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Centenário de Elizabeth Bishop, por Affonso Romano Sant'Anna

11 de fevereiro de 2011 2

Meu querido amigo, o poeta Affonso Romano Sant’Anna, enviou-me hoje este adorável texto sobre Elizabeth Bishop, que publicou no O Globo, em 2001. Com a autorização dele, reproduzo-o abaixo para vocês.



LEMBRANDO  DE ELIZABETH


Affonso Romano de Sant’Anna


Não quero humilhar ninguém, mas tenho lá em casa duas abotoaduras de ouro com rubi, que pertenceram à Elizabeth Bishop. Aliás, quem as tem é minha mulher. A rigor, não pertenceram só à Elizabeth, mas a Marianne Moore, outra famosa escritora norte- americana que ajudou muito a carreira de Elizabeth. E  depois desta crônica, elas já não estarão lá em casa, mas num cofre forte de algum banco, embora tenham mais  valor lítero-emotivo.


Esta é uma, entre outras razões, porque   assisti  à peça  “Um  porto para Elizabeth Bishop” escrita por Marta Góes e representada por Regina Braga, de maneira especial. As “outras razões” , por exemplo, incluem o fato que conheci Elizabeth   e     com  ela estive algumas vezes, tanto em Ouro Preto quanto no Rio. E a vida dela e a minha acabaram de algum modo se tocando, porque, além de sua obra, alguns amigos queridos meus eram queridos amigos dela.


Mas voltemos ás abotoaduras.


Há alguns anos a Secretaria de Cultura de Petrópolis resolveu   homenagear    a memória de Elizabeth, que morou por ali, com Lota Macedo Soares, na histórica casa de Samambaia. Foi uma noite cheia de emoções raras. Foram convocadas, sobretudo, pessoas que haviam conhecido a poeta americana para dizerem ao público algo de sua complexa personalidade. Por isto, estava lá Linda Nemer- a herdeira brasileira de Elizabeth, que dela cuidou em Ouro Preto e Belo Horizonte com uma   raríssima dedicação. Linda não falava inglês, não tinha interesse especial por literatura norte-americana, mas com seu irmão- o artista plástico José Alberto Nemer, abrigaram Elizabeth afetivamente.


Naquele encontro, entre outras pessoas, estavam ainda tanto Carmem Lúcia de Oliveira que escreveu o clássico “Flores raras e banalíssimas”(Ed. Rocco), narrando a história amorosa de Elizabeth e Lota, quanto o saudoso Emanuel Brasil, que há poucos anos teve uma morte estranha, e que conviveu com Elizabeth nos Estados Unidos, chegando a editar com ela uma antologia de poesia brasileira.


Após a   mesa redonda lá em Petrópolis, a atual proprietária da casa da Samambaia convidou-nos para um jantar. Nada poderia ser mais apropriado e complementar: sair das evocações e lembranças para o cenário onde Elizabeth e Lota viveram.


Tínhamos a noção de que estávamos  num ritual   muito delicado. Andar por aquela varanda e pelas salas, subir o jardim, ir até o ateliê que Lota construiu para Elizabeth num lugar mais elevado e solitário, para que ela pudesse escrever; olhar e tocar aqueles objetos, contemplar  aquela vista, onde se destacava a abrupta montanha de pedra  que aparece em um de seus poemas  e em seus quadros, era reencenar respeitosamente em nós mesmos o texto da  vida alheia.


O jantar ia transcorrendo entre delicadezas e lembranças, quando Linda Nemer, que conheço desde os tempos estudantis quando nossa geração achava que  ia salvar o Brasil, bateu suavemente com um  talher no copo e disse que queria fazer um speech. Agradeceu por todos a honra daquele jantar e a seguir narrou a seguinte   história.


Elizabeth Bishop era mesmo muito amiga de Marianne Moore. Tanto assim que deu o nome de “Mariana” à casa que tinha em Ouro Preto. Trocou cartas com Marianne a vida inteira. Certa feita, perguntou-lhe que presente ela gostaria que lhe levasse do Brasil. Marianne respondeu-lhe de maneira discreta para facilitar-lhe a tarefa:-“Qualquer coisa que tenha vermelho”.


Elizabeth mandou, então, confeccionar duas abotoaduras de ouro com rubis e levou-as à Marianne. Esta, encantada, usou-as durante toda a vida. Quando Marianne faleceu e Elizabeth foi visitar-lhe  os familiares, eles solicitaram  que ela escolhesse alguma coisa que havia pertencido à Marianne e que ela gostaria de guardar como recordação.


Elizabeth escolheu as abotoaduras que dera à amiga. E com elas viveu e conviveu, até que um  dia decidiu dá-las à dedicada Linda Nemer, narrando-lhe a estória precedente.


Elizabeth havia deixado para Linda outras coisas: cinco salas na avenida Rio Branco, no Rio, as quais ela vendeu para recomprar e restaurar a casa de Elizabeth em Ouro Preto, um diário  de 300 páginas, em dois cadernos  de espiral narrando sua viagem pelo  rio São Francisco e um outro diário narrando até sonhos que tivera,- coisas que Linda vendeu para a Universidade de Vassar, onde Elizabeth estudou. Mas guardou as abotoaduras que foram de Marianne e Elizabeth.


E naquele jantar, na casa petropolitana, onde Elizabeth viveu com Lota, Linda,  agora cercada de amigos da escritora, terminou sua amorosa fala de uma maneira  surpreedente,  dizendo que passava    aquelas abotoaduras para Marina Colasanti, que assim elas estariam em boas mãos( ou pulsos).


Curioso o destino dos objetos e dos afetos. Curioso o périplo que objetos e pessoas fazem, mesmo depois de mortos. Elizabeth que sabia de sua importância literária nos Estados Unidos, jamais poderia imaginar que seria tema de uma peça de teatro no Brasil.


Olhava eu as pessoas que afetuosamente assistiam à peça. No ar, um tardio e irremissível carinho. Carinho de que Elizabeth pateticamente necessitava,  mas que seria sempre insuficiente diante de sua incurável carência.


30 agosto,2001-O GLOBO

Comentários (2)

  • Cristina Bomfim diz: 12 de fevereiro de 2011

    Não me lembrava desse texto do Affonso. Além da importância de tudo o que é dito sobre a poeta, gestos, presentes, fica para mim uma emoção pela lembrança de alguém inesquecível nesse contexto, Emanuel Brasil que, como diz Affonso, teve uma morte estranha. Grande editor e figura humana, meu amigo e parceiro na criação e edição da Revista InterPoesia. E amigo íntimo da Bishop. Morou com ela nos EUA e tinha um baú de cartas e intimidades trocadas entre eles que ninguém mais pode ver.

  • silvia maria guerra anastacio diz: 15 de maio de 2011

    gostei muito da pitoresca historia

    sou professora da univerisadade federal da bahia e gostaria muito de ter o contato de marta góes

    seria possível me enviar?

    obrigada

    silvia

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