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Histeria eco-urbanóide

11 de setembro de 2010 1

As pessoas perderam a conexão com a natureza, com o campo, com a floresta. Vivem encapsuladas em rotinihas urbanas alienadas, com controles remotos nas mãos, vagando sobre o concreto, e, de repente, pensam que vão salvar o planeta adotando a primeira macega na qual tropeçam. Empilham-se os exemplos dessa histeria eco-urbanóide que medra por aí.


Dia desses, eu quase fui trucidado por alguns vizinhos em Gramado, tudo porque resolvi derrubar 11 árvores. Queixaram-se à Prefeitura, fizeram um auê. Mas deram logo com os burros n’água, porque eu tomara o devido cuidado de solicitar à Prefeitura autorização para o abate, como prevê a lei. Ela me foi prontamente concedida, pois os exemplares visados eram acácias negras com mais de 14 anos, eucaliptos brancos e vermelhos e alguns ciprestes. Todos os exemplares eram exóticos e estavam em zonas lindeiras, oferecendo risco, inclusive, à segurança das pessoas e à integridade material das propriedades vizinhas.


Qualquer mentecapto deveria saber que uma acácia negra precisa ser derrubada depois de 10 anos, se não, pode cair de podre. Já os eucaliptos, ninguém precisa dizer que são árvores de corte, exóticas, que contribuem pouco para a qualidade do nosso ecossistema, a não ser quando plantadas especificamente para o corte. Não há porque os termos em zona urbana. Quanto aos ciprestes, tirei quatro, dos sete que havia no terreno, para, justamente, permitir a entrada de luz solar e substituí-los por espécimes nativas e frutíferas. O biólogo da Prefeitura elogiou minha ação. Mas os vizinhos aratacas surtaram. O mais exaltado era um senhor grisalho, comprovando que, diferentemente do que muitos supõem, a alienação com relação à natureza e à biologia vai muito além da juventude.


Noutro dia, passeava eu pela Vila Assunção, em Porto Alegre, quando vi a coitadinha de uma extremosa, numa praça, tomada de erva de passarinho. As extremosas não são nativas, mas são arvorezinhas encantadoras, que colorem o verão com a sua floração intensa e pintalgam o outono na sua condição caducifólia. Não incomodam ninguém, suas raízes são contidas e suas dimensões limitadas. Por outro lado, sabe-se o quão nociva pode ser a terrível erva de passarinho. Há meses aquela pobre arvorezinha estava assim, sem receber os cuidados necessários da SMAM. Então, resolvi tomar uma atitude e fui arrancar eu mesmo o parasita deletério. Eis que surge, retumbante, de uma casa de fronte uma moradora indignada por que eu estaria depredando a extremosa….! Nem adiantou argumentar: a erva era verde e tudo o que é verde para essa gente sem noção é bom. Simples assim. Ficou lá a extremosa, a ser sugada pelo parasita. E a doidivanas da praça achando que tinha ganho o seu dia na luta para salvar o planeta.


Nunca aconteceu com vocês?


Recentemente reverberaram por prestigiosas colunas críticas à derrubada dos ficos e ligustros na Praça da Alfândega. A derrubada estava aprovada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e era mais do que justificável, pois estas espécies exóticas possuem copa cerrada, que bloqueia a entrada e luz solar, sufocando as demais, sem mencionar suas raízes agressivas, que prejudicam o encanamento e o calçamento. Além disso, seriam substituídas por encantadores ipês amarelos, árvores nativas muito apreciadas pela fauna e notadamente decorativas. O que mais me impressionou na queixa vazada pela imprensa era que partia de cidadãos cultos, professores universitários, jornalistas experientes… Num indicativo muito claro de que estamos errando fragorosamente no nosso sistema educacional, pois há muito tempo estamos produzindo gerações de pessoas alienadas da natureza. Essas pessoas agora se descobrem paladinos da luta verde e convertem-se em furibundos defensores das macegas que crescem pelos cantos das calçadas. E a quem interessar possa, vale lembrar que as praças e parques são locais de paisagismo urbano – não tem o menor cabimento aceitar ali qualquer macega, pois há um projeto paisagístico que precisa ser preservado. Bom, pelo menos deveria haver, pois isso é civilização e cultura!


Outro dia, postei aqui no blog link para um lúcido artigo da Camille Paglia no qual ela criticava exatamente essa dissociação do ensino universitário com a vida real. Quando professores universitários, alguns até apopsentados, resolvem defender os ligustros e os ficos da Praça da Alfândega, esta tese fica mais do que comprovada!


Aliás, em se tratando da Praça da Alfândega, eu iria ainda mais longe. Eu adoro os guapuruvús: são lindos, altos, esguios, quase uma escultura modernista, com magnífica floração amarela na primavera. O problema é que são árvores que caem, com enorme freqüência, sobretudo depois de uma certa idade. Ora, os guapuruvús da Praça da Alfândega são imensos e já bem antigos. Eu gostaria de ver um laudo da SMAM sobre a segurança que eles oferecem aos freqüentadores da Praça…


E falando em SMAM, na esquina das Avenidas Copacabana e Wenceslau Escobar, na Tristeza, havia uma casinha, que foi demolida para dar lugar a um empreendimento comercial. Até aí, tudo normal. O lance é que o prédio ali erguido foi obrigado a desviar duas velhas árvores. Criou-se uma forma arquitetônica meio esdrúxula. A medida seria mais do que elogiável, não estivessem estas árvores condenadas e definhando a olhos vistos. Uma delas, cuja qualidade agora não me recordo, estava completamente tomada de erva de passarinho e já tinha um de seus lados necrosado; a outra, era uma araucária, que de tão velha, já formara a taça. E se tratava de uma araucária especialmente raquítica, indicando que crescera em solo impróprio e jamais conseguira se desenvolver convenientemente. De fato, o motivo pelo qual as araucárias não se adaptam bem em Porto Alegre é que elas necessitam de solos profundos, o que existe na serra, mas não na Capital. Para piorar a situação, essa árvore fanava a olhos vistos, já tendo vários galhos ressequidos e pelados. Estava morrendo, de velha, de fraca. Nesse caso, o melhor seria abreviar o suplício e cortá-la de uma vez! Mas, não! É verde! E a SMAM, que não dá conta de limpar as ervas de passarinhos das árvores, não deixou derrubar aquelas duas agonizantes, num claro indício de que a histeria eco-urbanóide chegou aos técnicos. Melhor seria ter determinado aos construtores do prédio que as derrubassem e ali plantassem exemplares nativos, em substituição.


É esse tipo de dissociação que está tomando conta da nossa Câmara de Vereadores. Nossos Vereadores podiam estar propondo soluções criativas para a cidade, mas preferem paralisá-la com essa discussão sobre os 60 metros de área de restrição à construções por 60 quilômetros de orla. Se estivessem efetivamente preocupados com o bem estar da população de Porto Alegre e com o ambiente da cidade, teriam, por exemplo, entregue à Governadora e ao Ministério Público uma moção exigindo que os incendiários dos Campos de Cima da Serra fossem severamente multados e, até, enjaulados. Afinal, o fogo que eles produzem contribuiu para o aquecimento global e ajudou a levar as emergências dos hospitais da Capital a um colapso sem precedentes. Imaginem o impacto que uma moção assim não teria junto ao Governo! E coloco aqui o Ministério Público também porque quando todos os agentes Executivos falham, é no ente ministerial que depositamos nossas esperanças. Foi por isso que a sociedade outorgou-lhe o poder que esgrime desde a Constituição de 1988. E é triste constatar que no caso dos incêndios criminosos nos campos, o Ministério Público nada tem feito. Mas, não, os Vereadores preferem perder-se em debates infrutíferos e delirantes.


Mais exemplos? Em Copacabana, no Rio de Janeiro, será instalada uma usina de biodiesel para reciclar o óleo de cozinha dos bares e restaurantes. Esse óleo normalmente é despejado nos esgotos, prejudicando sobremaneira o meio ambiente e ajudando a entupir tubulações. O biodiesel que seria produzido a partir daí, seria utilizado para movimentar os caminhões de lixo da Prefeitura, reduzindo gastos com combustível e a emissão de CO2. O equipamento todo para a usina custa menos de R$ 250 mil reais, o que estabelece retorno garantido para a iniciativa. Ou seja, a Prefeitura ainda terá lucro!


Por quê não propor algo parecido para Porto Alegre? Por quê não ajudar o Executivo a encontrar soluções criativas e eficazes?

Comentários (1)

  • Francisco Quiumento diz: 11 de outubro de 2010

    Tenho pensado em sugerir a criação da ARG! (Administração do Recolhimento de Gorduras), que controlaria as UURG!s (Unidades Urbanas de Recolhimento de Gorduras), e para evitar o despejo de gorduras no esgoto, as IRCs! (Intendências de Rejeitos Cloacais), pois mais que tudo, se não marcharmos para um “ciclo de biodiesel”, e não encerrarmos com uma mentalidade de combustíveis fósseis, vamos ser cozidos pelo efeito estufa pela nossa própria estupidez.

    “A ironia leva à verdade.” – a partir de Eco Umberto, em O Nome da Rosa.

    Pois dizem por aí que entendo alguma coisa desta coisa:

    http://knol.google.com/k/francisco-quiumento/biocombust%C3%ADveis/2tlel7k7dcy4s/79

    ;)

    Abraços e sempre que podendo, lendo suas blogagens.

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