Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de novembro 2011

Perfil de Muamar Kadafi, por Jon Lee Anderson

27 de novembro de 2011 1

Para quem segue com interesse os eventos relacionados às revoluções em curso no mundo árabe, vale a pena ler o perfil biográfico que o jornalista Jon Lee Anderson produziu sobre Muamer Kadafi, para a revista New Yorker.

Peregrina de Araque, por Mariana Kalil

25 de novembro de 2011 0

Oi pessoal, dia 29 a Mariana Kalil lança novo livro. Eu adorei o título e a capa!! Olha o convite aí!

Daniel Libeskind em Porto Alegre - Centro Cultural Shofar - pedra fundamental de uma joia arquitetônica

25 de novembro de 2011 1

O texto que reproduzo abaixo para vocês foi publicado na revista Lubavitch, divulgada na última segunda-feira, nos salões do Clube Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre, durante a cerimônia de lançamento do Centro Cultural Shofar, cujo projeto conceitual base é do arquiteto polonês Daniel Libeskind


Coincidências, acasos: é como muitas vezes as pessoas explicam o encadeamento fortuito de acontecimentos na vida da gente. Talvez… Ou quiçá alguns eventos, tais como fios desgarrados de uma elaborada tapeçaria, a encontrarem outras linhas, que lá estavam, também viúvas, como por mágica, lavrem dessa união novo desenho, imantando de significado o que jazia solto. Se olharmos sobre o ombro, para traz, trilhas, por vezes caprichosas, convergem em encontros. Ecos esfumados subitamente timbram. Sobre pequenas surpresas, ou dissabores, ou experiências que pareciam pontuais, revigorada luminosidade incide, realçando nuances, desvelando sentidos.

Foi em 2007. Debatíamos, no âmbito da curadoria do seminário Fronteiras do Pensamento, da qual então eu participava, o conceito para a edição do ano seguinte. Desejava-se que a programação contemplasse com mais ênfase o foco das artes. Músicos, dramaturgos, cineastas, escultores, escritores… Um arquiteto, também, claro! Sim, a cidade precisa ouvir um grande arquiteto, logo disse alguém.

Porto Alegre preparava-se para acolher a inauguração do prédio da Fundação Iberê Camargo, projeto premiado do português Álvaro Siza. Mais do que um fato isolado, nutria-se a expectativa de que o edifício contribuísse para reconciliar a cidade com sua sólida tradição conceitual, da qual é testemunho, entre outros exemplos, a elegante sede do Jóquei Clube, projetada pelo uruguaio Román Siri e inaugurada em 1959. Como se sabe, a partir da segunda metade dos anos 1960, a arquitetura modernista local precipitara-se em desgaste, diante da banalização de soluções e de um funcionalismo como um fim em si mesmo.

O momento era propício, com debates ventilados no horizonte, como aquele em torno da perspectiva de revitalização do cais da Mauá. Entendia-se, assim, que o seminário poderia agregar alguma parcela de contribuição. Mas jamais imaginamos os desdobramentos que estariam por vir.

Esboçada uma relação de nomes sonhados, nos pusemos a campo para tentar localizar os contatos. Daniel Libeskind, pela sua importância, evidentemente, estava dentre aqueles logo considerados.

Por uma coincidência de trajetória própria, eu nutria curiosidade especial pelo trabalho de Libeskind, torcendo, no íntimo, para que ele fosse um dos primeiros a responder acedendo ao convite. Daniel estava dentre os que, desde os anos 1980, questionavam o convencionalismo da arquitetura moderna e, inspirados numa leitura de Derrida, apostavam na desconstrução das formas, percebendo a arquitetura também como linguagem.

Daniel começara a sua carreira com o icônico Museu Judaico, erguido entre 1993 e 1998, na curvinha da Lindenstrasse, no bairro de Kreuzberg, em Berlim, distante, em linha quase retilínea, umas doze pequenas quadras do local onde morei por um tempo, em 1990. De todos os destinos de Berlim, eu me sentia emocionalmente atado àquele antigo bairro operário, arrasado durante a Segunda Grande Guerra, reconstruído nos anos 1960 e pulsando, nos anos 1980, com suas fachadas coloridas e etnias diversas, como o coração intercultural da velha metrópole. A Berlim que eu conhecera era uma cidade murada, uma espécie de ilha comprimida pelo concreto e pelo aparato militar, com mobilidade restrita, marcas do passado sangrento a rasgarem o tecido urbano a todo instante, mas sem deixar por um só segundo de acreditar num futuro alvissareiro. Eu ainda conheci um Portão de Brandemburgo arruinado, cujo vão por onde se dava originalmente a passagem da Pariser Platz para o Tiergarten o muro bloqueava. O dramático prédio de Libeskind, logo apelidado de “raio” pelos Berlinenses, em alusão a sua forma característica, foi um marco na base da história da urbe reunificada e um importante agente propulsor da revitalização do bairro, ao mesmo tempo em que encarou e frente a complexa dimensão da memória trágica.

Filho de sobreviventes do Holocausto, Libeskind nasceu na Polônia, em 1946, e tornou-se cidadão estado-unidense em 1965. Formou-se em 1970. Em 1989, com a esposa e os filhos, mudava-se para Berlim, depois de vencer o concurso para o Museu Judaico. Embora o prédio tenha sido dado por concluído em 1999, a exposição permanente, com cerca de quatro mil objetos, foi inaugurada apenas em… 11 de setembro de 2001!

Em 2003, Daniel Libeskind venceu o concurso para desenhar e coordenar o conjunto do projeto para a reurbanização do Ground Zero, a pavorosa cratera surgida depois do ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center, que eu visitara uns quatro ou cinco dias antes do fatídico 11 de setembro.

Lembro-me ainda hoje daquela enlutada manhã, a incredulidade inicial diante das imagens se repetindo na TV substituída pelo choque e, depois, por corrosiva angústia. Para alguém que acabara de chegar de uma Nova Iorque plena de atitude e pujança e vivera, 11 anos antes, o contexto vertiginoso da queda do Muro de Berlim, um evento parecia a face negativada do outro. A derrubada das Torres ceifava milhares de vidas e calava fundo a compreensão de que o mundo, dali para diante, mudaria substancialmente. Tudo indicava que uma nova guerra se instalaria, lenta, difusa, sofrida. Senti como se ruísse ali aquela que talvez tenha sido a última grande utopia do século XX, amplificada com a queda do muro: a de que um mundo com fronteiras permeáveis seria possível. Pode parecer tolo para quem é jovem nos dias de hoje, mas era uma visão estimulante para quem crescera no clima de intolerância da Guerra Fria e numa era pré-internet.

O projeto de Daniel para o Ground Zero é, sem exagero, titânico. Distribuiu cerca de um milhão de metros quadrados de escritórios em cinco diferentes torres, numa área total de 16 acres, para onde também foram previstos memoriais, espaços culturais e uma nova estação de metrô.

Instigava-me, então, ouvir o que tinha a dizer este arquiteto, que interpretara eventos tão dramáticos, em projetos que divisavam o futuro com otimismo, sem jamais perder de vista os silêncios e os ruídos da memória.

Foi, assim, uma agradável surpresa quando a assessoria de Daniel prontamente respondeu ao nosso estímulo, concordando com os termos do convite, sem tergiversar ou formular exigências, traduzindo espontaneidade e disponibilidade em partilhar experiências e conceitos. Agendamos a conferência para o dia 21 de julho de 2008.

Poucos dias antes da data aprazada, entretanto, um telefonema dos escritórios de Libeskind, de Nova Iorque, trouxe inquietação. Sua querida esposa Nina, que sempre lhe acompanha, tivera um contratempo de saúde e a viagem precisaria ser adiada. Confirmado o seu restabelecimento e após um exercício de engenharia para conciliar as disponibilidades da disputada agenda de Daniel com a do salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que abrigava o ciclo de palestras, a fala de Libeskind foi transferida para a noite de 3 de novembro.

Daniel e Nina, destarte, chegariam ao Brasil no dia 2, um domingo. E partiriam de Porto Alegre com destino ao Rio de Janeiro no dia 4. Era a primeira vez do casal no Brasil e eles se mostravam entusiasmados com a visita.

Mas um novo susto nos espreitava. Ao embarcar de Nova Iorque para São Paulo, Daniel apanhara por distração o passaporte americano. Eis que para cidadãos estado-unidenses a política de reciprocidade do Governo Brasileiro exige a concessão de vistos para ingressos no País. E Daniel não solicitara um visto brasileiro… Assim, ao desembarcar em São Paulo, a Imigração logo detectou a falha e, seguindo o procedimento padrão para casos de tal natureza, reteve-o em uma sala da Polícia, programando o seu reembarque no primeiro voo de volta para Nova Iorque.

A organização do Fronteiras do Pensamento tinha o costume de manter um receptivo no aeroporto de São Paulo, de sorte que a dificuldade foi logo detectada. Em pouco tempo, estávamos nos comunicando com Daniel e Nina pelo celular. Mas o problema não era nada fácil de resolver. Pelo contrário! Descobrimos, enfim, que o Itamaraty admite o instituto de um visto de trânsito no Brasil, concedido em situações muito especiais, sob autorização da cúpula da Presidência da República ou do Ministério das Relações Exteriores. Por agravante, todavia, tratava-se de um domingo e, ainda por cima, feriado de finados! Uma tarefa já em si árdua parecia inexequível!

Mas a equipe de produção se mobilizou. Decidimos não medir esforços para contornar o obstáculo que inviabilizaria a estada dos Libeskind em Porto Alegre. De telefonema em telefonema, depois de várias horas, durante as quais o casal permaneceu acomodado na sala da Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos, conseguimos chegar às altas autoridades da República, sensibilizando-as, e um visto extraordinário para uma semana, salvo engano, foi, milagrosamente, concedido!

Quando o casal finalmente aterrissou em Porto Alegre, esperávamos encontrá-los tensos, incomodados, abatidos. Mas não! Embora fatigados, o que era perfeitamente compreensível, transmitiam bom humor e simpatia, declarando-se impressionadíssimos por termos resolvido algo que lhes parecia intangível. Nos Estados Unidos, garantiram, uma exceção como aquela seria inimaginável, ainda mais num espaço de tempo tão curto!

Daniel e Nina puderam, enfim, registrar-se na recepção do hotel por volta das 18 horas daquele domingo, dia 2 de novembro de 2008.

Cabe aqui, talvez, o registro de mais uma curiosidade. A organização do seminário garantia aos seus convidados hospedagem em hotéis de padrão superior, previsão que constava, inclusive, em cláusula contratual. As reservas eram feitas com um ano de antecedência, para se garantirem as vagas desejadas. Porém, com a mudança da data da conferência, perdeu-se a preferência. Casualmente, na época em que a nova palestra aconteceria, Porto Alegre acolhia grandes eventos, de sorte que não havia acomodações disponíveis. Eu fui a todos os hotéis da cidade. O único lugar vago era a antiga suíte presidencial do Hotel Plaza São Rafael. Foi lá, assim, que hospedamos, excepcionalmente, o casal Libeskind! E eles puderam repousar, depois da estafante jornada, com uma bela vista para o Lago Guaíba.

O dia seguinte seria agitado. Dentre os únicos pedidos que Daniel e Nina nos haviam feito estavam um city tour e uma visita à Fundação Iberê Camargo: a fama do prédio de Álvaro Siza às margens do Guaíba corria o mundo!

Numa luminosa manhã, guapuruvús e jacarandás espargindo as calçadas de amarelo e lilás, fomos à Fundação Iberê Camargo, especialmente aberta numa segunda-feira para receber o casal: “é o melhor de Siza”, exclamou Daniel, exultante, ao final da visita.

De volta ao Centro Histórico, logo depois de um giro pela cidade, Nina, curiosa com as barraquinhas que vira pela janela da van espremidas entre o Margs e o Santander Cultural, quis saber do que se tratava: “é nossa feira do livro”, respondi. Daniel e Nina, amantes dos livros e donos de uma biblioteca com mais de 10 mil volumes, perguntaram-me então se não seria possível trocar o almoço com autoridades, previsto para acontecer numa badalada churrascaria, por um passeio na aprazível feira. Claro!, acedi. E lá se foram os dois, percorrendo as alamedas da Praça da Alfândega, circulando por entre os estandes, furungando nos balaios.

Havia uma barraca que homenageava a Polônia! Daniel entrou, fascinado por encontrar um pedacinho da sua pátria de origem, ali, tão longe, no Brasil tropical. A surpresa foi ainda maior quando o livreiro reconheceu-o prontamente e dirigiu-se a ele em bom polonês: era um dos muitos gaúchos descendentes de imigrantes.

Nina adorou a sineta do Xerife e impressionou-se com a quantidade de crianças. Expliquei-lhes que se tratava da maior feira do livro ao ar livre da América Latina e que se dirigia, sobretudo, para os leitores. Como a promoção já acontecia há 54 anos, quase todo o porto-alegrense, ou gaúcho em visita à Capital, trazia impressa na memória a lembrança de, quando criança, ser trazido à Feira pelos pais, pelos tios, pelos avós, para comprar pelo menos um livro, para encontrar os amigos, para ver de perto os autores. Frequentar a Feira tornara-se um hábito incorporado às rotinas familiares. Foi quando Daniel, que escolhe a dedo os convites profissionais que aceita, me disse: “esta é uma acidade para a qual eu adoraria desenvolver um projeto!”

À tarde, levamos o casal Libeskind ao Porto da Capital, região para a qual se discutia há 12 anos um projeto de revitalização. E até passeamos de barco.

“Pedra Fundamental”. Foi o título que Daniel deu para a sua conferência, proferida à noite, no salão de atos da Universidade lotado, com cerca de 1.300 pessoas. Daniel comentou com vivacidade vários de seus projetos. Especialista na criação de museus, sustentou que a cidade pode se transformar a partir de um prédio. Disse que a arquitetura contemporânea está mais pluralística, mais democrática. Ele, a propósito, nega-se a trabalhar em países não democráticos. Construir um edifício, para Daniel, é como contar uma estória. A arquitetura, assim, seria uma classe de narrativa, porque fala sobre o passado e sobre o momento presente. Ela confere identidade e descortina um futuro, operando uma combinação de poesia, de filosofia, de música, de dança, de astronomia, de todas as coisas, enfim, que matizam a civilização. Eis porque sua arquitetura não é apenas construção, mas, sobretudo, uma forma de transmissão de experiência cultural. Daniel se declarou interessado em eliminar categorias: “os museus precisam ser bem-sucedidos comercialmente, ao passo que os espaços comerciais precisam ter uma dimensão cultural, um componente cultural”. Justamente por causa da globalização, registrou, é preciso que cada lugar possa contar a sua história e emular uma identidade. Criticando o modernismo, revelou-se incrédulo na possibilidade de repetir experiências do Humano. Eis porque os museus não devem existir apenas para eles mesmos, mas sim atender as necessidades éticas de uma comunidade. Otimista, avaliou que a arquitetura pode gerar crescimento para uma cidade, e não apenas econômico, mas também cultural. [1]

Terminada a conferência, sob entusiásticos aplausos da plateia, dirigimo-nos para um jantar. Fazia parte da sistemática do Fronteiras do Pensamento receber os convidados com uma apurada ceia de boas vindas em um dos bons restaurantes locais, na véspera da conferência. Seguíamos, nesse sentido, orientação estabelecida pelo idealizador do seminário, o então Superintendente da Copesul, empresa patrocinadora do evento, Dr. Luis Fernando Cirne Lima, que entendia esses momentos como uma oportunidade de interação para algumas pessoas da comunidade cujos interesses e trajetórias dialogassem com as do conferencista convidado. A intenção era que as ideias pudessem frutificar em convívio mais íntimo, deitando raízes no entorno comunitário.

A confraternização, contudo, tinha sido transferida para a segunda-feira, pois como o casal ficara o dia inteiro retido no aeroporto de Guarulhos, isso depois de longa viagem de Nova Iorque para São Paulo, todos entenderam que eles precisariam repousar na noite de domingo. O problema foi que os restaurantes com os quais estávamos acostumados a operar fechavam nas segundas-feiras e estava difícil localizar uma alternativa. Percebendo minha aflição, a querida amiga Sandra Axelrud Saffer, uma das convidadas para a ceia, ofereceu-se para recepciona-los em sua residência. Assim, Sandra, que também é arquiteta, recebeu-nos depois da conferência com um delicioso salmão.

A solução revelou-se providencial, pois o clima instaurado foi descontraído e doméstico. Nina e Daniel, que inclusive trabalham juntos, são muito ligados à convivência familiar. Recordo-me que, depois do jantar, todos ainda à mesa, Nina ergueu-se com uma taça na mão e propôs um brinde de agradecimento aos anfitriões, sublinhando residir a mais agradável surpresa daquela viagem no sentir-se tão vivamente em família. Eles tinham vindo de tão longe para se sentirem tão em casa, exclamou, manifestando certeza de que ali se iniciava uma bela e duradoura amizade.

Já não me lembro se foi antes ou depois da refeição. Em pé, na sala, com drinques, formou-se uma animada roda de bate-papo com Daniel. Quando então alguém lhe perguntou se havia algo que ele desejasse construir sem tê-lo ainda feito. Sim, ele respondeu, observando que ainda não aparecera a oportunidade para erigir algo na América Latina. Participava da conversa Ricardo Sondermann, que imediatamente transmitiu-nos saber estar em curso em Porto Alegre a intenção, por parte do movimento Beit Lubavitch, de construção de um centro cultural. Os olhos de Libeskind brilharam…

Nos meses seguintes, as conversas avançaram. Ricardo e Sandra introduziram o casal Libeskind ao Rabino Mendel Liberow e a sua esposa Mimi, instalando-se pronta sintonia entre todos. Aos poucos o conceito evoluiu para um centro cultural de inédita concepção. Nina apelidou o projeto em curso de “Joia Arquitetônica” e passamos a chama-lo de “little pearl”: estávamos todos, enfim, engajados na lapidação de uma joia. Daniel, finalmente, batizou o projeto conceitual de Centro Cultural Shofar, em alusão aos poderosos significados do chifre de carneiro – um dos mais antigos instrumentos de sopro de que se tem notícia – tocado na cerimônia de celebração do Ano Novo judaico.

Escrevo este texto pouco depois de chegar de uma viagem a Berlim, cidade aonde não retornava há 21 anos. Pude finalmente caminhar pela Unten den Linden, avenida que ficara em Berlim Oriental, respirando o frescor das tílias, e passei sob as imponentes colunatas do Portão de Brandemburgo, em direção à Grosse Stern. Conheci o refinado palácio rococó de Sansouci, erguido por Frederico o Grande no século XVIII, na vizinha Potsdam – antes localizada na Alemanha Oriental, a DDR, que ao exigir um complicado visto inviabilizava a visita para estrangeiros como eu. Vi o Reichstag renovado, agora com uma magistral cúpula de vidro. E fui, também, ao prédio que Libeskind concebeu para o Museu Judaico.

Eu conhecia a edificação por fotos. Mas visitá-la representou uma experiência sensorial inusitada. Muito mais do que ser visto, é um prédio para ser vivido e sentido. Poderíamos encher páginas e páginas sobre os detalhes que compõem o conjunto, sobre as sensações que suscitam, tais como a instigante maneira como as aberturas, vislumbradas de fora, remetem-nos a uma estrela de David estilhaçada. Mas um espaço, em particular, me chamou muito a atenção: o Jardim da Diáspora é acessado por uma porta pesada, ao final do Eixo do Exílio. É um jardim incomum, como se estivesse de cabeça para baixo. Belas oliveiras, que não podem ser tocadas, crescem no topo de desconcertantes blocos de concreto alinhados geometricamente. Caminhar por entre esses blocos, de igual proporção, causa certa desorientação, pois o piso tem inclinações. A experiência sugere a imponderabilidade da História, cujos desafios, muitas vezes opressores, enfrentam-se coletivamente. Mas a mensagem é otimista, pois se lançarmos os olhos para o alto, veremos o verde das oliveiras projetando-se para o céu, num registro claro de esperança.

Impossível não lembrar aqui da pomba que trouxe um ramo de oliveira no bico para o patriarca Noé, anunciando a terra tão sonhada, depois da longa deriva pelas torrentes sem fim do dilúvio, cujas águas purificaram a matéria física e ampliaram a consciência dos homens no Divino. Para os judeus, o azeite extraído das olivas era medicinal, ajudava a cicatrizar. O seu uso indicava o sentimento de alegria, ao passo que a sua falta, tristeza e humilhação. Um pequeno jardim, no museu, condensa experiências tão arrebatadoras.

Quando Daniel concebeu o seu prédio, em 1988, ninguém imaginaria que o muro cairia em novembro do ano seguinte e a Berlim dividida se reunificaria tão rápido. Quando morei em Berlim, naqueles tempos, ninguém imaginaria que um dia Porto Alegre pudesse sonhar com um prédio de Daniel Libeskind.



[1] A conferência de Daniel Libeskind está transcrita no livro “Fronteiras do Pensamento: ensaios de cultura e estética”, organizado por mim e por Fernando Schüler e publicado em 2010 pela Editora Civilização Brasileira.





A Feira e o Fato

15 de novembro de 2011 3

A Feira do Livro de Porto Alegre é uma alegria. Como é bom circular por entre as barraquinhas, remexer nos balaios, folhear os livros… Respirar o ar de primavera, sob a floração dos jacarandás e guapuruvús. E encontrar os amigos! Para quem, como eu, está há algum tempo morando em outra cidade, a Feira do Livro é uma festa. A cada meia dúzia de passos, encontra-se um amigo querido, um escritor, um colega. São como pequenos presentes que recebemos em meio a essa rotina agitada da vida contemporânea. Retornos a um tempo que já vai se escoando, quando as cidades eram menores, quando não se circulava tanto em carros particulares, com os vidros lacrados,  e surgiam a todo instante adoráveis oportunidades para bater papo com as pessoas. O bistrô do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, nessa época, vira o coração de Porto Alegre. Escritores, políticos, artistas, estão todos lá! A Feira é uma festa!

Na última quinta-feira, tive a honra de conhecer pessoalmente o Ivo Bender e a Ana Mariano, os dois outros finalistas, junto comigo, na categoria personalidades do Prêmio Fato Literário. Do Ivo, sempre fui fã. Lembro das aulas de teatro da Professora Olga Reverbel no Colégio Aplicação, em Porto Alegre, quando discutíamos e encenávamos as peças dele. A Ana foi uma agradável surpresa. Não a conhecia. O livro dela já está na minha lista de leituras. Uma foto divertida com nós três saiu na Zero Hora de sexta.

Fiquei muito contente com esta indicação. Estar em companhia tão ilustre configura uma distinção. Considero uma vitória de todos os historiadores, uma demonstração de carinho da cidade para com o nosso ofício, aqui reconhecido como uma expressão literária, o que nos é motivo de gáudio. É um testemunho do prestígio que a História e a memória gozam entre os gaúchos. Pessoalmente, a indicação chegou num momento especial, pois lancei na Feira o “Gênese do Estado Moderno no RS (1889-1929)”, produto da tese de doutorado defendida na USP e que consumiu dez anos para ser publicada, além de outros 10 anos de pesquisas. Talvez seja o meu trabalho mais importante. Então, independentemente do resultado final, já me considerei premiado em figurar entre os finalistas.

Breve anatomia da multidão

11 de novembro de 2011 0

Acaba de ser publicado o meu artigo na revista Voto desse mês.



Quando o britânico E. P. Thompson publicou O fazer-se da classe operária inglesa, em 1963, e o canadense George Rudé publicou A multidão na história, em 1964, a massa era um fenômeno praticamente negligenciado pelos historiadores. Havia exceções, como o trabalho de Eric Hobsbawm sobre as rebeliões dos séculos XIX e XX, publicado em 1959. O tema era assunto de sociólogos, psicólogos ou filósofos.

Gustave Le Bon, ao final do século XIX, procurara criar uma psicologia das massas, mas, a despeito de seu pioneirismo, permanecera aferrado a ideias de raça, inclinando-se a ver as multidões como uma força irracional, instável, destrutiva, primitiva. Seus méritos residem, sobretudo, no tratamento das massas para além da lógica das classes sociais, atribuindo-lhes também uma estética. Já foi algum avanço, pois o que se tinha até então era Edmund Burke e Hippolyte Taine, para quem os levantes populares amalgamavam a escória, a ralé, uma malta de criminosos: um rosário de preconceitos. Burke sequer admitia a possibilidade de construção de uma constituição pelo povo, pois, para ele, as leis eram emanação das tradições. Para que democracia? No extremo oposto, estava o historiador francês Jules Michelet, para quem a multidão era expressão genuína do povo, único agente da ação revolucionária positiva. Idéia mais amena, mas nem por isto livre de estereótipos.

Sigmund Freud, impactado pela aberração da Primeira Guerra Mundial e sob influência das ideias sobre o carisma de Max Weber, retomou a obra de Le Bon, entre 1915 e 1922, e viu um encantamento erótico entre as massas e as lideranças. Para Freud, o líder político toma a forma de um pai perseguidor, primitivo, provedor. O espaço da política, para ele, estava impregnado pela autoridade e a luta política não passava de uma disputa geracional. É uma percepção com implicações conservadoras, na medida em que desvaloriza a possibilidade de crítica social e reduz a contestação do poder à expressão de sentimentos hostis. O espaço público em Freud é apenas uma extensão do privado.

Thompson, Rudé e Hobsbawm estavam preocupados em tatear o contexto das multidões. Rudé, em especial, debruçou-se sobre o motim, forma característica de protesto popular pré-industrial, tentando identificar os personagens de carne e osso por detrás dos tumultos. Em geral, tinham pouco a ver com as multidões revolucionárias de 1789 e de 1843. Na maior parte, eram levantes instigados por lembranças de direitos costumeiros, por nostalgias de utopias do passado, por uma ideia de justiça natural, violenta e imediata, que estala diante da fome, da quebra de paradigmas, da introdução de uma máquina no processo fabril ou de uma nova taxa a incidir sobre a comunidade. Emanações de um espírito de conservação, de costumes ou padrões de vida, que foi conformando uma contestação do poder. Rudé percebe no amotinado do século XVIII e de meados do XIX o embrião do sindicalista, do militante trabalhista e do consumidor organizado da nova sociedade industrial. O embrião de um processo de conquista de direitos que desembocou na democracia e na sociedade de massas do século XX.

Mark Dery situa nos parques de Coney Island, em fins do século XIX, o berço da cultura de massas. Espaços amplos, projetados para acolher multidões, impregnados de uma estética exagerada, feericamente iluminados, lastreados na explosão de cores, na confusão tonitroante de ruídos, na profusão de sabores industrializados, fast, edulcorados, territórios atulhados de uma parafernália voltada à diversão, à fruição. Uma apoteose do fake, que se converteu rapidamente no templo de uma cultura mais reativa do que reflexiva, pós-letrada, mais suscetível à manipulação de imagens do que à articulação de idéias, mais ou menos como Le Bon, na sua face mais criativa, sugeria. Para Dery, os parques foram um agente poderoso de transformação social, que varreu os resquícios da era vitoriana, substituindo-a por um mercado consumidor de massas composto de grupos heterogêneos e anônimos.

A multidão, reunida durante o século XIX nas grandes cidades, repentinamente se tornava visível, deslocava-se dos bastidores para o primeiro plano, fundava uma estética, reivindicava protagonismo. Político, inclusive, para desespero dos velhos vitorianos, da elite que achava que os benefícios da liberdade deveriam ser partilhados apenas entre um punhado de ilustrados. Foi o mercado consumidor de massas que impulsionou o grande desenvolvimento econômico até o fim dos anos 1920, especialmente nos Estados Unidos. Foi a massa de desempregados – 30% da população norte-americana –, produzida pela Grande Depressão, que elegeu Franklin Delano Roosevelt e seu New Deal keynesiano de 1933, derrotando o liberal Hoover. Foi a massa de desempregados na Europa que levou água ao moinho das ideologias corporativas, que rapidamente degeneraram no fascismo e no nazismo, apoiados inicialmente por uma burguesia internacional preocupada com o avanço de outra massa, a dos bolcheviques alçados pela Revolução Russa de 1917.

Entrevista de junho para a revista Press

11 de novembro de 2011 0

Com a indicação para o Prêmio Fato Literário, as pessoas têm me perguntado sobre o meu trabalho, o que já fiz, o que tenho feito… Lembrei desta entrevista que saiu publicada na Revista Press, de Porto Alegre, em junho desse ano. Confira aí.

Palestra na UCS sobre o Judiciário no RS, dia 7

04 de novembro de 2011 0

Caros amigos, dia 7 estarei na Universidade de Caxias do Sul, em uma palestra sobre a História do Judiciário, às 19 horas e 40 minutos. Será a abertura do  I Seminário do Centro de Memória Regional do Judiciário, que comemora 10 anos de existência. Vejo você lá! Abraços!

Gênese do Estado Moderno no RS (1889-1929), na Feira do Livro de Porto Alegre

02 de novembro de 2011 0

Caros amigos. Minha tese de doutorado, defendida em 2001, sob orientação da Profa. Maria de Lourdes Monaco Janotti, na Universidade de São Paulo, terá lançamento na Feira do Livro de Porto Alegre, nesse dia 8 de novembro. Haverá uma mesa redonda com a participação da Professora Helga Iracema Landgraf Piccolo e do historiador Coralio Bragança Pardo Cabeda, às 14 horas e 30 minutos, seguida de sessão de autógrafos, às 16 horas e 30 minutos, na tenda dos autógrafos.

A edição está sob responsabilidade da Editora Paiol, de Porto Alegre, e tem apoio dos Supermercados Zaffari, que a viabilizaram. O livro sai com o titulo “Gênese do Estado Moderno no Rio Grande do Sul (1889-1929)”.

A pergunta central a que o livro procura responder é qual foi o sentido histórico dos governos do PRR no RS e a que interesses sociais eles atenderam. Articula uma análise das relações de poder no âmbito do sistema coronelista de mando com as principais políticas públicas desenvolvidas pelos governos da época, com ênfase na política portuária e de navegação, na administração fiscal, nas ferrovias e na gestão orçamentária do Estado. Este é o período do início da dívida estadual, da encampação do porto e da viação férrea e da criação do Banrisul, temas abordados no trabalho. Outro aspecto analisado é a economia do contrabando de fronteira.

O livro estuda, assim, numa perspectiva de longa duração, os diversos discursos que se constituíram em torno dos processos intervencionistas do estado na economia, levando em conta os diferentes momentos vividos pelos governos do PRR, como, também, as opiniões da oposição federalista/libertadora, tanto em nível regional, quanto em nível nacional. Os anais da Assembleia e do Congresso Nacional, a imprensa, relatórios das secretarias de estado, relatórios de empresas e publicações da época são fontes utilizadas no esforço de compreensão dessa dinâmica.

O alcance das ações do estado e do governo no campo da economia é compreendido quando se cotejam as políticas públicas e os discursos em torno das mesmas com o sistema de relações de poder e com uma análise da conformação das instituições. Dessa forma, o livro pretende avaliar o funcionamento do Judiciário, da Assembleia e do aparato policial, sempre em relação com a dinâmica coronelista de poder. Compulsando o acervo reunido no Arquivo Borges de Medeiros, o estudo percebe como as relações de poder se processaram em alguns municípios: Santana do Livramento, Bagé, Jaguarão, Rio Grande, Canguçu, Santa Maria, Palmeira das Missões e Lagoa Vermelha.

Trata-se de uma análise da conexão entre economia, discurso político e práticas de poder, cujas conclusões, em muitos aspectos, diferem do que se propunha. O PRR, por exemplo, deixa de ser entendido como um partido hierarquicamente organizado, monolítico, de conteúdo programático rígido e modernizador. A tese, pelo contrário, capta as tensões e descontinuidades internas, as mudanças de discurso e tende a concluir pelo perfil conservador que conformou a aliança de frações de classe dominante de sustentação ao regime castilhista-borgista. A complementaridade de interesses entre a zona de colonização e os governos do PRR também é relativizada: de curral eleitoral do PRR, passa a ser vista como área de instabilidade. Outro aspecto é a avaliação do peso da influência dos positivistas no governo, cuja presença em períodos e em setores específicos, como a Secretaria de Obras Públicas, é estudada. Desenha-se, outrossim, a descontinuidade no plano político e ideológico entre Julio de Castilhos e Borges de Medeiros, tendo ainda os Governos Carlos Barbosa Gonçalves e Getúlio Vargas merecido atenção.

Voltaire Schilling, chevalier

02 de novembro de 2011 1

Há poucos dias, o Presidente da República da França, Nicholas Sarcozy, nomeou o nosso querido Professor Voltaire Schilling Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito. A distinção veio em reconhecimento ao interesse sempre manifestado pelo Professor em favor da língua e da cultura francesas. O reconhecimento é certamente um contraste com a desconsideração com a qual o Voltaire foi tratado no final do Governo Yeda Crusius pela Secretaria de Cultura. Então, acho que vale aí o registro.