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O descarte do acervo da Biblioteca Pública de Pelotas

29 de maio de 2011 2

Aqui ao lado do meu lap top jaz um bloquinho. Dentre as várias listas de tarefas a executar, há uma com sugestão de temas para serem comentados no blog. É uma longa lista, que consigo enfrentar com dificuldade, pois cada vez falta mais o tempo para escrever.

Dentre os assuntos que me chamaram a atenção e que eu não poderia deixar de comentar está o escândalo do descarte de parte do acervo da Biblioteca Pública de Pelotas. Para escrever a minha dissertação de mestrado, defendida na Ufrgs em 1995, eu pesquisei nesta instituição, situada em um belo prédio no centro da cidade. Comparado com o acervo da Biblioteca de Rio Grande, o de Pelotas parecia insignificante, indicando que a cidade, apesar de todo o seu orgulho para com suas tradições, nunca tivera o mesmo empenho que os vizinhos rio-grandinos na preservação de sua memória documental. Ainda assim, tratava-se de um acervo relevante. Jornais e atas da Câmara de Vereadores foram-me então especialmente pertinentes na reconstituição de aspectos do movimento operário local e da industrialização da cidade. Passei vários dias lá, compulsando aquele manancial.

Assim, o episódio do descarte de parte do acervo da Biblioteca de Pelotas causa comoção como cidadão e profissional do campo da História, particularmente incomodado por conhecer a consistência daquela instituição. A justificativa oferecida pela direção da Biblioteca é pífia, pois no caso de documentação histórica é conveniente que se preserve duplicidade de exemplares, por medida de segurança. Além disso, documentos históricos nem sempre são consultados com frequência: podem às vezes ficar anos sem serem requisitados pelos consulentes, mas isto não diminui a sua importância. Finalmente, quando uma instituição dessa magnitude resolve desenvolver um programa de descarte e redefinição do acervo, o correto é contatar entidades congêneres para propor trocas.

O problema não é novo no Brasil. É grave o descaso nas municipalidades em geral com o tema da memória documental. Basta registrar que, muito embora a legislação brasileira estabeleça a obrigatoriedade de todos os municípios manterem arquivos públicos e históricos, poucos são os que efetivamente os têm. O tema seria, sem sombra de dúvidas, matéria para intervenção do Ministério Público, em escala regional e nacional. Está caindo de maduro a necessidade de um inquérito civil público sobre o tema! Mas, segundo tenho notícias, apenas em São Paulo o ente ministerial vem desenvolvendo ações coordenadas neste sentido junto às municipalidades.

Há vários anos atrás, um escândalo semelhante se abateu sobre a Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul. Naquela oportunidade, as pessoas começaram a encontrar livros da coleção João Neves da Fontoura, que tivera uma parte adquirida à família pela Secretaria da Cultura do Estado, em sebos de Porto Alegre. A justificativa então fora mais ou menos a mesma: alguns exemplares estavam em duplicidade, outros não eram consultados a mais de cinco anos.

Neste ponto, estabelece-se uma esquizofrenia no meio bibliotecário brasileiro. Por estas bobajadas corporativas de feudinhos de conhecimento, bibliotecários, arquivistas e historiadores por vezes dialogam mal. E, em muitos cursos de biblioteconomia, os bibliotecários são sumariamente doutrinados a descartar obras que não são procuradas pelos consulentes a mais de cinco anos. A ideia é manter o acervo vivo e atualizado. Esqueceram, entretanto, de dizer a esta turma que tal conceito funciona magnificamente bem para os Estados Unidos, onde há um colosso como a Biblioteca do Congresso que se encarrega de guardar simplesmente tudo. Aqui não rola isso: nossa Biblioteca Nacional não dá conta. Além disso, está lá longe, no Rio de Janeiro, e custa caro viajar até lá para se fazer uma pesquisa. Daí crescer a relevância dos acervos locais.

Alguns dirão que é muito caro manter e preservar acervos documentais. É verdade. Mas custa mais caro ainda descartá-los sem critérios. A Revolução Francesa determinou em fins do século XVIII a abertura e publicização dos arquivos como forma de os cidadãos terem acesso a sua memória individual e coletiva. Arquivos organizados e franqueados são garantias democráticas. Além disso, se bem geridos, podem até atrair recursos para uma cidade. Assim como eu fui a Pelotas pesquisar, precisando lá me hospedar por vários dias, outros podem fazer o mesmo. Na França, a consolidação de acervos culturais (documentais inclusos) é base da política cultural desde o pós-guerra e funciona como alavanca propulsora do turismo cultural de massas, uma das principais fontes de receita do País. Nossa riqueza patrimonial pode estar muito distante das maravilhas da França, como querem alguns, mas, ora, se não começarmos a organizar e a valorizar o que temos, jamais teremos coisa alguma! Recursos para subsidiar restauros existem, o que se faz necessário é a inteligência para se ir atrás deles, para atraí-los.

Por tudo isso, subscrevi a moção de protesto da Seção sul-rio-grandense da Associação Nacional de História contra a Biblioteca Pública de Pelotas. Se você estiver lendo este post, faça o mesmo. É fácil, basta acessar este link.

Comentários (2)

  • Maria Lucia Martins diz: 26 de outubro de 2011

    Eu também assinei a o documento referente à ação no MP. É um absurdo usar critério burocrático.
    Documentos de memória social e histórica (história social e oficial andam de mãos dadas)devem ser preservados.
    Se não há interesse ou condições do detentor da obra para a guarda, esta deve ser oferecida a quem possa preservá-la adequadamente.

    Também pesquisei na Bibliotheca Pelotense e volto lá durante a 39 Feira do Livro, na qual vou lançar no dia 29, às 18h,
    o livro de minha autoria “Ultrapassando os limites, a história de um Brasileiro que amou o Paraguai – América 1864-1914″, cujo personagem/narrador nasceu em Pelotas. É meu bisavô. Mais informações sobre o livro no blog informado, ainda em construção.

  • Carlos Martins diz: 14 de novembro de 2011

    é lamentável que esse tipo de atitude seja tomada! soube logo em seguida que aconteceu e fiquei profundamente triste com isso. como pode alguém tomar esse tipo de decisão, alguém que deve se denominar administradora, se não tem competência para administrar uma biblioteca com toda sua importância histórica, saia! procure a administração do lixão municipal, lá se pode colocar fora o que não presta!
    Mais respeito com nossa história!

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