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Posts de abril 2011

Site do Memorial do Ministério Público de Santa Catarina

28 de abril de 2011 0

Compartilho aqui com vocês o link para o site do Memorial do Ministério Público de Santa Catarina, projeto que estou ajudando a implantar.

Picaretagem na praça: a "notificação" para juizado de conciliação arbitral de um tal Semapirgs

24 de abril de 2011 7

Nos últimos dias, pequenos empresários de Porto Alegre têm recebido uma correspondência sacana, que se intitula “notificação” e se afirma “urgente”. Ela convoca os dirigentes das empresas para uma audiência de conciliação com um tal SEMAPIRGS num Juizado Arbitral, localizado na Avenida Borges de Medeiros, 328, conjunto 51, Centro. A pendência remete-se a um suposto débito relativo à contribuição sindical.

Bom, vamos por partes, como diria o Jack. O tal sindicato é SEMAPIRGS, e não SEMAPI RS, que é outra coisa. O nome parecido serve para confundir com uma instituição já existente e consolidada, sendo que a tal reclamante, ao contrário do SEMAPI, nem página na Internet tem.

Em segundo lugar, esse tal Juízo Arbitral, amparado na Lei 9.307/96, não é órgão integrante do Poder Judiciário. Não é nem mesmo um Juizado Especial. Trata-se de uma “justiça” privada que só passa a ter alguma validade se o “notificado” comparecer à audiência e assinar um termo de adesão.

Para além disso, esse troço aí de Juizado Arbitral privado tem grandes chances de ser inconstitucional, pois fere o princípio da inafastabilidade do controle judicial, compromete a garantia ao processo legal, e violenta o princípio da ampla defesa a da dupla instância no julgamento.

Ora, a tal “notificação” é um baita 171. Tipo assim, picaretagem mesmo. Um jeito de arrancar uns pilas de eventuais desavisados. Então, gente, se você receber esta correspondenciazinha, amasse-a e jogue-a fora, pois, na cesta do lixo ela tem sua efetividade imediatamente cancelada!

Mais uma lei esdrúxula que pretende defender nossa cultura

23 de abril de 2011 3

O grande efeito prático dessa lei que pretende proteger a língua portuguesa na República Sub-Sulina, recentemente aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, foi chamar a atenção para a dimensão caricata do mandato do Deputado Carrion, o que é uma pena, vez que se trata de um dos nossos mais diligentes e criaivos deputados. Já que o Parlamento deve democraticamente representar todos os segmentos da sociedade, é natural que haja entre os parlamentares um deputado cuja concepção de cultura tenha se fossilizado no mundo pré-queda do Muro de Berlim e que, ainda por cima, cometa a extraordinária incoerência, como bem lembrou o Cláudio Moreno na Zero Hora de hoje, de encampar pela esquerda bandeiras que na Europa são desfraldadas pela extrema direita.

Todavia, ainda mais inquietante do que isto, como registrou o nosso querido Vereador Adeli Sell, é perceber que outros 25 deputados acompanharam o voto do Sr. Carrion! Isso chama a atenção, mais uma vez, para a decadência do Parlamento gaúcho, que vem se preocupando com questões periféricas e abraçando debates perfunctórios, quando deveria estar se dedicando aos interesses reais dos gaúchos. Se os parlamentares não entendem nada de Cultura, deveriam estar se preocupando em consolidar interlocuções com quem entende. Usar o seu poder para cinzelar ignorância é passar atestado de incompetência.

A ideia de proteger a língua portuguesa do assédio de modismos e estrangeirismos, em princípio, não é má. É até generosa e reveladora de legítimo enlevo nacionalista. Todavia, a forma adotada não poderia ser mais inconveniente e anacrônica.

A lei, antes de qualquer coisa, é obviamente inconstitucional. Cabe ao Parlamento brasileiro legislar sobre a nossa língua. E fim de papo!

Em seguida, registre-se que qualquer pessoa que entenda minimamente de cultura e linguística afiançará que uma língua não pode ser regulada por decreto, pois ela é um organismo vivo, permanentemente maleável, adaptável. Isto vale tanto mais para a cultura brasileira, que sempre se caracterizou e se diferenciou pelo seu extraordinário poder hibridizante. Se há algo que nos torna uma nação única no mundo, com um elemento altamente revolucionário e positivo, é exatamente nossa capacidade de miscigenação biológica e cultural, como já registraram com pertinência Oswald de Andrade, Gilberto Freyre e Stefan Zweig, entre outros. A lei do Dr. Carrion, portanto, nega o Brasil, ofende nossa cultura, agride nossa maior riqueza, que repousa sobre a lógica da adaptabilidade, da tolerância, da miscigenação, caminhando no sentido diametralmente oposto ao da utopia eugenista e exclusivista, apanágio da extrema direita de ontem e de hoje.

Disso não se depreende que devamos ser ingênuos e abdicar de nossa cultura e identidade. Claro que não! Não foi isso o que Oswald e Freyre defenderam. Eles professaram a nossa capacidade antropofágica, isto é, absorver elementos do exterior sem violentar a nossa identidade, mas fundindo-a permanentemente ao novo e ao exótico. Então, seria razoável prever estratégias de afirmação da nossa identidade num contexto de capitalismo cultural hegemônico que nos empurra enlatados USA goela abaixo diariamente. Até porque tem por aí um monte de gente que adora macaquear acriticamente. O cara que estampa numa vitrine “Off” ou “Sale” ao invés de “liquidação” não consegue ser nada além de um grande imbecil.

Como então expor esta imbecilidade e defender a cultura brasileira? Por uma esdrúxula e autoritária pretensão de regular a vida cotidiana? Constrangendo os usos e costumes? Aleijando a liberdade de escolha das pessoas? Sufocando a liberdade de expressão? Claro que não, né mané!

Um dos maiores crimes que o regime militar cometeu contra a cultura brasileira foi a pretensão de desumanizar a educação, para que os alunos tivessem mais acesso a ferramentas supostamente técnicas. Foi na esteira desse equívoco que se baniu a poesia das escolas. Até então, a poesia ocupava uma centralidade estratégica na cultura brasileira, desconhecida em países sem molejo e sem ziriguidum, como os EUA. Prova disso é que até mesmo a geração rock dos anos 1980 tinha qualidade poética. Porque estiveram em contato, ainda, com a poesia nas escolas e nos lares. A minha geração já é poeticamente analfabeta. Uma das consequências disso é a morte da canção. Se antes tínhamos um Renato Russo, um Cazuza, hoje temos Restart e CPM 22 ou 23, sei lá.

Então, Dr. Carrion, prezados Deputados, se os senhores quisessem fazer algo pela nossa língua, se desejassem valorizar o seu mandato, honrar os salários que pagamos a vocês, poderiam ter editado uma lei que determinasse a volta da poesia aos currículos escolares. Sem poesia, uma língua não se sustenta.

Para além disso, noto que a Assembleia distribuía , no passado, bolsas a artistas e a escritores. Esta é uma prática que, sem dúvida, não se sustenta mais nos tempos atuais, por vários motivos. Todavia, esta mesma Assembleia desperdiça dinheiro público com uma relação sem fim de idiotias, bastando para isso apontar o patético galpão crioulo, verdadeiro peru em pires, construído onde antes ficava o jardim interno de um prédio com valor arquitetônico e histórico. Quem precisa dessa baboseira? Quanto custou isso? Donde se conclui, por óbvio, que os nobres deputados estariam demonstrando melhor compromisso com a cultura gaúcha se destinassem a verba que consomem com besteiras para, por exemplo, reforçar o plano de publicações de IEL. Sim, porque outra maneira de defender uma língua é incentivar a publicação de bons textos, apoiar a produção dos escritores e intelectuais locais e facilitar a distribuição de livros. E, afinal, as bibliotecas de nossas escolas estão absolutamente carentes de livros para seus alunos. E, por falar nisso, como anda o plano de publicações que a própria Assembleia promoveu no passado? Morreu?

Portanto, é uma pena que com tantas coisas boas que poderiam ser feitas continue-se gastando tempo e recursos preciosos com estultices.

Gramado entupida

22 de abril de 2011 2

Se você aí ainda pensa em vir no feriadão para Gramado, pense duas vezes, pelo menos. A cidade está lotada! Entupida! O trânsito está uma droga. Paralisado. Os restaurantes estão impenetráveis, de tanta gente. Para chegar aqui, ontem, já enfrentei engarrafamentos desagradáveis na BR 116. Bem, são os efeitos do crescimento do PIB em 2010. Mas Gramado precisará fazer algo, caso deseje preservar algum estilo. Se a cidade for convertida em destino para o turismo de massas, antigos veranistas ou turistas mais exigentes vão debandar. Dizem que o rodoanel, cuja construção nunca termina, irá solucionar o problema. Talvez. Mas creio que tenha chegado a hora de se revisar algumas estratégias da cidade. A Páscoa tradicionalmente atraiu turistas para Gramado. É assim há décadas. Precisa agora colocar um ridículo desfile de coelhos no centro? Por que esta emulação sem fim do kitsh? Para seduzir a classe média emergente que pensa que cultura é Disneylândia? Ora bolas, já que Gramado atrai tanta gente, deveria estar preocupada em promover atrações mais elaboradas, como concertos de orquestras de câmara nas praças e igrejas, ou uma opereta no palácio dos festivais, quem sabe… Além disso, em feriados como este, poder-se-ia limitar o acesso de veículos na área central. Claro, seria necessário instalar um melhor sistema de transporte público. Quem está nos Bairros Bavária, Planalto, Lago Negro, por exemplo… e deseja ir ao centro, só o pode fazer a pé, de bicicleta ou de carro. Não dá para pensar numa linha de taxi-lotação?

Um Mc Donald's decadente

22 de abril de 2011 3

Nesta quarta-feira, véspera de feriado, eu me deslocava pela Avenida Ipiranga, em Porto Alegre, por volta das 19 hs, tentando chegar a um compromisso na Chácara das Pedras. Era tanto o congestionamento que resolvi dar uma parada no Mc Donald’s da Silva Só. A ideia me pareceu boa, pois, assim, eu lancharia alguma coisa, enquanto o trânsito desembuchava um pouco. Já que me atrasaria de qualquer jeito para o compromisso em tela, era preferível fazer uma refeição mais cedo, mesmo sendo um troço fast, do que lá pelas 22 horas, quando eu conseguiria me liberar. Não gosto de jantar tarde.

A razão de existir do Mc Donald’s é a combinação de preço acessível com agilidade no atendimento. Não fosse isso, o Mc Donald’s poderia fechar as suas portas, sobretudo numa cidade como Porto Alegre, onde as opções de sanduíches são diversas e muitíssimo melhores do que qualquer coisa que o Mc Donald’s possa oferecer. Todos sabem, afinal, da tradição que Porto Alegre tem na confecção de ótimos lanches. Ao lado do churrasco, é um dos tradicionais destaques da gastronomia local… Embora muitos prefiram não reconhecer sanduíches como gastronomia, eu o faço.

Claro, o Mc Donald’s também agrega valor pelo ambiente, padronizado (!) e asséptico, funcional. E empolga o coraoçãzinho das crianças com aquela overdose de bolinhas coloridas, palhaços e uma forte propaganda. Admitamos, assim, que há muito de entusiasmo infantil, influenciado pela publicidade, no desejo de consumir Mc Donald’s.

Mas fiquei passado logo na chegada. O sanitário parecia um banheiro de rodoviária de beira de estrada. Detonado! Torneira estragada, azulejo quebrado, toalheiro destroçado….uma porquice. Resolvi insistir, depois de lavar as mãos com certo constrangimento, e fui fazer meu pedido. Aí fiquei chocado! No horário de pico, das quatro caixas, funcionavam apenas duas! As atendentes eram lerdas, digitavam no computador como se estivessem catando milho. As pessoas lesadas que transformavam o seu pedido numa novela mexicana, em total desconsideração com quem estava atrás na fila, pioravam a situação. Eu falei em fila? Sim, gente, imensa! Umas oito pessoas por caixa. O negócio não andava. Depois de dez minutos coalhando ali como um otário, resolvi cair fora, até porque tudo indicava pelo menos mais um cinco minutos daquele suplício inaceitável. Eu estava diante de uma conspiração. A negação de tudo o que o Mc Donald’s sempre fora!

Lembro quando o Mc Donalds surgiu num Brasil de economia ainda fechada e periférica, na passagem de 1979 para 1980. Virou ponto turístico no Rio de Janeiro e em São Paulo. A gente, que morava numa cidade tão “pequena e tão distante das capitais” morria de inveja e sonhava com um improvável dia em que Porto Alegre teria também um Mc Donald’s. Tratava-se de um ícone. Tanto que tinha uma gente sem noção que fazia protestos, também infantis, em frente ao Mc Donald’s, tipo, para “combater o imperialismo norte-americano”. Nem faz muito tempo que esta palhaçada aconteceu: ou vocês já esqueceram daquela figura bigoduda de um tal Bové no primeiro Fórum Social Mundial em Porto Alegre? Na oportunidade, o Mc Donald’s foi alvo de protestos anti-imperialistas. Pode?!!? Sim, mas era assim! Uns amavam a lanchonete, os outros a combatiam furiosamente. Não pela eventual qualidade da comida ou do serviço, mas pela suposta condição de símbolo do capitalismo americano.

Quando a rede começou a se expandir pelo Brasil, alguns anos depois, tinha-se a garantia de um serviço perfeito e padrão, sempre!! Eu creio que a matriz deveria dar umas incertas para fiscalizar o funcionamento das franquias. Era uma receita de sucesso e de eficiência! O mesmo serviço, o mesmo sanduíche, no Brasil e em qualquer parte do mundo.

É por isso que encontrar o Mc Donald’s da Silva Só detonado e com um serviço inacreditavelmente lento é chocante. Faz-me imaginar que a fiscalização da matriz sobre as franquias arrefeceu. Será que isto é um indicativo de que a crise do capitalismo americano é ainda mais profunda do que parece e até o Mc Donald’s está decadente? O que teremos agora? Cadeias de lancherias fast com rolinhos primavera e pedacinhos de patos laqueados, ao estilo chinês?

Na saída, contrariado, perguntei a uma das atendentes o porque daquela fila absurda, o porque das caixas não estarem funcionando: “esse é o nosso movimento”, disse-me ela entre surpresa e incomodada  com minha pergunta, indicando que as coisas por ali eram sempre daquele jeito.

Fui, então, ao Trianon da Protásio Alves. Precisei contornar a dificuldade de estacionar perto do local, mas ao entrar na lancheria fui prontamente e gentilmente atendido. O tradicional bauru foi servido rapidíssimo, mal deu tempo de lavar as mãos. E estava perfeito! O bife macio e suculento. Um sanduíche de verdade e certamente mais saudável e saboroso do que os servidos pelo Mc Donald’s, que agora, nem mais fast é.

Redenção, site e portal

21 de abril de 2011 0

Nos últimos dias, estive envolvido direto com o lançamento do meu último livro, que saiu pela Editora Paiol, sobre o Parque da Redenção em Porto Alegre. Encantou-me a receptividade que a obra tem alcançado. O lançamento foi concorrido: uma bonita festa oferecida junto ao espelho d’água do parque por um dos patrocinadores do livro, a Souza Cruz. Concedi diversas entrevistas. No programa da Katia Suman, o Camarote TV Com, na terça-feira, conheci o pessoal do adorável projeto Redenção CC, cujo portal interativo é o máximo! Hoje recebi também pelo meu site pessoal um gentil contato do jornalista Luiz Timotheo, que mantém um site pioneiro sobre o Parque da Redenção, com informações e imagens preciosas. Vale conferir!





Lançamento livro Redenção. Foto Luiz Timotheo




Com amigos, foto Clleber Passus



Com o Prefeito José Fortunati. Foto Ricardo Giusti, PMPA





Redenção - Histórias de Porto Alegre

16 de abril de 2011 2

Neste domingo tem lançamento o livro Histórias de Porto Alegre: o Parque Farroupilha/Redenção, cuja autoria compartilho com o saudoso Moacyr Scliar. O livro ficou bem bacana. Tem belo tratamento gráfico do Alex Medeiros, farta iconografia antiga e ensaios fotográficos recentes de Eurico Sallis, Achutti, Flávio Wild, Dulce Helfner, Pedro Longhi e Adriana Donato. É o segundo livro editado pela Paiol, editora surgida em setembro último. Na Zero Hora de hoje, tem uma boa matéria a respeito.

Werner Herzog na Cult

14 de abril de 2011 0

Está imperdível a entrevista do cineasta alemão Werner Herzog, que estará palestrando em maio em São Paulo, à revista Cult desse mês. Confira aí.

Tiros em Realengo, horrores de Quaresma

14 de abril de 2011 2

Quando vi “O Albergue”, produção de 2006, decidi que não mais assistiria aos filmes de Quentin Tarantino. Eu gostava dele. “Cães de aluguel” é bem bom; “Pulp fiction” é um dos marcos da estética da virada do milênio; e até Kill Bill é passável, pois, apesar do estúpido enredo, encerra uma poética magnética. Mas “O Albergue” era simplesmente banalização e glamourização da violência, como fim em si mesma, celebração de uma aberração.

Próprio do gênero “terror”, me dirão os entendidos. Talvez. Jovem, fui bem mais aficionado por filmes de terror. Acho que acontece com todo o mundo. Por algum insondável motivo, na maior parte dos casos, a idade dissolve esse interesse, meio escatológico. “O Albergue” pode me ter explicitado isso. Mas, ao mesmo tempo, parecia haver algo mais inquietante no filme de Tarantino…

O Freddy Krugger exprime uma violência mecânica, mas é também patético e ridículo. Ele mais enfada ou provoca risos do que assusta. O Jason Vorhees é piada ainda maior, feita para eletrizar a ambiência desses acampamentos de férias para adolescentes, um desses hábitos meio babacas que os americanos tanto apreciam. Aliás, de tão idiota, no 12º “Sexta-feira 13”, Jason e Freddy se encontram: não podia ser diferente!

Já um “The evil dead” funciona um pouco melhor. Esse filme de 1981 não lucrou nem perto os 500 milhões de dólares da série (já meio zumbi) “Sexta-feira 13”, mas seduz pela iluminação rústica e contrastada, na base de faróis de automóveis, o que confere tensão à trevosa cabana abandonada no meio de uma floresta do Tennessee, onde a história de cinco jovens desavisados (sim, sempre eles!) se desenrola.

Foi um choque. Para quem não é lá dos jurássicos anos 1980, foi proibido em vários países, como Finlândia, Irlanda, Islândia e Alemanha. Na Alemanha, depois de dez anos, permitiu-se a exibição de uma cópia editada. Mas, enquanto isso, numa época ainda pré-Internet, circulava com grande sucesso pelo mercado negro. Até que a turma da censura jogou a toalha e autorizou o lançamento do filme em DVD, em 2001, sem cortes.

Mas o mal ali ainda tinha uma origem: antigo, manifestava-se por meio de um livro sinistro, encadernado com pele humana, que fora descoberto por um arqueólogo, misteriosamente desaparecido. Com uma origem, não era gratuito.

No filme de Tarantino, o mal extremo está no prazer mórbido, sádico e hedonista. O mal não é remoto, antigo, nem sombrio. Não vem de outra dimensão, do passado, do futuro ou da alteridade. Ele está entre nós, é real, plausível, se mobiliza pela máfia, se realiza pelo dinheiro e se expressa nas fímbrias do mundo capitalista ocidental, acomodadas sobre os escombros ainda fumegantes da decrépita cortina de ferro. E, sobretudo, numa época de elisão das meta-narrativas, de pulverização do real, de liquefação dos valores e gaseificação do indivíduo, em Tarantino o mal emerge como a única coisa não difusa, como força sistemática, organizada: cheio de método, acontece numa fábrica!

Sob a gratuidade explícita e diante dessa incômoda racionalização, o precário enredo ainda aplica moralina. Dois pascácios são capturados pelo mal numa das mecas hedonistas a seduzir o imaginário juvenil – a Amsterdã, das drogas liberadas e da luz vermelha, reluzindo ali o pálido espectro da Contracultura redivivo na turbo-modernidade como mercadoria de consumo. Eles pagam um preço altíssimo por achar que poderiam curtir a vida enquanto viajavam, explorando alteridades. Tipo assim, “meninos, sufoquem os seus hormônios, nada de festanças e muito menos de viagens pelo mundo: não saiam da paróquia e da barra da saia das mães! On the road é o pesadelo!”. Ode conservadora que deve ter feito Tom Wolfe, no seu nojento terninho branco, dar pulinhos de excitação.

Diferentemente de um modesto cult movie série B dos anos 80, “O Albergue”, cuja produção custou quase 5 milhões de dólares, lucrou, só no primeiro fim de semana de exibição, naquela véspera de Páscoa de 2006, a bagatela de 71 milhões de dólares. De fazer inveja até mesmo a blockbusters como o indefectível Jason.

Dos oblíquos Jason e Freddy, criados por encomenda para expectadores pacóvios, passando pela anatematizada morte do demônio, chegamos naquela inusitada Quaresma, de internalização às avessas, quando o sadismo extremo foi pretensamente vertido em elegia estética, entronizando no coração da sociedade de massas a gratuidade da violência como totem a ser adorado. Que bela exortação ao sopeso da finitude individual com a transcendência da mensagem divina! Fractal distorcido, revelador de malefício deletério… Ahh, Moisés, como nos valem aqui teus 40 dias? Que passagem, que travessia…! Sim, foi muito rápido!

De pouco vale saber se foi o ovo ou a galinha quem veio antes; o quanto Tarantino captou e denunciou um novo fenômeno semiótico ou influenciou a sua reificação macabra. Talvez, e provavelmente, um pouco dos dois, já que é mais dialética do que se pensa à primeira vista a relação entre mídia e espectador.

Se o século XVIII descobriu a criança como categoria social, como propôs Philippe Ariès, e o século XIX descobriu o velho, como mostrou Simone de Beauvoir, a adolescência, como ensina Edgar Morin, se autonomizou como bio-classe nos anos 1960, encarnando, na esteira de Maio, um arquétipo fundado em toda sua pungência criativa, dinâmica, mas também contraditória, por Arthur Rimbaud, no último quartel do século XIX. Sim, eu é outro: o rapazinho foi muitos. O genial inventor da poesia moderna inovou em muitas frentes, tentando até fazer de si próprio uma obra de arte, projeto este concretizado por Andy Warhol, sofisticado pelo revolucionário David Bowie, pasteurizado por Michael Jackson e desovado na contemporaneidade pela vulgata mimética de Lady Gaga. Vivendo a boemia, temperada por ironia pesada, tremendo vinho, em suspensão até da higiene pessoal, Rimbaud, o andarilho, hippie seminal, transformou sua relação com o poeta Verlaine numa expressão da adolescência hegemônica: no affaire com um homem mais velho, era o menino o dominador. As temáticas revolucionárias, ecléticas, de sua literatura e vida influenciaram o âmago da Contracultura: de Patti Smith, a Jim Morrison e Bob Dylan, passando por Keruac, todos lhe renderam tributos. Linguisticamente inventivo, forjava palavras, produzia verbos, desdobrava sentidos. Fascinava-o o grotesco, naquilo que havia de exposição dos conflitos e contradições subjacentes ao mundo epidérmico.

Mas havia, também aí, algo de baboseira adolescente, uma escatologia que passou batida pela cultura pop do século XX, invocada, quando muito, como figura periférica, mas que agora, no universo turbo-capitalista, onde o pastiche da estética jovem pós-68 se fez soberano, emerge dominadora, transmutando-se em terror, cada vez mais sórdido e gratuito. Triste destino para o sétimo sonho do paraíso adolescente, lá por 1985 ecoado do gótico glam “Love and Rockets”, algo nostálgico, quando, mesmo making it new, como Ezra Pound receitara, ainda se acreditava no tempo embebido na contínua transformação cultural. Embora a modernidade, essa soma de destruições, conforme Picasso, já fosse ali divisada como amontoado de detritos, o novo seguia dialogando com o tempo, com a história.

Num mundo onde uma major star como Lady Gaga expõe-se seminua num aeroporto, ou recebe um prêmio vestida com retalhos de carne crua, apenas por já ter esgotado todas as outras formas de chamar a atenção, como reclama Camille Paglia, não admira que o detrito tenha saído debaixo do tapete, a escatologia ansilar seja celebrada e o terror gratuito tenha se tornado mainstream.

Mas era só o começo. Dentre a avalanche de filmes abomináveis que entorpecem o mainstream, cintila o passo para além de “O Albergue” dado em “O Procurado”, de 2008, estrelado por Angelina Jolie e Morgan Freeman. Um jovem sorumbático abre o filme queixando-se do vazio de sua vida, cuja expressão evidencia-se – sim, pasmem! – na ausência de qualquer referência ao seu nome no Google. Isto é, toda a sua definição como ser humano era externa, pautada pela popularidade virtual atestada pelo assim chamado oráculo pós-moderno. Mas ele seria “salvo”. Depois de seduzido e treinado por Jolie e sua irresistível boca, torna-se um habilidosíssimo assassino em massa, que mata pessoas como se fossem baratas, assepticamente, artisticamente. Sua masculinidade eclipsada pela cultura de classe-média que se seguiu à Revolução Industrial, como avalia Camille Paglia, poderia agora se desrecalcar pela explosão de violência. E não lhe faltariam referências no Google.

Andy Warhol celebrizou por máxima, no futuro todos teriam pelo menos quinze minutos de fama. Diagnóstico profético que ajuda a explicar os BBBobos e outros que tais. Mas nem mesmo a estrela mais pop da pop art poderia imaginar que nesse mesmo futuro cada vez mais as pessoas se sentiriam vivas somente se tivessem seus quinze minutos de fama. O que era possibilidade, tornou-se condição. Nicho perfeito para abrigar o liberou geral, pois para um indivíduo sem gravidade, na acepção de Jean-Pierre Lebrun e Charles Melman, sentir-se vivo e feliz, agora vale-tudo.

Talvez haja uma linha de transmissão direta entre a escatologia exibicionista de Lady Gaga (retendo do gênio Rimbaud o que ele tinha de mais tolo e periférico), o terror banalizado de Tarantino e a desesperada busca por popularidade do homem sem gravidade. A cultura jovem, fenômeno típico do século XX, soberana na contemporaneidade, passou a autoreferenciar-se de tal modo e foi de tal modo capturada pelo turbo-capitalismo de massas, que os detritos da modernidade tornaram-se mainstream. Como dinâmicas que se reforçam. E aí que uma aberração parricida como Suzane von Richthofen torna-se de certa forma sintomática.

Nesse contexto árido, parece plausível o personagem de um jovem afirmar-se assassino em série para dar sentido à sua vida e conquistar notoriedade, até porque dentre as recompensas está a Angelina Jolie, com ares de boneca inflável. Fundamentalistas islâmicos e terroristas prometem ao mártir redenção após a morte num paraíso repleto de virgens. Nós, no democrático Ocidente, somos mais modestos: oferecemos apenas a Angelina Jolie (se bem que ainda em vida) e sequer exigimos o engajamento a uma causa.

Num horizonte adusto, não é impossível que um dejeto da comunhão humana – com a alma tisnada pelas contradições decorrentes da introjeção pelo indivíduo da lógica do capital, cada vez mais norma corrente, da emulação do hedonismo como fim em si mesmo e da crise do masculino – vomite suas frustrações ególatras sobre inocentes e indefesos. Aqui, a estética do terror gratuito está sedimentada; o desajuste transmutado em ato de vingança sobre a sociedade; o recalque, nessa cultura amiúde fundada na lógica da satisfação, compensado pela notoriedade por recompensa no pós-vida; e o indivíduo elevado, como que num passe de mágica, à condição macabra de (anti)arte.

Plausível, mas sempre psicótico. A perpetração de um massacre requer um indivíduo que dentre muitos outros desajustes bascule do sentimento de inferioridade para o de superioridade. O suicídio do matador, desfecho recorrente nessas tragédias, condensa a sobrevivência da percepção do certo e do errado. Mas o indivíduo tem múltiplas apreensões. A notoriedade para os gregos antigos era de certa forma uma chance de imortalidade. Mas eles lembravam atos de heroísmo e humanismo. Nós escarafunchamos detalhes do sórdido. A notoriedade é aqui confirmada na memória que a sociedade tem dos monstros similares que o precederam. Como se fosse uma compensação para a decisão de suicídio, bem como a tentativa de converter um suicídio em instalação (anti)artística.

Tentar em vão nominar o inominável, explicar o inexplicável, falar e falar, produzindo uma catarse coletiva, que não purgará o mal, mas, talvez, modestamente, faculte no devir o inescapável convívio com o horror, evitando o esgarçamento completo da confiança nos laços que nos unem, enquanto, por paradoxo, crescem exponencialmente as referências no Google…

Diante do indizível, o sucesso de “O Albergue” numa Quaresma, como esta, às vésperas do feriado de Páscoa, talvez revele, pelo menos, algo de – reconfortantemente – grotesco. A entronização do terror absoluto e da violência gratuita como valor apreciável acontecia no momento em que poderíamos estar refletindo sobre o significado do pão sem fermento: a passagem da escravidão para a liberdade foi uma graça divina, mas conquistada depois de uma árdua travessia, a cujo sacrifício antepassado deveríamos respeito e consideração, não por mera reprodução de tradições mais ou menos inventadas e às vezes carentes de sentido, mas por amor ao nosso próprio futuro, pois é no diálogo com a história coletiva que o indivíduo percebe-se também responsável pelos seus atos, já que a Criação, se existente, não deve ter acabado num ato isolado e continua, sempre pulsando, um pouquinho dentro de cada um de nós.

A explosão de fúria e loucura de um indivíduo transtornado carrega imponderabilidade crispada e não há muito que se possa fazer a respeito. Mas as condições culturais (e aqui não falei das materiais, como a falta de fiscalização adequada sobre a circulação de armamento; álcool, drogas, armas e violência nas escolas, etc…) que potencializam tais horrores são, de alguma forma, construídas e compartilhadas por todos. Quando terríveis massacres como o do Realengo, ainda que raros, começam a se repetir pelo mundo, tem-se o desenho de um sintoma de mal estar civilizacional.

Histórias de Vida: os Procuradores-Gerais de Justiça de Santa Catarina

13 de abril de 2011 1

Está saindo do forno o primeiro rebento da minha temporada catarinense. É o livro Histórias de Vida: os Procuradores-Gerais de Justiça. Trata-se de uma coletânea de entrevistas coletadas no âmbito do Programa de História Oral do Memorial do Ministério Público de Santa Catarina, que estou ajudando a instalar desde julho do ano passado. O livro reúne nove entrevistas de membros do ente ministerial que ocuparam a Procuradoria-Geral e um depoimento do funcionário mais antigo da Instituição.  Tematiza-se não apenas do Ministério Público, mas também aspectos da história de Santa Catarina, de meados do século XX aos dias atuais, numa perspectiva pessoal, que fala de grandes eventos, mas também do cotidiano do trabalho do Promotor nas diversas comarcas e cidades pelas quais passou ao longo de sua carreira. Compõem o volume os depoimentos de Hélio Rosa, José Daura, João Carlos Kurtz, João José Leal, Hipólito Luiz Piazza, Moacyr de Moraes Lima Filho, José Galvani Alberton, Pedro Sérgio Steil, Gercino Gerson Gomes Neto e Nery José Pedro. O livro pode ser baixado em PDF por este link.