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Notas sobre A Origem

27 de agosto de 2010 2

Continua crescendo a minha listinha de temas a comentar aqui no blog. Mas o tempo para produzir os posts é cada vez mais escasso.


Na semana passada, no giro que dei por Porto Alegre, aproveitei para ir ao cinema. O filme que passava perto de casa e em uma sessão tarde da noite – quando eu tinha disponibilidade – era o aclamado A Origem, de Christopher Nolan e protagonizado por Leonardo DiCaprio. O filme é bom e merece um comentário.


A história do ladrão de sonhos está apoiada sobre um roteiro consistente. Considerando que o público de Hollywood nos dias atuais tem o perfil médio de um adolescente do sexo masculino com 16 anos de idade, capaz de assistir ao Incrível Hulk sem perceber as inconsistências de roteiro, já é um grande mérito em favor dessa Origem. Há algum tempo, aliás, as super produções de Hollywood baseiam-se em histórias em quadrinhos. Sempre gostei dos Marvel, da Mafalda, da Mônica, do Tio Patinhas e de todos os comics que me caíam nas mãos. Mas não deixa de ser uma decadência para uma indústria que até pelo menos os anos 1950/60 consolidou sua projeção sobre excelentes roteiros produzidos a partir de literatura de qualidade. Estrelas como Herman Wouk – ainda vivo!! – que o digam. Então, quando Hollywood se prepara para despejar no mercado mais alguns zilhões de quadrinhos de super-heróis debilóides, para agradar ao seu atual público padrão, não deixa de ser positivo que um block buster invista numa história nova e bem costurada.


Mais do que isto, o roteiro encerra razoável grau de complexidade. Não é incomum que as pessoas saiam do cinema declarando não terem entendido o filme. Mas Nolan cativou a atenção do espectador padrão médio com uma overdose de ação bem apresentada. De fato, para quem é fã do Hulk e do Stalone e só entende a ação, pouco importa a qualidade do roteiro. Mas, justamente pela qualidade do roteiro, Nolan atraiu a atenção daquele público embalado na esteira do fenômeno Lost, que curte enredos intrincados, que beiram o inverossímil, fórmula que o magnífico Twin Peaks do enigmático David Linch condensou e celebrizou.


Agora, grupos de discussões brotam por aí feito cogumelos em tempo úmido, esquadrinhando detalhes do roteiro e nuances insondáveis da história. Bravo! Um genuíno e elaborado fenômeno de massas contemporâneo, capaz de sensibilizar um arco apreciável de público e revestir-se já de saída de uma aura Cult.


A narrativa obedece a uma fórmula estética singular. O filme abraça a linguagem dos vídeo-games. Porém, com muito mais eficácia do que um Tom Rider ou um Resident Evil, consegue reproduzir a sensação de mudanças de fases que o jogador tem ao jogar. Então, assisti-lo, é como estarmos dentro de um vídeo-game, sem termos a consciência disso, porque o roteiro usa a estrutura narrativa dos games, mas não tenta construir uma historinha patética a partir de um game consagrado, como normalmente se faz. Assim, o filme entrou na freqüência da galera.


A forma escolhida para viabilizar esta sintonia está na apropriação da estética pós-moderna, no que ela tem de desconstrução do sujeito e da narrativa. A primeira vez que um filme fez isso de forma magistral foi em O Ano Passado em Marienbad, produção cultuadíssima de Alain Resnais e Alain Robbe-Grillet. A novidade, contudo, está no fato de que esse público médio padrão de block busters, que passa a vida cativo do mainstream, geralmente odeia e repele a estética pós-moderna, tão incensada pelos doutos críticos acadêmicos. Dessa vez, porém, saudou uma narrativa descontínua e um sujeito multifacetado. Mérito dos petardos de ação e adrenalina pura, bem como da linguagem game.


Mas seria injusto dizer que o filme é puramente narrativo e se resume a uma explosão de ação, como alguns críticos vêm insinuando. A natureza da ficção científica de qualidade, justamente, é abordar de maneira ensaística aspectos da nossa realidade presente. Se não o sucesso, pelo menos a perenidade do sucesso de um fic-ci passa também pela capacidade de articular com eficácia esse debate.


Ora, o filme dialoga com um dos dramas que mais despertam a nossa curiosidade na contemporaneidade, o das realidades virtuais, das múltiplas realidades, das verdades fragmentadas, competitivas, paralelas. Depois do fim, no plano da cultura, das meta-narrativas, das utopias e das verdades absolutas, cada vez fala-se mais de indivíduos que vivem dimensões virtuais: jovens que não saem de casa, pessoas que interagem socialmente por meio das redes sociais, enfim, sinalizam para a emergência de uma nova patologia.


Nesse sentido, A Origem reedita o argumento central da Matrix. Mas o faz de forma mais elaborada. O motor da Matrix é a eterna luta do bem contra o mal – os humanos tentam se libertar do jugo e do extermínio de máquinas desprovidas de sentimento. A história toda procura ganhar liga produzindo um pastiche com apropriações de aspectos das tradições do judaísmo: a cidade refúgio chama-se Sião e a libertação será conquistada com a vinda de um messias, que derrotará a Matrix justamente por conhecê-la melhor do que ninguém, instaurando um período de paz e bonança.


Em A Origem, a luta do bem contra o mal não joga nenhum papel. Supera-se essa dicotomia fácil e os indivíduos são dispostos num ambiente em que fazem o que for necessário, com mais ou menos ética, para sobreviver no jogo. Não há transcendência fantasmática para além da interação entre os indivíduos e não se adora nenhuma moral universal. Um ambiente perfeito para o clima de individualismo exacerbado que caracteriza a nossa época e onde a ética tende a ser adaptada às singularidades das situações e dos personagens.


A narrativa, aparentemente tão fragmentária, reveste-se de unidade se prestarmos atenção no intertexto do filme e na sua potência metafórica. A história investe-se de novo sentido quando a percebemos como uma metáfora para uma viagem pelo inconsciente de um paciente de paranóia durante um tratamento psicanalítico. O filme todo é uma grande sessão de psicanálise. A paranóia é uma das doenças mais difíceis de serem tratadas pela psiquiatria, porque o paciente está sempre divisando uma teoria de conspiração para o tratamento ou a argumentação proposta. Assim, o que os personagens fazem no filme é jogar o jogo de um paranóico. Entram na lógica persecutória e conspirativa dele para, a partir dela, tentar sensibilizá-lo para o enfrentamento de suas culpas e seus medos mais profundos. Os personagens são faces de um tratamento que busca a cura.


Essa perspectiva ajudaria a explicar o insólito personagem da “arquiteta” Ariadne. É claro que, para seduzir os espectadores adolescentes, Nolan pode ter se rendido à tentação de enxertar na trama uma adolescente super-poderosa, típica do romantismo clichê das baratas e crepusculares histórias de vampiros que andam por aí destinadas a meninas de 13 anos, algo, aliás, muito próximo dos Hulks e que tais das histórias em quadrinhos. Mas isso estaria em desacordo com a qualidade que o roteiro suporta em todo o resto. Portanto, não parece ilícito supor que a insólita estagiária com super-poderes e que guia o anti-herói Dom Cobb na sua busca interior e no seu processo de auto-descoberta e auto-enfrentamento seria, na verdade, o seu psicanalista. Sim, porque uma mente paranóica inventaria todo o tipo de absurdos para repelir o psicanalista, como, por exemplo, dizer que a psicanálise é uma grande conspiração contra a cristandade. Portanto, o psicanalista apareceria, no plano inconsciente desse hipotético paciente de forma inofensiva, travestido sob o avatar (ops!) de uma estagiária adolescente, quando haveria tudo para que o psicanalista fosse melhor representado pelo sogro de Cobb. Mas, como é o sogro (Michael Caine) quem o convence a associar-se à estagiária inadvertidamente super-poderosa, amplia-se a chance de ela ser um avatar do psicanalista.


São muitas as dicas do filme nesse sentido. Não vou aqui relacionar todas. Mas lembrem que a esposa espectral de Cobb num dado momento pergunta se ele tem certeza de estar vivendo na realidade, pois um mundo no qual estaria sendo permanentemente perseguido pela polícia internacional e por grandes corporações parece um absurdo – quem sabe, um delírio paranóico.


Reforça esta percepção o fato de o totem de Cobb – o pião – funcionar sempre no sonho de outras pessoas, o que, segundo a lógica da história, permitiria ao paranóico onírico manipular a sua própria prova de realidade. A desconstrução dessa prova (tabu?) só se tornou possível depois de Cobb ter enfrentado a sua culpa pela suposta morte da suposta esposa, depois de tê-la supostamente deixado ir e fenecer no seu subconsciente e depois de encarar o seu grande sonho/aspiração como realidade, qual seja, o reencontro com os supostos filhos e o fim de seu suposto desterro – ostracismo que, aqui, poderia até funcionar como metáfora para um estado alterado de consciência ou um coma.


Então, quando finalmente a cena déjá-vu das duas crianças parece se tornar realidade e ele encara os rostinhos que até então lhe eram ocultos, o totem-pião roda sem parar… sugerindo que se trata de um sonho. E, claro, com isso, abre o debate cult entre os fãs em potencial e acena para a continuação da história num próximo filme – fórmula já perfeitamente conhecida…


O filme, assim, seria um retrato da lógica de um tratamento psiquiátrico de um surto paranóico de uma hiperindividualidade contemporânea que se descolou da realidade muito provavelmente por ser incapaz de lidar com a liberdade extrema do sujeito pós-moderno num mundo carente de âncoras significantes.

Comentários (2)

  • Christian diz: 8 de setembro de 2010

    Interessante perspectiva. Mas, me pergunto, por que tu não chegou a explorar o tema da indução de uma idéia, do convencimento subliminar, que também frequenta a ficção científica?

  • Guilherme Collares Pascoal diz: 16 de setembro de 2010

    Gunter, há a possibilidade de reeditares o livro na Feira do Livro de Porto Alegre? Infelizmente não encontro um exemplar em livraria alguma e tão pouco em sebos! Gostaria muito de adquirir o livro, que considero um dos estudo mais importantes da historiografia rio-grandense. Um leitor seu agradece o empenho
    Forte abraço

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