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Posts de novembro 2010

O escândalo dos atrasos e cancelamentos de voos da TAM

30 de novembro de 2010 1

Passei ontem pelo aeroporto de Florianópolis. Graças ao bom Deus, vim de Gol (que não é nenhuma maravilha, bem o sabemos, mas não é TAM, o que já é alguma coisa). A fila no chek-in da TAM era absurda! Senti que haveria risco de tumulto. Perguntei às pessoas por lá o que estava acontecendo: faltavam tripulantes, foi a resposta que ouvi de todos, passageiros, funcionários da TAM e até funcionários da Gol. O motorista que me trouxe no carro já havia me alertado do problema: em todo o Brasil vôos da TAM estavam atrasando por falta de pessoal. Amigos já haviam me dado relatos constrangedores a esse respeito. Um ficou por uma hora e meia dentro de um avião, em Recife, na semana passada, esperando uma tripulante chegar! É um escândalo!


Mas escândalo maior ainda é a nota distribuída pela companhia aérea. Ora, será que a TAM acredita que soma pontos ao seu favor mentindo deslavadamente? Quem é que vai acreditar que os vôos estão atrasando por causa de chuvas que sempre caem? É muita cara de pau! Sinceramente, a impressão que dá é que a empresa está à beira da falência!


O que é horrível nesta história toda é termos de confiar nossas vidas a uma empresa mentirosa. Se a TAM mente sobre a falta de funcionários, deve estar mentindo também sobre a manutenção dos aviões. Ou não?

Lançado ontem o Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre, editado pela Civilização Brasileira

30 de novembro de 2010 0

Estou em Porto Alegre. É ótimo rever os amigos. Vim para o lançamento do meu último livro, “Fronteiras do Pensamento, ensaios sobre cultura e estética”, editado pela Civilização Brasileira. Estava ótimo! Adorei encontrar o querido Affonso Romano Sant’Anna, que participa do livro, como um dos conferencistas de 2008 do Fronteiras e com quem tive a honra de dividir mesa de autógrafos. Na mesa ao lado, autografava o brilhante historiador da cultura Carlo Ginzburg. Agora, estou na correria, resolvendo mil coisas. Mas tenho novidades e voltarei mais tarde ao blog. Um abraço a todos!

A crise do sistema político nos Governos JK e Jânio Quadros

28 de novembro de 2010 1

Foi publicado on-line no dia 11 o meu artigo de novembro na revista Voto. Reproduzo-o abaixo para vocês.



Em 3 de outubro de 1955, Juscelino Kubitschek, candidato da coligação PSD-PTB, foi eleito Presidente da República, tendo João Goulart por Vice. Tomou posse em meio a ameaças de golpe militar. JK implantou o crédito fácil e ofereceu vantagens às firmas estrangeiras. Empreendeu um programa ousado de investimentos que teve por corolário a construção de Brasília, a nova Capital Federal. Granjeou apoio dos industriais que, desde meados dos anos 1950, agasalhavam teses desenvolvimentistas do pioneiro Roberto Simonsen. Conseguiu costurar um modelo de cooperação com o Congresso e os Governadores e restabeleceu parcialmente as relações com os Estados Unidos. A construção de Brasília alterou geográfica e simbolicamente o eixo do centro das decisões.


Mas o déficit público e a inflação dispararam, especialmente a partir de 1958, o que teria levado à renúncia, em junho, do Ministro da Fazenda José Maria Alckmin. Foi substituído por Lucas Lopes que iniciou, juntamente com Roberto Campos, um programa de estabilização, depois das eleições parlamentares de outubro. Mesmo contrariando exigências mais ortodoxas do FMI, que propunha uma espécie de choque que restringisse o crédito à indústria, liquidasse os subsídios diretos ao café e indiretos à importação de gasolina e trigo, bem como suspendesse o sistema de câmbio diferencial, JK passou a amargar os custos políticos do programa de estabilização, o que o levou ao rompimento com o FMI, em junho de 1959. Com a manobra, JK preservava sua imagem popular, mas deixava o problema de inflação e do endividamento externo – que explodira como resultado do recurso crescente ao financiamento privado, de curto prazo e de alto custo, para as importações – para o seu sucessor.


Na eleição de 1960, JK não conseguiu fazer o seu sucessor. O carismático Governador de São Paulo Jânio Quadros escapou ao embate faccioso entre getulistas e antigetulistas, apresentando-se como administrador honesto e eficiente, em mensagem especialmente dirigida para a classe média. Foi lançado candidato pelo PDC e pela UDN, mas desde o início deixou clara a sua independência aos partidos. Do ponto de vista econômico, endossava a tese liberal, defendendo um orçamento austero e condições favoráveis aos investimentos estrangeiros, sem, no entanto, abrir mão do desenvolvimentismo e do apoio à indústria, o que o levava a aceitar certa dose de inflação.


Quadros assumiu o Governo em 31 de janeiro de 1961, cavalgando um extraordinário resultado nas urnas e precisando enfrentar o caos econômico deixado por JK. Em março, anunciou uma reforma do sistema cambial, unificando as taxas e desvalorizando dramaticamente a moeda nacional. Prometeu reduzir o déficit governamental, comprimiu os incentivos às importações, tentou incrementar o setor exportador e pretendeu controlar a expansão monetária. A repercussão desses esforços contribuiu para que conseguisse repactuar com o FMI, atraindo empréstimos de consolidação.


Diante, porém, do custo político do programa antiinflacionário, Quadros começou a vacilar, afastando-se da ortodoxia inicial. Paralelamente, entrecortava medidas polêmicas na política interna – como a proibição do uso do biquíni no Rio de Janeiro – e na externa – como um acordo comercial com o bloco comunista e uma condecoração a Che Guevara, em plena Guerra Fria – com uma ambivalência no relacionamento com os partidos políticos. Isso foi corroendo sua base de sustentação no Congresso e inquietando a opinião pública.


Açodado pela oposição, especialmente a UDN de Carlos Lacerda, Governador da Guanabara, Quadros renunciou inesperadamente em 25 de agosto, provavelmente esperando que o Congresso, temeroso da posse do Vice-Presidente João Goulart, não aceitasse a renúncia, o que lhe permitiria, talvez, concentrar maiores poderes no Executivo, em detrimento do Legislativo. O Congresso, entretanto, aceitou a renúncia.


No regime pós-1946, o Legislativo teve as suas atribuições ampliadas e os Presidentes precisaram negociar a formação de maiorias para aprovar seus projetos. A base parlamentar de apoio poderia ser erodida pela falta de coincidência entre as eleições proporcionais e as majoritárias. Jânio Quadros, eleito com por maioria esmagadora, precisava governar com um Congresso envelhecido e no qual não dispunha de maioria.


Ademais, como demonstraram autores como Hélio Jaguaribe e Luiz Alberto Moniz Bandeira, as oligarquias rurais e regionais gozavam forte ascendência sobre o Congresso, impondo um recorte conservador e bloqueando reformas sociais pretendidas pelo Executivo. Tanto à esquerda como quanto à direita medravam teses que conspiravam para o entendimento de que a ação do Parlamento deveria ser revista em benefício do projeto de desenvolvimento do País.


Complicava o cenário a possibilidade de eleição do Presidente e do Vice-Presidente por chapas diferentes. Assim, era possível eleger-se, por exemplo, um Vice-presidente de oposição ao Presidente.


O modelo federativo de 1946 estava em impasse. A dispersão do poder, a regionalização da política e a necessidade de medidas polêmicas por parte do Poder Executivo diante da crise econômica levaram um Congresso fragmentado, ruralista e conservador à paralisia, aspecto que esteve na base do drama institucional que explodiu a partir da renúncia de Jânio Quadros.


TAM se nega a acolher reclamações sobre a fraude Multiplus

27 de novembro de 2010 5

Tentei por várias vezes enviar um e-mail para o “Presidente” da TAM, pelo portal da companhia, no link “fale com o Presidente”. Depois de enfrentar o preenchimento de um desgastante questionário, o site trava, e o envio do e-mail não é concluído. Em resumo, a TAM nega-se a receber reclamações sobre o problema das milhas, seja em suas lojas, seja pelo atendimento ao cliente pela central de relacionamento telefônico, seja pelo site. Pode haver demonstração mais cabal de culpa no cartório? É óbvio que a companhia está perfeitamente informada da fraude com as milhas e do dano que está sendo imposto aos seus clientes. Sabe, e não dá a menor pelota. O que será que está por traz disso? Vontade explícita de passar um atestado de desrespeito? Será que a TAM está sem condições de honrar o compromisso com os clientes e resolveu sacanear geral?

Rio em guerra

27 de novembro de 2010 2

Sinto-me muito confortável neste momento para sair em defesa do Rio de Janeiro e da política de segurança lá implantada, pois, no ano passado, quando todos se embriagavam de enlevo ufanista, diante da escolha da cidade para sede das Olimpíadas, dei uma de chato, de advogado do diabo, chamando a atenção para os problemas da cidade. E fui bastante atacado por isso.


Em adição ao que registrei em meu post anterior, acho que vale refletir um pouco sobre como parte da imprensa, do mundo e do próprio Brasil, tem tratado do drama que lá se desenrola. Alguém aí se lembra de quantos automóveis foram incendiados nos tumultos que eclodiram nos subúrbios de Paris em dezembro de 2004 e que se desdobraram pelo interior da França nos meses seguintes? E quantos foram os veículos e estabelecimentos comerciais danificados no levante do inverno europeu de 2008/9 na Grécia? Alguém lembra? Ou quantas foram as baixas havidas no Levante do Dia das Mães em São Paulo? Ou nos atentados terroristas havidos em Madrid, Londres e Nova Iorque? Pois bem, nada autoriza dizer que a situação no Rio não é grave, mas vamos devagar com o andor, vamos contextualizar os fatos, ok?


A propósito, a população do Rio de Janeiro está dando ao mundo uma demonstração de maturidade, diante de situação tão absolutamente angustiosa. Todos estão procurando levar as suas vidas normalmente. As crianças não deixaram de ir às escolas, as pessoas seguem tentando chegar ao trabalho… Alguém aí poderia até dizer que faz parte da esquizofrenia alienante da cidade, mas, sinceramente, acho difícil acreditar nisso quando o conflito se reveste de tamanhas proporções e se revela tão disseminado. Imaginem se algo assim acontecesse nos Estados Unidos, país por excelência da histeria coletiva? Seria um pânico generalizado! Não, os cariocas estão se comportando com a mesma altivez revelada pelos londrinos no último ataque terrorista que tisnou de rubro aquela adorável cidade.


E também acho positiva a aliança entre as polícias do Rio de Janeiro e os fuzileiros navais. É uma tropa de elite, bem treinada e ágil. É notícia alvissareira a colaboração deles em sintonia com as forças de segurança pública do Rio de Janeiro. O que ninguém diz é que uma aliança assim somente poderia ser construída por um comandante de forças públicas respeitado por sua coragem, descortino e equilíbrio, como o Sr. Beltrame. Talvez, uma colaboração mais efetiva nesse sentido não tenha se imantado antes justamente pela falta desse comando confiável. Ou alguém aí acha que os militares iriam se meter numa furada, partilhando comando com uma polícia inepta e totalmente corrupta?

Rio de fogo!

27 de novembro de 2010 8

Quem acompanha o meu blog, vai lembrar que eu o iniciei, em outubro de 2009, com alguns posts sobre a violência no Rio de Janeiro. Então, é esse aqui um assunto recorrente.


Sobre os episódios que estão em curso na Cidade Maravilhosa digo hoje que, muito embora não morra de amores por esse Governador Sérgio Cabral, é a primeira vez em décadas que o Rio de Janeiro tem uma política de segurança séria. Quem já morou no Rio sabe perfeitamente que os bandidos não têm motivo para atacar no asfalto – o que querem é tranquilidade para traficar livremente no seu território. Arrastões acontecem quando o comando em alguma favela se dilui, seja em virtude de uma guerra de facções ou da morte de um chefe, pois, em geral, os próprios traficantes os reprimem. Ataques coordenados como os que assistimos nos últimos dias são ainda mais raros, até porque os bandidos dividem-se em facções rivais.


Então, a explicação para o recente fenômeno reside na reação dos bandidos ao sucesso da política de segurança. É verdade que a polícia do Rio de Janeiro deveria ser reformada, de alto a baixo. Também é verdade que a Justiça por lá não é grande coisa. Mas as Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, embora não sejam nenhuma panaceia, são a melhor coisa que surgiram em décadas. Sim, este é o caminho para enfrentar a violência no Rio de Janeiro: a ocupação do território dos bandidos pelas forças do estado e da lei.


O poder de fogo dos bandidos que estamos vendo pela televisão foi acumulado em décadas de descaso e incompetência dos governantes do Rio de Janeiro. E, não é folclore não, este absurdo se potencializou durante o Governo de Leonel Brizola, quando se generalizou a aberrante política de composição com os bandidos. Essa mancha deletéria Brizola arrastou consigo para o túmulo.


Assim, em que pesem os horrores que estamos assistindo desde o último dia 24, a ação dos bandidos pode ser lida, em princípio, como um sinal positivo para a sociedade. Noto, ainda, que a polícia do Rio de Janeiro precisou responder aos ataques com uma estratégia de emergência. Isto é, a ação policial não pôde dessa vez ser programada com cuidadosa antecipação. E a resposta está sendo eficaz. Para confrontos das proporções a que estamos assistindo, o número de baixas está se mostrando relativamente contido, por enquanto. Ponto para a polícia, que passa um atestado de prudência e civilidade! E, a propósito, estou gostando de ver a tranquilidade com que o secretário de segurança do Rio, o Sr. Beltrame, tem se apresentado em público em meio a uma situação tão angustiosa. Na guerra, é assim que um comandante tem de se mostrar, transmitindo segurança para a sociedade e para os seus comandados.


É claro, não pode haver vacilo daqui para frente.  Se as UPP se corromperem, será um desastre de proporções inimagináveis. E, junto com as UPPs, é preciso continuar urbanizando as favelas do Rio de Janeiro.


É possível, é viável, é necessário.


De fato, o que se vê no Rio de Janeiro são cenas que sugerem estar e curso um tipo de ação guerrilheira urbana. É grave, certamente. Mas não é possível comparar com a situação do México, por exemplo, onde o quadro é muitíssimo mais agudo, dominando quase todo o território nacional, ou tampouco com a Colômbia, onde a guerrilha segue motivações ideológicas e enverga um projeto de poder. Então, com persistência e ciência, é possível resolver o problema da guerra no Rio.


Safadeza no ar – o roubo das milhas da TAM e a péssima gestão Multiplus

26 de novembro de 2010 19

Sim, eu sei, é um escárnio. Mas é a mais pura verdade!


A TAM terceirizou a gestão do seu plano de fidelidade e está lavando as mãos diante das denúncias de que as milhas de seus clientes estão sendo roubadas. Para quem não sabe, as milhas tornaram-se artigo importante, pois permitem acesso a descontos em parceiros variados e – a cereja do bolo – garantem ao cliente fiel passagens aéreas em bônus.


Pois bem, em agosto, antes de realizar as viagens recentes que fiz, eu tinha 104.775 milhas, conforme comprovavam os estratos que me foram enviados por e-mail pela própria TAM, os quais guardo em meu poder. Passei todo o ano de 2009 e 2010 recebendo extratos iguais, informando o saldo das minhas milhazinhas. Entrei nesse meio tempo na página TAM Fidelidade, confirmando estar tudo certo.


Mas aí, a TAM resolveu condenar os seus clientes ao jugo de uma parceira prá lá de picareta, a tal Multiplus. Mandaram mailzinhos para a gente dizendo como a vida seria feliz com a Multiplus e encheram a televisão de propagandas celebrando o novo golpe na praça. Aí, no meu extrato de outubro, fui informado de que eu tinha apenas 94.900 milhas! Mas como, se nenhuma das minhas milhas iria vencer?!


Tentei entrar no site, mas a minha senha já não funcionava mais – agora é Multiplus e eu precisava ter a maldita senha dessa empresa. Mas ninguém havia me enviado coisa alguma. Pedi uma senha nova pelo site. Ela não foi enviada ao meu e-mail como prometido.


Preocupado, procurei a loja da TAM em Recife, por onde passei recentemente. Lá me informaram que tudo o que as lojas poderiam fazer era informar o meu saldo (confirmaram-me que ele era de 94.900 milhas). Pedi para ver o estrato, queria registrar uma reclamação. Só pela central e atendimento TAM Fidelidade, me disseram.


Liguei. Fui atendido por uma moça que me disse que o TAM Fidelidade não tinha mais acesso ao extrato dos clientes: isso agora era competência da Multiplus, a tal empresa picareta a qual me refiro. Informou-me, a moça, o número da Multiplus e liguei para lá.


A moça que então me atendeu disse que o sistema não se equivocava jamais (sempre esta fé inabalável no “sistema”) e que os extratos que eu recebera por meses, esses sim, estavam errados, e concluiu informando-me que agora, mesmo depois das novas viagens realizadas, eu tinha apenas 91.800 milhas! A sangria continuava! Ela me disse que a Multiplus não se responsabilizava pelos estratos anteriormente distribuídos pela TAM. Pelo jeito, também não se responsabilizava pelos distribuídos pela própria Multiplus, pois em outubro diziam que eu tinha 94.900 milhas, agora já acusavam saldo inferior. Quando eu perguntei se o sistema antes não era confiável, segundo ela mesmo dava a entender, porque o seria agora? Nenhuma resposta.


Pedi revisão do meu extrato e restituição dos pontos surrupiados. Ela disse que não poderia devolver o que eu não tinha e negou-se a reconhecer os extratos anteriores. Enviei-os por e-mail, mas não se dignaram a me responder.


Fiquei absolutamente chocado. Se der o azar de sua conta bancária ser assaltada por conta de uma quebra de segurança do próprio banco, os valores são restituídos. Mas a atendente Multiplus sequer queria registrar a quebra de segurança. Ela a negava peremptoriamente! A ligação consumiu um longo tempo, e nada adiantou!


Ora, por óbvio, o sistema Multiplus, ao qual eu jamais pedi para pertencer, ou está sendo alvo da ação de hackers experientes, ou vem sofrendo sangria gerada de dentro mesmo, seja por esquizofrênico, seja por funcionários corruptos. É caso de polícia!


O que farei? O que me cabe. Primeiro, compartilhar este escândalo com todos vocês aqui pelo blog, para que as pessoas sejam informadas do que está em curso. E, aliás, já ouvi falar de pelo menos duas pessoas que sofreram igual prejuízo e receberam igual tratamento. Em seguida, irei protocolar queixa no Procon, esperando que algo possa ser feito. Finalmente, já que na TAM não sou ouvido em lugar algum, vou mandar cartas para todas as parceiras da Star Aliance, para que elas saibam em que companhia se encontram e como a TAM comporta-se na base da chinelice descarada, desprezando o patrimônio dos seus clientes mais fiéis. Imagine, se a TAM se entrega a este tipo de gestão fraudulenta com seu programa de milhagens, a que situação desesperadora não estamos todos nós condenados a embarcar em um de seus aviões?! Aí, os acidentes acontecem e todo o mundo diz que foi uma fatalidade!


Sim, eu sei, é um escárnio!

Cidade Livre, de João Almino

23 de novembro de 2010 0

Dentre os bons livros que li este ano está “Cidade Livre”, de João Almino. Diplomata de careira, natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte, João Almino doutorou-se em Paris, orientado pelo filósofo Claude Lefort. Ensinou na UNAM (México), na UNB, no Instituto Rio Branco, em Berkeley e em Stanford. Conheci-o em junho, num colóquio em Petrópolis, no Rio de Janeiro.


O livro é deliciosamente bem escrito, com linguagem fluente e bem cuidada. O texto encanta pelo ritmo, oscilando da loquacidade às reticências, da voluptuosidade imagética à simplicidade narrativa.


Estão ali os componentes da estética pós-moderna que tanto encantam os críticos entendidos. Mas vazados de forma singela, despretensiosa, suave. O narrador é fragmentado, descontruído e significado em metalinguagem. O filho (que assina J.A. – João Alino?) de um dos primeiros colonizadores de Brasília – jornalista, historiador e empreiteiro – conta a história do pai, num blog, que virou o livro, ao mesmo tempo em que altera o próprio texto à medida que escreve e reage às críticas de leitores imaginários, em tempo real, uns, dentre os quais, comentaristas anônimos no seu blog, o outro, o próprio João Almino, identificado pelo narrador como um amigo e revisor. A estrutura caleidoscópica, contudo, não confunde o leitor. Pelo contrário, ela se presta magnificamente para conferir ritmo ao imaginário estilhaçado e polifônico da cultura popular, que João Almino traz para o texto na forma de mitos coletivos e trajetórias individuais que se entrecruzam e se misturam, vertendo-os em prosa cristalina, palavras bem postas, naturalmente incorporando o linguajar cotidiano do povo.


A leitura, atraente no estilo, cativa também pelo enredo. Já de saída, o leitor é fisgado por um sombrio mistério, em torno do qual se desenrola uma trama bem urdida e cujo desfecho explode ao final: uma mulher fatal, de personalidade multifária e cambiante, um retirante nordestino com habilidades incomuns, um dedicado historiador que se torna empreendedor corrupto, um pré-adolescente descobrindo a sexualidade – personagens que se entrelaçam em torno do sumiço de uma pessoa, um possível assassinato jamais solucionado.


Mas a força do romance vai ainda além. Antes do livro de João Almino me cair nas mãos, eu não me apercebera que Brasília parece não ter escritores. A literatura, ao ambientar-se numa cidade, preenche um esqueleto de prédios e avenidas com carne semiótica. Ela dialoga com a alma de uma cidade, significando-lhe, cerzindo identidades. Eu nunca tinha lido um livro ambientado em Brasília. Cidade nova, moderna, projetada, seu artificialismo aparente parece não ter inspirado a literatura.


O livro de João Almino não apenas ambienta-se em Brasília, o que por si só já se constitui em cenário inusitado para uma narrativa de ficção, mas perscruta escaninhos esmaecidos de uma memória fugidia e esmalta um adorável esforço de condensação identitária para uma cidade que se estribou na voragem do novo, numa modernidade adejante, precipitada na vertigem do progresso e infensa às tradições. João Almino, ao escrever, faz História. Ao fazer História, fermenta a ficção. Nesse vai-e-vem, nessa fronteira coleante, João Almino vai encontrando a alma de uma cidade nova, surgida quase que de um dia para o outro, e que encantou o mundo inteiro ao nascer.


Fantasias de uma criança desenham traumas psicológicos arrebatadores e funcionam como portas de acesso ao passado, cadenciando a narrativa. Seu pai, um insólito jornalista, improvisado em historiador, coleciona frases de visitantes ilustres, anota pequenos detalhes do dia-a-dia de um frenético canteiro de obras, na contramão do fluxo do progresso que a todos engole num hausto, mas ciente de que um dia seus cadernos de encargos serão úteis como testemunhos de origens esfumadas.


Velhacap, Novacap, Cidade Livre, Candangolândia, enchentes, favelas, bordéis, uma polícia corrupta e autoritária, um povo exaurido, explorado, mas esperançoso e confiante, uma cidade transitória, de tendas e barracos, de obreiros, que deu lugar a uma capital imponente, erguida em cristal e concreto – um terreno sem Juízes se metamorfoseou na sede de todos os Poderes. O vazio que vira concreto. O vazio onde se aninhava fauna e flora de enorme diversidade e beleza, sobre as quais se apoia uma cultura cujos fundamentos escoam pelas bordas das pilastras a brotarem do chão. O concreto que, décadas mais tarde, ressoa pelas paredes frias o clamor por uma história.


João Almino conseguiu transformar a descrição de uma cerimônia oficial, a inauguração de Brasília, numa narrativa eletrizante, pois, entre fragmentos de discursos e desfiles apoteóticos, engancha o leitor com a promessa de respostas para o mistério que amarra a trama. Mas é na morte que o livro encontra o seu ápice. O sumiço do candango, imigrante nordestino, um possível assassinato, que tão profundamente impactou a família do narrador J.A., mas sem reverberação coletiva, em contraste enviesado ao velório grandioso de Bernardo Sayão. Sim, porque uma cidade se torna viva quando tem mortos para enterrar. E, para cada pioneiro heroico, imortalizado no panteão da glória, milhares sucumbem em anonimato.


Anonimato, entretanto, ruidoso. A Brasília de João Almino pendula entre a uniformidade urbanística e arquitetônica e a diversidade sincrética. É polimorfa, híbrida, mestiça. Nela se fundem o idealismo político, a voracidade corrosiva do capitalismo corrupto, a utopia modernista e o enlevo socialista, a miragem progressista, a delicada natureza do cerrado, o misticismo popular, a ressignificação ansilar de vozes imigrantes, tragadas no torvelinho da urbe, um lugar mágico, refúgio do desespero, onde o absurdo dá lucro e onde o sonho vale mais do que o medo, onde a mobilidade é estonteante, os largos horizontes infundem liberdade e dispersão…, e prostitutas podem virar sacerdotisas.

O boom das festas literárias

22 de novembro de 2010 0

É interessante notar como de uns anos para cá está havendo um extraordinário boom de Feiras e Festas Literárias no Brasil. Este novo fenômeno talvez esteja carecendo de um bom estudo, com balanços estatísticos, formulações teóricas e perspectivas críticas. Ah, que falta faz no Brasil um observatório de cultura bem estruturado….! Adoraria indicações de bibliografia a respeito, pois o tema parece-me cada vez mais palpitante.


As Festas Literárias surgem com características peculiares. Diferem das gigantescas bienais ou feiras destinadas sobretudo aos editores, como a de São Paulo. Mas também possuem características próprias se cotejadas às tradicionais feiras do livro, como a de Porto Alegre, cuja mola propulsora reside nos livreiros.


Salvo engano, o modelo das novas festas literárias parece ter sido desenhado pela Flip, de Paraty, no Rio de Janeiro, e pela Jornada de Literatura de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Cidades de porte médio ou pequeno abrigam eventos culturais literários de envergadura, promovidos com profissionalismo e orçamentos saudáveis. Combinam atrações internacionais de encher os olhos e convívio com os escritores brasileiros, consagrados ou estreantes. Editores ouriçam-se para turbinar vendas e lançamentos. Leitores informam-se sobre obras prediletas ou novos escritores. Autores brasileiros ganham um espaço para dialogar com seus leitores e vitaminam o seu minguado orçamento pessoal graças aos cachês, que estão melhorando, pagos pelas organizações de tais eventos. Esta bem vinda inflação cultural é, sem dúvida, ótima notícia para quem vive da literatura e da produção intelectual.


Escritores estrangeiros têm a oportunidade de circular pelo Brasil, conhecer melhor o gigante emergente que, em minha opinião, acolherá boa parte do debate simbólico na próxima década e cujo mercado está em flagrante expansão. Brasileiros, de um modo geral, ao entrar em contato com eles, têm também a chance de sintonizar-se com as grandes questões debatidas no mundo contemporâneo. A economia das cidades movimenta-se: hotéis e restaurantes enchem-se, bares regurgitam frequentadores, taxistas correm de um lado para o outro… Geram-se empregos e renda nos municípios. E cidades inteiras esculpem sua autoestima em torno de nuances da identidade literária e do incensar da leitura.


Um conjunto de fatores parece estar estimulando este fenômeno. Em primeiro lugar, percebe-se que as leis de incentivo à cultura, tanto estaduais, quanto a federal, funcionam como instrumento recorrente de viabilização desses empreendimentos. É claro, os projetos não seriam viáveis se a economia não estivesse crescendo e se não houvesse patrocinadores dispostos a apoiá-los. Noto que está se alargando, no Brasil, o leque de empresas interessadas em apoiar eventos literários, o que é uma boa notícia. Além disso, há uma ampliação do público leitor no Brasil. Desconheço as estatísticas e estou convicto de que muito mais precisa ser feito para estender e consolidar ainda mais este público, mas é inegável que há progresso. Não tenho dúvidas de que isto tem relação com a melhora nos índices de renda da população brasileira. Os 50 milhões de brasileiros que ascenderam socialmente na última década estão sedentos por cultura e interessados nos eventos literários organizados com profissionalismo.


Beatriz Sarlo, sobre Mario Vargas Llosa, no La Nacion

21 de novembro de 2010 0

Reproduzo aqui para vocês link para artigo da argentina Beatriz Sarlo sobre Mario Vargas Llosa, publicado no La Nacion, de Buenos Aires:  http://www.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=1313321