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Impressões deixadas por Werner Herzog

31 de maio de 2011 1

Conhecer pessoalmente o cineasta Werner Herzog na semana retrasada em São Paulo, durante as programações do III Congresso de Jornalismo Cultural, foi uma adorável experiência. Sem exagero, posso dizer que se trata de uma das mentes mais brilhantes com as quais já pude estar em contato.

Herzog é antes de qualquer coisa um Humanista radical. Coerente com esta posição, ele não tem a menor paciência para esta turma eco-histérica que tem uma visão new-age da natureza. O seu “O Homem Urso” deixa isso bem claro. O protagonista, sem dúvida alguma personagem cativante e fascinante, acaba pagando tragicamente com a vida, sua e de sua namorada, pela sua visão babaco-edulcorada. Pois, afinal, a natureza pode ser violenta e, na realidade, pouco tem a ver com a disneylandização que dela se faz no mundo urbanoide contemporâneo.

Herzog furunga a ferida ainda mais: não se trata de ser de inopino favorável a caça às baleias, mas enquanto os verdes se preocupam com a morte da bezerra, imagina-se que em aproximadamente 50 anos cerca de 90% das línguas ainda faladas desaparecerão. Hoje, há já 14 línguas faladas por apenas uma ou duas pessoas. Sim, ele quer fazer um filme sobre isso!

Mas mesmo achando que o Homem Urso, Timothy Treadwell, de certa forma colheu o que plantou, Herzog foi contra expor a tragédia de sua morte. Disse ter assistido a fita uma vez, o que seria o bastante para concluir não dever algo tão horroroso ser transmitido em público. Para Herzog, não se deve violar a dignidade da morte de um indivíduo. É por isso também que ele entendeu ter o governo norte-americano agido corretamente ao optar por não divulgar as fotos de Osama Bin Laden morto. Obama sinalizou ao mundo não estarmos emulando uma cultura autofágica do troféu.

E falando em morte, um dos cinco ou seis filmes que Herzog está filmando no momento, ao mesmo tempo – trata-se de um cineasta incrivelmente produtivo –, é sobre o corredor da morte, no Texas. Ele tem entrevistado os condenados e acompanhado aspectos de sua rotina. Fascina-o a perspectiva que estes detentos têm da vida: contrariamente a todos nós, eles sabem quando e como morrerão! Herzog disse que muito embora os crimes que tenham cometido sejam monstruosos, ele não os tratou como monstros, ou feras, mas como seres-humanos. Redarguiu que pode até ter empatia pela apelação de um desses detentos, mas nem por isso passará a gostar deles. E concluiu que nenhum estado, jamais, pode ter o direito de matar judicialmente ou administrativamente um indivíduo. Não é um argumento contra a pena de morte. Ele conta é uma história. E crê ser o suficiente. Herzog cresceu nos pós-guerra. Viveu os traumas de uma Alemanha nazista. Não poderia pensar diferente…

Mas ele não se sente um diretor alemão de cinema. Nem mesmo se identifica com esta história de “cinema novo alemão”, que inclui o Fassbinder e o Wenders também. Ele se diz um cineasta bávaro. Isto, para ele, faz toda a diferença, pois seus filmes estão impregnados dessa profusão barroca típica da Baviera, desse exagero sentimental, dessa condição border-line entre razão e loucura, entre arte e Humanismo.

Por que então mora em Los Angeles? Bem, ele casou com uma moça da Sibéria que migrara para os Estados Unidos e os dois moram lá. Mas Herzog atesta sem vacilação que Los Angeles é o grande centro cultural estado-unidense do presente e não mais Nova Iorque. Ele acredita que está anunciando algo que será considerado óbvio daqui a alguns anos. Nova Iorque, para ele, tornou-se um grande centro consumidor de cultura, mas há muito deixou de produzi-la. Sinceramente, estou de pleno acordo!

Herzog não parece reconhecer um traço notadamente comum entre os protagonistas de seus filmes. Mas não dá para deixar de notar que muitos deles estão justamente nesta condição limite, meio bávara, nessa fronteira entre obstinação e loucura. Habitam uma zona lindeira, onde a ética acaba sendo relativizada. Alguns de seus personagens fazem coisas ruins, mas não parecem ser necessariamente maus, digo. Herzog não concorda muito com isso e retruca que o bad lieutenant vivido por Nicholas Cage outra coisa não é do que o prazer de ser mau. Mas, penso eu, o mal de Herzog aqui é até simpático e está muito distante da maldade gratuita e obscena explicitada em “O Albergue”, de Tarantino.

Ele, por outra lado, reconhece: em que pese amar loucamente as mulheres, em nenhum de seus filmes há uma mulher como protagonista. E ele não sabe explicar por que.

Herzog é também diretor de óperas e escritor. Interessante: ele se diz convencido de que sua obra escrita tem mais chances de sobreviver do que os filmes. Ele diz que consumiria mais tempo para escrever, se pudesse. No Brasil, aparentemente está publicado apenas o “Caminhando no gelo”, uma espécie de diário que escreveu em 1974 durante uma caminhada de mil quilômetros entre Munique e Paris, para visitar a sua amiga Lotte Eisner, que estava então hospitalizada e à beira da morte. Lotte fora uma das pioneiras na crítica de cinema na Alemanha. Herzog conta o quanto ela foi importante para a geração de cineastas do pós-guerra, pois, numa Alemanha destruída física e culturalmente pelo nazismo, Lotte olhou para a produção pré-Hitler, para o expressionismo alemão, e afiançou ser ela verdadeiramente representativa de uma tradição da qual todos poderiam se orgulhar. É desse manancial do qual Herzog parte em sua filmografia.

Caminhar, viajar caminhando, para Herzog, tem uma centralidade inequívoca. É pela caminhada que um cineasta experencia a temporalidade, a luminosidade, as sutilezas e os contrastes que comporão seus filmes. Caminhar é o primeiro grande conselho que Herzog dá aos jovens. Não é na escola que alguém aprende a ser um cineasta. Mas com longas caminhadas, pois elas ensinam a ver as tragédias. É desse modo que se aprende a alcançar o coração das pessoas, especialmente dos atores, aos quais Herzog dedica especial atenção.

Ele afiança não duvidar que os melhores desempenhos dos atores que com ele trabalharam foram precisamente em seus filmes. De fato, a atuação de Cage em Bad Lieutenant é magnífica; e o Aguirre e o Fitzcarraldo de Klaus Kinski são insuperáveis. Há também o extraordinário Kaspar Hauser.

Com Kinski, aliás, Herzog teve uma relação tensa, conflituosa. Ele afirma ter conseguido domar a besta, mas ambos teriam vivido momentos efetivamente perigosos, sobretudo na Amazônia, quando alguns índios acharam que deveriam mata-lo para agradar ao diretor, tanta era a gritaria de Kinski.

Mas há outras dicas! Ler muito! Viver rodeado de livros! Herzog não parece acreditar em alguém que possa fazer bons filmes sem acalentar o hábito da leitura. Assim como a caminhada, a leitura amplia horizontes, descortina conceitos.

Finalmente, Herzog acha que um cineasta tem de fazer o que for preciso para filmar, para alcançar seus objetivos. Roube uma câmera, como ele fez! Forje documentos em plena selva amazônica, se necessário for. Mas não se renda aos obstáculos que a vida interpõe!

Sobre tecnologia, se diz bastante cético para com o 3D. Para explicar sua posição, propõe que imaginemos uma comédia romântica filmada em 3D. Impossível! Pois num filme como este há sempre uma sutileza desenrolando-se ao fundo da tomada, no pano de fundo da cena, ao passo que o 3D nos obriga a focar o primeiro plano. Todavia, ele acaba de lançar um documentário sobre pinturas rupestres na caverna deChauvet, no sul da França, em 3D. Nesse caso se justifica, pois a arte desses homens de cro-magnon, que viveram a cerca de 30 mil anos, aproveitava a volumetria da pedra para se expressar.

Muito a propósito, Herzog lembrou que desde menino tinha fascínio por pinturas rupestres e ficou siderado com a possibilidade de filmar esta caverna secreta, praticamente lacrada e inacessível (em função da política de preservação). É mais uma vez o encanto pela aventura humana na Terra. É como se Herzog lançasse um brado para a galerinha de hoje: há algo a mais no mundo do que o twitter e suas mensagens fragmentadas. Ele achou que deveria mostrar estas pinturas para a juventude. Considerou-as a obra de arte mais magnífica que já viu em toda a sua vida!

O versátil Herzog não programa a sua carreira. Diz que se deixa levar por teses ou ideias que o seduzem para produzir um filme. Declara ser pouco afeito a analisar a sua obra e o seu método de trabalho e descrê, aliás, da eficácia genérica da psicanálise: assim como uma casa não pode ser totalmente iluminada, precisando preservar cantos escuros, a personalidade das pessoas não pode ser completamente desvendada. Herzog faz questão de conviver com os seus próprios mistérios, com suas próprias interrogações.

Por que e como começou a filmar? Bem, ele cresceu numa aldeia pobre e isolada na Baviera pós-guerra. Foi falar a primeira vez ao telefone quando tinha 17 anos de idade. Era órfão de pai e passou necessidade, junto com os irmãos e a mãe, de origem croata. Herzog lembra que as crianças do pós-guerra não tinham pais que lhes ensinassem como brincar. Então, precisavam inventar seus próprios jogos e brinquedos. Além disso, um mundo em ruínas é um convite à fantasia infantil. Foi nesse contexto que quando ele entrou em contato com uma câmera pela primeira vez sentiu-se inventando o cinema. E diz sentir-se assim até hoje.

Comentários (1)

  • Fabricio diz: 6 de junho de 2011

    Muito bom!!

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