Todo ano, desde que esse blog existe, é a mesma coisa. Posto sempre uma crítica ao Enem, notando que, de novo, não dará certo, e registrando, depois de mais um escândalo, a pletora de argumentos que explicam esse fracasso. Vejam, por exemplo, meu post do dia 21 de novembro de 2009, escrito em parceria com o estimado Prof. Fachel, da Universidade Federal de Pelotas, uma das entidades que mais vem sofrendo com a adoção desta prova.
Em 2011, tinha resolvido ficar na minha. Até porque não estou a fim de pousar de ave agourenta e muitas vezes ficava com a impressão de estar, junto com um punhado de gente, pregando no deserto. Além disso, manter o blog atualizado não tem sido tarefa fácil nos últimos tempos, dado o enorme volume de trabalho que me assoberba. Porém, diante do novo cortejo de vexames, é preciso dizer algo.
Começo recomendando os excelentes artigos publicados na Zero Hora de ontem nas colunas da Rosane de Oliveira e do Luís Augusto Fischer. Quem não leu e sente-se de alguma forma interessado pelo futuro do Brasil e dos jovens, leia-os!
Quando o Enem surgiu, como um exame de aferição da qualidade do ensino médio, foi muito criticado por estudantes, que protestaram, boicotaram-no e consideraram-no uma intervenção. A ideia não era má na origem, mas, ironicamente, depois de ter sido estendida e desvirtuada por mentes delirantes do Ministério da Educação, sendo convertida num substituto uniformizado ao vestibular, os estudantes calaram. É incrível, porque o que se cometeu foi um crime.
Não que o Enem não tenha agregado nada! Acho salutar a oportunidade que se abriu para que os estudantes circulem pelo País. Nesse sentido, estimulou-se a integração da juventude brasileira. Mas a que preço?
O vestibular era uma instituição com tradição, com prestígio, respeitada. Absolutamente republicana, privilegiava o mérito e era blindada ao tráfico deletério de favores políticos. Professores dignos, com uma vida inteira dedicada ao ensino, ano após ano, labutavam na confecção esmerada de uma prova elaborada. E, acreditem, era raro ouvir-se falar de fraudes e de erros crassos. Quando uma questão – umazinha só – precisava ser anulada, era um bafafá! Parava uma cidade! Além disso, a lógica da mera prova de cruzinhas, árida e desestimulante, vinha sendo posta em xeque.
Aí o Lula – cujo governo fez coisas muito boas, ninguém o há de negar – resolve, assim, do nada, acabar com uma instituição séria. Sob o argumento mais do que duvidoso de que o vestibular era uma peneira social. Tipo assim, já que o governo não tem competência para melhorar o ensino médio, vamos acabar com o exame de ingresso nas universidades, pois, aí, faz-se uma boa maquiagem e conta-se para o mundo que a educação funciona no Brasil. E jogou-se fora a criança junto com a água do banho!
Peloamordedeus!
O custo desse retrocesso é brutal. Vejam a conta que o Professor Fischer reproduz em seu artigo: 61 milhões de reais desceram pelo ralo neste último fracasso: jogados fora! E para quê? Para ajudar a corroer o ensino, pois o nível da prova é tão baixo que, mesmo funcionando (e nem isso se consegue!) está desestimulando o investimento honesto na qualidade. O exemplo que o Fischer oferece, sobre a literatura, é lapidar. Por que a garotada vai querer ler o magnífico Graciliano Ramos se não cai na prova? Com 61 milhões, poderíamos estar construindo escolas, estradas, hospitais... Até quando vamos deixar de reconhecer que esta monumental verba pública está sendo mal empregada?
Confiscar de uma geração inteira o direito de saber que o seu País produziu um autor do escol de Graciliano Ramos, que se tivesse publicado em francês ou em inglês seria celebrado como um dos gênios da literatura ocidental, é abastardar uma sociedade. É inculcar na cabeça dos jovens o sentimento de inferioridade em relação às outras nações, é promover deliberadamente a imbecilização coletiva e o enfraquecimento do interesse nacional. Quem ganha com isso? Os brasileiros certamente é que não!
O Enem não vai funcionar. Nunca! Simplesmente porque ofende a lógica, desrespeita a cultura, está na contramão da modernidade. É uma proposta uniformizante, simplificadora e centralizadora que se impõe de cima para baixo, num país federado, pleno de saudáveis diferenças regionais, e numa época em que a chave reside na autonomia e na descentralização. Toda a gestão pública inteligente caminha neste sentido, em qualquer nação democrática. Até mesmo na centralizada e unitária França! O que foi que deu na cachola dessa gente da Capital Federal? Será que vivem numa bolha, fora da realidade, e acham que podem colocar o País de joelhos, porque resolveram usar o orçamento público para promover candidaturas políticas de entremez e porque ambicionam fazer de uma nação de quase 200 milhões de habitantes um laboratório para besteiras cognitivas, para teorias educacionais toscas? Digam-me, quem ganha com isso?
Talvez eu esteja mal informado, mas em apoio ao factoide do Enem ouço se levantarem em geral vozes de burocratas, tecnocratas e politiqueiros. Só! Gente sem experiência, com currículos frágeis e sem consistência intelectual. Os resultados estão aí para todos verem, mais do que evidentes, se repetindo ano após ano: catastróficos!
Lamento pelas palavras amargas num domingo, mas, já que a Presidente Dilma Roussef (que aliás vem fazendo, no meu entender, um bom governo) não ouve a nação, está na hora de todos subirmos o tom. Quem sabe assim avoluma-se um movimento de indignação que sensibilizará minimamente a cúpula do poder?
Assisti pela televisão as manifestações dos estudantes em Santa Mara e em Porto Alegre, contra o Enem e a favor do retorno do vestibular, e quero sublinhar a minha total solidariedade. É uma baita sacanagem o que se está fazendo com a nossa juventude! O pessoal se prepara o ano todo para uma prova que é um lixo e que não funciona! Insistir autoritariamente no Enem deixou de ser apenas teimosa estultice: já se deu um passo bem além, pois o assunto virou caso de polícia, dados a vergonhosa sequencia de fraudes e o evidente desperdício de dinheiro público. O Enem já se tornou um problema social! O povo tem toda a razão em ir para as ruas, reivindicando a restauração da ética e do bom senso.






