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Gramado, São Paulo, Paris, Nova Iorque

05 de janeiro de 2012 0

Tem estado particularmente fresco em Gramado, para esta época do ano. À noite, puxa-se um edredom e pela manhã liga-se até uma estufinha no banheiro. Favorece a preguiça e o acordar um pouco mais tarde. Durante o dia, um sol ameno convida ao jardim. Estou conseguindo assistir filmes, ler um pouco e escrever. Se permanecesse aqui por alguns meses, colocaria em dia muito do que me proponho a escrever. A escrita rende um monte em Gramado. Talvez seja o clima, o ar da serra, a vegetação no entorno, sei lá. Acho, aliás, uma pena que, em se tratando de uma cidade turística, esta vocação não seja melhor trabalhada. Há dúzias de escritores e intelectuais produzindo discretamente em Gramado. Mas na livraria da cidade, a Sucellus, nem uma estante dedicada a eles. A bem ajeitada biblioteca municipal parece que também não se acordou para isso.

O lado B da cidade também existe. O trânsito, por exemplo, tem estado bem chatinho. Quando não são turistas abobalhados, que não sabem circular em rótulas, são alguns gramadenses e canelenses. Muitos perderam a paciência com o trânsito lento e se tornaram agressivos. Na RS entre as duas cidades, excedem a velocidade, grudam nos veículos da frente de forma impertinente, tentando passar por cima, com sinais de luz e buzinas. Nas rótulas, ignoram a preferência de quem chega primeiro e, ao contrário dos turistas, que sempre acham pertencer a preferencial aos outros, se atravessam na frente de todos. Na Avenida São Pedro, é quase impossível conseguir que alguém dê passagem com gentileza, quando se quer sair de uma vaga de estacionamento. Mesmo com fluxo a 20 Km/h, uma paradinha gentil, nem pensar! Alguns taxistas, em especial, dão medo, de tal maneira cortam, costuram e tentam administrar cada espaçinho. Essa agressividade toda deveria ser tratada. A Prefeitura, infelizmente, não tem programas educativos e é deficiente na fiscalização. Deveriam distribuir folhetos, postar fiscais para orientação e, quiçá, aplicar multas. Na RS, urge a instalação de câmeras de vigilância para coibir manobras violentas. Gramado está ficando com problemas de trânsito de cidade grande, dado a atividade econômica frenética e o fluxo intenso de turistas. É o cúmulo que a Prefeitura se abstenha de agir. Obras viárias são necesárias, mas não são tudo. E, a propósito, acho que a cidade já reclama um melhor serviço de transporte público, como lotações, pequenos micro-ônibus, como forma de desafogar a área central. Faltam, também, bicicletários e ciclovias!

Voltando aos filmes, ontem revi pela televisão o excelente Salve Geral. Ainda há gente conservadora e mal informada que ignora a excelente safra do cinema nacional. O filme de Sérgio Rezende é, sem dúvida, ótimo! Melhor do que a maioria absoluta das porcarias policiais americanas que se atulham nas locadoras. Além de tecnicamente bem resolvido, é uma percepção inteligente do trágico Levante do Dias das Mães, em São Paulo. É um policial impactante como eram aqueles filmados na Nova Iorque dos anos 1970. Quem ainda não assistiu, não deve perdê-lo.

Eu ainda não tinha assistido ao Meia-noite em Paris, do Woody Allen. Ouvi dizer que muita gente achou se tratar de um filme sobre Paris. É um filme delicado sobre o diálogo entre culturas, pois aborda os estereótipos dos americanos com relação a Paris. Cada personagem representa um desses estereótipos turistas, típicos da era da sociedade de consumo de massas. O filme capta, sobretudo, como cidades icônicas estão morrendo por terem se tornado reféns de sua própria fama, o que atrai levas de moradores transitórios que anseiam por viver o seu passado e sua “atitude”. Dado o volume desses fluxos, acabam cidades com um presente cada vez menos profícuo e menos criativo. Woody enfrentou esta questão ultra-contemporânea pela ambiência de Paris, mas, creio, era de Nova Iorque que ele estava mesmo falando, ao fim e ao cabo, cidade onde vive e que ama. Metrópole que, junto com Paris, mais vem sofrendo desse mal. São hoje cidades que consomem tudo o que se faz e o que há no mundo, mas que cada vez mais vivem das imagens que se fazem do seu passado e cada vez menos produzem conceitos e novas atitudes para a contemporaneidade. São cidades cansadas.

Consegui, finalmente, terminar a leitura do Homem no Escuro, de Paul Auster. O livro começa bem, com um ótimo argumento. Um thriller cativante de um sujeito que se vê tragado para uma oura dimensão, paralela, na qual os Estados Unidos entraram em guerra civil, depois das eleições fraudelentas do Bush e do 11 de Setembro. O enredo fica ainda mais palpitante quando esse sujeito é comissionado para matar um velho jornalista na dimensão “real”, pois os líderes políticos do mundo paralelo descobriram que esta guerra acontece por estar sendo imaginada na cabeça desse alvo. Mas tudo não passa de uma conspiração do próprio, que se encontra imerso numa terrível depressão, deseja se suicidar e, para tanto, criou um personagem imaginário para matá-lo, dando-lhe carne e osso graças a esse trânsito entre dimensões. Há boas ironias sobre a ideologia norte-americana, sobram críticas à mercantilização de nossa sociedade e explora-se o conceito de múltiplas realidades paralelas, típico do pós-modernismo: “a gente entende que as piores possibilidades da imaginação são o país onde a gente vive”. Um bom testemunho da sombria era Bush. Outra peculiaridade do livro, bem característica da literatura da virada do milênio, é protagonismo atribuído a um personagem encanecido. Os velhos raramente eram protagonistas de romances pré-modernistas, como registra Simone de Beauvoir. Mas com o envelhecimento da sociedade contemporânea, isso mudou. Estão ali todos os dramas da velhice, mas o recado final é otimista. Ao fim e ao cabo, o “suicídio” não se confirma, graças a chance de interlocução do velho com a sua neta, uma adolescente que também está depressiva. Solução muito próxima àquela que Coetzee vem dando à velhice em sua obra. Foi pena que a narrativa acabou de forma meio amadora. Os personagens imaginários simplesmente desaparecem e tudo o que fica é uma conversa sobre o fim de um casamento. Dá a impressão que Auster comportou-se como os gregos antigos, que, nas tragédias mal estruturadas, chamavam um deus ex machina para terminar com o drama e encerrar o que não sabiam concluir. Mas esta é a vantagem de ser um escritor famoso – pode-se acabar um bom livro de qualquer jeito, que todos vão continuar adorando.

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