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Escola de turno integral e déficit educacional

08 de janeiro de 2011 0

Dentre os destaques dos últimos dias estão as declarações do Ministro da Educação Fernando Haddad em favor da promessa de fortes investimentos no ensino secundário, com a possibilidade, inclusive, de implantação do turno integral para os estudantes. Já não era sem tempo! Em parte, o Governo Lula tentou enfrentar o grande déficit educacional de um país historicamente injusto e que agora cresce a passos largos com investimentos no ensino superior. Mas é tapar o sol com a peneira. A boa formação se constrói pela base.


O ENEM, visivelmente, fez parte dessa política de factóides e paliativos para problemas reais e estruturais. De tão mirífica e insustentável a proposta vem naufragando ano após ano em trapalhadas sem fim. Não foi por falta de aviso. Num país com dimensões continentais e enormes diferenças regionais como o Brasil é quase impossível realizar um vestibular nacional. É uma pena, porque, na prática, uma das conseqüências desse novo ENEM com caráter de seleção, ao invés de apenas avaliação, como inicialmente previsto, tem sido a corrosão da credibilidade de uma instituição que estava a gerações acima de qualquer suspeita: o vestibular. O vestibular brasileiro foi uma conquista da modernidade, um golpe na cordialidade, na histórica indistinção entre espaço público e privado. Era algo no qual a população confiava.


É certo que o conceito do ENEM seletivo traz algumas vantagens que poderiam ser eventualmente aproveitadas, como a circulação de estudantes por diversos pontos do país. Mas a proposta, da forma como está, que pode até funcionar em países pequenos e com profunda tradição de organização civil, como a França, não é viável no Brasil. Além do mais, é contrária ao espírito federativo, ao promover o unitarismo e a uniformização excessivos.


Dia desses, um pessoal andou por aí publicando artigos na imprensa tentando desqualificar as críticas ao ENEM, atribuindo-as a um recalque de classe: as críticas seriam, assim, nessa visão simplista e maniqueísta da realidade, produto de manifestações elitistas e direitistas. Diante da falta de argumentos sólidos, a tentativa de apelar para a luta de classes como forma de desqualificar as críticas revela desespero. Mas basta atentar para os argumentos e para a amplitude dos críticos para constar que esta teoriazinha de conspiração não se sustenta.


Por essas e outras, ninguém apostava na permanência de Fernando Haddad à frente do Ministério da Educação no Governo Dilma Roussef. Seria premiar a incompetência! Mas Haddad conseguiu se segurar no cargo, provavelmente por obra e graça do Ex-Presidente Lula, que projeta para ele algum futuro político. Quem viver verá.


Neste contexto, o foco no ensino secundário pode ajudar a reabilitar a desgastada imagem do Ministro. Mas é revelador, também, do choque de realidade que Dilma Roussef parece estar imprimindo ao seu governo. Resta saber se a idéia generosa do turno integral contará com o necessário respaldo político e econômico – e sabemos que na base de tudo está a garantia de uma remuneração digna aos professores! Quanto ao governo Dilma, há muita água para rolar ainda embaixo dessa ponte, mas os sinais que nos chegam nesses primeiros dias, em todas as áreas, parecem positivos: apontam, sobretudo, para a realidade!

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