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Breve anatomia da multidão

11 de novembro de 2011 0

Acaba de ser publicado o meu artigo na revista Voto desse mês.



Quando o britânico E. P. Thompson publicou O fazer-se da classe operária inglesa, em 1963, e o canadense George Rudé publicou A multidão na história, em 1964, a massa era um fenômeno praticamente negligenciado pelos historiadores. Havia exceções, como o trabalho de Eric Hobsbawm sobre as rebeliões dos séculos XIX e XX, publicado em 1959. O tema era assunto de sociólogos, psicólogos ou filósofos.

Gustave Le Bon, ao final do século XIX, procurara criar uma psicologia das massas, mas, a despeito de seu pioneirismo, permanecera aferrado a ideias de raça, inclinando-se a ver as multidões como uma força irracional, instável, destrutiva, primitiva. Seus méritos residem, sobretudo, no tratamento das massas para além da lógica das classes sociais, atribuindo-lhes também uma estética. Já foi algum avanço, pois o que se tinha até então era Edmund Burke e Hippolyte Taine, para quem os levantes populares amalgamavam a escória, a ralé, uma malta de criminosos: um rosário de preconceitos. Burke sequer admitia a possibilidade de construção de uma constituição pelo povo, pois, para ele, as leis eram emanação das tradições. Para que democracia? No extremo oposto, estava o historiador francês Jules Michelet, para quem a multidão era expressão genuína do povo, único agente da ação revolucionária positiva. Idéia mais amena, mas nem por isto livre de estereótipos.

Sigmund Freud, impactado pela aberração da Primeira Guerra Mundial e sob influência das ideias sobre o carisma de Max Weber, retomou a obra de Le Bon, entre 1915 e 1922, e viu um encantamento erótico entre as massas e as lideranças. Para Freud, o líder político toma a forma de um pai perseguidor, primitivo, provedor. O espaço da política, para ele, estava impregnado pela autoridade e a luta política não passava de uma disputa geracional. É uma percepção com implicações conservadoras, na medida em que desvaloriza a possibilidade de crítica social e reduz a contestação do poder à expressão de sentimentos hostis. O espaço público em Freud é apenas uma extensão do privado.

Thompson, Rudé e Hobsbawm estavam preocupados em tatear o contexto das multidões. Rudé, em especial, debruçou-se sobre o motim, forma característica de protesto popular pré-industrial, tentando identificar os personagens de carne e osso por detrás dos tumultos. Em geral, tinham pouco a ver com as multidões revolucionárias de 1789 e de 1843. Na maior parte, eram levantes instigados por lembranças de direitos costumeiros, por nostalgias de utopias do passado, por uma ideia de justiça natural, violenta e imediata, que estala diante da fome, da quebra de paradigmas, da introdução de uma máquina no processo fabril ou de uma nova taxa a incidir sobre a comunidade. Emanações de um espírito de conservação, de costumes ou padrões de vida, que foi conformando uma contestação do poder. Rudé percebe no amotinado do século XVIII e de meados do XIX o embrião do sindicalista, do militante trabalhista e do consumidor organizado da nova sociedade industrial. O embrião de um processo de conquista de direitos que desembocou na democracia e na sociedade de massas do século XX.

Mark Dery situa nos parques de Coney Island, em fins do século XIX, o berço da cultura de massas. Espaços amplos, projetados para acolher multidões, impregnados de uma estética exagerada, feericamente iluminados, lastreados na explosão de cores, na confusão tonitroante de ruídos, na profusão de sabores industrializados, fast, edulcorados, territórios atulhados de uma parafernália voltada à diversão, à fruição. Uma apoteose do fake, que se converteu rapidamente no templo de uma cultura mais reativa do que reflexiva, pós-letrada, mais suscetível à manipulação de imagens do que à articulação de idéias, mais ou menos como Le Bon, na sua face mais criativa, sugeria. Para Dery, os parques foram um agente poderoso de transformação social, que varreu os resquícios da era vitoriana, substituindo-a por um mercado consumidor de massas composto de grupos heterogêneos e anônimos.

A multidão, reunida durante o século XIX nas grandes cidades, repentinamente se tornava visível, deslocava-se dos bastidores para o primeiro plano, fundava uma estética, reivindicava protagonismo. Político, inclusive, para desespero dos velhos vitorianos, da elite que achava que os benefícios da liberdade deveriam ser partilhados apenas entre um punhado de ilustrados. Foi o mercado consumidor de massas que impulsionou o grande desenvolvimento econômico até o fim dos anos 1920, especialmente nos Estados Unidos. Foi a massa de desempregados – 30% da população norte-americana –, produzida pela Grande Depressão, que elegeu Franklin Delano Roosevelt e seu New Deal keynesiano de 1933, derrotando o liberal Hoover. Foi a massa de desempregados na Europa que levou água ao moinho das ideologias corporativas, que rapidamente degeneraram no fascismo e no nazismo, apoiados inicialmente por uma burguesia internacional preocupada com o avanço de outra massa, a dos bolcheviques alçados pela Revolução Russa de 1917.

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