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Reinvenção da Infância, de Salim Miguel

07 de agosto de 2011 1

Com a transferência para Florianópolis, vou aos poucos me enfronhando na literatura catarinense. Tenho encontrado algumas pérolas. Vocacionado para a História, recorro à literatura de ficção sempre que me sobra um tempinho. Neste domingo, me deliciei com o romance “Reinvenção da Infância”, do veterano e premiado Salim Miguel.

As lembranças da infância passada entre Biguaçu e Florianópolis de um jovem imigrante libanês na primeira metade do século XX compõem o sumo da narrativa. 36 pequenos capítulos estruturam o livro, cada qual com sua dimensão própria, articulados numa sequencia de contos que, juntos, tecem um romance.

A linguagem é doce e erudita. Palavras cinzeladas e frases acepilhadas com esmero, dispostas numa coloquialidade fluente, imersas numa atmosfera de ouvir contar de antigamente. Quase como uma conversa ao pé do ouvido, ou à beira da fogueira, quando adolescentes se reúnem para compartilhar impressões e casos.

Na medida em que evolui, as frases vão sendo encorpadas e as ideias vão ganhando em musculatura. Um ritmo pelo qual o leitor capta na epiderme a mente da criança se formando, desabrochando o adolescente e desenhando-se o jovem. O livro transita de uma simplicidade concreta, ritmada, lúdica, para o frescor das perplexidades e aventuras juvenis.

Por fio condutor, o primeiro tudo. O primeiro amigo foi um encontro de desterrados, a fé na possibilidade do diálogo entre diferentes: “um viera do outro lado do mundo, a família em busca de um chão, o outro [um indiozinho órfão, sobrevivente de uma chacina] já nem tinha mais o chão que era dos seus”. A primeira turbação de sentidos, o primeiro constrangimento público, o primeiro livro, o primeiro poema, o primeiro filme no cinema, a primeira excitação diante da visão dos “bicos do seio agredindo o fino vestido”; o primeiro porre, as primeiras irresponsabilidades, as incursões tentadoras à fronteira coleante entre o bem e o mal, o certo e o errado. A vida das pessoas marcada pelo labor da terra, alimentada pelos seus frutos, imersa num tempo de escambo, quando a economia se construía com a palma das mãos. A consciência de ser diferente e a síntese entre a tradição imigrante e o ambiente local. Uma Biguaçu de pujante cultura popular, uma Florianópolis ainda abastecida pelas baleeiras. Um mundo que se encontrava no boi-mamão, nas rinhas de canários.

No seu último terço, o livro torna-se mais narrativo e impressionista. Novos personagens entram em cena. O fio condutor se dilui e o personagem central se esfumaça, para dar lugar ao protagonismo do ambiente no qual a infância se reinventa.

Fica aí, então, a minha dica de leitura desse domingo.

Comentários (1)

  • Valéria Martins diz: 7 de agosto de 2011

    Que bom que eu já li o livro, hehehe… Obrigada, Gunter!

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