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A propósito do ócio criativo

17 de janeiro de 2012 0

Em dezembro, a revista Voto fez uma matéria bem interessante sobre o chamado ócio criativo, aproveitando citação de respostas minhas a uma breve entrevista. Resolvi desenvolver um pouco mais o tema aqui no blog.


A ideia de a criatividade fluir com dinamismo num ambiente menos carregado de compromissos e mais pautado pelo ócio não é nova. Está em Platão e em Sócrates. Era assim que os gregos antigos da Atenas clássica percebiam as pré-condições necessárias para a emergência da boa filosofia, da arte e da política, dimensões então apreendidas de uma forma orgânica e inter-relacionada. Naturalmente, nem todos os cidadãos podiam deixar o trabalho nas suas propriedades para passar os dias em palestras, banquetes, colóquios… Então, havia certo tom elitista nesta fórmula. Alguns dispunham de escravos para suportarem as tarefas pesadas e manuais, liberando-se para a política e a filosofia. Finalmente, por suposto, o exercício da cidadania não era extensivo às mulheres, cuja capacidade de pensar, inclusive, muito raramente se reconhecia.

Com a vulgata cristã que se espalhou na Idade Média europeia, o ócio criativo e elitista dos gregos derivou em desabrido preconceito contra as atividades manuais e argentárias. Agricultores, manufatureiros e comerciantes eram considerados como essencialmente inferiores ao clero e à nobreza – em tese, devotados à pregação, à contemplação espiritual e, no caso dos nobres, à guerra. Clero, nobreza e povo formavam então os três estados, convocados em assembleia pelos reis em tempos de aguda crise. Ao povo, certamente cabia mourejar e arcar com os impostos. Em nenhum outro país, como talvez na Espanha, a mais poderosa nação da primeira metade do século XVII, estes preconceitos calaram tão fundo e foram levados tão longe, com sequelas perceptíveis ainda em plena Era moderna.

Seria necessário o advento do protestantismo para que a cristandade lançasse outro olhar sobre a labuta. No século XVI, os puritanos na Inglaterra interpretaram todo o sinal de sucesso pessoal como uma benção divina. Calvinistas e Luteranos fizeram o mesmo. Mais tarde, a burguesia, cuja ascensão conecta-se também à ética protestante, entronizou o respeito ao trabalho, ainda que seu sucesso inicial tenha se dado na esteira da exploração feroz da mão de obra operária.

O enriquecimento das nações predominantemente protestantes e o declínio das católicas consolidou a convicção de que o trabalho era o melhor percurso para o progresso e para a felicidade. Com os horrores da Segunda Grande Guerra, quando se montou uma macabra indústria da morte, submergindo o mundo num pesadelo, alguns começaram a perceber que algo estava errado. Foi o caso do célebre escritor suíço Stefan Zweig, em 1941, quando, desejando escapar de um mundo que se precipitava na autodestruição desenfreada, viu no então aparentemente pacato e tolerante Brasil o “país do futuro”.

No fim do século XX, quando a aceleração da história, a vida on-line e a fartura se instalaram numa Europa desenvolvida no pós-guerra e agora pretensamente unificada, elevaram-se vozes lembrando que era preciso voltar a curtir a vida, relaxar, flanar. O ócio criativo timbrou então como grande novidade num Continente envelhecido e em sociedades ossificadas. Alguns levaram a concepção tão ao pé da letra que a confundiram com uma exacerbada concessão de benefícios supostamente sociais, a serem bancados por estados endividados. Protegidos e mimados, muitos passaram a se aposentar com proventos integrais, incrivelmente jovens e faziam ainda pouco caso do trabalho durante a curta vida ativa. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Grécia e na Itália, onde, aliás, não só a economia criativa parece ter se beneficiado muito pouco de todo esse ócio, como toda a economia naufragou.

Enquanto isso, no Brasil, se continuou trabalhando. E muito! Qualquer brasileirinho, a despeito da fama maldosa que ao nosso respeito se construiu no mundo nas décadas passadas, e na qual muitos de nós até acreditaram, trabalha em média muito mais – e em condições nem sempre tão confortáveis – do que qualquer europeu. Há estatísticas e pesquisas que o provam! Ok, talvez em setores da burocracia não funcione bem assim..: são até folclóricos certos casos de funcionários públicos que nada fazem e nunca são demitidos. Mas cabe realmente perguntar se esta é a regra, mesmo na burocracia.

Paralelamente, desenvolvemos uma espécie de tecnologia de ponta da cultura hedonista, da qual o carnaval e o futebol são sem dúvida expressões eloquentes, o que subitamente se tornou muito apreciado na contemporaneidade pós-moderna.

Mas o país é recheado de contradições. O trabalho intelectual e literário entre nós não goza do mesmo prestígio que em outras sociedades. Nossos mestres, professores, escritores, artistas e intelectuais são em geral mal remunerados e, lentes da nova economia criativa, vivem ainda sufocados por uma burocracia sem fim – como a das leis de incentivo à cultura, por exemplo – ou assoberbados pela exigência de, num mundo hiper-interativo, funcionarem permanentemente como caixeiros-viajantes de sua própria obra.

Sim, a situação já foi muito pior. Há alguns anos, mal se falava em direitos autorais para escritores e os mecanismos de financiamento à cultura, se hoje são precários, então praticamente não existiam. Ainda assim, o investimento brasileiro em cultura, educação e pesquisa é muito aquém do que seria razoável e o país desperdiça diariamente talentos, que precisam se desdobrar em mil para produzirem alguma coisa, para divulgarem seu trabalho e para se sustentarem economicamente. Já nem sonho com o ócio criativo, mas imaginem só se as condições de trabalho dos agentes da economia criativa fossem incrementadas? Considerando o peso que esta cadeia produtiva tem no desenvolvimento contemporâneo, poderíamos estar promovendo uma verdadeira revolução…

Então, penso, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem o delírio autodestrutivo e desumanizado do trabalho sem fim, nem a indolência. E, no Brasil, está na hora de aprimorarmos as políticas de incentivo à cultura e à pesquisa, bem como melhorarmos significativamente a educação. Antes do ócio criativo, precisamos melhorar as condições básicas para o advento definitivo da economia criativa.

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