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Tiros em Realengo, horrores de Quaresma

14 de abril de 2011 2

Quando vi “O Albergue”, produção de 2006, decidi que não mais assistiria aos filmes de Quentin Tarantino. Eu gostava dele. “Cães de aluguel” é bem bom; “Pulp fiction” é um dos marcos da estética da virada do milênio; e até Kill Bill é passável, pois, apesar do estúpido enredo, encerra uma poética magnética. Mas “O Albergue” era simplesmente banalização e glamourização da violência, como fim em si mesma, celebração de uma aberração.

Próprio do gênero “terror”, me dirão os entendidos. Talvez. Jovem, fui bem mais aficionado por filmes de terror. Acho que acontece com todo o mundo. Por algum insondável motivo, na maior parte dos casos, a idade dissolve esse interesse, meio escatológico. “O Albergue” pode me ter explicitado isso. Mas, ao mesmo tempo, parecia haver algo mais inquietante no filme de Tarantino…

O Freddy Krugger exprime uma violência mecânica, mas é também patético e ridículo. Ele mais enfada ou provoca risos do que assusta. O Jason Vorhees é piada ainda maior, feita para eletrizar a ambiência desses acampamentos de férias para adolescentes, um desses hábitos meio babacas que os americanos tanto apreciam. Aliás, de tão idiota, no 12º “Sexta-feira 13”, Jason e Freddy se encontram: não podia ser diferente!

Já um “The evil dead” funciona um pouco melhor. Esse filme de 1981 não lucrou nem perto os 500 milhões de dólares da série (já meio zumbi) “Sexta-feira 13”, mas seduz pela iluminação rústica e contrastada, na base de faróis de automóveis, o que confere tensão à trevosa cabana abandonada no meio de uma floresta do Tennessee, onde a história de cinco jovens desavisados (sim, sempre eles!) se desenrola.

Foi um choque. Para quem não é lá dos jurássicos anos 1980, foi proibido em vários países, como Finlândia, Irlanda, Islândia e Alemanha. Na Alemanha, depois de dez anos, permitiu-se a exibição de uma cópia editada. Mas, enquanto isso, numa época ainda pré-Internet, circulava com grande sucesso pelo mercado negro. Até que a turma da censura jogou a toalha e autorizou o lançamento do filme em DVD, em 2001, sem cortes.

Mas o mal ali ainda tinha uma origem: antigo, manifestava-se por meio de um livro sinistro, encadernado com pele humana, que fora descoberto por um arqueólogo, misteriosamente desaparecido. Com uma origem, não era gratuito.

No filme de Tarantino, o mal extremo está no prazer mórbido, sádico e hedonista. O mal não é remoto, antigo, nem sombrio. Não vem de outra dimensão, do passado, do futuro ou da alteridade. Ele está entre nós, é real, plausível, se mobiliza pela máfia, se realiza pelo dinheiro e se expressa nas fímbrias do mundo capitalista ocidental, acomodadas sobre os escombros ainda fumegantes da decrépita cortina de ferro. E, sobretudo, numa época de elisão das meta-narrativas, de pulverização do real, de liquefação dos valores e gaseificação do indivíduo, em Tarantino o mal emerge como a única coisa não difusa, como força sistemática, organizada: cheio de método, acontece numa fábrica!

Sob a gratuidade explícita e diante dessa incômoda racionalização, o precário enredo ainda aplica moralina. Dois pascácios são capturados pelo mal numa das mecas hedonistas a seduzir o imaginário juvenil – a Amsterdã, das drogas liberadas e da luz vermelha, reluzindo ali o pálido espectro da Contracultura redivivo na turbo-modernidade como mercadoria de consumo. Eles pagam um preço altíssimo por achar que poderiam curtir a vida enquanto viajavam, explorando alteridades. Tipo assim, “meninos, sufoquem os seus hormônios, nada de festanças e muito menos de viagens pelo mundo: não saiam da paróquia e da barra da saia das mães! On the road é o pesadelo!”. Ode conservadora que deve ter feito Tom Wolfe, no seu nojento terninho branco, dar pulinhos de excitação.

Diferentemente de um modesto cult movie série B dos anos 80, “O Albergue”, cuja produção custou quase 5 milhões de dólares, lucrou, só no primeiro fim de semana de exibição, naquela véspera de Páscoa de 2006, a bagatela de 71 milhões de dólares. De fazer inveja até mesmo a blockbusters como o indefectível Jason.

Dos oblíquos Jason e Freddy, criados por encomenda para expectadores pacóvios, passando pela anatematizada morte do demônio, chegamos naquela inusitada Quaresma, de internalização às avessas, quando o sadismo extremo foi pretensamente vertido em elegia estética, entronizando no coração da sociedade de massas a gratuidade da violência como totem a ser adorado. Que bela exortação ao sopeso da finitude individual com a transcendência da mensagem divina! Fractal distorcido, revelador de malefício deletério… Ahh, Moisés, como nos valem aqui teus 40 dias? Que passagem, que travessia…! Sim, foi muito rápido!

De pouco vale saber se foi o ovo ou a galinha quem veio antes; o quanto Tarantino captou e denunciou um novo fenômeno semiótico ou influenciou a sua reificação macabra. Talvez, e provavelmente, um pouco dos dois, já que é mais dialética do que se pensa à primeira vista a relação entre mídia e espectador.

Se o século XVIII descobriu a criança como categoria social, como propôs Philippe Ariès, e o século XIX descobriu o velho, como mostrou Simone de Beauvoir, a adolescência, como ensina Edgar Morin, se autonomizou como bio-classe nos anos 1960, encarnando, na esteira de Maio, um arquétipo fundado em toda sua pungência criativa, dinâmica, mas também contraditória, por Arthur Rimbaud, no último quartel do século XIX. Sim, eu é outro: o rapazinho foi muitos. O genial inventor da poesia moderna inovou em muitas frentes, tentando até fazer de si próprio uma obra de arte, projeto este concretizado por Andy Warhol, sofisticado pelo revolucionário David Bowie, pasteurizado por Michael Jackson e desovado na contemporaneidade pela vulgata mimética de Lady Gaga. Vivendo a boemia, temperada por ironia pesada, tremendo vinho, em suspensão até da higiene pessoal, Rimbaud, o andarilho, hippie seminal, transformou sua relação com o poeta Verlaine numa expressão da adolescência hegemônica: no affaire com um homem mais velho, era o menino o dominador. As temáticas revolucionárias, ecléticas, de sua literatura e vida influenciaram o âmago da Contracultura: de Patti Smith, a Jim Morrison e Bob Dylan, passando por Keruac, todos lhe renderam tributos. Linguisticamente inventivo, forjava palavras, produzia verbos, desdobrava sentidos. Fascinava-o o grotesco, naquilo que havia de exposição dos conflitos e contradições subjacentes ao mundo epidérmico.

Mas havia, também aí, algo de baboseira adolescente, uma escatologia que passou batida pela cultura pop do século XX, invocada, quando muito, como figura periférica, mas que agora, no universo turbo-capitalista, onde o pastiche da estética jovem pós-68 se fez soberano, emerge dominadora, transmutando-se em terror, cada vez mais sórdido e gratuito. Triste destino para o sétimo sonho do paraíso adolescente, lá por 1985 ecoado do gótico glam “Love and Rockets”, algo nostálgico, quando, mesmo making it new, como Ezra Pound receitara, ainda se acreditava no tempo embebido na contínua transformação cultural. Embora a modernidade, essa soma de destruições, conforme Picasso, já fosse ali divisada como amontoado de detritos, o novo seguia dialogando com o tempo, com a história.

Num mundo onde uma major star como Lady Gaga expõe-se seminua num aeroporto, ou recebe um prêmio vestida com retalhos de carne crua, apenas por já ter esgotado todas as outras formas de chamar a atenção, como reclama Camille Paglia, não admira que o detrito tenha saído debaixo do tapete, a escatologia ansilar seja celebrada e o terror gratuito tenha se tornado mainstream.

Mas era só o começo. Dentre a avalanche de filmes abomináveis que entorpecem o mainstream, cintila o passo para além de “O Albergue” dado em “O Procurado”, de 2008, estrelado por Angelina Jolie e Morgan Freeman. Um jovem sorumbático abre o filme queixando-se do vazio de sua vida, cuja expressão evidencia-se – sim, pasmem! – na ausência de qualquer referência ao seu nome no Google. Isto é, toda a sua definição como ser humano era externa, pautada pela popularidade virtual atestada pelo assim chamado oráculo pós-moderno. Mas ele seria “salvo”. Depois de seduzido e treinado por Jolie e sua irresistível boca, torna-se um habilidosíssimo assassino em massa, que mata pessoas como se fossem baratas, assepticamente, artisticamente. Sua masculinidade eclipsada pela cultura de classe-média que se seguiu à Revolução Industrial, como avalia Camille Paglia, poderia agora se desrecalcar pela explosão de violência. E não lhe faltariam referências no Google.

Andy Warhol celebrizou por máxima, no futuro todos teriam pelo menos quinze minutos de fama. Diagnóstico profético que ajuda a explicar os BBBobos e outros que tais. Mas nem mesmo a estrela mais pop da pop art poderia imaginar que nesse mesmo futuro cada vez mais as pessoas se sentiriam vivas somente se tivessem seus quinze minutos de fama. O que era possibilidade, tornou-se condição. Nicho perfeito para abrigar o liberou geral, pois para um indivíduo sem gravidade, na acepção de Jean-Pierre Lebrun e Charles Melman, sentir-se vivo e feliz, agora vale-tudo.

Talvez haja uma linha de transmissão direta entre a escatologia exibicionista de Lady Gaga (retendo do gênio Rimbaud o que ele tinha de mais tolo e periférico), o terror banalizado de Tarantino e a desesperada busca por popularidade do homem sem gravidade. A cultura jovem, fenômeno típico do século XX, soberana na contemporaneidade, passou a autoreferenciar-se de tal modo e foi de tal modo capturada pelo turbo-capitalismo de massas, que os detritos da modernidade tornaram-se mainstream. Como dinâmicas que se reforçam. E aí que uma aberração parricida como Suzane von Richthofen torna-se de certa forma sintomática.

Nesse contexto árido, parece plausível o personagem de um jovem afirmar-se assassino em série para dar sentido à sua vida e conquistar notoriedade, até porque dentre as recompensas está a Angelina Jolie, com ares de boneca inflável. Fundamentalistas islâmicos e terroristas prometem ao mártir redenção após a morte num paraíso repleto de virgens. Nós, no democrático Ocidente, somos mais modestos: oferecemos apenas a Angelina Jolie (se bem que ainda em vida) e sequer exigimos o engajamento a uma causa.

Num horizonte adusto, não é impossível que um dejeto da comunhão humana – com a alma tisnada pelas contradições decorrentes da introjeção pelo indivíduo da lógica do capital, cada vez mais norma corrente, da emulação do hedonismo como fim em si mesmo e da crise do masculino – vomite suas frustrações ególatras sobre inocentes e indefesos. Aqui, a estética do terror gratuito está sedimentada; o desajuste transmutado em ato de vingança sobre a sociedade; o recalque, nessa cultura amiúde fundada na lógica da satisfação, compensado pela notoriedade por recompensa no pós-vida; e o indivíduo elevado, como que num passe de mágica, à condição macabra de (anti)arte.

Plausível, mas sempre psicótico. A perpetração de um massacre requer um indivíduo que dentre muitos outros desajustes bascule do sentimento de inferioridade para o de superioridade. O suicídio do matador, desfecho recorrente nessas tragédias, condensa a sobrevivência da percepção do certo e do errado. Mas o indivíduo tem múltiplas apreensões. A notoriedade para os gregos antigos era de certa forma uma chance de imortalidade. Mas eles lembravam atos de heroísmo e humanismo. Nós escarafunchamos detalhes do sórdido. A notoriedade é aqui confirmada na memória que a sociedade tem dos monstros similares que o precederam. Como se fosse uma compensação para a decisão de suicídio, bem como a tentativa de converter um suicídio em instalação (anti)artística.

Tentar em vão nominar o inominável, explicar o inexplicável, falar e falar, produzindo uma catarse coletiva, que não purgará o mal, mas, talvez, modestamente, faculte no devir o inescapável convívio com o horror, evitando o esgarçamento completo da confiança nos laços que nos unem, enquanto, por paradoxo, crescem exponencialmente as referências no Google…

Diante do indizível, o sucesso de “O Albergue” numa Quaresma, como esta, às vésperas do feriado de Páscoa, talvez revele, pelo menos, algo de – reconfortantemente – grotesco. A entronização do terror absoluto e da violência gratuita como valor apreciável acontecia no momento em que poderíamos estar refletindo sobre o significado do pão sem fermento: a passagem da escravidão para a liberdade foi uma graça divina, mas conquistada depois de uma árdua travessia, a cujo sacrifício antepassado deveríamos respeito e consideração, não por mera reprodução de tradições mais ou menos inventadas e às vezes carentes de sentido, mas por amor ao nosso próprio futuro, pois é no diálogo com a história coletiva que o indivíduo percebe-se também responsável pelos seus atos, já que a Criação, se existente, não deve ter acabado num ato isolado e continua, sempre pulsando, um pouquinho dentro de cada um de nós.

A explosão de fúria e loucura de um indivíduo transtornado carrega imponderabilidade crispada e não há muito que se possa fazer a respeito. Mas as condições culturais (e aqui não falei das materiais, como a falta de fiscalização adequada sobre a circulação de armamento; álcool, drogas, armas e violência nas escolas, etc…) que potencializam tais horrores são, de alguma forma, construídas e compartilhadas por todos. Quando terríveis massacres como o do Realengo, ainda que raros, começam a se repetir pelo mundo, tem-se o desenho de um sintoma de mal estar civilizacional.

Comentários (2)

  • Lidia diz: 14 de abril de 2011

    Oi, Gunter, que belo texto sobre um tema tão duro e feio e triste. São importantes essas tentativas de buscar, se não compreender, ao menos elaborar acontecimento tão horrendo, e tu sempre vais com clareza ao coração da questão. Muito se tem escrito sobre, mas tem uma coisa que me intriga. Ninguém fala sobre o que teria sido a vida desse infeliz. Parece que a sociedade, nesses momentos, encontra uma Geni, para se depurar da sua própria podridão e incompetencia para tentar evitar esse tipo de horror, cultivando valores mais humanos e solidários, plantando mais compaixão pelos fracos no coração das nossas crianças e dos jovens. O que se sabe dele é que tinha uma mente frágil e desequilibrada, era o louco manso, era tímido e fechado, não tinha amigos, tinha comportamento considerado “esquisito”, era um “diferente”. Sabe-se também que sofreu bullyng no mesmo cenário onde explodiu sua loucura, que as meninas o rejeitavam, que os colegas chegaram ao ponto de enfíar seu corpo numa lata de lixo, era a figura do “courinho” da turma. E pelo visto, como se sabe que acontece nesses casos, a escola fez vistas grossas, os pais não ensinaram aos filhos que não se ri de pessoas diferentes, aos professores era mais comodo ignorar que auxiliá-lo na integração com os colegas, quem vai perder tempo com isso? Dá para imaginar as humilhações que esse infeliz sofreu por ser diferente e esquisito. Personificava a figura do perdedor, essa que a sociedade americana enxovalha nos filmes e na vida real. Triste herança da cultura americana com seus valores doentes, que agora chega aqui espirrando sangue por todo lado, dessa praga que é a cultura do vencedor x perdedor. É evidente que esse coitado, que não teve a sorte de nascer com um aparato mental perfeito, nem de ter o apoio familiar e o tratamento médico adequado a uma mente esquizoide, teve o que restava de humano dentro dele demolido pelos valores equivocados que andam por aí. Ele poderia continuar a ser o louco manso e tímido que era, mas restou ao abandono e à mercê da própria revolta e do desejo de desforra. Na sua mente distorcida e sofrida, encontrou a glória do vencedor no ato horrendo e injustificável que cometeu. O espaço vazio deixado pelas instituições que deveriam protegê-lo da própria loucura, todos nós, a sociedade, os governos, a escola, a família, foi preenchido pelo que existe de pior. E agora, transpassada pela dor e a culpa pelas crianças que se foram, muito mais vítimas dos nossos valores deturpados do que do assassino, vítima ele também, nos fazemos de inocentes e crucificamos o desgraçado. É mais fácil do que reconhecer que é preciso dizer não a mentalidades e valores dementes que nos acostumamos a cultivar. É muito trabalhoso transformar, que preguiça… Então, joga bosta na Geni!

  • Francisco Bendl diz: 14 de abril de 2011

    Inúmeras teorias surgiram sobre as causas do assassinato das crianças na escola, no Rio, e outras vão ainda ser apresentadas. Todas terão dito um pouco a respeito da dimensão extraordinária deste episódio. A soma dessas teses será um apanhado vasto e complexo de razões que precisarão ser estudas intensamente, mas não iremos obter conclusões definitivas, pois o crime brutal e inesquecível cometido deveria nos conduzir para uma viagem dentro de cada um de nós.
    O meu pensamento referente à questão diz que o doente mental e criminoso é produto de uma sociedade doente. A saúde mental do povo brasileiro está enferma!
    A agressividade cresce em proporções nunca vistas e em todos os níveis sociais; eu resgato que o sintoma mais contundente do que afirmo está no trânsito e suas carnificinas a cada fim de semana, uma demosntração explícita de comportamentos alterados e perturbados; os estádios de futebol são ringues onde as torcidas adversárias exorcisam seus demônios; a má educação impera em qualquer âmbito; o desrespeito virou característica; a violência desmedida em crimes diários cometidos no país sem a divulgação que a morte das crianças trouxe à mídia, mas, mesmo assim, importantes pela soma de pessoas mortas nas grandes cidades através de homicídios causa perplexidade; o consumo desenfreado de drogas; o alcoolismo que tem levado milhares de pessoas à condição de dependentes tão ou mais que o vício pelos entorpecentes; comportamentos dissimulados pelas conveniências; a luta incessante para se conquistar um espaço; a busca árdua de meios para se sobreviver; as frustrações decorrentes de uma vida sem maiores confortos ou bens materiais; os transtornos obsessivos compulsivos, esquizofrenias, paranóias, neuroses, fobias – por favor, vamos e venhamos, que estamos enfrentando situações que não temos condições de sair ilesos de suas consequências!
    Ora, diante desta avalanche de acontecimentos que confeccionam um tecido social absolutamente perturbado e desorientado, as maiores vítimas seriam os nossos filhos!
    Ou estamos pensando que eles sairiam incólumes diante dessas pressões? De verem todos os dias esta agressividade e sofrerem também esta violência galopante, agora manifestada nas escolas que frequentam com a denominação de bullying? Nada mais nada menos que os reflexos que autoridades, amigos, colegas, vizinhos e os próprios pais demonstram com seus comportamentos exaltados e muitas vezes incontroláveis e injustificáveis?
    Se o ritmo que a vida hoje impõe para que possamos dar conta dos compromissos assumidos determinou que não mais acompanhamos o desenvolvimento mental de nossos filhos, que não temos mais tempo para transmitir valores e princípios – mesmo porque seria hipocrisia pelo comportamento que adotamos, ou seja, de nada adianta pedirmos para que as crianças não fumem e gastamos o último centavo para comprar um cigarro avulso; de mandar que não bebam, mas os fins de semana são destinados para grandes porres; de dizer para os filhos que devem respeitar as esposas e, no entanto, as relações extramatrimoniais são constantes -, mas tão somente INFORMAÇÕES, queríamos o quê?
    Que as crianças fossem os exemplos do que não somos?
    Que nós conseguiríamos protegê-las de nós mesmos?
    Que são os pais muitas vezes os maiores causadores de distúrbios na vida de uma pessoa quando atinge a vida adulta pela forma desprezível como foi tratada?
    Que os postos de saúde fervilham de pessoas que buscam com os médicos receitas para poder comprar medicamentos que as façam dormir ou se desligarem das realidades que as cercam?
    Como conviver em paz com tantos obstáculos a nos exigir comedimento e bom senso, calma e sensatez?
    E não vou acrescentar os exemplos absolutamente imorais que as nossas ditas autoridades nos contemplam todo o santo dia, pois eu mesmo já estaria excedendo os motivos para explicar a crueldade do feito neste assassinato.
    Por último, precisamos meditar e concluir que precisamos de ajuda. Temos que rever comportamentos e atitudes. Necessitamos tratar as nossas mentes que estão em frangalhos e confusas e, desta maneira, estamos influenciando os nossos filhos, que estão levando para dentro das salas de aulas o mesmo tipo de conduta nossa no emprego, nas ruas, nas reuniões, em casa, no trânsito, nos parques, nas relações pessoais, na manutenção das amizades e até mesmo no modo como tratamos as nossas mulheres, mães dos nossos filhos, e elas aos seus maridos, pais deles.
    Quanto às autoridades e suas responsabilidades constitucionais, somos abandonados à própria sorte: a educação está um caos; a saúde da população em estado deplorável, a segurança, simplesmente inexistente.
    Para completar, o salutar “bate papo” foi substituído pelo pelo celular; os “amigos” são obtidos através dos serviços Facebook, Orkut e outros mais. O uso indiscriminado e sem controle pelos pais que permitem as crianças ficarem em frente ao computador por horas a fio, permitem-me afirmar que a Internet é o instrumento mais pernicioso que existe para retirar alguém do convívio social, e impedi-la, com o tempo, de elaborar pensamentos próprios e trazendo para ela prejuízos incalculáveis à formação de sua personalidade.
    Parabéns, professor, pelo seu texto que nos remete pensar que se a vida é uma espécie de filme, inegavelmente estamos sendo meros figurantes em películas de horror, de mortes e assassinatos, miséria e corrupção, imoralidades e violências, vícios e irresponsabilidades de toda a ordem.
    E ainda pensamos que estamos bem?

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