposto de comentar as leituras realizadas aqui no blog. Bem, hoje quero descontar um pouco o passivo.


O registro é breve, só para não passar em brancas nuvens. Não se trata de nenhum best seller, mas de uma obra que ocupa o seu lugar na historiografia. Refiro-me ao “Velhice”, de Simone de Beauvoir.


A obra foi originalmente publicada na França em 1970. Apareceu no Brasil em edição da Nova Fronteira em 1990. A edição brasileira apresenta alguns problemas de revisão, o que, por vezes, compromete a fluidez da leitura. Ainda assim, vale a pena, pois o livro segue como a obra seminal sobre a história da velhice.


É interessante. Já se fez a história das mulheres, dos jovens, das crianças, da família… Seria de se esperar que tivéssemos uma elaborada história da velhice. Mas não é o que acontece. Nos documentos primários, produzidos em épocas pretéritas, os velhos são, em geral, incorporados ao conjunto dos adultos e poucos foram os historiadores que se dispuseram a garimpar as informações dispersas para construir uma narrativa da velhice.


O livro divide-se em duas partes. A leitura da segunda é mais árida e encerra interesse mais sociológico. Simone analisa ali dados quantitativos e informações diversas sobre o sistema de previdência e as políticas para a velhice que eram correntes nos países mais desenvolvidos, nos anos 1960.


Mas é na primeira parte que reside o maior encanto da obra. Simone recorre à antropologia, compulsa os moralistas antigos e navega pela literatura. Percebe emergir a representação da velhice no Ocidente como uma questão de poder, bordada em torno do ângulo do conflito de gerações, dimensão que não se coloca senão no interior das classes dominantes. Antes do século XIX, os velhos pobres praticamente não eram mencionados em lugar algum, até porque eram muito pouco numerosos, já que a longevidade somente era possível entre as classes abastadas. Sendo, além disso, o exercício do poder público um artefato majoritariamente masculino, a representação em torno do conflito de gerações dificilmente contempla as mulheres: já que seu destino foi ser, historicamente, um objeto erótico na perspectiva masculina, fanadas, tendem a perder o lugar que lhe é socialmente destinado.


Assim, segundo Beauvoir, sobre os velhos não se constituiu uma narrativa, porque eles não seriam sujeitos de sua própria História. Isto é, embora individualmente mulheres e homens encanecidos tenham representado papéis ativos, o velho, como categoria social, apenas pontualmente interveio no percurso do mundo. Não sendo um agente da História, sua representação tenderia a oscilar da forma silente para a reprodução fantasmática de clichês.


Assim, pela literatura, pela etnografia, pelos moralistas, Simone nos apresenta um belo quadro da maneira como os velhos foram tratados nas mais diferentes sociedades. Sua conclusão sobre a sociedade contemporânea não foi muito otimista. Para ela, a nossa época trata a velhice com enorme desprezo. Bem, Simone não poderia adivinhar que o capitalismo desenvolveria nas últimas décadas do século XX um mercado para a velhice, graças à longevidade e ao progresso material que se verificaram em muitas sociedades desenvolvidas Hoje, vive-se mais e melhor do que no passado. Mas o aumento exponencial da proporção de sexagenários nas sociedades atuais tende a se configurar como uma das mais importantes questões de política pública.


Então, fica aí a dica: quem desejar entender como no passado se compreendeu e se representou a velhice ou quem desejar compreender melhor a senectude na contemporaneidade, não pode deixar de consultar esta bela obra.

Comentários (3)

  • Deborah Horna Vargas diz: 3 de agosto de 2010

    Simone de Beauvoir foi uma mulher diferente! para ela a escrita não é o meio para compreender o mundo, mas para ser ela mesma. Recomendo livro admirável.
    Obrigada pelo artigo.
    Deborah Horna

  • Leila Saldanha diz: 3 de agosto de 2010

    Gunter, compartilho contigo a agonia quanto a pilha de livros, mas onde esta este tempo, que so faz passar sem me dar tempo? Gosto muito quando estas no Camarote. Parabens pelo texto e pela sugestao.
    Sucesso
    Leila

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