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Breves considerações sobre a Fliporto, em novembro de 2010, em Olinda

16 de fevereiro de 2011 0

Eu escrevi este post em fins de novembro, depois de minha participação da Fliporto em Olinda. Acabei esquecendo de publica-lo. Provavelmente em função da correria toda de fim de ano. É tanta coisa na cabeça da gente que foca o post para trás. Bem, mas agora eu corrijo esta falha e o publico aí.



Gostei de conhecer Olinda e adorei ir à Fliporto. A iniciativa inscreve-se perfeitamente no contexto do boom das festas literárias sobre o qual falei em post anterior. O projeto é viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura e tem patrocínio de um pull de empresas, tais como o Banco do Brasil, a Chesf, o BNDES, a Souza Cruz, a Suzano, a Celpe, a Termope, a Copergás, a Fiori, dentre outras ainda, cuja logomarca mal consigo decifrar.


Achei ótimo que o evento tenha acontecido num destino icônico como Olinda, pois entre a cidade e a Festa pode se estabelecer profícua sinergia, como de resto se deu em Paraty, com a Flip. Adorei ver a Festa acontecendo em uma praça pública, com acesso franqueado à população. Às vezes fico com a impressão de que algumas festas literárias estão se saturando em face de um ambiente crescentemente esnobe. Em Olinda, gostei de ver o povo simples na praça. Famílias inteiras, muitas crianças, idosos, todo mundo parece ter prestigiado o acontecimento. Penso que os organizadores acertaram em cheio ao oportunizar um amplo leque de atrações paralelas. A programação infantil pareceu-me especialmente vibrante.


A tenda principal estava bem montada do ponto de vista técnico e era muito confortável, embora sem os requintes arquitetônicos da Flip. Foi bem a montagem de uma tenda ao ar livre e graciosamente aberta ao público não pagante, na qual as sessões eram transmitidas por um telão: o local estava quase sempre cheio.


A distribuição dos espaços no complexo de tendas, entretanto, pode melhorar. A tenda de autógrafos estava a dezenas de metros de distância da saída da tenda principal, o que obrigava os autores a um considerável deslocamento e os leitores a um razoável tempo de espera, durante o qual, muitos desistiam de coletar autógrafos de seus escritores prediletos. Também achei que o espaço destinado às livrarias e editoras não era nada aprazível e funcional. Trata-se de uma tenda única, mal ventilada. Neste sentido, acho que a Fliporto teria algo a aprender com as bucólicas barraquinhas da Feira do Livro de Porto Alegre. Espaço na Praça do Carmo e arredores para esta disposição não há duvida que exista de sobra.


Olinda é cheia de adoráveis restaurantes e bares. Notei, entretanto, serem estes em pouco número no entorno da Praça. Esta lacuna contribuiu para comprometer a ambiência de locus cultural e festivo, como a que existe em Porto Alegre e na Flip. Havia uma boa cafeteria, mas a fila para se conseguir um café ou uma água mineral era desanimadora. Já o restaurante mais próximo, com um espaço oficial para acolher os convidados, não conseguia armar o buffet a tempo de as pessoas poderem almoçar e continuar seguindo a programação. A falta de territórios de sociabilização no entorno imediato pode ter contribuído em alguns momentos para a dispersão do público, o que poderia ser evitado com planejamento e articulação com a administração municipal e empreendedores locais.


A programação era bastante rica. Havia cerca de 40 convidados! Evidentemente que não consegui acompanhar tudo, pois eram muitas as atividades paralelas e, além disso, eu fiquei muito em função dos visitantes cujo convite ajudei a intermediar. Mas gostei do que assisti. Gostei de notar a presença de muitos escritores locais no evento, integrando mesas, lançando livros. Mais uma vez, o vínculo com a comunidade sendo tecido com carinho. Pareceu-me acertada a opção por uma temática central. Alguns grandes eventos literários e intelectuais podem às vezes parecer um pouco descosidos pela ausência de um tema aglutinador. Contudo, também me pareceu correto atrair escritores cuja obra ou trajetória carecia de relação explícita com a temática escolhida, pois isso ajudou a ventilar e diversificar os debates. Achei apenas que algumas mesas poderiam ter merecido um tempo maior. Senti falta também de um intervalo um pouquinho maior entre uma mesa e outra. E, talvez, o intervalo para o almoço poderia ser também mais elástico.


Notei que a programação poderia ter suscitado mais divulgação, sobretudo na mídia de outros estados. Fiquei com a impressão de que a Feira repercutiu pouco fora de Pernambuco, o que não me parece positivo, pois se a Fliporto pretende entrar no calendário nacional de eventos literários, atraindo o turismo cultural associado para Olinda, é preciso ampliar a visibilidade. Também seria, talvez, preciso antecipar a divulgação da programação e intensificar o diálogo com agências de turismo.


Para este particular, a Prefeitura de Olinda poderia concorrer, pois tanto a cidade, quanto a festa teriam a ganhar com esta parceria. Todavia, muito embora a Prefeitura figure dentre os apoiadores do evento, fiquei chocado ao constatar a precariedade do diálogo entre administradores públicos e organizadores da feira no episódio já aqui comentado do arbitrário bloqueio dos acessos à Praça no feriado do dia 15 por conta de uma inusitada maratona. Trata-se de algo inaceitável. Se a cidade de Olinda pretende atrair o turismo cultural de massa, como fez Paraty, será preciso profissionalizar-se muito.


E falando em divulgação, achei o site muito bem estruturado, mas com lay out um pouco poluído, talvez. Foi muito democrática a iniciativa de transmitir as sessões ao vivo pela Internet. Mas gostaria de ver pelo menos uma versão editada das sessões disponibilizadas permanentemente no site da Festa. De qualquer forma, o conjunto das sessões e conferências lá proferidas poderia ensejar uma instigante publicação.


Destaque todo especial para a tradução simultânea. Os aparelhos eram modernos e eficientes e os tradutores notáveis. Não sei o nome da senhora com sotaque alemão que traduziu a sessão com a Camille Paglia, mas confesso que ambos, eu e Camille, ficamos estupefatos com a precisão e agilidade dela. Camille, como todos sabem, fala rapidíssimo, uma metralhadora verbal. E a tradutora conseguia traduzi-la com uma simultaneidade incrível, tanto que as pessoas riam das piadas da Camille sem qualquer delay. Mil parabéns!


Outro destaque da Fliporto reside sem dúvida no time que a organiza. São pessoas adoráveis e todas muito comprometidas com o evento, com muita vontade de fazer certo e manifesta disposição de bem receber e a todos ajudar. Tamanha boa vontade e simpatia compensam qualquer eventual falha de produção no dia-a-dia da festa.

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