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Egito: multidão e revolução libertária

13 de fevereiro de 2011 2

Nesse fim de semana, somos todos egípcios. Tenho acompanhado, como todos, os eventos no Cairo, aprendendo muito, seguindo a excelente cobertura da imprensa, brasileira e internacional. Muitos jornalistas, aliás, enfrentaram tentativas de intimidação e sofreram violências de parte dos simpatizantes do decaído Mubarak, como o caso de Luiz Antônio Araújo, da Zero Hora.


Foi emocionante assistir pela televisão e pela Internet, no dia 11, o povo nas ruas, explodindo em júbilo, rindo, cantando, dançando, rezando, festejando o fim de um reinado de dor, humilhação e repressão. Na Era da autonomia, individual e coletiva, os escombros mal geridos da tutela foram, no Egito, depois de 18 dias de intensos protestos, varridos para a tumba. No mais ocidentalizado país do mundo árabe, poderoso portal de interculturalidade, não é à toa que os cidadãos em êxtase entendam terem, finalmente, por conta dos recentes eventos, chegado ao século XXI. O belo é que ninguém dirigiu a massa, ninguém orientou o povo que tomou as ruas. A rebelião das massas no Egito foi, acima de tudo, multifária, polifônica, jovem, sem um comando central e, guardadas as proporções, magnificamente pacífica e ordeira.Cimentou-se na insatisfação do povo para com a opressão policial a partiu da mobilização de movimentos operários, da nova classe média, pequenos empresários e movimento de mulheres.


A massa enfrentou a repressão da polícia ditatorial – muitos tombaram, cerca de 300, dizem – mas não houve efusão infrene de caos. Sim, às vezes é preciso enfrentar o tacão de uma ditadura com algo mais do que palavras de ordem, twitts e causas do Facebook. Porém, não vi relatos de banhos de sangue com irrupção de escaramuças e vinganças tribais, religiosas, oligarcas, mafiosas. Nenhum prédio público foi incendiado, como costuma acontecer na Europa em qualquer correriazinha de estudantes. Estabelecimentos comerciais fecharam, mas não se verificaram saques desbragados. A multidão tinha foco: não atacou o estado, não agrediu a sociedade, não violentou a cultura – ela exigiu, em nome da ética e da esperança a saída de um ditador decadente.


Assistimos a multidão consciente de sua força compacta, de seu grito uníssono, mostrando extraordinária capacidade de produzir ordem a partir do caos, uma nova ordem, uma ordem espontânea. O mesmo tipo de organização que nós, brasileiros, conhecemos no carnaval de rua, muito embora, neste caso, a motivação seja completamente diferente, bem o sabemos.


Para os fatalistas, para os liberais conservadores inspirados nas palavras amargas de José Ortega Y Gasset, os eventos do Egito representam derrota acachapante, soterrando as lamúrias dos nefastos falcões do Bush, de terrível memória. A multidão da Praça Tahrir produziu uma ordem espontânea, enfrentou a repressão e a corrupção, derrubou um ditador detestável e, com tudo isso, demonstrou capacidade inaudita de refundar a moral coletiva, afirmando, claramente, a ética, num cenário adusto, de corrosão de valores públicos. Contrariando vetustos teóricos, como Burke, Taine e Le Bon, mostraram os egípcios que a multidão não representa apenas uma força desruptiva, mas pode ser criativa, construtiva, renovadora e pacífica, mesmo sendo revolucionária.


Deveríamos estar estudando mais o fenômeno das multidões na contemporaneidade, seguindo os passos de Michael Hardt e Antonio Negri.


O levante do Egito me parece muito diferente da Revolução Islâmica que levou o Aiatolá Khomeini ao poder no Irã, nos anos 1970. Lá, o sentimento de renascimento do orgulho árabe, pisoteado pela arrogância do Ocidente imperialista, era catalisado por lideranças ideologicamente rígidas e pela religião. Deu no que deu. No Egito, os árabes enfrentaram o medo e a resignação, assumindo as rédeas de seu próprio destino, e botaram para correr uma besta-fera que o Ocidente chamava de “moderado”.


Sim, uma obscura Irmandade Muçulmana pode crescer num futuro ambiente democrático advindo por desdobramento da revolução emanada da Praça da Libertação? Não há dúvida! De resto, porém, como inúmeras outras organizações políticas e sociais. O Egito, em que pese a imensa pobreza, o desemprego e a falta de perspectivas para parcela significativa da juventude, é uma sociedade complexa, diversificada, e que foi capaz de costurar razoável grau de convivência entre a fé, os valores muçulmanos e conquistas da cultura ocidental.


A chantagem que o decadente Mubarak tentou fazer com o mundo ocidental, ameaçando-o com a emergência de vagas terroristas como decorrência inevitável de sua queda iminente, foi uma das demonstrações mais canalhas que assisti em toda minha vida, de desrespeito para com o seu povo, de violência colonizada contra uma cultura milenar: por acaso devemos supor, como queria o desprezível Mubarak, serem os árabes e os egípcios um bando de imbecis incapazes de se auto-gerirem e eternamente presas vulneráveis de radicais fundamentalistas? É ultrajante! O povo na Praça da Libertação estava justamente mostrando o poder e a responsabilidade de sua voz!


Não temo, por enquanto, por Israel. Num primeiro momento, é claro, os interlocutores de Israel com o Egito, o primeiro país árabe a reconhecer a existência do estado hebreu, podem se diversificar e o debate pode se tornar mais complexo, como costuma acontecer nos regimes livres. Todavia, o debate construído no campo democrático é muito mais sólido e eficaz do que os acordos tecidos nas alcovas palacianas dos ditadores. Penso que este é momento não para desconfianças mútuas, mas para que o Estado de Israel celebre os ventos libertários que varrem o Egito e ajude este povo a construir a sua democracia. Com mais uma democracia sólida na região, o reconhecimento de Israel como estado soberano só tende a se solidificar e as relações entre os países tendem a se normalizar em torno da paz. Democracias não gostam de fazer a guerra e, quando a fazem, discutem-na permanentemente. Democracias prosperam na paz.


Não foi Israel quem perdeu com a queda de Mubarak, mas sim, os regimes, dentre outros, do Iêmen, da Jordânia, da Argélia (a bola da vez, talvez), do Irã, da China…, onde, aliás, a divulgação pela imprensa dos protestos no Egito foi sumariamente censurada pelo governo.


Sim, claro, ninguém é ingênuo a ponto de supor que, depois de 30 anos de ditadura de Mubarak, o Egito vai saltar direto para a democracia! Impossível. Em toda a sua história milenar, o Egito jamais conheceu eleições livres e transparentes. Simplesmente, nunca houve! E, agora, pela primeira vez, depois do maior movimento de protestos populares da história do país, há uma perspectiva de eleições livres para setembro.


Nós sabemos o quanto é difícil construir uma democracia. Estamos empenhados nesta tarefa, aqui no Brasil, desde os anos 1980, e ainda não chegamos plenamente lá. Mas é assim que se faz: debatendo, discutindo, errando, acertando, construindo. Então, esse é o momento do mundo acreditar no povo egípcio e envidar todos os esforços necessários para ajudar essa gente a construir o seu sonho libertário. E, evidentemente, ninguém está falando aqui em novas imposições ou tentativas de tutela. Ajudar significa colaborar, respeitando a soberania de cada povo.


Muita gente torceu o nariz para o fato uma junta militar ter sucedido Mubarak. Pensam: onde há milicos, há arbítrio. Tem cheiro de golpe, imaginam. Tolice, creio eu! Que outra instituição no Egito poderia ser fiadora da transição depois de décadas de regime ditatorial, altamente desmobilizador das massas e dos partidos políticos? Não há, simplesmente, no Egito, outras instituições capazes de operar esta transição de forma pacífica. O país sequer tem partidos políticos bem organizados e atuantes. Ademais, a elite egípcia mostrou percuciência ao não permitir que o Exército fosse instrumentalizado por Mubarak para reprimir o povo, o que promoveria um banho de sangue sem precedentes. Ao negar-se a participar da repressão, ao lado da polícia política, o Exército rompeu simbolicamente com Mubarak. O povo entendeu que o Exército estava, assim, ao seu lado.


O Exército egípcio vai experimentar nova sensação. De instituição emulada por um ditador, passará a ente amado pelo povo! Embora resida aí uma chance de nova ditadura, penso ser ela remota. É certo estarem nesse momento os generais do Cairo se digladiando pelo controle do poder. Mas a menos que a situação por lá se deteriore dramaticamente, o que não parece o caso, o Exército não se exporá a assumir a responsabilidade direta de tutela sobre o povo, não depois de um movimento com a amplitude do acontecido. Se o fizer, correrá o risco de enfrentar, daqui a alguns meses, ou anos, o povo nas ruas. E quem garante aos altos oficiais que a soldadesca não foi de alguma forma contaminada pela efusão de liberdade experimentada pelas ruas nestas últimas semanas?


Duvido, além disso, que o Exército esquecerá, em algum momento, a ajuda de custo de cerca de 1,5 bilhão de dólares anuais que recebe dos Estados Unidos. Depois do turismo e da taxas de utilização do Canal de Suez, e de negócios bilionários de Mubarak (que beneficiam apenas ele e sua curriola), essa é uma das principais fontes de receita do país. Ora, isso quer dizer que o peso dos Estados Unidos, e, portanto, de todo o Ocidente, sobre os destinos políticos do Egito é considerável. Importa, assim, que esta influência funcione agora para o bem, ajudando o país a construir uma democracia efetiva. Mas para além disso, os militares egípcios hoje se conectam em grande medida a emergentes empresários desenvolvimentistas e nacionalistas, que se diferenciam do bando privatista e corrupto de Gamal, filho de Mubarak. Enfim, se o experimento do Egito fracassar, preparemo-nos, daqui a alguns anos, para uma onda de frustração sem precedentes no mundo árabe. O seu sucesso, ao contrário, servirá de farol para os outros países da região. Isto faz da primeira revolução do século XXI um magnífico grito de esperança.


Crises são momentos de verdade. Não me canso de repetir esta frase, que encontrei num livro da historiadora Emília Viotti da Costa. Se os sucessos da Praça Tahrir avançam no sentido do recuo da hipocrisia no mundo contemporâneo, vale também notar que os protestos do Egito são o primeiro grande desdobramento político da crise de 2008. Depois de um período de relativa estagnação econômica, o Egito abraçou uma série de reformas identificadas com o mercado, logrando alcançar razoáveis taxas de crescimento nos anos 2000. Esta escalada ascendente, contudo, foi obstaculizada pela retração dos capitais e pela recessão de 2009. Na Grécia, na Espanha e na Irlanda, a crise mostrou que a indolência especulativa e corporativista havia chegado ao fim e era preciso trabalhar. No Egito, os ventos trouxeram liberdade!


Há algo de intensamente novo no ar. Dentre os aspectos mais inusitados está o fato de a superpotência do planeta, os Estados Unidos, cuja influência no Oriente Médio é sistematicamente decisiva, terem assistido inertes ao maior levante popular da história moderna da região.


Um povo humilhado sai às ruas, à revelia dos governos e grandes lideranças, e refunda a ética, revitaliza a liberdade. Sim, nesse fim de semana, somos todos egípcios!

Comentários (2)

  • Olavo diz: 13 de fevereiro de 2011

    Apenas quero dar meus parabéns pela coluna. Fico feliz em ter encontrado algo que tenha conteúdo, reflexão sobre acontecimentos do nosso mundo. Aliás, não encontrei, um amigo meu me indicou. Eu já tinha desistido do ClicRBS. A gente acessa é só vê peito e bunda saltando na capa. E, claro, também futebol e eventuais promoções do Grupo RBS, num exagero de auto-promoção.
    Este tipo de material (blogs, colunas com conteúdo), infelizmente, quando tem, estão escondidos.

  • Christian diz: 16 de fevereiro de 2011

    Excelente texto!

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