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Breves considerações a propósito do universal, do multicultural e do comum

10 de dezembro de 2011 1

Está on-line meu artigo do mês na revista Voto. Confere aí.



Num mundo marcado por guerras e conflitos alimentados por impasses culturais, a tolerância vem sendo sistematicamente invocada como remédio. A temática é empolgante, mas sua aplicação prática sempre mais complexa do que se imagina. Muito do debate repousa sobre uma fórmula capaz de estimular o diálogo entre as diferentes culturas.

No final do século XX, o multiculturalismo consolidava-se em muitas nações como alternativa redentora, um passo bem além da assimilação eurocêntrica. Mas o modelo, que prosperou e países como os Estados Unidos, a Inglaterra e a Holanda, despertou críticas de todos os matizes.

O teórico Zygmund Bauman, à esquerda, viu no multiculturalismo a ferramenta ideal para uma globalização comprometida apenas com a liberalização econômica, sem freios, na qual a elite estaria livre para consumir as identidades que mais lhe aprouvesse, ao mesmo tempo em que sua consciência dormiria em paz diante da miséria e do atraso material, afinal, tudo se resumiria a questões culturais e seria necessário “respeitar as diferenças intrínsecas”. À direita, o ultraconservador Samuel Huntington percebeu as culturas como em inescapável estado de choque, defendendo que o Ocidente se encerrasse numa cidadela inexpugnável e intolerante. Já a somali Ayaan Hirsi Ali, propugnando a defesa de valores liberais, testemunha o quanto o multiculturalismo intoxicou os serviços sociais dos governos europeus, em especial na Holanda, de forma a não apenas não ajudar no processo de integração dos imigrantes, mas, ainda, de maneira a contribuir para o seu isolamento e sofrimento. Com efeito, depois do assassinato do cineasta Theo Van Gogh em Amsterdã, em 2004, o multiculturalismo entrou em crise. Isto é, toda a política de tolerância dos holandeses para com a diferença não foi capaz de forjar um ambiente de integração e distensão.

O conflito entre culturas, como argumenta Amartya Sen, é em parte sustentado pela ilusão de que as pessoas se definem sobremodo a partir de uma única identidade, como se o mundo não passasse de uma federação de religiões e de um mosaico de culturas estanques, ignorando-se aspectos dinâmicos como gênero, profissão, língua, política, opção sexual… É uma equação vibrada no diapasão das novas identidades compósitas, fluidas e competitivas. Eis o fulcro da inviável tese de Samuel Huntignton sobre o choque de civilizações. Huntington é uma vulgata remasterizada de conservadores como o espanhol José Ortega y Gasset. O filósofo François Jullien, por exemplo, escancara ainda a fragilidade teórica da ideia de bloco civilizacional, baseada num reducionismo caricato de supostas identidades de povo, bem como numa visão estanque de tecidos socioculturais. Por que não considerar o ateísmo uma tradição europeia tão legítima quanto o cristianismo? Como é possível reduzir a diversidade do Islã ao fundamentalismo, desconsiderando correntes moderadas e modernistas?

Apesar de sua precariedade intrínseca, a ideia de Huntington foi capaz de catalisar forças poderosas, como no caso da guerra ao “eixo do mal” de George W. Bush, ou quando informa à distância políticas pretensamente afirmativas e inclusivas. Como mostra Sen a propósito do apoio afunilado de Ex-premiê inglês Tony Blair a certas congregações religiosas não oficiais na Inglaterra, como tentativa de diálogo com as minorias, no pós-ocupação do Iraque: isto é, mesmo governos liberais, trabalhistas e democratas podem promover identidades monistas, condenando na prática minorias à segregação sob a justificativa multicultural e cultural relativista, tendendo a ignorar que a pós-moderna sociedade de massas alimenta válvulas de polissemia intercultural. Algo que nós, brasileiros, já sabíamos desde o Manifesto Antropofágico de 1928, de Oswald e Mario de Andrade, ou desde o “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, publicado originalmente em 1933, eloquentes brados em favor da ideia de mestiçagem biológica e hibridação cultural.

François Jullien, em “O diálogo entre as culturas: do universal ao multiculturalismo”, agrega importante contribuição ao debate ao diferenciar os conceitos de universal, de uniforme e de comum. Para o filósofo, o universal declara-se um conceito da razão, emergindo da tradição europeia, e se reclama como uma necessidade à priori, confundindo-se com a elevação do pensamento e com a própria ciência. Assinala, assim, uma intransigência inegociável. E, gostemos ou não, segundo Jullien, é o universal, por exemplo, que se afirma na Declaração dos Direitos do Homem.

Já o uniforme, é um conceito não da razão, mas da produção, que se projeta não por uma necessidade, mas por uma comodidade. A única racionalidade que pode ser atribuída ao uniforme é a da gestão e a da economia. Enquanto o universal apoia-se na ordem da lógica e do prescritivo, o uniforme repousa sobre a imitação. Assim, se o “universal suscita ostensivamente a rebelião, aquela da singularidade”, o uniforme “se contenta em acalmar as resistências ao seu redor e se funde à paisagem”. Sua potência é cumulativa: quanto mais ele se propaga, mais ele se impõe. O uniforme produz a estandartização e, assim como o universal pode ofender o individual ou o singular, o uniforme choca-se contra a diferença. Uma cadeia de fast food seria o melhor exemplo para o uniforme. Mas, ele também pode se manifestar na política, como no caso, para Jullien, da Comunidade Comum Europeia, que vem respondendo às dificuldades de construção do comum com regulamentações uniformizadoras da economia e da produção.

Já o conceito de comum é eminentemente político. O comum diz respeito àquilo que se compartilha, se participa, se toma parte. O comum não é o parecido. Ele é dado por uma noção de pertencimento, que conforma comunidade, e pode se legitimar em sua progressão, por extensão gradual, como que delineando níveis sucessivos de comunidade aos quais um indivíduo ou grupo pode ser integrado. Trata-se, portanto, de um termo de dupla face, ao mesmo tempo inclusivo e exclusivo, pois ao incluir determinado perfil, ele pode excluir outro, por negação. Para Jullien, entretanto, a tendência histórico-filosófica do comum é mais forte no sentido de se descerrar do que de se fechar. Neste sentido, o comum evolui de um espaço de inclusão e de convergência para um local onde as particularidades se diluem, onde os interesses privados e específicos brandem suas contradições em igualdade de condições, com transparência, efetivamente possibilitando a emergência do diálogo e da política. É o espaço onde se pode dar também a abertura ao Outro. A transparência do comum é justamente a elisão das hierarquias ocultas, estruturais. Jullien acredita que possamos construir para a contemporaneidade uma cidadania múltipla, em círculos superpostos, mais ou menos como aquela que vigeu durante o Império Romano, desde, é claro, que o método para se chegar lá seja o do diálogo transparente e lógico, sob inspiração do que se promovia na antiga ágora da Atenas clássica, 500 anos antes de Cristo.

Comentários (1)

  • Eliana Frantz diz: 11 de dezembro de 2011

    Um texto perfeito, como sempre.
    Cada parágrafo deve ser lido, degustado com tal atenção, que possa inspirar gregos e troianos da atualidade.
    Lerei mais vezes, pois tudo aqui é claro, como bem disse: [...] que o método para se chegar lá seja o do diálogo transparente e lógico, sob inspiração do que se promovia na antiga ágora da Atenas clássica, 500 anos antes de Cristo.
    Um grande abraço e muito sucesso!

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