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Mais uma lei esdrúxula que pretende defender nossa cultura

23 de abril de 2011 3

O grande efeito prático dessa lei que pretende proteger a língua portuguesa na República Sub-Sulina, recentemente aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, foi chamar a atenção para a dimensão caricata do mandato do Deputado Carrion, o que é uma pena, vez que se trata de um dos nossos mais diligentes e criaivos deputados. Já que o Parlamento deve democraticamente representar todos os segmentos da sociedade, é natural que haja entre os parlamentares um deputado cuja concepção de cultura tenha se fossilizado no mundo pré-queda do Muro de Berlim e que, ainda por cima, cometa a extraordinária incoerência, como bem lembrou o Cláudio Moreno na Zero Hora de hoje, de encampar pela esquerda bandeiras que na Europa são desfraldadas pela extrema direita.

Todavia, ainda mais inquietante do que isto, como registrou o nosso querido Vereador Adeli Sell, é perceber que outros 25 deputados acompanharam o voto do Sr. Carrion! Isso chama a atenção, mais uma vez, para a decadência do Parlamento gaúcho, que vem se preocupando com questões periféricas e abraçando debates perfunctórios, quando deveria estar se dedicando aos interesses reais dos gaúchos. Se os parlamentares não entendem nada de Cultura, deveriam estar se preocupando em consolidar interlocuções com quem entende. Usar o seu poder para cinzelar ignorância é passar atestado de incompetência.

A ideia de proteger a língua portuguesa do assédio de modismos e estrangeirismos, em princípio, não é má. É até generosa e reveladora de legítimo enlevo nacionalista. Todavia, a forma adotada não poderia ser mais inconveniente e anacrônica.

A lei, antes de qualquer coisa, é obviamente inconstitucional. Cabe ao Parlamento brasileiro legislar sobre a nossa língua. E fim de papo!

Em seguida, registre-se que qualquer pessoa que entenda minimamente de cultura e linguística afiançará que uma língua não pode ser regulada por decreto, pois ela é um organismo vivo, permanentemente maleável, adaptável. Isto vale tanto mais para a cultura brasileira, que sempre se caracterizou e se diferenciou pelo seu extraordinário poder hibridizante. Se há algo que nos torna uma nação única no mundo, com um elemento altamente revolucionário e positivo, é exatamente nossa capacidade de miscigenação biológica e cultural, como já registraram com pertinência Oswald de Andrade, Gilberto Freyre e Stefan Zweig, entre outros. A lei do Dr. Carrion, portanto, nega o Brasil, ofende nossa cultura, agride nossa maior riqueza, que repousa sobre a lógica da adaptabilidade, da tolerância, da miscigenação, caminhando no sentido diametralmente oposto ao da utopia eugenista e exclusivista, apanágio da extrema direita de ontem e de hoje.

Disso não se depreende que devamos ser ingênuos e abdicar de nossa cultura e identidade. Claro que não! Não foi isso o que Oswald e Freyre defenderam. Eles professaram a nossa capacidade antropofágica, isto é, absorver elementos do exterior sem violentar a nossa identidade, mas fundindo-a permanentemente ao novo e ao exótico. Então, seria razoável prever estratégias de afirmação da nossa identidade num contexto de capitalismo cultural hegemônico que nos empurra enlatados USA goela abaixo diariamente. Até porque tem por aí um monte de gente que adora macaquear acriticamente. O cara que estampa numa vitrine “Off” ou “Sale” ao invés de “liquidação” não consegue ser nada além de um grande imbecil.

Como então expor esta imbecilidade e defender a cultura brasileira? Por uma esdrúxula e autoritária pretensão de regular a vida cotidiana? Constrangendo os usos e costumes? Aleijando a liberdade de escolha das pessoas? Sufocando a liberdade de expressão? Claro que não, né mané!

Um dos maiores crimes que o regime militar cometeu contra a cultura brasileira foi a pretensão de desumanizar a educação, para que os alunos tivessem mais acesso a ferramentas supostamente técnicas. Foi na esteira desse equívoco que se baniu a poesia das escolas. Até então, a poesia ocupava uma centralidade estratégica na cultura brasileira, desconhecida em países sem molejo e sem ziriguidum, como os EUA. Prova disso é que até mesmo a geração rock dos anos 1980 tinha qualidade poética. Porque estiveram em contato, ainda, com a poesia nas escolas e nos lares. A minha geração já é poeticamente analfabeta. Uma das consequências disso é a morte da canção. Se antes tínhamos um Renato Russo, um Cazuza, hoje temos Restart e CPM 22 ou 23, sei lá.

Então, Dr. Carrion, prezados Deputados, se os senhores quisessem fazer algo pela nossa língua, se desejassem valorizar o seu mandato, honrar os salários que pagamos a vocês, poderiam ter editado uma lei que determinasse a volta da poesia aos currículos escolares. Sem poesia, uma língua não se sustenta.

Para além disso, noto que a Assembleia distribuía , no passado, bolsas a artistas e a escritores. Esta é uma prática que, sem dúvida, não se sustenta mais nos tempos atuais, por vários motivos. Todavia, esta mesma Assembleia desperdiça dinheiro público com uma relação sem fim de idiotias, bastando para isso apontar o patético galpão crioulo, verdadeiro peru em pires, construído onde antes ficava o jardim interno de um prédio com valor arquitetônico e histórico. Quem precisa dessa baboseira? Quanto custou isso? Donde se conclui, por óbvio, que os nobres deputados estariam demonstrando melhor compromisso com a cultura gaúcha se destinassem a verba que consomem com besteiras para, por exemplo, reforçar o plano de publicações de IEL. Sim, porque outra maneira de defender uma língua é incentivar a publicação de bons textos, apoiar a produção dos escritores e intelectuais locais e facilitar a distribuição de livros. E, afinal, as bibliotecas de nossas escolas estão absolutamente carentes de livros para seus alunos. E, por falar nisso, como anda o plano de publicações que a própria Assembleia promoveu no passado? Morreu?

Portanto, é uma pena que com tantas coisas boas que poderiam ser feitas continue-se gastando tempo e recursos preciosos com estultices.

Comentários (3)

  • Abreu diz: 23 de abril de 2011

    Meus parabéns,excelente texto, uma colocação, que os que ainda tem bom senso (ñé o caso dos deputados do RS) aplaudem e assinam embaixo,junto com o cronista. Que deputados são esses que,até eu um pobre ignorante sabe que esses tipo de Leis absurdas,por sinal, só podem partir do parlamento brasileiro,lá em Brasilia,que tbm tem seus idiotas e alguns palhaços,hoje bem representados pelo tiririca,costumam criar,principalmente partindo dos representantes da quadrilha do pt e seus “apoiadores”, refiro-me a partidinhos fantoches,que nem vou mencionar pois a lista é grande.Mas…enfim alguém tem que colocar esses comunistas de carteirinha nos eixos, breve não teremos nem direito de nos expressar em nossas opiniões em veiculos da imprensa,como estou no momento fazendo. Já não temos o direito da legitima defesa,porém os bandidos os tem,ou estou enganado. Parabéns mais uma vez!!

  • Francisco Bendl diz: 24 de abril de 2011

    Em tese, os partidos de esquerda dizem ser defensores do povo, de suas culturas, tradições, de melhoria de vida, de inclusão social, de cidadania, aquela lenga lenga que já estamos acostumados e sabedores que não passam de conversa mole. Mas ainda atraem boa parte da população, que não possui condições de confrontar a retórica com a prática, ou a promessa com a realização.
    A verdade é que a intenção é justamente deixar o povo sem maiores conhecimentos, dependente dos “formadores de opinião” sectários ou ideólogos arraigados a um tipo de regime político utópico.
    Vivemos a era da globalização, quer a esquerda ou não; a comunicação através da mídia, empresarial, a propaganda, os meios existentes de divulgação usam expressões estrangeiras, e quanto mais o brasileiro se acostumar com elas melhor, mesmo porque ele vai precisar traduzir o significado daquela palavra, precisará pesquisá-la, de modo que possa utilizá-la adequadamente.
    Mas não é de bom alvitre que tenhamos intimidade com dicionários, com livros, com culturas diferentes, pois a curiosidade aumenta o conhecimento, as idéias se ampliam, os horizontes se tornam mais largos e, os questionamentos, então, podem começar a surgir.
    E, certamente, não deve ser uma tarefa cômoda explicar o socialismo, o comunismo, que o deputado autor desta lei é seguidor.
    Afinal de contas, os países (ainda bem que raros) que implantam esses modelos retrógrados e de privações da liberdade não dão valor algum ao ser humano, pois o regime é mais importante; o Estado predomina sobre o cidadão, tolhendo-lhe o ir e vir, o livre pensar, suas crenças, suas individualidades; não existem garantias civís, e a forma mais prática de resolver o descontentamento por parte das “autoridades” ILEGALMENTE constituídas é o fuzilamento, enforcamento, e outras práticas nada agradáveis.
    A China está aí, como exemplo. Um regime de governo excessivamente arbitrário, forte, que não concede ao povo maiores poderes de manifestação, no entanto, um país de esquerda!
    Cuba, que alguns dirigentes partidários brasileiros fazem questão de beijar a mão de um títere, aniquila simplesmente os que são contrários ao regime castrista. E, o povo cubano, vive na miséria, sem acesso à tecnologia, ao conforto, a sair de sua ilha.
    Portanto, esta lei traz consigo não a defesa do idioma português, mas a manutenção de sistemas que impedem nós olharmos o que se passa no resto do mundo, nos outros países.
    O povo brasileiro só precisa seguir as orientações de políticos comprometidos consigo mesmos e com um grupelho que quer se eternizar no poder. Ou alguém já pensou sobre o que adianta esta “lei” se as escolas públicas continuam um caos?
    Não seria mais importante uma educação que se alongasse e se estendesse para outros idiomas, modos e costumes de outras nações?
    Por acaso o comunismo é brasileiro? Um regime efetivamente nacional?
    Claro que não! Então por que o deputado não o abandona e escolhe um regime que seja de fato brasileiro, genuinamente nacional?
    Um modo de governar de acordo com as nossas características, tradições, cultura e história?
    Por que a importação de sistemas que já se viu ao longo do tempo que faliram e não realizaram absolutamente nada daquilo que prometiam ao povo, a não ser que os seus dirigentes enriqueceram às custas da sofrida população?
    Sem quere fugir do assunto, mas esses “comunistóides” são tão inconvenientes e ao mesmo tempo tão insidiosos e manipuladores, que eu já li vários comentários de jornalistas e escritores acusando o capitalismo como o maior culpado pelo crime no Rio, aquele que várias crianças foram assassinadas por um doente mental!
    Os caras são espertos e antenados para se encaixarem entre a insatisfação popular e seus desejos de mudança, notadamente contra o governo, ainda mais neste caso, que a insegurança e o contrabando de armas têm a sua parcela de responsabilidade pelo lamentável fato.
    Mas a hipocrisia caminha ao lado deles, haja vista que o governo brasileiro é de esquerda, então, temos uma demonstração indiscutível do quanto socialistas e comunistas se importam conosco nas áreas de educação, segurança e até mesmo saúde!
    Mas a defesa do idioma é imprescindível!
    Ora, deputado, o senhor prova de forma hilária e grotesca que também não deveria ser um representante com cadeira no parlamento brasileiro e gaúcho, haja vista que este idioma que o senhor quer tanto “proteger” também não é nosso e, sim, de um país além mar!
    Quer manter o nosso idioma?
    Voltemos todos às salas de aulas ou para as ocaras indígenas para aprendermos a língua Tupi!

  • Fabricio diz: 30 de abril de 2011

    Incrível, ótimo texto! Meus parabéns, atualmente é extremamente difícil encontrar um pensador e formador de opinião tão livre de partidarismos, comprometido com nossa democracia e proposto a refletir sobre a (não)atuação de nossos políticos.

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