Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de agosto 2010

O mais demorado processo de inventário da História

28 de agosto de 2010 6

A idéia de patrimônio público, de preservação de monumentos, objetos, hábitos, costumes e paisagens é relativamente recente. A necessidade de mapear, constituir e preservar um corpo patrimonial derivou do nacionalismo, tendo por objetivo forjar solidariedades. Mas percebia-se também que a História se acelerava, ampliando a sensação de instabilidade, o que antes da era moderna era um sintoma agudo de crise. Há até pouco tempo, vicejava a percepção de imutabilidade do mundo, cabendo aos seres humanos a reprodução automática dos hábitos e costumes.


Um exemplo disso é o paradigmático inventário do Comendador Domingos Faustino Correa, iniciado em 27 de junho de 1874, na Comarca de Rio Grande, com base num testamento feito um ano antes, 18 dias antes de sua morte. O processo tramitou em Juízo por 107 anos e a meação jamais foi partilhada aos supostos herdeiros. Caprichosas, detalhistas e labirínticas, as disposições deixadas pelo Comendador previam até beneficiários de rendas e o custo dos impostos. Era tamanha a confiança na estabilidade do seu modo de vida que a vontade não abria horizonte para a possibilidade de mudanças institucionais, como a abolição da escravatura, a proclamação da República e a promulgação de um código civil. As mudanças viriam e, em poucos anos, a aplicação do testamento do Comendador tornou-se inviável, o que procrastinou a solução do feito por mais de um século.


De fato. Enquanto o Comendador agonizava, confiando na tentativa de regrar o futuro a partir dos cânones do presente, um mundo inteiramente novo insinuava-se. Antes ainda da Primeira Guerra Mundial, nos Estados Unidos, o poeta Ezra Pound apresentava aos colegas de rebeldia nas artes o lema mobilizador que sintetizaria o espírito moderno: “Make it new!”. Entre o fascínio pela heresia e o gosto pela insubordinação contra a autoridade, emergia o modernismo com toda a sua força.

Notas sobre A Origem

27 de agosto de 2010 2

Continua crescendo a minha listinha de temas a comentar aqui no blog. Mas o tempo para produzir os posts é cada vez mais escasso.


Na semana passada, no giro que dei por Porto Alegre, aproveitei para ir ao cinema. O filme que passava perto de casa e em uma sessão tarde da noite – quando eu tinha disponibilidade – era o aclamado A Origem, de Christopher Nolan e protagonizado por Leonardo DiCaprio. O filme é bom e merece um comentário.


A história do ladrão de sonhos está apoiada sobre um roteiro consistente. Considerando que o público de Hollywood nos dias atuais tem o perfil médio de um adolescente do sexo masculino com 16 anos de idade, capaz de assistir ao Incrível Hulk sem perceber as inconsistências de roteiro, já é um grande mérito em favor dessa Origem. Há algum tempo, aliás, as super produções de Hollywood baseiam-se em histórias em quadrinhos. Sempre gostei dos Marvel, da Mafalda, da Mônica, do Tio Patinhas e de todos os comics que me caíam nas mãos. Mas não deixa de ser uma decadência para uma indústria que até pelo menos os anos 1950/60 consolidou sua projeção sobre excelentes roteiros produzidos a partir de literatura de qualidade. Estrelas como Herman Wouk – ainda vivo!! – que o digam. Então, quando Hollywood se prepara para despejar no mercado mais alguns zilhões de quadrinhos de super-heróis debilóides, para agradar ao seu atual público padrão, não deixa de ser positivo que um block buster invista numa história nova e bem costurada.


Mais do que isto, o roteiro encerra razoável grau de complexidade. Não é incomum que as pessoas saiam do cinema declarando não terem entendido o filme. Mas Nolan cativou a atenção do espectador padrão médio com uma overdose de ação bem apresentada. De fato, para quem é fã do Hulk e do Stalone e só entende a ação, pouco importa a qualidade do roteiro. Mas, justamente pela qualidade do roteiro, Nolan atraiu a atenção daquele público embalado na esteira do fenômeno Lost, que curte enredos intrincados, que beiram o inverossímil, fórmula que o magnífico Twin Peaks do enigmático David Linch condensou e celebrizou.


Agora, grupos de discussões brotam por aí feito cogumelos em tempo úmido, esquadrinhando detalhes do roteiro e nuances insondáveis da história. Bravo! Um genuíno e elaborado fenômeno de massas contemporâneo, capaz de sensibilizar um arco apreciável de público e revestir-se já de saída de uma aura Cult.


A narrativa obedece a uma fórmula estética singular. O filme abraça a linguagem dos vídeo-games. Porém, com muito mais eficácia do que um Tom Rider ou um Resident Evil, consegue reproduzir a sensação de mudanças de fases que o jogador tem ao jogar. Então, assisti-lo, é como estarmos dentro de um vídeo-game, sem termos a consciência disso, porque o roteiro usa a estrutura narrativa dos games, mas não tenta construir uma historinha patética a partir de um game consagrado, como normalmente se faz. Assim, o filme entrou na freqüência da galera.


A forma escolhida para viabilizar esta sintonia está na apropriação da estética pós-moderna, no que ela tem de desconstrução do sujeito e da narrativa. A primeira vez que um filme fez isso de forma magistral foi em O Ano Passado em Marienbad, produção cultuadíssima de Alain Resnais e Alain Robbe-Grillet. A novidade, contudo, está no fato de que esse público médio padrão de block busters, que passa a vida cativo do mainstream, geralmente odeia e repele a estética pós-moderna, tão incensada pelos doutos críticos acadêmicos. Dessa vez, porém, saudou uma narrativa descontínua e um sujeito multifacetado. Mérito dos petardos de ação e adrenalina pura, bem como da linguagem game.


Mas seria injusto dizer que o filme é puramente narrativo e se resume a uma explosão de ação, como alguns críticos vêm insinuando. A natureza da ficção científica de qualidade, justamente, é abordar de maneira ensaística aspectos da nossa realidade presente. Se não o sucesso, pelo menos a perenidade do sucesso de um fic-ci passa também pela capacidade de articular com eficácia esse debate.


Ora, o filme dialoga com um dos dramas que mais despertam a nossa curiosidade na contemporaneidade, o das realidades virtuais, das múltiplas realidades, das verdades fragmentadas, competitivas, paralelas. Depois do fim, no plano da cultura, das meta-narrativas, das utopias e das verdades absolutas, cada vez fala-se mais de indivíduos que vivem dimensões virtuais: jovens que não saem de casa, pessoas que interagem socialmente por meio das redes sociais, enfim, sinalizam para a emergência de uma nova patologia.


Nesse sentido, A Origem reedita o argumento central da Matrix. Mas o faz de forma mais elaborada. O motor da Matrix é a eterna luta do bem contra o mal – os humanos tentam se libertar do jugo e do extermínio de máquinas desprovidas de sentimento. A história toda procura ganhar liga produzindo um pastiche com apropriações de aspectos das tradições do judaísmo: a cidade refúgio chama-se Sião e a libertação será conquistada com a vinda de um messias, que derrotará a Matrix justamente por conhecê-la melhor do que ninguém, instaurando um período de paz e bonança.


Em A Origem, a luta do bem contra o mal não joga nenhum papel. Supera-se essa dicotomia fácil e os indivíduos são dispostos num ambiente em que fazem o que for necessário, com mais ou menos ética, para sobreviver no jogo. Não há transcendência fantasmática para além da interação entre os indivíduos e não se adora nenhuma moral universal. Um ambiente perfeito para o clima de individualismo exacerbado que caracteriza a nossa época e onde a ética tende a ser adaptada às singularidades das situações e dos personagens.


A narrativa, aparentemente tão fragmentária, reveste-se de unidade se prestarmos atenção no intertexto do filme e na sua potência metafórica. A história investe-se de novo sentido quando a percebemos como uma metáfora para uma viagem pelo inconsciente de um paciente de paranóia durante um tratamento psicanalítico. O filme todo é uma grande sessão de psicanálise. A paranóia é uma das doenças mais difíceis de serem tratadas pela psiquiatria, porque o paciente está sempre divisando uma teoria de conspiração para o tratamento ou a argumentação proposta. Assim, o que os personagens fazem no filme é jogar o jogo de um paranóico. Entram na lógica persecutória e conspirativa dele para, a partir dela, tentar sensibilizá-lo para o enfrentamento de suas culpas e seus medos mais profundos. Os personagens são faces de um tratamento que busca a cura.


Essa perspectiva ajudaria a explicar o insólito personagem da “arquiteta” Ariadne. É claro que, para seduzir os espectadores adolescentes, Nolan pode ter se rendido à tentação de enxertar na trama uma adolescente super-poderosa, típica do romantismo clichê das baratas e crepusculares histórias de vampiros que andam por aí destinadas a meninas de 13 anos, algo, aliás, muito próximo dos Hulks e que tais das histórias em quadrinhos. Mas isso estaria em desacordo com a qualidade que o roteiro suporta em todo o resto. Portanto, não parece ilícito supor que a insólita estagiária com super-poderes e que guia o anti-herói Dom Cobb na sua busca interior e no seu processo de auto-descoberta e auto-enfrentamento seria, na verdade, o seu psicanalista. Sim, porque uma mente paranóica inventaria todo o tipo de absurdos para repelir o psicanalista, como, por exemplo, dizer que a psicanálise é uma grande conspiração contra a cristandade. Portanto, o psicanalista apareceria, no plano inconsciente desse hipotético paciente de forma inofensiva, travestido sob o avatar (ops!) de uma estagiária adolescente, quando haveria tudo para que o psicanalista fosse melhor representado pelo sogro de Cobb. Mas, como é o sogro (Michael Caine) quem o convence a associar-se à estagiária inadvertidamente super-poderosa, amplia-se a chance de ela ser um avatar do psicanalista.


São muitas as dicas do filme nesse sentido. Não vou aqui relacionar todas. Mas lembrem que a esposa espectral de Cobb num dado momento pergunta se ele tem certeza de estar vivendo na realidade, pois um mundo no qual estaria sendo permanentemente perseguido pela polícia internacional e por grandes corporações parece um absurdo – quem sabe, um delírio paranóico.


Reforça esta percepção o fato de o totem de Cobb – o pião – funcionar sempre no sonho de outras pessoas, o que, segundo a lógica da história, permitiria ao paranóico onírico manipular a sua própria prova de realidade. A desconstrução dessa prova (tabu?) só se tornou possível depois de Cobb ter enfrentado a sua culpa pela suposta morte da suposta esposa, depois de tê-la supostamente deixado ir e fenecer no seu subconsciente e depois de encarar o seu grande sonho/aspiração como realidade, qual seja, o reencontro com os supostos filhos e o fim de seu suposto desterro – ostracismo que, aqui, poderia até funcionar como metáfora para um estado alterado de consciência ou um coma.


Então, quando finalmente a cena déjá-vu das duas crianças parece se tornar realidade e ele encara os rostinhos que até então lhe eram ocultos, o totem-pião roda sem parar… sugerindo que se trata de um sonho. E, claro, com isso, abre o debate cult entre os fãs em potencial e acena para a continuação da história num próximo filme – fórmula já perfeitamente conhecida…


O filme, assim, seria um retrato da lógica de um tratamento psiquiátrico de um surto paranóico de uma hiperindividualidade contemporânea que se descolou da realidade muito provavelmente por ser incapaz de lidar com a liberdade extrema do sujeito pós-moderno num mundo carente de âncoras significantes.

As Guerras dos Gaúchos, história dos conflitos do Rio Grande do Sul - reedição

25 de agosto de 2010 5

Tenho recebido quase que semanalmente contato de leitores, pelo blog, pelo site, por e-mail e até pelo telefone, perguntando como podem fazer para localizar o livro que organizei “As Guerras dos Gaúchos, história dos conflitos do Rio Grande do Sul”. Bem, desde já, agradeço ao carinho e ao interesse de todos.


Lançado em outubro de 2008, no Museu Julio de Castilhos, em Porto Alegre, o livro, que trata dos conflitos gaúchos, da Colônia de Sacramento a 1964, foi um grande sucesso editorial e esgotou-se em 45 dias. A obra reúne 24 articulistas de nomeada e tem refinado tratamento gráfico by Marília Ryff Moreira Vianna. Foi grande a repercussão na imprensa na época de seu lançamento. Apenas o jornal Zero Hora dedicou-lhe dois Cadernos de Cultura, além de diversas outras referências.


Em dezembro de 2009, o livro foi agraciado com dois troféus do Prêmio Açorianos de Literatura, oferecido pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre – prêmios Especial e Design Gráfico, o que nos deixou a todos muito contentes.


No momento, estou tentando reeditar a obra, mas não está fácil conseguir os patrocinadores. Sigo insistindo. Prometo mantê-los informados das novidades a respeito.

Mais Fumaceira

24 de agosto de 2010 3

A paisagem que se descortina no trajeto entre Gramado a Terra de Areia é deslumbrante. Há várias micro-regiões. Tenho especial apreço pela região dos Campos de Cima da Serra. Entretanto, dessa vez, a visão que se tinha ao passar por ali era desoladora. Divisava-se da estrada grandes extensões de queimadas. Algumas haviam visivelmente começado junto à rodovia, reforçando a suspeita de que tiveram por origem baganas de cigarro lançadas por motoristas irresponsáveis. Mas alguns campos ardem numa extensão tão ampla que nos assalta a dúvida sobre a intencionalidade da queimada. O povo da região de fato confirma que alguns vizinhos atiçam fogo nos campos, com a intenção de renovar a pastagem, gretada pela seca e amarelecida pelo gelo do inverno. Isto, apesar das placas à beira da rodovia sinalizando serem as queimadas crime passível de punição.


As conseqüências dessa ação não poderiam ser mais danosas. Parei no Café Tainhas, onde se encontra sempre um café honesto e um delicioso pastel de carne. A fumaça era tanta que os olhos ardiam. São, portanto, inegáveis os prejuízos para a saúde humana. As atendentes contaram-me terem chamado os bombeiros num outro dia, pois o fogo ameaçava as propriedades do entorno. Isto, sem mencionar a fauna e a flora que são prejudicadas com as queimadas, que ainda contribuem para piorar o aquecimento global. A região está coalhada de reservas florestais! Finalmente, cidades circunvizinhas são atingidas pela sufocante fumaceira, incluídos aí destinos turísticos como São Francisco, Canela e Gramado.


É lamentável. Não entendo como é que a comunidade da região consegue conviver com vizinhos canalhas que incendeiam propositalmente os campos. Onde estão as autoridades policiais, administrativas e judiciárias, que nada fazem? Basta enjaular um ou dois desses bestas-feras incendiários que o resto da turma se acomoda. Acho que as Prefeituras de cidades como Gramado e Canela deveriam exigir indenização do povo de São Francisco de Paula e Cambará do Sul. Afinal, o lixo tóxico produzido por alguns daqueles cidadãos, com a cumplicidade silente dos demais, está prejudicando a saúde e a economia de seus habitantes. Sim, claro, quem é que vai querer ir para um destino turístico engolido pela fumaceira? Para ter problemas respiratórios, sair com os olhos irritados e com o corpo fedendo a fumaça?


Ouvi dizer que a fumaceira está chegando à região Metropolitana. Em Porto Alegre, falou-se que a causa da chuva ácida cor-de-laranja que caiu dia desses residia nas queimadas no Centro do País. Pode ser… Mas o fato é que há cidadãos gaúchos, criminosos, colaborando para produzir esse flagelo. É uma vergonha para um estado que se pretende civilizado e ilustrado.


Está na hora de uma ação mais efetiva contra os criminosos dos Campos de Cima da Serra.

Estradas

24 de agosto de 2010 3

Ontem atravessei a região dos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, pois foi a rota que escolhi para seguir de Gramado a Florianópolis. De Tainhas até Terra de Areia, a estrada esta excelente. Finalmente foi concluído esse trecho da chamada Rota do Sol. Em compensação, o percurso entre São Francisco de Paula e Tainhas continua com o asfalto debulhado em vários pontos, representando desgaste para o carro e risco para o motorista. Esta situação já está assim há vários anos, mas nada é efetivamente providenciado. Todavia, nada que se compare com o suplício da BR 101. É absolutamente inaceitável que a duplicação de uma estrada consuma mais de sete anos. Restam ainda vários trechos com desvios ao sul de Palhoça. E nos trechos aonde já se registra a duplicação, a sinalização é precária, tornando a viagem um risco, sobretudo para quem dirige à noite. Porém, não há dúvida de que a situação já está muito melhor do que há sete anos atrás. A questão é, porque esta duplicação se arrasta dessa maneira? Quando será concluída?

Ecos da campanha

23 de agosto de 2010 0

Nos últimos dias, tenho circulado bastante, pra lá e pra cá. Assim, eu, que já ouço muito o rádio, fiquei ainda mais ligado. Por isso, tenho acompanhado a campanha eleitoral pela FM. Está interessante até…


Bom, o Plínio ficou parecendo um tanto histriônico, mas, afinal, quais são as alternativas para quem tem tão pouco tempo disponível para tentar captar a atenção do eleitor?


A Marina está com um discurso correto e ponderado. Porém, sinceramente, acho que a grande maioria das pessoas está – infelizmente – pouco preocupada com a ecologia, o desenvolvimento sustentável e a educação. A turma quer é preservar a ascensão social conquistada recentemente. Não tiro a razão de quem pensa assim.


É aí que a campanha da Dilma acerta a mão: está otimista, confiante, alegre, dinâmica, clara e objetiva. Para quem vinha com tantas dificuldades de comunicação, é realmente uma surpresa. A gente conversa com as pessoas por aí e percebe que elas estão achando o discurso empolgante. Claro, há evidentes apelos populistas – quando se fala em “uma mãe para o meu povo” e etc -, mas o fato é que muita gente tem dito por aí que não se importa necessariamente com a trajetória pregressa da Dilma, mas sim com o fato de ser ela a ungida por Lula.


E é aí que o Serra parece estar errando a mão. No que pode até passar a idéia de certo desespero de causa, a campanha do Serra tenta torná-lo parecido com o Lula (!!). Há um insólito personagem com voz rouca, forte e popular sotaque baiano, ou coisa que o valha; e há ainda um esforço para transformar José Serra no Zé!!! Não sou marqueteiro nem cientista político, mas eu acho arriscadas estas tentativas de subverter e modificar a identidade de uma pessoa assim de inopino. É o tipo de movimento que tem tudo para se tornar um tiro pela culatra. As pessoas percebem que o discurso fica no contrapé. Tem gente por aí que resume a questão: “o Serra parece aquele tipo de cara que toca em pobre com a pontinha dos dedos, para não sujar”. Leia-se, então, uma certa falta de carisma agora associada a uma tentativa, mal compreendida, de mudança identitária.


Quanto à perspectiva, cada vez mais sólida, a julgar pelas pesquisas que por aí estão, de vitória da Dilma no primeiro turno, creio que, para o País, há um lado positivo e outro nem tanto. É bom quando as coisas se resolvem logo, não deixando maiores dúvidas sobre o apoio do povo a um determinado projeto e concedendo ao vencedor um pouco mais de tempo e tranqüilidade para organizar o seu governo. Por outro lado, eleger alguém que nunca se submeteu antes a um processo eleitoral no primeiro turno pode, talvez, contribuir para fomentar o risco da soberba.


Enfim, e como vocês estão percebendo esta primeira semana de horário eleitoral gratuito?

O enrosco nas rótulas de Gramado

23 de agosto de 2010 1

Chega o fim de semana e Gramado, cidade turística, é invadida por um povaréu. O trânsito fica naturalmente mais enrolado, mas se torna desnecessariamente truncado por conta do desconhecimento de leis elementares por parte dos motoristas. A verdade é que a turma não sabe circular em rótulas. Aí, ao invés de se respeitar a preferencial de quem está entrando nela, uns param, outros atropelam, outros ainda vão, mas desistem no meio do caminho. É um enrosco só. Anteontem vi mais um acidente numa das rótulas de Gramado. Quando é afinal que a Prefeitura vai reconhecer que a turma está despreparada? Urge que se adote alguma campanha de esclarecimento, com distribuição de folhetinhos nas entradas da cidade para ensinar o pessoal a dirigir e a circular nas rótulas. Ou, então, está na hora de multar!

Debate sobre Raymundo Faoro na Semana Acadêmica do Direito da UFRGS

22 de agosto de 2010 0

Na última quinta-feira, palestrei sobre Raymundo Faoro e seu “Os Donos do Poder” na semana acadêmica da Faculdade de Direito da UFRGS. Estão de parabéns os alunos que se dedicaram a organizar o evento. A ótima programação deixa claro que, para essa nova geração, o Direito não pode prescindir do Humanismo.

A mesa na qual participei terminou por volta das 23 horas, bem tarde. Mas muita gente permaneceu atenta até o final, o que me impressionou. Foi pena, apenas, que, justamente em função do adiantado da hora, o debate não pôde se desenvolver muito e algumas das questões que minha colega de mesa, a Professora Izabel Noll, lançou, ficaram sem retorno. Enfim, para não deixar aqui uma lacuna, retomo o debate do ponto onde parou.


Sim, certamente que em “Os Donos do Poder”, Faoro criou uma espécie de “tipo ideal” weberiano. Todo “tipo ideal” tem sua razão de ser, funcionando como um referencial analítico e, até, poético. Porém, justamente por ser um tipo ideal, tem muito pouca utilidade na prática metodológica. E isso é mais do que evidente com o conceito de estamento cunhado por Faoro. Tanto é verdade, que sua obra não teve seguidores. Outros autores apropriaram-se de aspectos de suas teses, mas jamais encaparam-nas por inteiro. Afinal, elas são mesmo de difícil sustentação teórica, vez que preenchem a relevantíssima função de operarem precisamente como um tipo ideal.


Portanto, não se trata de ser ou não duro com o Faoro, mas de reconhecer aquilo que sua obra realmente é e não pretender atribuir-lhe o que ela não almejou ser.


Na mesma linha segue a questão sobre a percepção de Faoro sobre o estado. Ora, o que acontece é que, como Faoro foi um dos mais incisivos críticos da elite brasileira, alguns intelectuais e militantes de esquerda tenderam a identificá-lo como um revolucionário, com ares socialistas. Nada mais equivocado. Gostem ou não, se há um ponto que aproxima Faoro e Gilberto Freyre é que ambos fazem a crítica do capitalismo sem recorrer à perspectiva marxista e sem propor soluções socialistas. Enquanto Freyre criticava o capitalismo globalizado e a burguesia americana e européia, Faoro atacava o capitalismo de estado politicamente orientado. Enquanto Freyre propunha uma fusão entre o velho patriarcalismo e a moderna burguesia capitalista, de modo a se engendrar uma temporalidade alternativa, intermediária, Faoro atacava o patrimonialismo. Faoro estudou o estado e a cultura política brasileira, enquanto para Freyre o estado não tem nenhuma importância e quando o tem é para estragar o que funciona com um intervencionismo entorpecedor. Ambos, portanto, acolhem uma perspectiva liberal. Mas Faoro parece sonhar com a realização da sociedade capitalista liberal, e Freyre já a percebe em curso e tenta preservar um pouco daquilo que Faoro ataca, isto é, o patriarcalismo e o patrimonialismo.


Agora, quando se fala a palavra liberal, muitos intelectuais ganham urticária na pele. É um engano, pois, afinal, existem muitos liberalismos. Além disso, precisamos ser capazes de debater as coisas sem preconceitos. Há vida depois de von Mises e hoje, liberais como o economista francês Guy Sorman, aplaudem o governo Lula e defendem alguma dose de intervencionismo e regulamentação estatal. A expressão neo-liberalismo explica pouca coisa: no máximo, remete-se ao pastiche derivado do fracassado Consenso de Washington, que sequer existia quando Faoro escreveu seu “Os Donos do Poder”. Então, quando digo que esta obra tem vezo liberal, é óbvio que não estou me reportando ao receituário do mencionado Consenso.


Mas o fato inegável e inescapável é que se Faoro quisesse produzir um elogio do estado, teria escrito “O Minotauro Imperial”, de Uricoechea, e não “Os Donos do Poder”, onde tece um panorama extremamente negativo da burocracia. Portanto, é forçar muito a barra imaginar que Faoro poderia ser Uricoechea – outro autor que se inspirou nos conceitos weberianos, mas que percebeu a burocracia como um instrumento de desenvolvimento e modernização, ao contrário de Faoro.

É óbvio que Faoro não detestava o estado à priori, mas sim criticava a elite – de cujos privilégios, na verdade, o moço da Vacaria tinha muita, e justa, mágoa. É verdade que, para o Faoro, o estado é um instrumento capturado por essa elite. Porém, não dá para imaginar que alguém que torpedeia incansavelmente a burocracia e anatematiza o capitalismo de estado possa de alguma forma defender a estatização dos meios de produção. Não! Não vejo nada em Faoro que autorize pensar que ele poderia festejar um inchamento do estado, seja à esquerda, seja à direita. O que ele queria, era que a sociedade se autonomizasse e a democracia liberal se realizasse plenamente. Foi por isso que ele se opôs à chamada república sindicalista de Jango e Brizola. Mas foi por isso também que ele liderou a luta pelo restabelecimento do habeas-corpus no Brasil sob ditadura militar.


Quanto a ser festejado pela esquerda, na velhice, imagino que isso o tenha envaidecido. Acredito que, inclusive, assim como Sérgio Buarque de Hollanda, Faoro deve ter visto positivamente a organização do Partido dos Trabalhadores em princípios dos anos 1980, por divisar nele uma força autônoma da sociedade civil a se mobilizar de forma propositiva, com boas chances de se constituir em uma cunha a perfurar o coração do patrimonialismo. Se ele e Sérgio Buarque acertaram ou não, na íntegra ou parcialmente, são outros quinhentos. Até acho que, por exemplo, a revolução que o governo Lula promoveu ao tirar da miséria mais de 20 milhões de pessoas e garantir a ascensão para a classe média para outros 30 milhões, seria muitíssimo celebrada por ambos. Por outro lado, é difícil imaginar que Faoro não interpretaria episódios como o Mensalão como uma sobrevivência atávica do patrimonialismo que sempre foi a marca registrada das elites brasileiras. E, finalmente, independentemente de ele estar ou não com a razão, duvido muito que Faoro se entusiasmasse com propostas de ampliação do estado.


É claro que não tem cabimento ficar cobrando dos autores estudados uma saída ou uma resposta que nos agrade para os impasses que vivemos. Mas, ao analisarmos suas obras, devemos procurar sim entender quais as saídas que eles apontaram. Freyre apostava da hibridação cultural e pretendia alguma forma de sobrevivência de traços do patriarcalismo. Sérgio Buarque de Hollanda acreditava que apenas uma revolução cultural, alavancada pela industrialização e pela urbanização, elidiria o Homem Cordial e o patrimonialismo, que, para ele, era uma chaga deletéria da sociedade brasileira. Faoro, por sua vez, não propunha coisa alguma. O retrato que desenhou do labirinto estatal brasileiro foi tão pungente que ao final da leitura de sua obra nos fica um pessimismo inquietante. Essa era a sua intenção! Denunciar!

Fumaceira

22 de agosto de 2010 0

Ontem ao cair da noite, havia uma tremenda fumaceira engolindo a cidade de Canela. Também sobrou um pouco para Gramado. O cheiro era de capim queimado. Cheguei a ficar com os olhos irritados. Uns dizem que a fumaça vem de queimadas que gente irresponsável estaria fazendo na região dos campos de cima de Serra, nas adjacências de São Francisco de Paula. Outros argumentam que ela vem de mais longe, de incêndios e queimadas que estão acontecendo sobretudo na Argentina. Afinal, alguém aí sabe explicar o desagradável e inquietante fenômeno?

Dicionário político do RS

20 de agosto de 2010 0

Ontem fui ao lançamento do livro “Dicionário Político do Rio Grande do Sul: 1821-1937″, utilíssima obra de autoria do historiador Sérgio da Costa Franco. O evento, na livraria Nova Roma, estava bastante prestigiado. Foi ótimo reencontrar velhos amigos. Mas precisei sair correndo por causa da palestra que daria na Faculdade de Direito da UFRGS. A edição está muito bem cuidada, sob responsabilidade do produtor Mario Rozano e do editor Antonio Suliani. Trata-se, sem dúvida, de uma inestimável obra de referência, fundamental para quem vai estudar ou escrever a história do período. Senti-me honrado por identificar dentre as obras consultadas pelo autor algumas referências em cuja edição participei, como o Catálogo dos Parlamentares do RS e coletâneas de discursos parlamentares que ajudei a organizar na Assembléia Legislativa. O novo livro de Sérgio da Costa Franco é desses que não podem faltar numa biblioteca.