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E a Líbia, einh?

28 de março de 2011 2

E a Líbia, einh?

Pois é, festejei, em princípio, a intervenção da ONU. Apesar da contradição aparente de se fazer a guerra para manter a paz, a iniciativa justificava-se tendo em vista o genocídio iminente na Líbia, onde o Kadafi usava até caças para bombardear civis legitimamente rebelados contra anos de dominação ditatorial. Se esta intervenção não viesse logo, em breve as nações europeias estariam sendo acusadas da mesma inação que revelaram no caso da antiga Iugoslávia. Kadafi não é o tipo do sujeito disposto a perdoar e a aceitar anistias: sagrado vitorioso na guerra civil da Líbia, iria realmente cumprir a ameaça e trucidar os adversários. Também é verdade que o caso da Líbia é um pouco diferente dos demais – Bahrein, Iêmen e Síruia: embora a repressão lá seja violenta, não atingiu os níveis do registrado na Líbia. Mas suscita preocupações e as potências da OTAN e da ONU poderão ser chamadas a obedecer a coerência, em breve.

Dito isso, cabem algumas indagações e anotações. Em primeiro lugar, a resolução da ONU estabeleceu uma zona de exclusão aérea. Causa espécie, todavia, que forças terrestres de Kadafi estejam sendo atacadas pela coalizão. É claro e evidente o apoio aos insurretos neste caso. Nem a ONU, nem a OTAN estão sendo neutras.

Em seguida, chama a atenção o resultado na votação no Conselho de Segurança da ONU. Salvo engano, não me lembro de outra decisão importante na qual Rússia, Alemanha, China, Índia e Brasil tenham estado juntos, na abstenção. Parece-me fato inédito. Creio que a Alemanha, a locomotiva da Europa, decidiu não embarcar na aventura patrocinada pela França de Sarcozy. Petróleo, dirão alguns, pode ser a justificativa maior para a precipitação da França. Talvez, mas não é bem assim, pois a Líbia, embora importante fornecedor para a Europa, não é o único no planeta. Outros mencionarão a possível pressão dos refugiados políticos na Europa. Mas a Líbia é um país pequeno, relativamente pouco populoso. Pressão maior fizeram os eventos na Tunísia e muito mais sobre a Itália do que sobre a França.

Creio que, ao tomar a decisão de atacar a Líbia de Kadafi, Sarcozy jogou muito mais para a política interna, vez que amarga queda de popularidade, na esteira da qual cresce a liderança da pré-candidata Marine Le Pen, filha do líder de extrema direita Jean Marie Le Pen, que, nas eleições presidenciais de 2002, tirou do segundo turbo o então primeiro-ministro socialista Lionel Jospin. Marine está tecnicamente empatada com Sarcozy, de acordo com as últimas pesquisas de intenções de voto na França, e seu sucesso deve-se em grande parte aos equívocos de Sarcozy e a dificuldade que a França vem demonstrando de superar a crise econômica de 2008. Além disso, há uma retórica conservadora que culpa os imigrantes pela escassez de emprego que vem sensibilizando parte da população. Enfim, a ação militar da França na Líbia poderia ser uma forma de atrair a atenção para Sarcozy dos eleitores situados mais à direita e que estão tendendo a apoiar Marine.

Além disso, claro, os bombardeios das forças de coalizão na Líbia são uma excelente oportunidade para a França mostrar os caças Rafale em ação. Além do Brasil, a França tenta vendê-los também para outros países e as aeronaves apenas estão em ação na guerra do Afeganistão, que tem merecido pouca visibilidade da imprensa nos últimos tempos.


Comentários (2)

  • Voltaire Schilling diz: 30 de março de 2011

    Prezado Gunter.
    Não posso deixar de fazer algumas observações sobre o teu posicionamento a favor do ‘bombardeio humanitário’ sobre a Libia do Kadafi.
    Ocorre que parece-me haver uma distinção significativa do que acontece lá em relação aos demais movimentos de contestação do que chamo de o Movimento das DiretasJá dos árabes. Em Tunis e no Cairo, como também em Sana e mesmo no Barein ( quem diria!), as manifestações foram realizadas em praças públicas pacificamente. Foi extamente esta caracteristica que levou os exércitos locais seus comandantes a se inibirem e a negarem atirar no povo desarmado, causando assim o rápido naufrágio dos ditadores Ben Ali e Mubarak.
    Na Libia foi diferente. A oposição logo pegou em armas ( basta vez as imagens para verificar a quantidade de gente armada e, Benghazi e outras cidades, inclusive com metralhadoras pesadas), provocando não uma justificada manifestação de protesto mas um começo de guerra civil. Neste caso, Kadafi exerce o direito legitimo de qualquer governante em se defender de um levante ( e aqui não faço nenhum juizo moral, mas apenas constato que isto sempre aconteceu).
    Por conseguinte, a intervenção estrangeira absurdamente autorizada pela ONU ( o presidnete é um coreano eleito pelos americanos) se dá necessariamente para depô-lo nos velhos moldes do colonialismo ocidental que se irritava contra um chefe tribal local ( a tomada da Argélia pelos franceses em 1832 foi mais ou menos assim, com o mesmo tipo de pretexto salvacionista, lá ficando eles por mais de um século!).
    Tambem questiono sobre tais ‘operações humanitárias’, pois acabam matando mais gente do que a repressão nativa ( entre ouras razões pela qualidade e eficacia dos armamentos e a pertinência das pontarias). Achas realmente que o envio de uma bateria de 100 misseis tomawok disparados recentemente pela Marinha americana um fator positivo no avanço da democracia na Líbia? Não acreditas que os petardos vindo do ar sejam suficientemente inteligentes para, quando explodirem, selecionarem com todo o cuidado e atenção o libio bom ( um civil) separado do libio mau ( ligado a Kadafi).
    O que os colonialistas estão fazendo é destruir totalmente as possibilidades defensivas da Libia ( aviões, embarcações, quartéis, tanques, carros de combate e qualquer outra coisa que ande por lá). Mesmo que a oposição ( são tribos monarquistas) venha a alcançar o poder, terá que gastar milhões de dólares para repor minimamente as perdas que serão imensas. Onde irão comprar o armamento meu caro amigo? Tens algum palpite? Do Paraguai certamente que não será. E, não te causa estranhesa que justamente é a dupla do velho colonialismo europeu , a França e a Grã-Bretanha, ex-proprietárias da maior parte do Oriente Médio até os anos de 1956-60 as que são as maiores interessadas em ‘salvar’ o povo líbio?`És um crente no colonialismo filantrópico, amante da humanidade e desinteressado de tudo? Os dois parceiros, ora tão ativos, começaram a ser expulsos daquela região em 1956, durante o episódio fracassado da ocupação do Canal do Suez , ocasião em que brigadas anglo-francesas desembarcaram no canal para impedir sua nacionalizção feita por Nasser ( dizem que o presidente Eisenhower tirou os ingleses de lá com um ríspido telefonema ao ministro britânico) porque os americanos, então anticolonialistas, queriam reservar a áree do Oriente Médio como seu novo ‘couto de caça’.
    Sei desta historia toda entre outras razões porque um tio meu, coronel Voltaire Londero Schilling participou do estado maior da ONU que assumiu provisoriamente a confusão em 1956 e por lá ficou um bom tempo.Há, por detrás disto tudo, um sabor de vingança da parte dos franceses e ingleses. Uma espécie de desforra contra o mundo árabe que tanta dor de cabeça deu a eles desde 1918-9 quando os dois socios europeus se autodesignaram como Protetores do Oriente Médio (Tratados de Sèves e do Cairo). O colonialismo é como elefante, não se esquece de nada, não perdoa nada e, se puder, pisa sobre tudo.
    O que me irrita é esta arrogancia ianque-européia de se julgarem os árbitros do mundo, decidindo em quem devem jogar bombas e que regimes devem ser implantados e como seus lideres devem se comportar e o que devem conceder ‘ao marcado’. Além do mais o humanitarismo deles é ultra-seletivo.
    Tropas da Arabia Saudita desembarcaram em Barem para por fim as manifestações de rua e nenhuma das potencias sugeriu impor uma Zona de Exclusão nos céus do rei Abdala Saudi.
    O que irá sobrar no final disto tudo é uma Libia, co ou sem Kadafi, totalmente desarmada e fragilizada tendo que aceitar novos contratos de exploração de petróleo nas condições impostas pelas empresas dos amigos ‘salvadores’. Acredito que também há uma outra leitura do empenho de Obama em atacar aqueles miseráveis.
    Para mim, as bombas que estão caindo em Tripoli e outros lugare são os ‘fogos de artifico’ do começo da campanha de reeleição do jovem presidente.Os americanos não gostam de chefes do executivo ‘frouxos’.
    É um povo de cowboys que adora dar socos, tiros, e envolver-se em conflitos militares ( basta dizer que desde 1941, quando formaatacados parece que o pais não deixou de guerrear nunca em algum canto da terra: América Central, ilhas do Pácifico, Europa, África do Norte, japão, Coréia, Vietnã, cerco á Cuba, invasão da Republica Dominicana, Granada, desembarque fracassado no Irã, diversificando nos ultimos anos no sentido de assaltar as areias e as pedras do Oriente , em razão de tomar-lhe diretamente o petróleo).
    Obama não quer repetir o destino de Jimmy Carter, homem que pediu desculpas ao Vietnã por quase tê-lo destruido o país inteiramente e envenenado parte consideravel da população rural (com o ‘agente laranja’,lembras?). Pedir desculpas para gentinha do tercerio mundo é demais. Não dá voto. Bombas sim.
    Recordo a ocasião em que Bill Clinton, enredado pelo seu caso com a estagiaria Levinsky e pressionado pela midia histérica, ordenou um severo bombardeamento do Iraque para desviar as atenções de si. Uma manobra e tanto pois deixaram-no em apz e sua popularidade aumentou.
    O Jimmy era um fracote bem intencionado e facilmente foi derrotado pelo troglodia do Ronald Reagan em 1980. Obana, ainda que não intente meter-se na ocupação terrestre, quer mostrar seus musculos. Não deseja passar por um liberal ‘frouxo’ que é o pavor que os politicos democratas mais temem ser acusados.
    Este, pois, é o meu entendimento do que está ocorrendo e está claro que houve um desvirtuamento da autorização da ONU, pois na tal implantação da Zona de Exclusão parece não constar autorização de atacar todo o pais e submete-lo a implacável bombardeio, ainda que para fins ‘humanitários’. Não tenho nenhuma simpatia pelo Kadafi ( o coitado parece-me um gangster), mas homem velho, não aposto um tostão furado nas boas intenções da dupla Cameron-Sarkozy. E também nãoposso deixa de registrar a decepção com Obama que não consegui resolver nenhum dos nós da politica externa dos EUA ( Iraque, Irã, Afeganistão, Paquistão, Cuba, Coréia do Norte) deixando tudo na mesma.
    Nem Guantanamo ele consegui fechar.
    Igualmente foi deselegante ordenar o ataque à Líbia de dentro do Palácio da Alvorada, sabendo que o Brasil se abstivera no Conselho de Segurança de agir contra Kadafi. É o tradiconal desprezo ianque pelos cucarachas. Assim como não pega bem a um ganhador do Prêmio Nobel da Paz ( mais uma piada escandinava que não entendi) ficar jogando bombas numa pobre nação africana que não tem as minimas condições de se defender ou reagir. Covardia pura. Um abraço do amigo/Voltaire Schiling

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