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Posts de fevereiro 2011

Despede-se um Centauro

28 de fevereiro de 2011 0

A notícia do falecimento do escritor Moacyr Scliar enlutou as letras no Brasil e o Rio Grande do Sul como um todo. Scliar foi um autor prolífero e maduro. Sua presença era constante na vida cotidiana e cultural da cidade onde viveu, Porto Alegre, cenário de vários de seus romances. Scliar gozou amplo reconhecimento ao seu trabalho em vida, alcançando um posto na respeitável Academia Brasileira de Letras. São muitas as marcas de sua obra. Ele consolidou a temática judaica na literatura brasileira. Foi, entretanto, muito além da questão étnica, revestindo seu trabalho de inelutável universalismo. O diálogo entre as culturas, pode-se dizer, tornou-se sua vigorosa idéia força. Idéia de grande generosidade. Tudo em Scliar exalava generosidade. Devotava cuidadosa atenção aos outros, aos que lhe estavam próximos, aos que conhecia de vista, aos que conviviam com ele no ambiente de trabalho, no mundo cultural, como se o bem estar de todos lhe dissesse permanentemente respeito. Scliar não dizia não. Ainda que estivesse assoberbado pelos mais prestigiosos convites. Estava sempre pronto a apoiar jovens escritores, a aceder a um convite para prefaciar um livro de estréia de alguém, a colaborar em um projeto cultural qualquer. Fazia-o graciosamente, se necessário fosse. Nunca o vi regatear honorários, preocupar-se com cachês. Havia nele uma transcendência superior em favor da literatura, da cultura e do Humanismo. E um enorme carinho para com a sua cidade e a comunidade a qual pertencia. Em contato com ele, nós, gaúchos, acostumamo-nos mal, pois pensaremos doravante ser todo imortal da Academia Brasileira de Letras um anjo, acessível, atencioso e carinhoso.


Seu passamento deixa um vazio. Um vazio de talento e de boa vontade para com os outros.


Penso, agora, que devamos estar a altura de seu imenso legado. Sua obra deve permanecer viva, estudada, celebrada. Sua generosa dedicação à comunidade que tanto amava torna-se agora uma semente, plantada no solo que nos sustenta. Fazê-la germinar, para que seu espírito não se dilua, jamais, talvez seja a forma mais nobre de nos mostrarmos dignos do legado de Moacyr Scliar. Revela-se, assim, oportuna a disposição, anunciada ontem, durante o velório, na Assembléia Legislativa, do Governo do Estado de instituir um prêmio literário em homenagem a Scliar. Tanto mais a vontade de se instituir uma fundação, com seu nome, dedicada a apoiar jovens escritores, o que Scliar fez durante toda a sua vida.

Navalhada na cibercultur@

27 de fevereiro de 2011 0

Saiu boa resenha, elaborada pelo jornalista Mario Pereira, sobre o livro do Mark Dery, que tive a honra de prefaciar. Foi publicada no Diário Catarinense de ontem. Confere aí: Navalha na cibercultur@

Quem é quem

26 de fevereiro de 2011 2

Parece mentira, mas é verdade! No momento em que o energúmeno Muamar Kadafi trucida o seu próprio povo na Líbia, chocando o mundo, decadentes ditadores que assombram a nossa sofrida América Latina não se constrangem em serem os únicos a partir em sua defesa. Da Nicarágua, Daniel Ortega, como lembra o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, declarou animado: “yo me he estado comunicando telefónicamente con Gadafi… lógicamente él está librando nuevamente una gran batalla, ¡cuántas batallas ha tenido que librar Gadafi!… le transmití la solidaridad del pueblo nicaragüense, la solidaridad de los sandinistas nicaragüenses”. Horror!


Já para Fidel Castro, o pior crime que se poderia cometer nesse momento seria os Estados Unidos usarem os eventos da Líbia como desculpa para acicatar a OTAN a invadir o país, cassando-lhe a soberania! Mas que soberania?, perguntaria estupefato qualquer um! A de um ditador sanguinário que massacra impiedosa e covardemente o seu próprio povo? E tomara que alguém resolva efetivamente intervir na Líbia, estancando o banho de sangue que por lá se verifica.


Novamente, como lembra Castañeda com propriedade, ainda que Hugo Chavez, da Venezuela, tenha se mostrado particularmente silente diante dos eventos no mundo árabe, seu chanceler seguiu a mesma linha de Castro, preferindo denunciar uma suposta invasão norte-americana na Líbia a condenar os homicídios e a repressão perpetrados por uma fera monstruosa.


No Brasil, temos pelo menos, no momento, um governo discreto, que se não condena vigorosamente os ataques à liberdade e aos direitos humanos promovidos por torpes ditaduras, pelo menos não as celebra por aí, como aconteceu há bem pouco tempo…

Mais um Ministério

26 de fevereiro de 2011 1

Li que a Presidente Dilma criou um novo Ministério, o das Micro e Pequenas Empresas. O tema é altamente meritório, pois muito pode ainda ser feito para estimular este setor que tanto emprega e gera renda e pode estar na base de um novo boom econômico. Mas era necessário criar um novo ministério? Mais um? O Brasil, parece-me, já é a democracia ocidental com maior número de ministérios. Tudo isso é para acomodar a corriola que esvoaça em torno do poder. Do ponto de vista do interesse nacional e da gestão, metade desses ministérios poderia ser perfeitamente extinta, para dar lugar a secretarias. Mas, aí, os políticos famélicos não seriam saciados.

Breves considerações sobre a Fliporto, em novembro de 2010, em Olinda

16 de fevereiro de 2011 0

Eu escrevi este post em fins de novembro, depois de minha participação da Fliporto em Olinda. Acabei esquecendo de publica-lo. Provavelmente em função da correria toda de fim de ano. É tanta coisa na cabeça da gente que foca o post para trás. Bem, mas agora eu corrijo esta falha e o publico aí.



Gostei de conhecer Olinda e adorei ir à Fliporto. A iniciativa inscreve-se perfeitamente no contexto do boom das festas literárias sobre o qual falei em post anterior. O projeto é viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura e tem patrocínio de um pull de empresas, tais como o Banco do Brasil, a Chesf, o BNDES, a Souza Cruz, a Suzano, a Celpe, a Termope, a Copergás, a Fiori, dentre outras ainda, cuja logomarca mal consigo decifrar.


Achei ótimo que o evento tenha acontecido num destino icônico como Olinda, pois entre a cidade e a Festa pode se estabelecer profícua sinergia, como de resto se deu em Paraty, com a Flip. Adorei ver a Festa acontecendo em uma praça pública, com acesso franqueado à população. Às vezes fico com a impressão de que algumas festas literárias estão se saturando em face de um ambiente crescentemente esnobe. Em Olinda, gostei de ver o povo simples na praça. Famílias inteiras, muitas crianças, idosos, todo mundo parece ter prestigiado o acontecimento. Penso que os organizadores acertaram em cheio ao oportunizar um amplo leque de atrações paralelas. A programação infantil pareceu-me especialmente vibrante.


A tenda principal estava bem montada do ponto de vista técnico e era muito confortável, embora sem os requintes arquitetônicos da Flip. Foi bem a montagem de uma tenda ao ar livre e graciosamente aberta ao público não pagante, na qual as sessões eram transmitidas por um telão: o local estava quase sempre cheio.


A distribuição dos espaços no complexo de tendas, entretanto, pode melhorar. A tenda de autógrafos estava a dezenas de metros de distância da saída da tenda principal, o que obrigava os autores a um considerável deslocamento e os leitores a um razoável tempo de espera, durante o qual, muitos desistiam de coletar autógrafos de seus escritores prediletos. Também achei que o espaço destinado às livrarias e editoras não era nada aprazível e funcional. Trata-se de uma tenda única, mal ventilada. Neste sentido, acho que a Fliporto teria algo a aprender com as bucólicas barraquinhas da Feira do Livro de Porto Alegre. Espaço na Praça do Carmo e arredores para esta disposição não há duvida que exista de sobra.


Olinda é cheia de adoráveis restaurantes e bares. Notei, entretanto, serem estes em pouco número no entorno da Praça. Esta lacuna contribuiu para comprometer a ambiência de locus cultural e festivo, como a que existe em Porto Alegre e na Flip. Havia uma boa cafeteria, mas a fila para se conseguir um café ou uma água mineral era desanimadora. Já o restaurante mais próximo, com um espaço oficial para acolher os convidados, não conseguia armar o buffet a tempo de as pessoas poderem almoçar e continuar seguindo a programação. A falta de territórios de sociabilização no entorno imediato pode ter contribuído em alguns momentos para a dispersão do público, o que poderia ser evitado com planejamento e articulação com a administração municipal e empreendedores locais.


A programação era bastante rica. Havia cerca de 40 convidados! Evidentemente que não consegui acompanhar tudo, pois eram muitas as atividades paralelas e, além disso, eu fiquei muito em função dos visitantes cujo convite ajudei a intermediar. Mas gostei do que assisti. Gostei de notar a presença de muitos escritores locais no evento, integrando mesas, lançando livros. Mais uma vez, o vínculo com a comunidade sendo tecido com carinho. Pareceu-me acertada a opção por uma temática central. Alguns grandes eventos literários e intelectuais podem às vezes parecer um pouco descosidos pela ausência de um tema aglutinador. Contudo, também me pareceu correto atrair escritores cuja obra ou trajetória carecia de relação explícita com a temática escolhida, pois isso ajudou a ventilar e diversificar os debates. Achei apenas que algumas mesas poderiam ter merecido um tempo maior. Senti falta também de um intervalo um pouquinho maior entre uma mesa e outra. E, talvez, o intervalo para o almoço poderia ser também mais elástico.


Notei que a programação poderia ter suscitado mais divulgação, sobretudo na mídia de outros estados. Fiquei com a impressão de que a Feira repercutiu pouco fora de Pernambuco, o que não me parece positivo, pois se a Fliporto pretende entrar no calendário nacional de eventos literários, atraindo o turismo cultural associado para Olinda, é preciso ampliar a visibilidade. Também seria, talvez, preciso antecipar a divulgação da programação e intensificar o diálogo com agências de turismo.


Para este particular, a Prefeitura de Olinda poderia concorrer, pois tanto a cidade, quanto a festa teriam a ganhar com esta parceria. Todavia, muito embora a Prefeitura figure dentre os apoiadores do evento, fiquei chocado ao constatar a precariedade do diálogo entre administradores públicos e organizadores da feira no episódio já aqui comentado do arbitrário bloqueio dos acessos à Praça no feriado do dia 15 por conta de uma inusitada maratona. Trata-se de algo inaceitável. Se a cidade de Olinda pretende atrair o turismo cultural de massa, como fez Paraty, será preciso profissionalizar-se muito.


E falando em divulgação, achei o site muito bem estruturado, mas com lay out um pouco poluído, talvez. Foi muito democrática a iniciativa de transmitir as sessões ao vivo pela Internet. Mas gostaria de ver pelo menos uma versão editada das sessões disponibilizadas permanentemente no site da Festa. De qualquer forma, o conjunto das sessões e conferências lá proferidas poderia ensejar uma instigante publicação.


Destaque todo especial para a tradução simultânea. Os aparelhos eram modernos e eficientes e os tradutores notáveis. Não sei o nome da senhora com sotaque alemão que traduziu a sessão com a Camille Paglia, mas confesso que ambos, eu e Camille, ficamos estupefatos com a precisão e agilidade dela. Camille, como todos sabem, fala rapidíssimo, uma metralhadora verbal. E a tradutora conseguia traduzi-la com uma simultaneidade incrível, tanto que as pessoas riam das piadas da Camille sem qualquer delay. Mil parabéns!


Outro destaque da Fliporto reside sem dúvida no time que a organiza. São pessoas adoráveis e todas muito comprometidas com o evento, com muita vontade de fazer certo e manifesta disposição de bem receber e a todos ajudar. Tamanha boa vontade e simpatia compensam qualquer eventual falha de produção no dia-a-dia da festa.

Egito: multidão e revolução libertária

13 de fevereiro de 2011 2

Nesse fim de semana, somos todos egípcios. Tenho acompanhado, como todos, os eventos no Cairo, aprendendo muito, seguindo a excelente cobertura da imprensa, brasileira e internacional. Muitos jornalistas, aliás, enfrentaram tentativas de intimidação e sofreram violências de parte dos simpatizantes do decaído Mubarak, como o caso de Luiz Antônio Araújo, da Zero Hora.


Foi emocionante assistir pela televisão e pela Internet, no dia 11, o povo nas ruas, explodindo em júbilo, rindo, cantando, dançando, rezando, festejando o fim de um reinado de dor, humilhação e repressão. Na Era da autonomia, individual e coletiva, os escombros mal geridos da tutela foram, no Egito, depois de 18 dias de intensos protestos, varridos para a tumba. No mais ocidentalizado país do mundo árabe, poderoso portal de interculturalidade, não é à toa que os cidadãos em êxtase entendam terem, finalmente, por conta dos recentes eventos, chegado ao século XXI. O belo é que ninguém dirigiu a massa, ninguém orientou o povo que tomou as ruas. A rebelião das massas no Egito foi, acima de tudo, multifária, polifônica, jovem, sem um comando central e, guardadas as proporções, magnificamente pacífica e ordeira.Cimentou-se na insatisfação do povo para com a opressão policial a partiu da mobilização de movimentos operários, da nova classe média, pequenos empresários e movimento de mulheres.


A massa enfrentou a repressão da polícia ditatorial – muitos tombaram, cerca de 300, dizem – mas não houve efusão infrene de caos. Sim, às vezes é preciso enfrentar o tacão de uma ditadura com algo mais do que palavras de ordem, twitts e causas do Facebook. Porém, não vi relatos de banhos de sangue com irrupção de escaramuças e vinganças tribais, religiosas, oligarcas, mafiosas. Nenhum prédio público foi incendiado, como costuma acontecer na Europa em qualquer correriazinha de estudantes. Estabelecimentos comerciais fecharam, mas não se verificaram saques desbragados. A multidão tinha foco: não atacou o estado, não agrediu a sociedade, não violentou a cultura – ela exigiu, em nome da ética e da esperança a saída de um ditador decadente.


Assistimos a multidão consciente de sua força compacta, de seu grito uníssono, mostrando extraordinária capacidade de produzir ordem a partir do caos, uma nova ordem, uma ordem espontânea. O mesmo tipo de organização que nós, brasileiros, conhecemos no carnaval de rua, muito embora, neste caso, a motivação seja completamente diferente, bem o sabemos.


Para os fatalistas, para os liberais conservadores inspirados nas palavras amargas de José Ortega Y Gasset, os eventos do Egito representam derrota acachapante, soterrando as lamúrias dos nefastos falcões do Bush, de terrível memória. A multidão da Praça Tahrir produziu uma ordem espontânea, enfrentou a repressão e a corrupção, derrubou um ditador detestável e, com tudo isso, demonstrou capacidade inaudita de refundar a moral coletiva, afirmando, claramente, a ética, num cenário adusto, de corrosão de valores públicos. Contrariando vetustos teóricos, como Burke, Taine e Le Bon, mostraram os egípcios que a multidão não representa apenas uma força desruptiva, mas pode ser criativa, construtiva, renovadora e pacífica, mesmo sendo revolucionária.


Deveríamos estar estudando mais o fenômeno das multidões na contemporaneidade, seguindo os passos de Michael Hardt e Antonio Negri.


O levante do Egito me parece muito diferente da Revolução Islâmica que levou o Aiatolá Khomeini ao poder no Irã, nos anos 1970. Lá, o sentimento de renascimento do orgulho árabe, pisoteado pela arrogância do Ocidente imperialista, era catalisado por lideranças ideologicamente rígidas e pela religião. Deu no que deu. No Egito, os árabes enfrentaram o medo e a resignação, assumindo as rédeas de seu próprio destino, e botaram para correr uma besta-fera que o Ocidente chamava de “moderado”.


Sim, uma obscura Irmandade Muçulmana pode crescer num futuro ambiente democrático advindo por desdobramento da revolução emanada da Praça da Libertação? Não há dúvida! De resto, porém, como inúmeras outras organizações políticas e sociais. O Egito, em que pese a imensa pobreza, o desemprego e a falta de perspectivas para parcela significativa da juventude, é uma sociedade complexa, diversificada, e que foi capaz de costurar razoável grau de convivência entre a fé, os valores muçulmanos e conquistas da cultura ocidental.


A chantagem que o decadente Mubarak tentou fazer com o mundo ocidental, ameaçando-o com a emergência de vagas terroristas como decorrência inevitável de sua queda iminente, foi uma das demonstrações mais canalhas que assisti em toda minha vida, de desrespeito para com o seu povo, de violência colonizada contra uma cultura milenar: por acaso devemos supor, como queria o desprezível Mubarak, serem os árabes e os egípcios um bando de imbecis incapazes de se auto-gerirem e eternamente presas vulneráveis de radicais fundamentalistas? É ultrajante! O povo na Praça da Libertação estava justamente mostrando o poder e a responsabilidade de sua voz!


Não temo, por enquanto, por Israel. Num primeiro momento, é claro, os interlocutores de Israel com o Egito, o primeiro país árabe a reconhecer a existência do estado hebreu, podem se diversificar e o debate pode se tornar mais complexo, como costuma acontecer nos regimes livres. Todavia, o debate construído no campo democrático é muito mais sólido e eficaz do que os acordos tecidos nas alcovas palacianas dos ditadores. Penso que este é momento não para desconfianças mútuas, mas para que o Estado de Israel celebre os ventos libertários que varrem o Egito e ajude este povo a construir a sua democracia. Com mais uma democracia sólida na região, o reconhecimento de Israel como estado soberano só tende a se solidificar e as relações entre os países tendem a se normalizar em torno da paz. Democracias não gostam de fazer a guerra e, quando a fazem, discutem-na permanentemente. Democracias prosperam na paz.


Não foi Israel quem perdeu com a queda de Mubarak, mas sim, os regimes, dentre outros, do Iêmen, da Jordânia, da Argélia (a bola da vez, talvez), do Irã, da China…, onde, aliás, a divulgação pela imprensa dos protestos no Egito foi sumariamente censurada pelo governo.


Sim, claro, ninguém é ingênuo a ponto de supor que, depois de 30 anos de ditadura de Mubarak, o Egito vai saltar direto para a democracia! Impossível. Em toda a sua história milenar, o Egito jamais conheceu eleições livres e transparentes. Simplesmente, nunca houve! E, agora, pela primeira vez, depois do maior movimento de protestos populares da história do país, há uma perspectiva de eleições livres para setembro.


Nós sabemos o quanto é difícil construir uma democracia. Estamos empenhados nesta tarefa, aqui no Brasil, desde os anos 1980, e ainda não chegamos plenamente lá. Mas é assim que se faz: debatendo, discutindo, errando, acertando, construindo. Então, esse é o momento do mundo acreditar no povo egípcio e envidar todos os esforços necessários para ajudar essa gente a construir o seu sonho libertário. E, evidentemente, ninguém está falando aqui em novas imposições ou tentativas de tutela. Ajudar significa colaborar, respeitando a soberania de cada povo.


Muita gente torceu o nariz para o fato uma junta militar ter sucedido Mubarak. Pensam: onde há milicos, há arbítrio. Tem cheiro de golpe, imaginam. Tolice, creio eu! Que outra instituição no Egito poderia ser fiadora da transição depois de décadas de regime ditatorial, altamente desmobilizador das massas e dos partidos políticos? Não há, simplesmente, no Egito, outras instituições capazes de operar esta transição de forma pacífica. O país sequer tem partidos políticos bem organizados e atuantes. Ademais, a elite egípcia mostrou percuciência ao não permitir que o Exército fosse instrumentalizado por Mubarak para reprimir o povo, o que promoveria um banho de sangue sem precedentes. Ao negar-se a participar da repressão, ao lado da polícia política, o Exército rompeu simbolicamente com Mubarak. O povo entendeu que o Exército estava, assim, ao seu lado.


O Exército egípcio vai experimentar nova sensação. De instituição emulada por um ditador, passará a ente amado pelo povo! Embora resida aí uma chance de nova ditadura, penso ser ela remota. É certo estarem nesse momento os generais do Cairo se digladiando pelo controle do poder. Mas a menos que a situação por lá se deteriore dramaticamente, o que não parece o caso, o Exército não se exporá a assumir a responsabilidade direta de tutela sobre o povo, não depois de um movimento com a amplitude do acontecido. Se o fizer, correrá o risco de enfrentar, daqui a alguns meses, ou anos, o povo nas ruas. E quem garante aos altos oficiais que a soldadesca não foi de alguma forma contaminada pela efusão de liberdade experimentada pelas ruas nestas últimas semanas?


Duvido, além disso, que o Exército esquecerá, em algum momento, a ajuda de custo de cerca de 1,5 bilhão de dólares anuais que recebe dos Estados Unidos. Depois do turismo e da taxas de utilização do Canal de Suez, e de negócios bilionários de Mubarak (que beneficiam apenas ele e sua curriola), essa é uma das principais fontes de receita do país. Ora, isso quer dizer que o peso dos Estados Unidos, e, portanto, de todo o Ocidente, sobre os destinos políticos do Egito é considerável. Importa, assim, que esta influência funcione agora para o bem, ajudando o país a construir uma democracia efetiva. Mas para além disso, os militares egípcios hoje se conectam em grande medida a emergentes empresários desenvolvimentistas e nacionalistas, que se diferenciam do bando privatista e corrupto de Gamal, filho de Mubarak. Enfim, se o experimento do Egito fracassar, preparemo-nos, daqui a alguns anos, para uma onda de frustração sem precedentes no mundo árabe. O seu sucesso, ao contrário, servirá de farol para os outros países da região. Isto faz da primeira revolução do século XXI um magnífico grito de esperança.


Crises são momentos de verdade. Não me canso de repetir esta frase, que encontrei num livro da historiadora Emília Viotti da Costa. Se os sucessos da Praça Tahrir avançam no sentido do recuo da hipocrisia no mundo contemporâneo, vale também notar que os protestos do Egito são o primeiro grande desdobramento político da crise de 2008. Depois de um período de relativa estagnação econômica, o Egito abraçou uma série de reformas identificadas com o mercado, logrando alcançar razoáveis taxas de crescimento nos anos 2000. Esta escalada ascendente, contudo, foi obstaculizada pela retração dos capitais e pela recessão de 2009. Na Grécia, na Espanha e na Irlanda, a crise mostrou que a indolência especulativa e corporativista havia chegado ao fim e era preciso trabalhar. No Egito, os ventos trouxeram liberdade!


Há algo de intensamente novo no ar. Dentre os aspectos mais inusitados está o fato de a superpotência do planeta, os Estados Unidos, cuja influência no Oriente Médio é sistematicamente decisiva, terem assistido inertes ao maior levante popular da história moderna da região.


Um povo humilhado sai às ruas, à revelia dos governos e grandes lideranças, e refunda a ética, revitaliza a liberdade. Sim, nesse fim de semana, somos todos egípcios!

Impressões sobre o Governo Dilma

12 de fevereiro de 2011 0

Sigo me encantando com o Governo Dilma Rousseff. Nesta semana, Dilma deu mais um tranco no vacilante Edson Lobão, o Ministro de Minas Energia empurrado goela abaixo pelos esqueminhas do Sarney, dos quais, infelizmente, o Governo é em grande parte refém, para manter a governabilidade: exigiu explicações para os apagões e fixou data para que elas cheguem.


Em seguida, passou a tesoura e impôs um corte de 50 bilhões no orçamento federal. Depois de um período de gastança desbragada, durante o Governo Lula, a qual, aliás, diga-se passagem, ajudou a eleger a Dilma, era absolutamente necessário uma guinada à realidade, como forma de conter o déficit e a ameaça inflacionária. É claro que se trata de medida impopular, mas é remédio necessário e revela o quanto o Governo está comprometido com a responsabilidade fiscal. Teria sido ruim se o corte no orçamento se fizesse acompanhar de um pacote com aumento de impostos. Mas isso, felizmente, não aconteceu.


Finalmente, Dilma escolheu o momento da volta às aulas para fazer seu primeiro pronunciamento à Nação por rede pública. Foi simbólico ela ter conferido ênfase estratégica à educação. O Brasil, que cresce economicamente, vive e iminência de um apagão humano, uma espécie de escassez inaudita de mão-de-obra qualificada. O destaque dado ao ensino técnico é tanto mais relevante: novamente revela guinada à realidade, com um afastamento da panacéia mirífica do ENEM. É, sem dúvida, na falta de um amplo ensino técnico de qualidade que reside um dos nossos maiores gargalos.


Com tudo isso, periga a oposição ficar sem bandeira, sem assunto. Quem me pareceu meio mordido, contudo, foi o Lula. Vaidoso que é, como todo populista, suas falas na festa de 31 anos do PT, em Brasília, podem até ser interpretadas como manifestações de despeito diante de uma imprensa e de uma opinião pública que estão reconhecendo em Dilma condições de realizar um governo muito melhor do que o dele.

Novos cargos

12 de fevereiro de 2011 0

Acho que a oposição ao Governo Tarso Genro na Assembléia Legislativa está cumprindo o seu papel, buscando fixar uma identidade ao fiscalizar detalhadamente os atos e projetos do Executivo, o que, em princípio, é bom para a democracia. Até aí tudo bem. Mas, quando os projetos do governo são em geral muito bons, há risco de se buscar pêlo em ovo.


Nesse tema da criação dos novos cargos é conveniente separar-se o joio do trigo. Não é possível comparar a sucateada estrutura de gestão do governo sul-rio-grandense com a corte nababesca que é o Senado Federal. Lá, onde já existem 6 mil funcionários, percebendo remunerações generosas, muitos sem ter de fato o que fazer em benefício real do povo brasileiro, novas contratações e concursos cheiram a escárnio. Aqui, no Rio Grande do Sul, em havendo equilíbrio fiscal e financeiro nas contas públicas, contratações suplementares são mais do que necessárias e, certamente, fortalecerão a capacidade do estado em executar políticas públicas eficazes.


Isto pressupõe, por óbvio, que os novos cargos prevejam remuneração digna em sintonia com os valores de mercado, a fim de que o estado possa atrair profissionais competentes. Caso contrário, a turma vai preferir ficar na iniciativa privada e o estado continuará captando apenas a rapa do tacho.


Evidentemente que a proposta de criação de novos cargos não pode descurar dos já existentes. Na Educação, por exemplo, o Rio Grande do Sul vem descendo ladeira abaixo nas últimas décadas e uma das causas disso são os baixos salários pagos aos professores da rede pública. Precisamos nos convencer como sociedade que melhorar a condição do magistério é aspecto central para qualquer projeto de desenvolvimento sustentável.


Por fim, mas não por último, acho que o sucateamento da máquina pública no Rio Grande do Sul é tão profundo, que muitas outras áreas estão a reclamar reengenharias estruturais, reajuste de salários e criação de novos cargos. É o flagrante caso da Cultura, por exemplo, onde as funções gratificadas são aviltantes e vexaminosas e a grade de cargos é absolutamente incompatível com as demandas que hoje incidem sobre a Pasta.


Assim, eu lamento que, no projeto de criação de cargos enviado pelo Governo à Assembléia, não se tenha contemplado a Cultura. Tenho, contudo, esperança e convicção de que esta lacuna será preenchida em tempo relativamente curto, pois é evidente que as boas iniciativas do atual Secretário, Assis Brasil, permanecerão manietadas sem uma moderna estrutura organizacional interna.

Centenário de Elizabeth Bishop, por Affonso Romano Sant'Anna

11 de fevereiro de 2011 2

Meu querido amigo, o poeta Affonso Romano Sant’Anna, enviou-me hoje este adorável texto sobre Elizabeth Bishop, que publicou no O Globo, em 2001. Com a autorização dele, reproduzo-o abaixo para vocês.



LEMBRANDO  DE ELIZABETH


Affonso Romano de Sant’Anna


Não quero humilhar ninguém, mas tenho lá em casa duas abotoaduras de ouro com rubi, que pertenceram à Elizabeth Bishop. Aliás, quem as tem é minha mulher. A rigor, não pertenceram só à Elizabeth, mas a Marianne Moore, outra famosa escritora norte- americana que ajudou muito a carreira de Elizabeth. E  depois desta crônica, elas já não estarão lá em casa, mas num cofre forte de algum banco, embora tenham mais  valor lítero-emotivo.


Esta é uma, entre outras razões, porque   assisti  à peça  “Um  porto para Elizabeth Bishop” escrita por Marta Góes e representada por Regina Braga, de maneira especial. As “outras razões” , por exemplo, incluem o fato que conheci Elizabeth   e     com  ela estive algumas vezes, tanto em Ouro Preto quanto no Rio. E a vida dela e a minha acabaram de algum modo se tocando, porque, além de sua obra, alguns amigos queridos meus eram queridos amigos dela.


Mas voltemos ás abotoaduras.


Há alguns anos a Secretaria de Cultura de Petrópolis resolveu   homenagear    a memória de Elizabeth, que morou por ali, com Lota Macedo Soares, na histórica casa de Samambaia. Foi uma noite cheia de emoções raras. Foram convocadas, sobretudo, pessoas que haviam conhecido a poeta americana para dizerem ao público algo de sua complexa personalidade. Por isto, estava lá Linda Nemer- a herdeira brasileira de Elizabeth, que dela cuidou em Ouro Preto e Belo Horizonte com uma   raríssima dedicação. Linda não falava inglês, não tinha interesse especial por literatura norte-americana, mas com seu irmão- o artista plástico José Alberto Nemer, abrigaram Elizabeth afetivamente.


Naquele encontro, entre outras pessoas, estavam ainda tanto Carmem Lúcia de Oliveira que escreveu o clássico “Flores raras e banalíssimas”(Ed. Rocco), narrando a história amorosa de Elizabeth e Lota, quanto o saudoso Emanuel Brasil, que há poucos anos teve uma morte estranha, e que conviveu com Elizabeth nos Estados Unidos, chegando a editar com ela uma antologia de poesia brasileira.


Após a   mesa redonda lá em Petrópolis, a atual proprietária da casa da Samambaia convidou-nos para um jantar. Nada poderia ser mais apropriado e complementar: sair das evocações e lembranças para o cenário onde Elizabeth e Lota viveram.


Tínhamos a noção de que estávamos  num ritual   muito delicado. Andar por aquela varanda e pelas salas, subir o jardim, ir até o ateliê que Lota construiu para Elizabeth num lugar mais elevado e solitário, para que ela pudesse escrever; olhar e tocar aqueles objetos, contemplar  aquela vista, onde se destacava a abrupta montanha de pedra  que aparece em um de seus poemas  e em seus quadros, era reencenar respeitosamente em nós mesmos o texto da  vida alheia.


O jantar ia transcorrendo entre delicadezas e lembranças, quando Linda Nemer, que conheço desde os tempos estudantis quando nossa geração achava que  ia salvar o Brasil, bateu suavemente com um  talher no copo e disse que queria fazer um speech. Agradeceu por todos a honra daquele jantar e a seguir narrou a seguinte   história.


Elizabeth Bishop era mesmo muito amiga de Marianne Moore. Tanto assim que deu o nome de “Mariana” à casa que tinha em Ouro Preto. Trocou cartas com Marianne a vida inteira. Certa feita, perguntou-lhe que presente ela gostaria que lhe levasse do Brasil. Marianne respondeu-lhe de maneira discreta para facilitar-lhe a tarefa:-“Qualquer coisa que tenha vermelho”.


Elizabeth mandou, então, confeccionar duas abotoaduras de ouro com rubis e levou-as à Marianne. Esta, encantada, usou-as durante toda a vida. Quando Marianne faleceu e Elizabeth foi visitar-lhe  os familiares, eles solicitaram  que ela escolhesse alguma coisa que havia pertencido à Marianne e que ela gostaria de guardar como recordação.


Elizabeth escolheu as abotoaduras que dera à amiga. E com elas viveu e conviveu, até que um  dia decidiu dá-las à dedicada Linda Nemer, narrando-lhe a estória precedente.


Elizabeth havia deixado para Linda outras coisas: cinco salas na avenida Rio Branco, no Rio, as quais ela vendeu para recomprar e restaurar a casa de Elizabeth em Ouro Preto, um diário  de 300 páginas, em dois cadernos  de espiral narrando sua viagem pelo  rio São Francisco e um outro diário narrando até sonhos que tivera,- coisas que Linda vendeu para a Universidade de Vassar, onde Elizabeth estudou. Mas guardou as abotoaduras que foram de Marianne e Elizabeth.


E naquele jantar, na casa petropolitana, onde Elizabeth viveu com Lota, Linda,  agora cercada de amigos da escritora, terminou sua amorosa fala de uma maneira  surpreedente,  dizendo que passava    aquelas abotoaduras para Marina Colasanti, que assim elas estariam em boas mãos( ou pulsos).


Curioso o destino dos objetos e dos afetos. Curioso o périplo que objetos e pessoas fazem, mesmo depois de mortos. Elizabeth que sabia de sua importância literária nos Estados Unidos, jamais poderia imaginar que seria tema de uma peça de teatro no Brasil.


Olhava eu as pessoas que afetuosamente assistiam à peça. No ar, um tardio e irremissível carinho. Carinho de que Elizabeth pateticamente necessitava,  mas que seria sempre insuficiente diante de sua incurável carência.


30 agosto,2001-O GLOBO

Artes, Humanidades e o Forum Social Mundial de 2012

10 de fevereiro de 2011 0

Estive nesta terça-feira, dia 8, num jantar no galpão crioulo do Palácio Piratini, em Porto Alegre, cujo tema foi “o papel das artes e das Humanidades no Fórum Social Mundial de 2012”. O evento contou com a presença do Governador, Tarso Genro, e do Secretário de Cultura, Assis Brasil, além do Deputado Flávio Koutzi, que compunham a mesa. Dentre os convidados, dezenas de militantes das artes e Humanidades no Rio Grande do Sul.


Achei a iniciativa altamente meritória, pois, para muito além da agradável surpresa de poder encontrar vários amigos em pleno e escaldante fevereiro porto-alegrense, confere-se por meio dela extraordinária centralidade para a cultura no atual governo, que investe ainda francamente na fundação do diálogo. O Governador estava lá pontualmente na hora marcada para o início do evento e permaneceu durante todo o tempo, até o final, ouvindo as manifestações dos convidados – muitos fizeram uso da palavra. Dentre os convivas, gente de todos os matizes, reafirmando que a cultura será tratada no Governo Tarso acima das questões partidárias, o que me parece louvável e necessário.


Os convidados, em gral, aproveitaram o ensejo para louvar a iniciativa e apresentar demandas para a Cultura, área que vem sendo tratada com notório descuido nos últimos anos. O ponto alto ficou por conta da promessa do Governador Tarso Genro, provocado pelo jornalista Tatata Pimentel, de que a construção do novo teatro da Ospa terá início ainda neste ano de 2011. Chamou também a atenção notícia de revogação pelo Governo de norma que considerava falta escolar quando alunos e professores da rede pública de ensino em Passo Fundo assistissem a sessões das Jornadas Literárias naquela cidade. De fato, tratava-se de diretriz absurda, reveladora da falta de sincronicidade entre Secretaria de Educação e a Secretaria de Cultura, no governo que passou.


Embora relativamente pouco abordado pelos convivas, o tema proposto para o jantar-reunião é da mais alta relevância. A tolerância, o respeito às diversidades e o diálogo entre as culturas precisa estar na base da sociedade que estamos construindo no presente. São questões de grande centralidade para o debate no âmbito do Fórum Social Mundial, para o qual a área da Cultura pode agregar contribuições significativas.


O próprio Governador Tarso Genro chamou a atenção para um aspecto relevante de sua recente visita oficial ao vizinho Uruguai, quando se tratou da adoção do ensino bilíngüe nas escolas sul-rio-grandenses e uruguaias. Muito se fala em integração econômica no Mercosul, mas esta não se realiza com a necessária eficácia sem uma cooperação cultural consistente.


Mas o debate pode ainda avançar sobre muitos outros aspectos. Um tema premente, por exemplo, é o das normas que regem a circulação de obras de arte e bens culturais nos países do Cone Sul e do continente americano. É enorme a burocracia que cerca a circulação de obras de arte e difícil a conquista de isenções aduaneiras.


Outro assunto candente, lembrando com pertinência também pelo Governador, diz respeito diz respeito à circulação relativamente precária da literatura latino-americana contemporânea entre os próprios países da região. Isto é, tirando os autores consagrados do grande boom da literatura latino-americana nos anos 1960, os escritores contemporâneos são relativamente pouco conhecidos do grande público leitor. Esta é uma realidade que precisa sem dúvida ser modificada.


O próprio cinema latino-americano poderia estar muito mais presente nas redes de televisão. Enfim, muitos são os elementos que podem enriquecer este debate. Daqui para frente, novos encontros serão agendados pelo secretário Assis Brasil e, muito provavelmente, grupos de estudos temáticos serão constituídos. É importante é que um governo inicie conferindo centralidade estratégica para a Cultura e abrindo-se para o debate com a comunidade da forma como está acontecendo. Trata-se, sem dúvida, de uma novidade no cenário político gaúcho, que não pode deixar de ser destacada.