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8 de Março - Múltiplas Escolhas. Entrevista com Camille Paglia

08 de março de 2012 3

Bom dia! Posto neste Dia Internacional da Mulher versão expandida do texto publicado no domingo passado, dia 4, no Caderno Donna, da Zero Hora, de Porto Alegre, juntamente com link para a entrevista que fizemos com a historiadora da cultura Camille Paglia. Aproveito também para postar duas perguntas adicionais, com respostas ainda inéditas, que consegui fazer com a Camille – ela está ocupadíssima com a finalização do seu novo livro.


“Uma mulher em público está sempre deslocada”, disse Pitágoras, a cerca de 2.500 anos, condensando uma das mais perenes formas de dominação conhecidas. Homem público: sucesso! Mulher pública: vergonha!

Em 8 de Março de 1857, 129 mulheres em greve por melhores condições de trabalho foram queimadas vivas, pela polícia, dentro de uma fábrica têxtil em Nova Iorque. Em 1975, a ONU fixou a data como o Dia Internacional da Mulher, ensejando a reflexão sobre a mulher no espaço público, em torno da igualdade de direitos e responsabilidades entre os gêneros. De lá para cá, muito vem mudando.

No Brasil, no século XIX, enquanto mulheres da elite eram mantidas em reclusão fundamentalista, com menos privilégios que muitas orientais, homens de prestígio mantinham cortesãs com relativo descaramento, como fez o próprio Dom Pedro I. Em 1878, O primo Basílio – clássico da literatura portuguesa –, de Eça de Queiroz, foi tachado de pornográfico, por tratar da paixão adúltera de uma mulher casada. Nos anos 1950, atrizes famosas eram estigmatizadas como prostitutas. Ainda nos anos 1980, promotores de justiça penavam em certos júris do interior para condenar réus acusados de matar a esposa infiel, pois a comunidade achava que ele acertara ao lavar a honra com sangue.

Hoje, uma mulher está na Presidência da República! E conseguimo-lo antes dos Estados Unidos, onde jamais uma mulher foi sequer nominada candidata pelos maiores partidos.

Mas segue a desproporção na política. Partidos têm dificuldade de preencher a cota de 30% de mulheres nas candidaturas. No Rio Grande do Sul, que já foi governado por uma mulher (algo impensável há 50 anos), apenas em 1951 uma mulher elegeu-se Deputada: e hoje são só 7 dentre 55. Houve enorme transformação na identidade feminina, mas permanece o desequilíbrio. Mudanças e tensões que geraram manifesta ansiedade.

É sobre esta ansiedade que Camille Paglia, uma das mais potentes vozes feministas do planeta, se debruça. Nascida em Endicott, Nova Iorque, em 1947, Camille doutorou-se em Yale e é professora na University of the Arts, da Filadélfia. Desde seu grande livro de estreia, Personas Sexuais, publicado aqui em 1990, é conhecida pela combatividade.

Reconhecendo um papel importante à natureza e ao afetivo em seu sistema teórico, Camille provocou a ira das feministas ao propor que o ser-humano é mais do que trabalho e que nem toda tensão pode ser reduzida ao machismo. As emoções de homens e mulheres, sustenta, diferem, pois os hormônios impactam o cérebro diferentemente. Ela argumenta que as mulheres devam respeitar o relógio biológico e, quando têm esta vocação, priorizar a maternidade enquanto jovens. Camille festejou as Drag Queens no que elas têm de exaltação do feminino. O feminismo de Camille é receptivo às múltiplas escolhas de cada um e não prescreve receitas genéricas. Por outro lado, ela também percebe os homens sob forte pressão social para se adaptar a um novo ambiente, no qual o patriarcalismo está em crise e a agressividade primitiva para enfrentar um entorno hostil é cada vez mais inútil.

Tributária da herança libertária dos anos 60, atribui centralidade ao sexo. Chocou ao emular a pornografia e ao celebrar a moda: enquanto a maioria das feministas condena seu poder de coisificação e subjugação da mulher ao desejo masculino, Camille viu aí chance para a afirmação do indivíduo diante de uma moral aplastante, bem como um canal para o brilho do poder feminino sobre o masculino. A pornografia, crê, ajuda a reconectar o humano à animalidade atávica.

Enquanto muitos se preocupam com banalização o sexo, Camille se inquieta com a supressão da sensualidade numa contemporaneidade esterilizada. A grotesca exposição do corpo por Lady Gaga, por exemplo, longe de sensual, lhe sugere mais o sintoma de uma neurose alienada com relação ao próprio corpo. É a languidez sensual dos movimentos de Daniela Mercury ou a autenticidade da beleza madura de Catherine Deneuve, sem plásticas, que a sensibiliza.

Camille abraçou teses polêmicas: foi a favor da legalização da prostituição, dos direitos civis para homossexuais, da liberalização do aborto e da liberalização das drogas. Para ela, o estado não pode interferir na vida privada, tampouco como as pessoas gerem seu corpo. Irritando ativistas, se opôs ao casamento homossexual, pois assim como não reconhece aos religiosos legitimidade para regular a vida civil, pensa não caber ao estado ditar como cada religião organiza seus sacramentos.

Camille se interessou pela cultura pop e viu elementos positivos na cultura de massas. Ela aprecia o rock e o cinema, se dedicando à trajetória de estrelas de Hollywood. Embora ateia, acredita que a religião tem um papel importante a desempenhar na sociedade.

Camille visitou 7 vezes o Brasil, país que adora. Em 1996, promovendo o lançamento de Vampes e Vadias, foi ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Em 2007, conferenciou em Porto Alegre, e, em 2008, em Salvador. Retornou a Salvador em 2009 para curtir o carnaval e, novamente, pouco depois, visitando amigos. Em 2010, conferenciou em Olinda e, em 2011, em São Paulo.

Suas ideias lhe parecem ser mais facilmente compreendidas pelos brasileiros. Sua gesticulação profusa e a personalidade enérgica, intui, são por aqui aceitas com naturalidade. Ela adora provar os pratos típicos regionais e é fã do nosso chope. Incorporou a farofa e o queijo-minas aos seus hábitos. Tornou-se apreciadora da música brasileira e está estudando português.



Durante a década de 1970, você se envolveu em muitas disputas e incidentes extravagantes em seu primeiro trabalho como professora no Bennington College em Vermont. Em 1979, você largou Bennington e passou por um período de isolamento. Em 1981, terminou de escrever Sexual Personae, trabalho em que expandiu sua tese de doutorado em Yale e que foi supervisionado por Harold Bloom. O manuscrito, rejeitado por sete grandes editoras de Nova York, foi finalmente publicado em 1990 e tornou-se um best-seller. Como foi essa passagem rápida da obscuridade para a fama?

CP: Nunca pensei que veria aquele livro publicado enquanto vivesse! No entanto, encontrei inspiração em Emily Dickinson, que persistiu em escrever poemas ousadamente experimentais embora ninguém fosse publicá-los. Ela nunca foi compreendida por seus contemporâneos e morreu em 1886 na completa obscuridade. Se isso aconteceu com uma grande poeta e gênio, as agruras de uma mera professora universitária foram certamente insignificantes!

Quando Sexual Personae foi lançado, fiquei subitamente no meio de uma tempestade. O feminismo estava travando uma guerra cultural com pornografia, assédio sexual e liberdade de expressão, e a elite acadêmica havia se tornado dominada pelo pós-estruturalismo, que eu detesto. Então, durante vários anos, fiquei envolvida em combates constantes em jornais e revistas e na televisão. Foi uma transição muito estranha e abrupta para a fama, porém eu estava preparada para isso devido à minha longa pesquisa sobre escândalos e controvérsias de Hollywood. Eu venci meus oponentes graças à minha habilidade de falar diretamente ao público através de “sound bites” (expressões de efeito que agora aparecem em muitos dicionários de citações) condensados, epigramáticos e divertidos. Quando revistas que publicariam matérias sobre mim enviavam fotógrafos, eu adotava poses “padrão” para transmitir minhas ideias ao público de uma forma dramática, assim subvertendo qualquer negatividade e parcialidade que pudessem ser encontradas no próprio artigo. Por exemplo, para a revista People, posei como uma lutadora de rua segurando um canivete em um túnel escuro. Era completamente inédito professoras nos seus 40 anos de idade encenando quadros como esses, mas eu estava imitando as táticas travessas do “teatro de rua” de ativistas políticos nos anos 1960, como os Yippies.

Contudo, apesar da minha imagem pública controversa, recebi pouquíssimas “mensagens de ódio”. De fato, nestes 22 anos em que tenho sido uma pessoa pública, duvido que tenha recebido mais de 10 cartas negativas – e a maioria delas era curta e não assinada. É como se as pessoas estivessem com medo de provocar uma guerreira amazona italiana! Ao invés disso, houve uma enxurrada de cartas de fãs, especialmente depois que apareci na televisão. Isso pode parecer lisonjeiro, no entanto muitas vezes me deixou bastante desconfortável. Por exemplo, recebi cartas de 16 páginas de pessoas aprisionadas, ou um homem no Havaí que enviou um envelope todos os dias durante duas semanas. Não achei agradável me tornar o foco de fantasia e obsessão – que estrelas de cinema, é claro, enfrentam em um nível milhares de vezes pior. Como estudiosa da história de Hollywood, achei interessante experimentar esse processo de dentro, porém, após três anos intensos nos olhos do público, eu me retirei dessa grande visibilidade. Valorizo muito minha privacidade. Exceto por me mudar de um apartamento apertado, de dois quartos, em um sótão para uma pequena casa, minha vida é exatamente a mesma agora como era antes de eu me tornar subitamente reconhecida, em 1990. Eu evitei o agito de Nova York e Washington e me concentrei em ensinar e escrever na Filadélfia. Apesar de trabalhar na cidade, vivo no subúrbio porque preciso ver a natureza todo dia!

Pós-estruturalistas acreditam que o gênero é uma construção social refratada através da linguagem. Então o que dizer dos hormônios? Você acha que nascemos como folhas em branco nas quais a sociedade inscreve tudo? Então, nesse caso, poderia a homossexualidade ser uma escolha e, portanto, curável através de terapia ou aconselhamento religioso?

CP: Os hormônios são uma força extremamente poderosa no desenvolvimento humano. A cada ano, a ciência faz mais e mais descobertas sobre a base genética de traços de personalidade. Nenhum dos principais acadêmicos pós-estruturalistas estudou biologia, neurologia ou genética, que estão completamente ausentes de sua visão de mundo estreitamente linguística. Na primeira página de Sexual Personae, digo que a sexualidade é “uma interseção complexa de natureza e cultura”. O ambiente social realmente desempenha um papel importante na forma como definimos e expressamos o sexo. Porém, há certas características duradouras da masculinidade e feminilidade que têm uma base biológica.

A homossexualidade é certamente uma “escolha” na medida em que voluntariamente escolhemos nos envolver em qualquer ato sexual. No entanto, a pessoa pela qual nos apaixonamos pode não ser questão de escolha. É algo profundamente impresso dentro de uma constelação de impressões e influências da primeira infância. Acredito que haja um forte componente psicológico na homossexualidade, mas agora é impossível discutir essa questão porque ativistas gays furiosamente insistem que a homossexualidade é inata. Essa posição ideológica extrema me preocupa, porque pode levar a homossexualidade a algum dia ser definida por fascistas semelhantes a Hitler como uma defeito de nascença que precisa de extermínio em massa. Quanto à terapia ou aconselhamento como “cura”, não vejo nada de errado em alguém tentar mudar a sua própria orientação sexual. Seria detestável forçar uma cura assim em um indivíduo contra sua vontade, porém todos devem possuir liberdade de escolhas na vida, sem pressão de figuras religiosas moralistas ou de ativistas políticos fanáticos.

Comentários (3)

  • Arlete dos Santos diz: 12 de março de 2012

    Boa tarde;

    Como faço para adquirir a obra :Pátria Gaúcha: o RS nas lentes de grandes fotógrafos”?
    Não consegui localizar em nenhuma livraria.

    Obrigada,

    Arléte

  • FABIO VERONEZE diz: 26 de outubro de 2016

    CONTINUO FÃ DE CAMILLE PAGLIA A MAIOR ERUDITA DO SÉCULO DEPOIS DE FREUD E SIMONE DE BEAUVOIR.CONVERSEI COM PAGLIA( MISS INTELLECTUALITY) ,EM PORTO ALEGRE EM 2007,E EM SÃO PAULO EM 2011!MAS A HOMOSSEXUALIDADE É INATA.EXISTE UM LIVRO DO CIENTISTA DEAN HAMMER DE 1992.CHAMADO( The Science of Desire: The Search for the Gay Gene and the Biology of Behavior), O LIVRO PROVA QUE O CROMOSSOMA X HERDADO DA MÃE POSSUI UMA FRAÇÃO DENOMINADA XQ28 ,O GENE DA HOMOSSEXUALIDADE,EU PERGUNTEI A CAMILLE SOBRE ESSE LIVRO EM SUA COLUNA SALON,A QUAL ELA É COMENTARISTA CULTURAL.MAS ESTOU PREPARANDO UM LIVRO SOBRE CAMILLE PAGLIA. POSSUO UM ENORME ACERVO EM VÍDEO SOBRE ESSA MULHER GÊNIO DO SÉCULO

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