Dentre as boas leituras que fiz ainda neste primeiro semestre está o “Israel em abril”, de Érico Veríssimo, recentemente reeditado pela Companhia das Letras, com belo prefácio de Bernardo Kucinski. O livro, publicado em 1969, é o relato de viagem de Érico e da esposa Mafalda a Israel, em abril de 1966. Tinha então o escritor 61 anos de idade. É o último dos quatro livros de viagem de Érico – os outros são “Gato preto em campo de neve” (viagem aos EUA), “A volta do gato preto” (EUA) e “México”.
O livro é uma espécie de diário, quase como à feição de um blog, que reproduz e comenta a agenda de visitas, paisagens, conversas com pessoas... Suas impressões se fundem com informações históricas, num esforço para situar o leitor que recupera os passos feitos pelo próprio viajante na tentativa de compreensão do país visitado. Opiniões acuradas emergem de belas narrativas, pelas quais o autor se mostra vivamente. Lembranças de infância se intercalam com a preocupação presente com a saúde e a fadiga da velhice que se anuncia. Insights brotam em noite insones, espicaçadas pela tosse e febre provocadas por um resfriado. Tudo temperado por um humor delicioso e uma ironia fina, tornando a leitura uma experiência especialmente agradável. Ele brinca de viajar, diz: “viajando me digo que sou dois: um que viaja e outro que se vê viajar. No meu caso há um terceiro, o que vai escrever sobre o que viajou e sobre o que se viu viajar”.
Muito embora a convite do Governo de Israel, Érico procura olhar o país por múltiplos ângulos. Não tece loas, nem alimenta antagonismos. Compreende Israel como uma extraordinária experiência modernista, a da construção de um País planejado, como se fosse uma escala ampliada da utopia de Brasília. Mas percebe, a cada passo, a cada curva, o peso da tradição e a marca da História. Uma nação moderna a emergir no mapa como de uma prancheta, mas fundada numa forte cultura preexistente. Condição que salta aos olhos com as constantes e eruditas remissões a passagens da Bíblia e à História Antiga, tecidas com leveza atraente. Para ele, as escrituras estão tão ligadas à geografia humana e cultural da região que a Bíblia ainda é o melhor roteiro para arqueólogos, historiadores e turistas.
Seu relato de viagem desdobra-se assim frequentemente entrecortado por parêntesis reflexivos, nos quais se debruça preferencialmente sobre o enigma que o fascina: como sobreviveu o povo judeu a quatro mil anos de diáspora, antissemitismo e perseguições? Tem a certeza de estar diante da “minoria mais verbal, polêmica, brilhante e ruidosa da história da espécie humana”. Pergunta-se: os judeus são uma etnia, uma raça, uma religião, uma civilização...? E tende a concluir que ser judeu é um estado de espírito... e o judaísmo, uma cultura.
Érico flagra o paradoxo de um povo que conviveu intimamente com a tragédia ao longo de sua trajetória, mas jamais abandonou sua pronunciada veia cômica. Um tipo de humor, algo trágico, nonsense, que o povo americano, segundo ele, teria absorvido. Para Érico, os judeus são o povo mais verbal da História, com manifesto gosto pela polêmica, pelos livros e pela filosofia. Um otimismo inabalável no futuro os teria ajudado a sobreviver, mesmo sob as condições mais adversas.
Seu primeiro contato com Israel e o judaísmo se dá pelo pão ázimo (afinal, era a Páscoa judaica), proporcionando divertidas passagens ao leitor. Inebriou-se com o intenso e quase onipresente perfume dos laranjais e conheceu “áspero hálito do deserto”. Deixou-se encantar pelo misticismo de Sefad, a cidade sagrada da cabala, e impactou-se com o Mar Morto. Transitou das grandes e novas cidades aos kibutzim, passando pelos sítios históricos. Discutiu as opções políticas da jovem nação, com especial interesse pelas formas trabalhistas e socialistas radicais, e encontrou-se com líderes como Golda Meyr e Ben-Gurion.
Érico também retrata o paradoxo de um País que teria motivos de sobra para viver em permanente estado de exceção, em virtude do quadro de beligerância, mas que, no entanto, funciona como uma sólida república democrática parlamentar. Quando Israel contabilizava escassos 2,5 milhões de habitantes, lá atuavam onze partidos políticos.
Érico confronta a todo instante o leitor com a diversidade de Israel. Fala de um bairro em Jerusalém habitado exclusivamente por judeus ortodoxos que não reconhecem o Estado de Israel. Descreve grupos de judeus da Índia, da China, do Irã, da Líbia... Comenta as características entre os sefaraditas e os asquenazis, sintetiza o sentido da Torá e do Talmude. Encontra drusos, beduínos e árabes, os quais, acredita, sentiam-se então à vontade no Estado de Israel.
Por que caminhos andaria o Estado de Israel? Qual o seu futuro? Laico ou religioso? Socialista ou capitalista? O quanto o conflito árabe-israelense determinaria o futuro a partir daquele momento? São perguntas que Érico se faz constantemente nas páginas de seu diário de bordo.
Em tempos de Feira do Livro de Porto Alegre e Festa Literária em Olinda, cujo tema central homenageia a literatura judaica na América Latina, fica aí uma simpática dica de leitura.


