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Cidade Livre, de João Almino

23 de novembro de 2010 0

Dentre os bons livros que li este ano está “Cidade Livre”, de João Almino. Diplomata de careira, natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte, João Almino doutorou-se em Paris, orientado pelo filósofo Claude Lefort. Ensinou na UNAM (México), na UNB, no Instituto Rio Branco, em Berkeley e em Stanford. Conheci-o em junho, num colóquio em Petrópolis, no Rio de Janeiro.


O livro é deliciosamente bem escrito, com linguagem fluente e bem cuidada. O texto encanta pelo ritmo, oscilando da loquacidade às reticências, da voluptuosidade imagética à simplicidade narrativa.


Estão ali os componentes da estética pós-moderna que tanto encantam os críticos entendidos. Mas vazados de forma singela, despretensiosa, suave. O narrador é fragmentado, descontruído e significado em metalinguagem. O filho (que assina J.A. – João Alino?) de um dos primeiros colonizadores de Brasília – jornalista, historiador e empreiteiro – conta a história do pai, num blog, que virou o livro, ao mesmo tempo em que altera o próprio texto à medida que escreve e reage às críticas de leitores imaginários, em tempo real, uns, dentre os quais, comentaristas anônimos no seu blog, o outro, o próprio João Almino, identificado pelo narrador como um amigo e revisor. A estrutura caleidoscópica, contudo, não confunde o leitor. Pelo contrário, ela se presta magnificamente para conferir ritmo ao imaginário estilhaçado e polifônico da cultura popular, que João Almino traz para o texto na forma de mitos coletivos e trajetórias individuais que se entrecruzam e se misturam, vertendo-os em prosa cristalina, palavras bem postas, naturalmente incorporando o linguajar cotidiano do povo.


A leitura, atraente no estilo, cativa também pelo enredo. Já de saída, o leitor é fisgado por um sombrio mistério, em torno do qual se desenrola uma trama bem urdida e cujo desfecho explode ao final: uma mulher fatal, de personalidade multifária e cambiante, um retirante nordestino com habilidades incomuns, um dedicado historiador que se torna empreendedor corrupto, um pré-adolescente descobrindo a sexualidade – personagens que se entrelaçam em torno do sumiço de uma pessoa, um possível assassinato jamais solucionado.


Mas a força do romance vai ainda além. Antes do livro de João Almino me cair nas mãos, eu não me apercebera que Brasília parece não ter escritores. A literatura, ao ambientar-se numa cidade, preenche um esqueleto de prédios e avenidas com carne semiótica. Ela dialoga com a alma de uma cidade, significando-lhe, cerzindo identidades. Eu nunca tinha lido um livro ambientado em Brasília. Cidade nova, moderna, projetada, seu artificialismo aparente parece não ter inspirado a literatura.


O livro de João Almino não apenas ambienta-se em Brasília, o que por si só já se constitui em cenário inusitado para uma narrativa de ficção, mas perscruta escaninhos esmaecidos de uma memória fugidia e esmalta um adorável esforço de condensação identitária para uma cidade que se estribou na voragem do novo, numa modernidade adejante, precipitada na vertigem do progresso e infensa às tradições. João Almino, ao escrever, faz História. Ao fazer História, fermenta a ficção. Nesse vai-e-vem, nessa fronteira coleante, João Almino vai encontrando a alma de uma cidade nova, surgida quase que de um dia para o outro, e que encantou o mundo inteiro ao nascer.


Fantasias de uma criança desenham traumas psicológicos arrebatadores e funcionam como portas de acesso ao passado, cadenciando a narrativa. Seu pai, um insólito jornalista, improvisado em historiador, coleciona frases de visitantes ilustres, anota pequenos detalhes do dia-a-dia de um frenético canteiro de obras, na contramão do fluxo do progresso que a todos engole num hausto, mas ciente de que um dia seus cadernos de encargos serão úteis como testemunhos de origens esfumadas.


Velhacap, Novacap, Cidade Livre, Candangolândia, enchentes, favelas, bordéis, uma polícia corrupta e autoritária, um povo exaurido, explorado, mas esperançoso e confiante, uma cidade transitória, de tendas e barracos, de obreiros, que deu lugar a uma capital imponente, erguida em cristal e concreto – um terreno sem Juízes se metamorfoseou na sede de todos os Poderes. O vazio que vira concreto. O vazio onde se aninhava fauna e flora de enorme diversidade e beleza, sobre as quais se apoia uma cultura cujos fundamentos escoam pelas bordas das pilastras a brotarem do chão. O concreto que, décadas mais tarde, ressoa pelas paredes frias o clamor por uma história.


João Almino conseguiu transformar a descrição de uma cerimônia oficial, a inauguração de Brasília, numa narrativa eletrizante, pois, entre fragmentos de discursos e desfiles apoteóticos, engancha o leitor com a promessa de respostas para o mistério que amarra a trama. Mas é na morte que o livro encontra o seu ápice. O sumiço do candango, imigrante nordestino, um possível assassinato, que tão profundamente impactou a família do narrador J.A., mas sem reverberação coletiva, em contraste enviesado ao velório grandioso de Bernardo Sayão. Sim, porque uma cidade se torna viva quando tem mortos para enterrar. E, para cada pioneiro heroico, imortalizado no panteão da glória, milhares sucumbem em anonimato.


Anonimato, entretanto, ruidoso. A Brasília de João Almino pendula entre a uniformidade urbanística e arquitetônica e a diversidade sincrética. É polimorfa, híbrida, mestiça. Nela se fundem o idealismo político, a voracidade corrosiva do capitalismo corrupto, a utopia modernista e o enlevo socialista, a miragem progressista, a delicada natureza do cerrado, o misticismo popular, a ressignificação ansilar de vozes imigrantes, tragadas no torvelinho da urbe, um lugar mágico, refúgio do desespero, onde o absurdo dá lucro e onde o sonho vale mais do que o medo, onde a mobilidade é estonteante, os largos horizontes infundem liberdade e dispersão…, e prostitutas podem virar sacerdotisas.

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