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Porto Alegre, Brasil

03 de dezembro de 2011 5

Caros amigos, bom dia!

O texto abaixo foi publicado numa bela matéria no caderno Donna, da Zero Hora, no último dia 20 de novembro, em registro ao lançamento do livro sobre Porto Alegre dos fotógrafos Leonid Streliaev, Liane Neves e Adriana Franciosi, que tem textos meus e cujo lançamento teve lugar numa badalada festa no clube Leopoldina Juvenil, no dia 23.


O livro é sobre Porto Alegre. Mas, confessemos, tudo começou em Gramado…! Há pouco mais de um ano, o Leonid Streliaev, nosso querido Uda, me visitou, numa ensolarada tarde de primavera, para um mate no jardim, sob a galhada majestosa de uma viçosa araucária. Há tempos o Uda vinha reunindo fotos para um livro sobre Porto Alegre. Sonho antigo, era o acervo de uma vida dedicada à fotografia, uma declaração de amor à cidade. O desafio, então, era organizá-las por temas, preencher possíveis lacunas, transmitindo, para moradores e visitantes, o nosso afeto pela cidade, a ideia que dela já fazíamos.

O que, afinal de contas, nos faz porto-alegrenses? Quais os conceitos que sintetizam nossa identidade local? O que caracteriza a Capital dos gaúchos?

Desejávamos produzir um documento claro e conciso, mas imagético e eloquente, para uma cidade que então estava se rediscutindo intensamente. A bela sede da Fundação Iberê Camargo inaugurara-se há pouco e sinalizava no sentido de uma retomada da arquitetura icônica, bem como anunciava disposição para conviver com a ousadia; grandes eventos internacionais, como os jogos da Copa do Mundo, programavam-se no futuro, prometendo visibilidade renovada e fluxos de turistas; debatia-se a revitalização de áreas inteiras, como o Centro Histórico e o Cais da Mauá, e novos empreendimentos brotavam por tudo, redesenhando o mapa da ocupação urbana. Enquanto isso, também, velhos problemas persistiam.

Da conversa inicial, evoluímos, aos poucos, e o time ganhou o concurso inestimável das fotógrafas Liane Neves e Adriana Franciosi. Cantos, recantos, paisagens, pessoas; conceitos, fachadas, luz, cores, rostos e sentimentos: tudo foi sendo mapeado e clicando pelas lentes atentas de três dos mais competentes e reconhecidos dos nossos fotógrafos. Além disso, diversas personalidades colaboraram com depoimentos e impressões.

Assim, em 18 eixos, propusemos uma compreensão do espírito que nos anima: Capital, meridional e estrategicamente localizada; a cidade açoriana, a alemã e a moderna; urbe positivista, regionalista e ainda algo rural; mas também cosmopolita e culturalmente dinâmica; um polo de serviços na área da saúde, centro com tradições industriais e sindicais; habitada por uma gente multicultural, diversa; surpreendentemente fervorosa e sincrética; agitada pela força do voluntariado, da participação cidadã e do debate constante; cidade verde, recheada de parques, praças e vias arborizadas; onde as quatro estações do ano estão bem contrastadas, colorindo o ambiente e influenciando no ânimo e na disposição de todos; berço para um dos mais belos pores-do-sol do globo, cenário para uma luminosidade matizada, cristalina; tímida para com as monumentalidades, ciosa da beleza encerrada nos detalhes; a paixão pelas águas e pelo esporte; o centro gastronômico e de diversões; finalmente, os desafios e perspectivas que se esboçam.

Cidades são organismos que vibram no interior de nós mesmos, respiram em cada um de nós. São parte da nossa história, assim como a família, os amigos de colégio, o trabalho ao qual nos dedicamos. Condensam as balizas de nossa origem, circunscrevem o ambiente que nos abriga, significam e ressignificam nossa alma num contínuo vir a ser, individual, coletivo.

Algazarra de criançada em brincadeiras mil pelas ruas pacatas do bairro: bicicletas, futebol, esconde-esconde…: pertenciam aos miúdos os trajetos daquela Porto Alegre, já consumida pela voragem dos anos. Lembro-me dos baldios, que ainda suspiravam no tecido urbano; dos morros curvilíneos, cobertos de erva treme-treme, bailando frágil ao vento, convidando à liberdade. O horizonte plácido das águas espelhadas do Guaíba, barrentas em dias plúmbeos, borradas de auri-encarnado ao pôr-do-sol, ou lactescentes sob a infusão dos astros, à noite.

A cidade mudou. A ubiquidade dos automóveis nos roubou, nos anos 1960, os elegantes bulevares legados pelos anos 1930. Mas a “cidade tão pequena, tão ingênua, tão distante dos grandes centros, longe demais, das capitais…”, cantada na canção dos Engenheiros do Havaí, nos anos 1980, hoje recebe prédios de arquitetos de nomeada global, como o português Álvaro Siza e o polonês Daniel Libeskind.

No imaginário do País, Porto Alegre rescende mistério: gelada no inverno, com uma gente cheia de convicções e opiniões, vanguarda avançada em disputada fronteira do Império de outrora, berço de tantas importantes lideranças, pátria de grandes indústrias, trincheira primeira para a Revolução de 1930, que modernizou o Brasil; sementeira do movimento ecológico… Por vezes, percebida como uma velha senhora envergando farda, e então célebre pelas mais belas mulheres… Ao visitante que nos chega, apressamo-nos a partilhar o que nos é mais caro: um recanto, uma fachada de um prédio, um parque, as ruas arborizadas, o livro entronizado na praça, uma perspectiva insinuada das dobras da paisagem, a noite que ferve, o nosso Theatro, os amigos…

Comentários (5)

  • Eliana Frantz diz: 11 de dezembro de 2011

    Parabéns a todos que fizeram dessa obra uma recordação belíssima de nossa cidade.

  • Empresa de TI e Soluções em Informática diz: 12 de dezembro de 2011

    Deve ser uma leitura deliciosa e a capa ficou linda!

  • Vânia diz: 9 de janeiro de 2012

    Amei! Quero comprar! Onde está a venda? Grata

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