Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

A. J. Renner – nota sobre uma grande liderança empresarial do Sul do Brasil

31 de janeiro de 2012 0

Está on-line meu artigo do mês na revista Voto.


A. J. Renner nasceu em Feliz, em 7 de maio de 1884, filho de descendentes de alemães. Seus pais tinham uma modesta padaria e seus avós eram agricultores ou militares. A família mudou-se para Montenegro, onde o pai de A. J. associou-se a uma serraria e a uma usina de banha. Jovem, A. J. Renner aprendeu ouriversaria em uma tradicional joalheira de Porto Alegre. Em 1907, converteu-se em sócio da empresa comercial de seu sogro e cunhados, em São Sabastião do Caí, a Christian Jacob Trein & Co, dedicando-se, assim, ao ofício de caixeiro viajante. Foi quando percorreu, no lombo de mulas, as antigas picadas da região colonial. Viajando sob intempéries, sol, chuva e até neve, percebeu que faltava aos caixeiros uma vestimenta adequada. Curioso, foi assim que acabou desenvolvendo o conceito da capa Ideal, que se tornou o maior sucesso da indústria têxtil do Rio Grande do Sul.
Para atender a produção do novo produto, desenvolvido a partir de muita pesquisa, em 2 de janeiro de 1911, sob a razão social de Frederico Engel & Co., entrou em operação uma tecelagem em São Sebastião do Caí. A razão social foi trocada, em 2 de fevereiro de 1912, para A. J. Renner & Cia. . Em 1916, a empresa foi transferida para Porto Alegre, barateando os custos de produção. Em Porto Alegre, Renner construiu uma organização vertical, adotando novas técnicas, revolucionárias para a época. Em breve, tornou-se referência para os industriais e empreendedores gaúchos e seus produtos começaram a ser vendidos em todo o Brasil.
Renner decidiu apostar na relação direta com o consumidor. Foi assim que disseminou pelo Estado uma rede de revendedores exclusivos de seus produtos. Logo em seguida, surgiram as “roupas em prova”, ou seja, ternos e paletós alinhavados, permitindo o ajuste em poucas horas na própria loja conforme especificações do cliente. Para isso, implantou em cada filial uma oficina anexa. Para dinamizar a comercialização, aproximando-a de mais bolsos dos consumidores, instituiu ainda um sistema de vendas a prazo. Tamanho foi o sucesso da loja que em 1932 ganhou uma sede própria. O edifício foi ampliado em 1935 e completamente reformado em 1944. Tornou-se uma das referências arquitetônicas do Centro de Porto Alegre
Aos poucos, as lojas foram comercializando novos produtos desenvolvidos pela fábrica. Dos costumes masculinos passou aos tailleurs para senhoras e daí à malharia de seda e lã. O aproveitamento dos retalhos deu origem à confecção de chinelos e sapatilhas. A insatisfação quanto à qualidade do solado conduziu-o a fundar um curtume, donde em seguida derivou toda uma linha de calçados. A preocupação com a qualidade da lã incentivou a companhia a estabelecer prêmios aos fornecedores. Distinguiam-se assim aqueles que apresentavam lãs mais limpas e regulares. Da mesma forma, o fornecimento de linho exigiu de A. J. longas horas de meditação. Estudou a cultura e o processo de colheita. Verificou onde se faziam necessários ajustes e transformações. Terminou incentivando o início de uma plantação modelo em Farroupilha. Com o propósito de aperfeiçoar a maceração da palha e o tratamento da fibra no próprio local de produção, associou-se aos agricultores.
Sempre muito atento às questões sociais, Renner foi um dos primeiros empresários brasileiros a investir pesadamente em qualificação e bem estar de sua mão-de-obra. Construiu vilas operárias, creches, refeitórios, criou cooperativas de crédito para seus funcionários. Tão amplos e importantes eram os benefícios estabelecidos que os operários de suas companhias negavam-se a aderir às greves gerais que paralisavam Porto Alegre, quando os trabalhadores lutavam por melhores condições de vida. Já com a implantação do sistema de três turnos em 1916, Renner inovou ao estabelecer a jornada de oito horas, o que era uma antiga reivindicação da classe operária. Em seguida, a eletrificação da produção, substituindo o maquinário a vapor, melhorou significativamente a rotina de trabalho, com a abolição de correias e polias. A medida reduziu também os acidentes.
Em 1930, Renner aderiu à Revolução de 3 de Outubro, ajudando, inclusive, a subvencioná-la. Foi graças ao sucesso desse movimento que a Federação das Indústrias do RS pôde ser fundada, em 1931, pois, até então, os velhos governantes do Estado faziam todo o possível para inviabilizar o surgimento de fóruns de organização na sociedade civil. A participação de Renner no movimento e sua proximidade a Getúlio Vargas, na época Governador do Rio Grande do Sul e líder da Aliança Liberal, ajudaram a desfraldar a bandeira da legislação trabalhista. Renner, já como presidente da Federação das Indústrias do RS, viajou a São Paulo para ajudar o Governo Provisório a convencer os empresários paulistas da importância da adoção no Brasil de medidas assistencialistas para os trabalhadores, bem como de uma legislação trabalhista moderna.  
Nos anos 1930, A. J. Renner foi representante classista na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, chegando a galgar o posto de Vice-Presidente. Foi envolvido nas articulações políticas que determinaram no Rio Grande do Sul o fim do célebre modus vivendi, uma tentativa de regime parlamentarista, cujo corolário foi a queda do General Flores da Cunha do Governo.
O termo da Segunda Guerra mundial deu lugar a uma ampla reformulação do maquinário da empresa. Também foram construídos novos pavilhões e reformados os escritórios. Membro do Rotary Club, Renner engajou-se numa campanha mundial movida pela entidade que sugeria o caminho das obras e reformas como forma de ocupar a mão-de-obra e os capitais liberados com o final do conflito.
Durante os anos 1940 e 1950, A. J. Renner abraçou inúmeras causas. Defendeu a utilização de combustíveis alternativos, como o gasogênio e óleos vegetais. Advogou a causa da reforma agrária, insistindo que as cidades deveriam ser cercadas por cinturões verdes de pequenas propriedades rurais, distribuídas subvencionadamente aos trabalhadores sem-terra. Criticou sem trégua a política cambial, orçamentária e tributária de sucessivos governos. Pugnou pela garantia da liberdade de mercado e pelo recuo da intervenção do Estado na economia, que se consubstanciava seja sob a forma de agências reguladoras ou mediante a formação de monopólios estatais no setor de serviços públicos. Todavia, celebrou a criação de agências de fomento e de crédito à produção agrícola e industrial. Insistia na necessidade de racionalização e enxugamento da administração estatal. Propugnava a melhoria das condições infra-estruturais do País e se lançou numa campanha de valorização da atividade industrial, que tinha por metas a mudança de mentalidade, o reforço da imagem empresarial, o reequipamento do parque fabril, o desembaraço da produção mediante desregulamentação estatal e, sobretudo, a expansão do financiamento aos produtores.
Renner criticou o capitalismo liberal e atacou os extremismos políticos de esquerda ou de direita. Execrava o populismo demagógico. Acreditava na possibilidade de convivência da livre iniciativa e do lucro empresarial com a justiça social, em plena vigência de um regime democrático. Acreditava, ainda, na chance de cooperação construtiva entre Estado, trabalho, campo e capital. Pode, por isso, ser considerado como um dos precursores de um modelo próximo à social democracia no Brasil.
A.J. Renner faleceu em 27 de dezembro de 1966, aos 82 anos de idade, em Porto Alegre. Representou para o Rio Grande do Sul um paradigma do empreendedor dinâmico, que se afirmou à margem do amparo governamental e conquistou, por seus méritos, espaço de interlocução política. Foi lembrado por toda uma geração como o “Capitão de Indústrias”, apelido que não se remetia apenas a sua impressionante capacidade empreendedora, mas também, e, sobretudo, à condição de liderança política que empunhou ao longo de sua trajetória pessoal.

Envie seu Comentário