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Posts de janeiro 2012

A. J. Renner – nota sobre uma grande liderança empresarial do Sul do Brasil

31 de janeiro de 2012 0

Está on-line meu artigo do mês na revista Voto.


A. J. Renner nasceu em Feliz, em 7 de maio de 1884, filho de descendentes de alemães. Seus pais tinham uma modesta padaria e seus avós eram agricultores ou militares. A família mudou-se para Montenegro, onde o pai de A. J. associou-se a uma serraria e a uma usina de banha. Jovem, A. J. Renner aprendeu ouriversaria em uma tradicional joalheira de Porto Alegre. Em 1907, converteu-se em sócio da empresa comercial de seu sogro e cunhados, em São Sabastião do Caí, a Christian Jacob Trein & Co, dedicando-se, assim, ao ofício de caixeiro viajante. Foi quando percorreu, no lombo de mulas, as antigas picadas da região colonial. Viajando sob intempéries, sol, chuva e até neve, percebeu que faltava aos caixeiros uma vestimenta adequada. Curioso, foi assim que acabou desenvolvendo o conceito da capa Ideal, que se tornou o maior sucesso da indústria têxtil do Rio Grande do Sul.
Para atender a produção do novo produto, desenvolvido a partir de muita pesquisa, em 2 de janeiro de 1911, sob a razão social de Frederico Engel & Co., entrou em operação uma tecelagem em São Sebastião do Caí. A razão social foi trocada, em 2 de fevereiro de 1912, para A. J. Renner & Cia. . Em 1916, a empresa foi transferida para Porto Alegre, barateando os custos de produção. Em Porto Alegre, Renner construiu uma organização vertical, adotando novas técnicas, revolucionárias para a época. Em breve, tornou-se referência para os industriais e empreendedores gaúchos e seus produtos começaram a ser vendidos em todo o Brasil.
Renner decidiu apostar na relação direta com o consumidor. Foi assim que disseminou pelo Estado uma rede de revendedores exclusivos de seus produtos. Logo em seguida, surgiram as “roupas em prova”, ou seja, ternos e paletós alinhavados, permitindo o ajuste em poucas horas na própria loja conforme especificações do cliente. Para isso, implantou em cada filial uma oficina anexa. Para dinamizar a comercialização, aproximando-a de mais bolsos dos consumidores, instituiu ainda um sistema de vendas a prazo. Tamanho foi o sucesso da loja que em 1932 ganhou uma sede própria. O edifício foi ampliado em 1935 e completamente reformado em 1944. Tornou-se uma das referências arquitetônicas do Centro de Porto Alegre
Aos poucos, as lojas foram comercializando novos produtos desenvolvidos pela fábrica. Dos costumes masculinos passou aos tailleurs para senhoras e daí à malharia de seda e lã. O aproveitamento dos retalhos deu origem à confecção de chinelos e sapatilhas. A insatisfação quanto à qualidade do solado conduziu-o a fundar um curtume, donde em seguida derivou toda uma linha de calçados. A preocupação com a qualidade da lã incentivou a companhia a estabelecer prêmios aos fornecedores. Distinguiam-se assim aqueles que apresentavam lãs mais limpas e regulares. Da mesma forma, o fornecimento de linho exigiu de A. J. longas horas de meditação. Estudou a cultura e o processo de colheita. Verificou onde se faziam necessários ajustes e transformações. Terminou incentivando o início de uma plantação modelo em Farroupilha. Com o propósito de aperfeiçoar a maceração da palha e o tratamento da fibra no próprio local de produção, associou-se aos agricultores.
Sempre muito atento às questões sociais, Renner foi um dos primeiros empresários brasileiros a investir pesadamente em qualificação e bem estar de sua mão-de-obra. Construiu vilas operárias, creches, refeitórios, criou cooperativas de crédito para seus funcionários. Tão amplos e importantes eram os benefícios estabelecidos que os operários de suas companhias negavam-se a aderir às greves gerais que paralisavam Porto Alegre, quando os trabalhadores lutavam por melhores condições de vida. Já com a implantação do sistema de três turnos em 1916, Renner inovou ao estabelecer a jornada de oito horas, o que era uma antiga reivindicação da classe operária. Em seguida, a eletrificação da produção, substituindo o maquinário a vapor, melhorou significativamente a rotina de trabalho, com a abolição de correias e polias. A medida reduziu também os acidentes.
Em 1930, Renner aderiu à Revolução de 3 de Outubro, ajudando, inclusive, a subvencioná-la. Foi graças ao sucesso desse movimento que a Federação das Indústrias do RS pôde ser fundada, em 1931, pois, até então, os velhos governantes do Estado faziam todo o possível para inviabilizar o surgimento de fóruns de organização na sociedade civil. A participação de Renner no movimento e sua proximidade a Getúlio Vargas, na época Governador do Rio Grande do Sul e líder da Aliança Liberal, ajudaram a desfraldar a bandeira da legislação trabalhista. Renner, já como presidente da Federação das Indústrias do RS, viajou a São Paulo para ajudar o Governo Provisório a convencer os empresários paulistas da importância da adoção no Brasil de medidas assistencialistas para os trabalhadores, bem como de uma legislação trabalhista moderna.  
Nos anos 1930, A. J. Renner foi representante classista na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, chegando a galgar o posto de Vice-Presidente. Foi envolvido nas articulações políticas que determinaram no Rio Grande do Sul o fim do célebre modus vivendi, uma tentativa de regime parlamentarista, cujo corolário foi a queda do General Flores da Cunha do Governo.
O termo da Segunda Guerra mundial deu lugar a uma ampla reformulação do maquinário da empresa. Também foram construídos novos pavilhões e reformados os escritórios. Membro do Rotary Club, Renner engajou-se numa campanha mundial movida pela entidade que sugeria o caminho das obras e reformas como forma de ocupar a mão-de-obra e os capitais liberados com o final do conflito.
Durante os anos 1940 e 1950, A. J. Renner abraçou inúmeras causas. Defendeu a utilização de combustíveis alternativos, como o gasogênio e óleos vegetais. Advogou a causa da reforma agrária, insistindo que as cidades deveriam ser cercadas por cinturões verdes de pequenas propriedades rurais, distribuídas subvencionadamente aos trabalhadores sem-terra. Criticou sem trégua a política cambial, orçamentária e tributária de sucessivos governos. Pugnou pela garantia da liberdade de mercado e pelo recuo da intervenção do Estado na economia, que se consubstanciava seja sob a forma de agências reguladoras ou mediante a formação de monopólios estatais no setor de serviços públicos. Todavia, celebrou a criação de agências de fomento e de crédito à produção agrícola e industrial. Insistia na necessidade de racionalização e enxugamento da administração estatal. Propugnava a melhoria das condições infra-estruturais do País e se lançou numa campanha de valorização da atividade industrial, que tinha por metas a mudança de mentalidade, o reforço da imagem empresarial, o reequipamento do parque fabril, o desembaraço da produção mediante desregulamentação estatal e, sobretudo, a expansão do financiamento aos produtores.
Renner criticou o capitalismo liberal e atacou os extremismos políticos de esquerda ou de direita. Execrava o populismo demagógico. Acreditava na possibilidade de convivência da livre iniciativa e do lucro empresarial com a justiça social, em plena vigência de um regime democrático. Acreditava, ainda, na chance de cooperação construtiva entre Estado, trabalho, campo e capital. Pode, por isso, ser considerado como um dos precursores de um modelo próximo à social democracia no Brasil.
A.J. Renner faleceu em 27 de dezembro de 1966, aos 82 anos de idade, em Porto Alegre. Representou para o Rio Grande do Sul um paradigma do empreendedor dinâmico, que se afirmou à margem do amparo governamental e conquistou, por seus méritos, espaço de interlocução política. Foi lembrado por toda uma geração como o “Capitão de Indústrias”, apelido que não se remetia apenas a sua impressionante capacidade empreendedora, mas também, e, sobretudo, à condição de liderança política que empunhou ao longo de sua trajetória pessoal.

O STF não sabe o que é História

28 de janeiro de 2012 4

Reproduzo abaixo nota que está no site da Associação Nacional de História, com a qual comungo. Está se generalizando esta pretensão insustentável de parte de burocratas e juízes no Brasil, de definir o que é e o que não é documento histórico. Entendo a dificuldade de gestão dos imensos acervos documentais no Judiciário e não sou infenso a estratégias de enxugamento dos mesmos, quando amparadas em preceitos metodológicos sérios. Mas não dá para aceitar este papo de valoração dos documentos.

“O Ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), promulgou, em 29 de novembro de 2011, a Resolução No 474 que “estabelece critérios para atribuição de relevância e de valor histórico aos processos e demais documentos do Supremo Tribunal Federal”. O documento causa perplexidade aos historiadores e a todos aqueles que, minimamente, tem acompanhado o desenvolvimento da historiografia contemporânea, em especial por duas razões: por procurar estabelecer “por decreto” o que é ou não histórico e por apontar como subsídio para essa classificação critérios considerados ultrapassados há, pelo menos, um século. Por esse motivo, a Associação Nacional de História (ANPUH), entidade que congrega os profissionais de história atuantes no ensino, na pesquisa e nas entidades ligadas ao patrimônio histórico-cultural, não poderia deixar de trazer a público a sua inconformidade com a referida Resolução….” O documento na íntegra está no site da ANPUH

"Deus e Hitchens na terra do sol"

23 de janeiro de 2012 0

Saiu artigo meu no Caderno de Cultura da Zero Hora desse sábado passado. Confira aí.

Adeus ao Prof. Telmo Müller

23 de janeiro de 2012 0

Esta virada de ano tem sido dura para a cultura, tantos e tão importantes têm sido os que nos deixam. No sábado retrasado, o Caderno de Cultura da ZH trouxe um belo obituário escrito pelo Prof. Martin Dreher para o historiador Telmo Müller. Eu conheci o Prof Müller há uns 17 anos. Era um sujeito alegre, divertido, apaixonado pela história e pela trajetória da comunidade germânica no Rio Grande do Sul. Prestou serviços inestimáveis à nossa cultura ao contribuir na organização do Museu Visconde de São Leopoldo e se tornou uma das grandes referências para os estudos sobre imigração alemã. Seu nome estará para sempre cinzelado dentre aqueles que mais contribuíram para o engrandecimento da cultura no Rio Grande do Sul.

A propósito do ócio criativo

17 de janeiro de 2012 0

Em dezembro, a revista Voto fez uma matéria bem interessante sobre o chamado ócio criativo, aproveitando citação de respostas minhas a uma breve entrevista. Resolvi desenvolver um pouco mais o tema aqui no blog.


A ideia de a criatividade fluir com dinamismo num ambiente menos carregado de compromissos e mais pautado pelo ócio não é nova. Está em Platão e em Sócrates. Era assim que os gregos antigos da Atenas clássica percebiam as pré-condições necessárias para a emergência da boa filosofia, da arte e da política, dimensões então apreendidas de uma forma orgânica e inter-relacionada. Naturalmente, nem todos os cidadãos podiam deixar o trabalho nas suas propriedades para passar os dias em palestras, banquetes, colóquios… Então, havia certo tom elitista nesta fórmula. Alguns dispunham de escravos para suportarem as tarefas pesadas e manuais, liberando-se para a política e a filosofia. Finalmente, por suposto, o exercício da cidadania não era extensivo às mulheres, cuja capacidade de pensar, inclusive, muito raramente se reconhecia.

Com a vulgata cristã que se espalhou na Idade Média europeia, o ócio criativo e elitista dos gregos derivou em desabrido preconceito contra as atividades manuais e argentárias. Agricultores, manufatureiros e comerciantes eram considerados como essencialmente inferiores ao clero e à nobreza – em tese, devotados à pregação, à contemplação espiritual e, no caso dos nobres, à guerra. Clero, nobreza e povo formavam então os três estados, convocados em assembleia pelos reis em tempos de aguda crise. Ao povo, certamente cabia mourejar e arcar com os impostos. Em nenhum outro país, como talvez na Espanha, a mais poderosa nação da primeira metade do século XVII, estes preconceitos calaram tão fundo e foram levados tão longe, com sequelas perceptíveis ainda em plena Era moderna.

Seria necessário o advento do protestantismo para que a cristandade lançasse outro olhar sobre a labuta. No século XVI, os puritanos na Inglaterra interpretaram todo o sinal de sucesso pessoal como uma benção divina. Calvinistas e Luteranos fizeram o mesmo. Mais tarde, a burguesia, cuja ascensão conecta-se também à ética protestante, entronizou o respeito ao trabalho, ainda que seu sucesso inicial tenha se dado na esteira da exploração feroz da mão de obra operária.

O enriquecimento das nações predominantemente protestantes e o declínio das católicas consolidou a convicção de que o trabalho era o melhor percurso para o progresso e para a felicidade. Com os horrores da Segunda Grande Guerra, quando se montou uma macabra indústria da morte, submergindo o mundo num pesadelo, alguns começaram a perceber que algo estava errado. Foi o caso do célebre escritor suíço Stefan Zweig, em 1941, quando, desejando escapar de um mundo que se precipitava na autodestruição desenfreada, viu no então aparentemente pacato e tolerante Brasil o “país do futuro”.

No fim do século XX, quando a aceleração da história, a vida on-line e a fartura se instalaram numa Europa desenvolvida no pós-guerra e agora pretensamente unificada, elevaram-se vozes lembrando que era preciso voltar a curtir a vida, relaxar, flanar. O ócio criativo timbrou então como grande novidade num Continente envelhecido e em sociedades ossificadas. Alguns levaram a concepção tão ao pé da letra que a confundiram com uma exacerbada concessão de benefícios supostamente sociais, a serem bancados por estados endividados. Protegidos e mimados, muitos passaram a se aposentar com proventos integrais, incrivelmente jovens e faziam ainda pouco caso do trabalho durante a curta vida ativa. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Grécia e na Itália, onde, aliás, não só a economia criativa parece ter se beneficiado muito pouco de todo esse ócio, como toda a economia naufragou.

Enquanto isso, no Brasil, se continuou trabalhando. E muito! Qualquer brasileirinho, a despeito da fama maldosa que ao nosso respeito se construiu no mundo nas décadas passadas, e na qual muitos de nós até acreditaram, trabalha em média muito mais – e em condições nem sempre tão confortáveis – do que qualquer europeu. Há estatísticas e pesquisas que o provam! Ok, talvez em setores da burocracia não funcione bem assim..: são até folclóricos certos casos de funcionários públicos que nada fazem e nunca são demitidos. Mas cabe realmente perguntar se esta é a regra, mesmo na burocracia.

Paralelamente, desenvolvemos uma espécie de tecnologia de ponta da cultura hedonista, da qual o carnaval e o futebol são sem dúvida expressões eloquentes, o que subitamente se tornou muito apreciado na contemporaneidade pós-moderna.

Mas o país é recheado de contradições. O trabalho intelectual e literário entre nós não goza do mesmo prestígio que em outras sociedades. Nossos mestres, professores, escritores, artistas e intelectuais são em geral mal remunerados e, lentes da nova economia criativa, vivem ainda sufocados por uma burocracia sem fim – como a das leis de incentivo à cultura, por exemplo – ou assoberbados pela exigência de, num mundo hiper-interativo, funcionarem permanentemente como caixeiros-viajantes de sua própria obra.

Sim, a situação já foi muito pior. Há alguns anos, mal se falava em direitos autorais para escritores e os mecanismos de financiamento à cultura, se hoje são precários, então praticamente não existiam. Ainda assim, o investimento brasileiro em cultura, educação e pesquisa é muito aquém do que seria razoável e o país desperdiça diariamente talentos, que precisam se desdobrar em mil para produzirem alguma coisa, para divulgarem seu trabalho e para se sustentarem economicamente. Já nem sonho com o ócio criativo, mas imaginem só se as condições de trabalho dos agentes da economia criativa fossem incrementadas? Considerando o peso que esta cadeia produtiva tem no desenvolvimento contemporâneo, poderíamos estar promovendo uma verdadeira revolução…

Então, penso, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem o delírio autodestrutivo e desumanizado do trabalho sem fim, nem a indolência. E, no Brasil, está na hora de aprimorarmos as políticas de incentivo à cultura e à pesquisa, bem como melhorarmos significativamente a educação. Antes do ócio criativo, precisamos melhorar as condições básicas para o advento definitivo da economia criativa.

Biografia de Getúlio Vargas, por Lira Neto

08 de janeiro de 2012 1

Terminei nesta quinta-feira leitura da última parte dos manuscritos para o primeiro volume da monumental biografia do Getúlio Vargas que o Lira Neto está escrevendo. Jornalista e escritor de mão cheia, Lira Neto vem se especializando em produzir excelentes estudos biográficos, dentre os quais se destacam obras sobre José de Alencar, a cantora Maysa, Castelo Branco e Padre Cícero. Ele tem um ótimo site: confira aí!

O texto do novíssimo livro sobre Getúlio Vargas, que será publicado pela Companhia das Letras, é elegante, bem escrito, equilibrado e substancioso. Conseguiu, ao mesmo tempo, produzir uma excelente síntese a partir da historiografia corrente e ir além do que se tinha até então, apresentando bons argumentos com base na consulta às fontes. Teremos com certeza um grande livro! O Lira organizou até um blog para o livro que está na forma.

Livrarias nas quais pode ser encontrado o Gênese do Estado Moderno no RS

08 de janeiro de 2012 0

O pessoal tem me perguntado pelas livrarias nas quais já é possível encontrar o “Gênese do Estado Moderno no RS (1889-1929)”, a minha tese de doutorado recém-publicada pela Editora Paiol. Então, abaixo relaciono algumas, em Porto Alegre, Pelotas e Caxias do Sul:


BECO DO LIVROS
CAMERON – COUNTRY
CAMERON – BOURBON
LIVRARIA CULTURA
ISASUL DISTRIBUIDORA
MANECO CAXIAS (Caxias do Sul)
MANECO UCS (Caxias do Sul)
MARTINS LIVREIRO
SARAIVA PRAIA DE BELAS

SARAIVA BARRA SCHOPPING
ESPAÇO CULTURAL – PUC
INDEPENDENCIA
ROMA – PRAIA DE BELAS
TERCEIRO MUNDO – UFRGS
LIVROS DE NEGOCIOS (nas 4 filiais)
PALAVRARIA
UNIVERSITÁ – FAPA
VANGUARDA  (Pelotas)
Leitura XXI: www.leituraxxi.com.br (link Paiol)

Porto Alegre e as obras que estão começando

05 de janeiro de 2012 8

Bem legal a animação feita para a Prefeitura de Porto Alegre pela Hype. Dá para ver bem a quantidade e grandiosidade de obras importantes previstas para a cidade. Há décadas Porto Alegre não passava por uma repaginada dessas. Parabéns a todos os envolvidos neste processo!

Gramado, São Paulo, Paris, Nova Iorque

05 de janeiro de 2012 0

Tem estado particularmente fresco em Gramado, para esta época do ano. À noite, puxa-se um edredom e pela manhã liga-se até uma estufinha no banheiro. Favorece a preguiça e o acordar um pouco mais tarde. Durante o dia, um sol ameno convida ao jardim. Estou conseguindo assistir filmes, ler um pouco e escrever. Se permanecesse aqui por alguns meses, colocaria em dia muito do que me proponho a escrever. A escrita rende um monte em Gramado. Talvez seja o clima, o ar da serra, a vegetação no entorno, sei lá. Acho, aliás, uma pena que, em se tratando de uma cidade turística, esta vocação não seja melhor trabalhada. Há dúzias de escritores e intelectuais produzindo discretamente em Gramado. Mas na livraria da cidade, a Sucellus, nem uma estante dedicada a eles. A bem ajeitada biblioteca municipal parece que também não se acordou para isso.

O lado B da cidade também existe. O trânsito, por exemplo, tem estado bem chatinho. Quando não são turistas abobalhados, que não sabem circular em rótulas, são alguns gramadenses e canelenses. Muitos perderam a paciência com o trânsito lento e se tornaram agressivos. Na RS entre as duas cidades, excedem a velocidade, grudam nos veículos da frente de forma impertinente, tentando passar por cima, com sinais de luz e buzinas. Nas rótulas, ignoram a preferência de quem chega primeiro e, ao contrário dos turistas, que sempre acham pertencer a preferencial aos outros, se atravessam na frente de todos. Na Avenida São Pedro, é quase impossível conseguir que alguém dê passagem com gentileza, quando se quer sair de uma vaga de estacionamento. Mesmo com fluxo a 20 Km/h, uma paradinha gentil, nem pensar! Alguns taxistas, em especial, dão medo, de tal maneira cortam, costuram e tentam administrar cada espaçinho. Essa agressividade toda deveria ser tratada. A Prefeitura, infelizmente, não tem programas educativos e é deficiente na fiscalização. Deveriam distribuir folhetos, postar fiscais para orientação e, quiçá, aplicar multas. Na RS, urge a instalação de câmeras de vigilância para coibir manobras violentas. Gramado está ficando com problemas de trânsito de cidade grande, dado a atividade econômica frenética e o fluxo intenso de turistas. É o cúmulo que a Prefeitura se abstenha de agir. Obras viárias são necesárias, mas não são tudo. E, a propósito, acho que a cidade já reclama um melhor serviço de transporte público, como lotações, pequenos micro-ônibus, como forma de desafogar a área central. Faltam, também, bicicletários e ciclovias!

Voltando aos filmes, ontem revi pela televisão o excelente Salve Geral. Ainda há gente conservadora e mal informada que ignora a excelente safra do cinema nacional. O filme de Sérgio Rezende é, sem dúvida, ótimo! Melhor do que a maioria absoluta das porcarias policiais americanas que se atulham nas locadoras. Além de tecnicamente bem resolvido, é uma percepção inteligente do trágico Levante do Dias das Mães, em São Paulo. É um policial impactante como eram aqueles filmados na Nova Iorque dos anos 1970. Quem ainda não assistiu, não deve perdê-lo.

Eu ainda não tinha assistido ao Meia-noite em Paris, do Woody Allen. Ouvi dizer que muita gente achou se tratar de um filme sobre Paris. É um filme delicado sobre o diálogo entre culturas, pois aborda os estereótipos dos americanos com relação a Paris. Cada personagem representa um desses estereótipos turistas, típicos da era da sociedade de consumo de massas. O filme capta, sobretudo, como cidades icônicas estão morrendo por terem se tornado reféns de sua própria fama, o que atrai levas de moradores transitórios que anseiam por viver o seu passado e sua “atitude”. Dado o volume desses fluxos, acabam cidades com um presente cada vez menos profícuo e menos criativo. Woody enfrentou esta questão ultra-contemporânea pela ambiência de Paris, mas, creio, era de Nova Iorque que ele estava mesmo falando, ao fim e ao cabo, cidade onde vive e que ama. Metrópole que, junto com Paris, mais vem sofrendo desse mal. São hoje cidades que consomem tudo o que se faz e o que há no mundo, mas que cada vez mais vivem das imagens que se fazem do seu passado e cada vez menos produzem conceitos e novas atitudes para a contemporaneidade. São cidades cansadas.

Consegui, finalmente, terminar a leitura do Homem no Escuro, de Paul Auster. O livro começa bem, com um ótimo argumento. Um thriller cativante de um sujeito que se vê tragado para uma oura dimensão, paralela, na qual os Estados Unidos entraram em guerra civil, depois das eleições fraudelentas do Bush e do 11 de Setembro. O enredo fica ainda mais palpitante quando esse sujeito é comissionado para matar um velho jornalista na dimensão “real”, pois os líderes políticos do mundo paralelo descobriram que esta guerra acontece por estar sendo imaginada na cabeça desse alvo. Mas tudo não passa de uma conspiração do próprio, que se encontra imerso numa terrível depressão, deseja se suicidar e, para tanto, criou um personagem imaginário para matá-lo, dando-lhe carne e osso graças a esse trânsito entre dimensões. Há boas ironias sobre a ideologia norte-americana, sobram críticas à mercantilização de nossa sociedade e explora-se o conceito de múltiplas realidades paralelas, típico do pós-modernismo: “a gente entende que as piores possibilidades da imaginação são o país onde a gente vive”. Um bom testemunho da sombria era Bush. Outra peculiaridade do livro, bem característica da literatura da virada do milênio, é protagonismo atribuído a um personagem encanecido. Os velhos raramente eram protagonistas de romances pré-modernistas, como registra Simone de Beauvoir. Mas com o envelhecimento da sociedade contemporânea, isso mudou. Estão ali todos os dramas da velhice, mas o recado final é otimista. Ao fim e ao cabo, o “suicídio” não se confirma, graças a chance de interlocução do velho com a sua neta, uma adolescente que também está depressiva. Solução muito próxima àquela que Coetzee vem dando à velhice em sua obra. Foi pena que a narrativa acabou de forma meio amadora. Os personagens imaginários simplesmente desaparecem e tudo o que fica é uma conversa sobre o fim de um casamento. Dá a impressão que Auster comportou-se como os gregos antigos, que, nas tragédias mal estruturadas, chamavam um deus ex machina para terminar com o drama e encerrar o que não sabiam concluir. Mas esta é a vantagem de ser um escritor famoso – pode-se acabar um bom livro de qualquer jeito, que todos vão continuar adorando.

Entrevista minha no blog da Coordenação do Livro e Literatura da Prefeitura de Porto Alegre

04 de janeiro de 2012 0

Oi gente! Saiu uma entrevista comigo no blog da CLL de Porto Alegre. Confiram aí.