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Os passaportes diplomáticos aos filhos do Presidente

07 de janeiro de 2011 2

Não estou, definitivamente, entre aqueles “3 ou 4% dos eleitores que acham o Governo Lula ruim ou péssimo”, na expressão ontem do Ministro Marco Aurélio Garcia. O Governo Lula teve seus baixos, é verdade, todos o sabem, mas se impôs pelos altos. São suas qualidades que embalam a extraordinária popularidade do Ex-Presidente.


Mas se não estou no referido diminuto grupo dos “do contra”, nada me obriga, como cidadão consciente e responsável, a uma posição concordina e submissa. O próprio Presidente Lula soube conviver – nem sempre muito bem, admita-se também – com a crítica. Mas sim, em geral, soube.


A renovação dos passaportes diplomáticos nos últimos dias do ano que findou a dois filhos marmanjos do Ex-Presidente Lula é mesmo uma questão periférica, considerando a imensidão dos desafios que o País tem pela frente. Por isso mesmo, não deveria o Ex-Presidente ter chamado a atenção para tal fato. Alguém como Lula, que cavalga uma popularidade sem precedentes, deveria estar dela se valendo para sinalizar exemplos edificantes. Ao utilizar a prerrogativa do cargo, no apagar das luzes de seu governo, para beneficiar familiares, o homem mais amado do Brasil deu um péssimo exemplo, qual seja, o de comportar-se como os execráveis coroneletes do passado, que tanto jugularam a sua própria gente no sofrido Nordeste, indistinguindo espaços públicos e privado.


A lei brasileira admite que familiares de chefes de estado possam receber passaporte diplomático quando menores de 21 anos, portadores de graves deficiências físicas ou quando se trata de questão estratégica, de altíssimo interesse nacional. Os dois marmanjões do Lula não se enquadram em nenhuma dessas categorias. São uns gurizões grandões e fortões, com bem mais de 21 anos; perfeitamente saudáveis. E não vejo onde possa residir o interesse estratégico nacional na concessão do benefício a eles, nos últimos dias do governo Lula.


Lula atenta cuidadosamente para a sua imagem presente e para a memória que as gerações futuras construirão de sua passagem pela Presidência da República, todos o sabem. O tal filme dos Barreto é prova cabal disso. Acontece que gestos como este, de privilegiar marmanjões no apagar das luzes do governo, apenas porque são seus filhos, serão referidos pelos biógrafos. Não há como escapar disso. É uma pena que uma liderança da envergadura do Ex-Presidente Lula se permita a auto-sabotagem dessa forma. O Brasil precisa, e muito, de exemplos impolutos.


Quanto ao Ministro Marco Aurélio Garcia, a quem muito respeito, embora sempre resguardando o direito de discordar de certas diretrizes de sua política externa, ele estudou naquela que talvez tenha sido a mais influente Faculdade de Direito no Brasil no século XX – a Faculdade de Porto Alegre, hoje pertencente a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por ali passaram inúmeros Ministros, Senadores, Governadores, Presidentes… Basta lembrar os nomes de Getúlio Vargas, João Leitão de Abreu, Armando Câmara, Nelson Jobim, Ari Pargendler, dentre uma plêiade infindável de estrelas da nossa vida pública. Então, é mais do que óbvio que ele não pode ter passado por aqueles bancos escolares sem ter compulsado a obra de outro de seus estudantes ilustres – o imortal Raymundo Faoro. No seu monumental “Os Donos do Poder”, Faoro dedica-se e desfilar todos os males deletérios do clientelismo e do patrimonialismo na política brasileira, cujo signo mais evidente é justamente a indistinção entre espaço público e privado. Usar da prerrogativa do cargo para privilegiar indevidamente parentes próximos outra coisa não é.


Então, pode até ser uma questão periférica, irrelevante, como disse o Ministro Garcia, em meio ao mar de desafios que persistem nesse Brasil, que cresce e já é mais justo do que era há 10 anos. Mas de modo algum o recente escândalo é questão de somenos importância. Esta aí para nos mostrar como o clientelismo, o filhotismo e o patrimonialismo seguem se insinuando pela porta dos fundos, apesar da urbanização, da ascensão social em massa e da consolidação da democracia.


Foi uma desnecessária bola fora do Ex-Presidente Lula. Uma manchinha nada bem vinda na sua elogiável biografia. Um exemplo ruim dado à população brasileira, sobretudo à massa de 50 milhões de pessoas que o Ex-Presidente ajudou a trazer para a classe média e que agora precisa de referenciais sólidos para ajudar a fortalecer ainda mais a nossa jovem democracia.

Comentários (2)

  • Léo diz: 7 de janeiro de 2011

    tantas linhas e tempo prá nada! vai arrumar o quer fazer!

  • luiz inacio medeiros diz: 7 de janeiro de 2011

    O comentário longo náo é periférico e exemplificativo. Alem dos cartoes de crédito usados pela familia presidencial sem nenhm controle, temos agora mais uma mordida na república. Vergonha. Absolutamente náo concordo com o comentário. A história julgará os desmandos do mensaláo, os escandalos dos Correios, da Petrobras, das ambulancias, das viagens desnecessárias para um presidente monoglota, culmina agora com a noticia que é mais um abuso. Marco Aurélio , o mesmo do gesto obsceno quando do acidente da TAM, vem agora na velha tradicáo estalinista que abracou desde cedo,foi secretário d juventude comunista do Brasil, dizer que é periférico o fato. Periférico é o comentário dele.

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